sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Notícias da Índia III

Mais um relato incrível do amigo Tato. Já estamos com saudades!
Galera,
Primeiro devo confessar que tenho sido um pouco displicente, digamos assim. Fui deixando mil histórias se perderem pelo caminho, porque não sou lá o cara mais disciplinado do mundo para documentar e nem congitei parar minha trip para escrever. Ou seja, melhor viver que contar. Mas hj sobrou tempo e uma certa vergonha na cara pra atualizá-los. To tomando café da manhã num pico maravilhoso em Goa (praia de Palolem para quem quiser ver as fotos), nada mais inspirador! É uam espécie de Bahia dos anos 80, mas com muitos turistas ingleses, russos e israelenses, o que enche bem o saco!


Aliás, existe a lenda de q aki se fala português e tem natal. Tô pra ver. Um amigo que veio pra cá disse que colou num velhinho pra trocar idéia e o cara disse que só os mais velhos falam português...Meu amigo perguntou a idade daquele senhor. Veio a resposta: "78"...hahaha. Acho que vou ter q ir pro asilo pra falar português por aki entaum.

Falando em falar português tem coisas q acho q só acontecem comigo. Vi um cara falando português de Portugal de longe e fui pedir informação. Mano, o cara era gago: "A hospe-pe-pe-dadagem é mui-mui-..." Portuga e gago...hahaha. Virou meu broder aqui! Outro que virou meu broder aqui é o rabino local. Pois bem, tem casa judaica aqui e o cara era bem gente boa. Fiz o cara se convencer que a Torá tá errada...hahaha. Na real, é um dos raros casos de rabinos abertos ao diálogo. Desses que toca violão, fuma maconha e pede ajuda pra cozinhar algo brasileiro pro Shabat. Virou broder tb!

Passei por Mumbai antes de chegar aqui. Mumbai é uma loucura! Nunca vi nada parecido! É uma São Paulo quase que só de favelas. O mar é porco. O Trânsito insuportável! A poeira em suspensão combinada com a poluição já te alerta para os riscos de respirar em uma grande cidade indiana. Ratos se acumulam nos trilhos de trem a céu aberto. E pessoas se expremem para entrar no trem, que, na hora do rush, é quase inadentrável! Em uma das vezes fui pendurado do lado de fora e é assim mesmo, num tem jeito. Assim que perdi meu celular que caiu do meu bolso. Pois bem, já fiz um novo chip (1 dólar + 25 doletas do novo aparelho). Novo número é +91 904 924 7097. Mas como ninguém vai me ligar aqui não faz lá mta diferença (Tato em momento meio carente)... Detalhe divertido é q qdo comprei meu aparelho, eu tinha 1100 rúpias no bolso e o aparelho da Nokia custava 1200. Solução: o cara abriu a caixa e tirou o carregador (eu já tinha um)...hahaha... Qdo vc ia conseguir algo assim no Brasil em uma "loja oficial"? É por essas e outras que a Índia pode te surpreender todo dia...

Meu porto seguro em Mumbai foi Colaba, parte sul da península. Lá vc pode conhecer os lugares dos atentados terroristas de 2008 (o hotel Taj e o restaurante Leopold - tipo um Sujinho da Consolação), o famoso India Gate, comer comida ocidental de primeira, comprar bugigangas em mercados para turistas e ir ao parque (uma espécie de Central Park de Mumbai) onde 70 partidas de cricket são jogadas ao mesmo tempo. É loko q vc nem sabe de onde vem a bolinha...só vê uns indianos correndo pra lé e pra cá, batendo cabeça, reclamando e etc.

Uma das partes mais interessantes foi conhecer o escritório do Hub Mumbai (escritório de empreendedores sociais presente em Sampa tb) e ir a favela Dharavi, considerada a maior da Ásia. Graças aos contatos do Alex, fomos na vasca e fomos recebidos por uma ONG local com pompas e honrarias. A favela é assunto pra uma reflexão maior. Mas vale apenas dizer q não é muito diferente do resto da cidade e nem é exatamente uma favela (pelo menos por onde o tour nos levou): era uma zona de industria de migrantes sazonais vivendo em condição semi-escrava em industrias de plástico. Essa conversa é mais longa...

Em Mumbai ficamos na casa de uns AIESECs. Nada mais insuportável! Na boa, num tenho mais saco pra compartir geladeira ou pra ver um moleque reclamar que acha um absurdo a colombiana trazer tantas visitas para a casa. O mais chato, sem dúvida, era o brasileiro e o mais legal um lituano. Mó identificação! hahaha... Mumbai vale pelo falafel, o parque no norte da cidade (um Ibirapuera mal cuidado, nada demais!), a muvuca, Colaba e pra ir ao médico...hahaha...essa história é boa!

Tava zoado de garganta (pra variar). Resolvi ir ao médico com o Alex. Primeiro que era domingo e rodamos mais de uma hora para encontrar um hospital. Como indiano dá informação precisa é capaz de vc ficar dando voltas no quarteirão indefinidamente... Juro que chegamos a passar na frente do hospital e não o reconhecemos. Na real, foi um prédio que eu parei para "tirar água do joelho" (deu pra entender né?) minutos antes de saber que ali era o hospital. Beleza. Vc entra, num tem recepção, num tem nada. O prédio nem é branco por fora, como estamos acostumados. Subimos ao primeiro andar. O elevador quando pára começa a tocar "Chorando se foi quem um dia só me fez chorar..." Lambada brasileira em elvador de hospital, só na Índia mesmo. Entramos no consultório. Era um consultório privado, mas eu achava que o hospital era público. Não estava entendendo. Comecei a discutir com a moça da recepção:

- Quanto é a consulta? - pergunto eu
- 300
- No boss, too much! - falo isso pra todos os motoristas de rickshaw da cidade que tentam te sacanear ininterruptamente
- This is the price. Yes or no?

- My friend went in Hyderabad to see the doctor... It was 150 with all the medicines included! - usando aqui a velha tática de usar referências terceiras para baixar o preço (mas era verdade mesmo). E levei o Alex comigo que é de Hyderabad pra ficar fazendo que sim com a cabeça. Detalhe: nesse momento estava barganhando reduzir o preço de uma consulta médica privada de 6,5 dólares para 3,5 dólares. Shame on you, Brazil!
- Sorry, here is Mumbai...
- Oh yeah?! So, what is the speciality of this doctor? - mando eu naquele meu inglês enroscado e desafiador
- I am the doctor!
hahaha. Eu tava barganhando com a doutora. Eles não tem recepcionista. Ou seja, a mulher que tava lendo a revista "Caras"na porta do consultório vestida com roupas típicas indianas era uma puta doutora (cheia de diplomas na parede, fotos de operações com médicos famosos e etc). E tudo isso ao som de lambada brasileira pq o elevador ainda estava parado no nosso andar. Claro que a consulta rolou ao som de lambada e com a doutora correndo pra atender o telefone a cada 5 minutos (afinal não havia recepcionista). Era infecção. Recomendou antibiótico: 2 dólares 3 cápsulas de Azitromicina. Shame on you again, Brazil!


Antes de Mumbai, passei por Pune, uma das 4 bases militares da Índia, muito famosa pelos Ashrams (alguns no meio da cidade) - espécies de retiros espirituais que tentam reequilibrar os sentidos das pessoas por meio de yoga/meditação/silêncio/boa comida orgânica e/ou vegetariana. Enfim, não fiz nada disso. Não daria tempo. Talvez o faça mais pra frente. Na real, fui pruma aula de yoga em um dos Ashrams, cujo dono é amigo de um indiano que conheci no Filial uma semana antes de vir pra cá (loko como tudo deve ter algum sentido. Ou não...). A aula foi massa, bem mais beginer que dá outra vez e me senti bem melhor fazendo. Já não emiti sons pelo menos como em Dharmashala, qdo uma menina virou e pediu para q eu fizesse yoga em silêncio...hehehe (aqui em Goa tem massagem na praia por uma hora por 9 dolares...vou ter q fazer, num tem jeito!)

Pune foi minha primeira experiência de couch surfing (site em q vc compartilha sofás pelo mundo, ou seja, vc abre sua casa e é recebido. Maioria é mochileiro e a ética da parada é o tradicional "uma mão lava a outra": ajudar para ser ajudado). Na verdade, foi sem querer. Uma amiga que é couch surfer me indicou um cara aqui. E por tabela caí na casa do cara. Um achado! Cara gente fina, conhece todos os Djs da cidade (leia-se: balada na faixa! tá bom só fui uma vez e nem foi tão legal assim, mas quem conta um conto...), já teve um bar em Goa, fala inglês inteligível, trampa com TI (das 9pm às 4am) e me ajudou até com os rickshaws (akelas motocas de 3 rodas que querem sempre te enganar...). Resolvi tentar o mesmo rolê para Goa e consegui (mas o cara mora bem no norte de Goa, tipo há umas 5 horas de onde estou). Pensei em ir pra lá nos próximos dias. Veremos se dá certo... Se a moda pega, não gastarei mais um puto com estadia (mas precisa se planejar, o que eu nunca faço).

Uma coisa que senti um pko mais forte em Goa é a falta de saco pra fazer amigos. Depois de quase 3 meses dá preguiça de tentar fazer amigos. Conversei com algumas pessoas sobre isso e é normal. Tem a ver com o fato de, por exemplo, não conseguir entender oq o escocês quer dizer com um inglês inacreditavelmente travado e, ultimamente, desistir. O mais chato é que muitas potencias amizades acabam antes de se concretizarem por circunstâncias de desencontro, limitação de tempo ou mesmo casualidade. Enfim, acho que não posso reclamar. Viajo hoje sozinho e até esqueço disso. Sempre penso nas lições do saudoso Ricardo Altman: "e se der merda, oq pode acontecer?" Nada. Uns rolês a mais, uns 10 dólares a menos e sem estresse.

Você não pode se estressar na Índia. Não funciona! Acho que esta é uma das principais mudanças que ocorrem durante o processo de um mochilão por aki. E aí vc começa a diferenciar quem sabe mochilar aqui e quem não entendeu ainda como a coisa rola por aki. O Alex, por exemplo, apprendeu a falar ""snerretudu" ("somos amigos" em Telugo, língua de Hyderabad) e pronto! Conquista metade dos rickshaws com esse lero. Quem se estressa manda o rickshaw a merda no primeiro preço que ele te oferece, que normalmente é completamente abusivo. Quem se vira bem, ri da situação e segue em frente.

Não digo que virei um monge. Mas passei por coisas absurdas aqui! Uma mina gorfou no meu mochilão todo vindo pra Goa (e claro q o cheiro fétido fez com q outras pessoas fizessem o mesmo durante a viagem). Ainda puta que eu reclamei com o motorista do busão para que o cara parasse pra limpar pq ainda teríamos mais de 6 horas de viagem e o busão começava a feder, a mina grudou um chiclete na minha mochila. Foda! Passei o dia de ontem limpando meu mochilão, um pé no saco.

Outra coisa q me tira do sério é a desorganização com coisas muito simples e q, no fundo, me fazem desacreditar no próprio desenvolvimento daki (desenvolvimento de alguma maneira exige instituições, ordem, racionalidade,..). Tem dia q vc comprar um ticket de trem e a única coisa q vc espera é pegar o trem de forma fácil, eficiente. Justo o contrário! Os caras sequer colocam qual a plataforma do trem q vc vai pegar no ticket. Pq não, catso? E vai pedir informação pra indiano qdo vc tá atrasado? Os caras respondem qq coisa, não entendem as coisas mais elemntares e ainda por cima, por vergonha de não saberem, te indicam qq lado. Em algum deles, vc tem q confiar.

E o pior: tem mil pessoas te encostando, cutucando ou te secando (como eles fazem o tempo todo). Me lembro de uma mina q já tava estressada no meio da estação indo pedir informação e os indianos se amontoando em volta. Deu muita dó de ver a mina gritando em italiano... Tem dias q a galera perde a compostura. Como diz o Alex,, de vez em qdo parece q estamos em outro planeta.

Tô com outro email quase pronto (portanto, leiam esse email logo que tem mais!) sobre uma boa parte da viagem que pulei nesse relato: final do Nepal, Bangalore, Hampi, Hyderabad, camping com a ONG, o filme de Talywwood que fizemos,... cenas dos próximos capítulos! Acho q até domingo mando as novas (meio antigas...hehehe) pra vcs! Enquanto isso, se vcs quiserem ver alguns vídeos antigos sobre a troca de guarda na fronteira ÍndiaxPaquiestão:

Namastê!
Tato

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Índia II

Mais uma do amigão Renato "Tato" Flit. Pra variar está hilário, vale a pena ler até o final. Dessa vez não vou editar, vai como ele mandou mesmo...

Galera,



Primeiro gostaria de agradecer a todos os emails que recebi, inclusive os que não tive tempo de responder. Segundo lugar, dizer que os relatos de viagem serão compartilhados no blog http://esefossemospara.blogspot.com/ criado pelo casal Gabriela Contente Marques e Ivan Kabókia de la Nina Gambi. Fica ae a sugestão pros amigos que forem viajar e quiserem compartilhar seu relato ou que não tenham recebido e tenham curiosidade em acompanhar o relato anterior.
Bem, poderia escrever esse segundo relato de mil maneiras distintas...cada dia acontecem mil coisas e confesso que perdi algumas boas histórias pelo caminho. Bendita preguiça…
Comecei esse email escrevendo de dentro de um trem na Índia e pretendo terminá-lo hoje à noite aqui no Nepal, até mesmo porque passarei os próximos 8 dias em um trecking (não, obviamente não estou preparado pra isso...). Acabo de chegar ontem de um rafting de 2 dias entre Kathmandu e Pokara em que paramos num bangalô pra passar a noite, bem patrão diga-se de passagem (pra quem for fazer trecking no Nepal, tenho boas dicas de agências e isso faz toda a diferença). Enquanto escrevo esse email tem pelo menos 2 nepalis que ficam vindo e voltando e fazendo perguntas do tipo “isso é português? Como vc escreve tão rápido?” e assim seu raciocínio vai pro bebelléu...
Só pra vcs entenderem, meu último email parou em Dharamasala a caminho de Manali, ainda nas montanhas do Himalaia. Meu mochilão, depois de Manali, teve 15 dias de Rajastão (estado da Índia vizinho ao Paquistão) e agora tirei mais 15 dias pro Nepal. Depois de mais ou menos 1 mês e meio de mochila começarei o trabalho em 15/nov. Adiei um pouco o início por sugestão da minha chefe que teve uma viagem de última hora e me sugeriu mais 15 dias. Melhor chefe do mundo, não? Aparentemente já tá vendo até um lugar pra eu ficar... Pois bem, cá estou no Nepal.
Alguns estresses: vôo que atrasa, guardas que não me deixam entrar no aeroporto pq estou sem minha passsagem (sendo que hoje em dia ninguém mais carrega um bilhete aéreo, só um número de etciket, minha conta da minha internet sem fio que eu não recebi e não sei como paga, meu ATM (aliás tem em qq esquina, tem q fazer) que a grana não cai nunca, a chave do último quarto de hotel que passei que descobri casualmente que estava guardada no meu bolso com meu broder chileno ttrancado do lado de fora do quarto, uma indiana que me disse na fila do vôo que comprou o mesmo vôo que eu bem mais barato pq não reservou pela internet (what?), a conexão de wifi da guest house que estou que é um lixo e só funciona do lado de fora (detalhe: uns 7 graus aqui fora), a agência que adiou o trecking sem avisar nada e por aí vai.
Tentarei ser cronológico: pra chegar em Manali rolou uma história ótima. Como comprei um lap top pra mim na Índia, baixei uns filmes pra tornar minha vida mais divertida nos trens e ônibus que teria pelo caminho. Tive a genial idéia de tirar o laptop da mochila na hora que o pneu do busão furou pela primeira vez (incrível, num mesmo trajeto o pneu do busão furou 2 vezes e tinha como 12 indianozinhos pra trocar a parada, mas isso é um capítulo a parte...) pra assistir um filme chamado Thirst, recomendado por um amigo cujo nome da mãe não citarei nesse respeitoso email. Na hora que eu comecei o filme (sem ter a menor idéia do tema, enredo, roteiro...) um monte de indianos que tavam trocando o pneu vieram ver oq tava se passando. Opa! Sessão de filme no busão, por que não? Então começa a subir gente no busão e eu ali com aquela cara de quem não tinha mais controle da situação. O filme era um pornô de vampiros basicamente: um padre larga o celibato se descobrindo vampiro e pra sugar o sangue das vítimas, transa com elas. Legal, pornô num busão na Índia. Foi a primeira vez que eu vi um busão chegando numa parada com mais gente sbindo que descendo do bumba...hahaha. E acho quee os caras nunca tinham visto nada parecido com um pornô de vampiros...pq os caras se acotovelavam nas cenas mais picantes...hahaha... E a holandesa que viajava comigo tava assustadíssima pensando que eu seria roubado e ela estuprada. Obviamente nada disso aconteceu.
Manali foi uma cidade interessante, com energia boa, um pouco mais paradona. Tudo gira em torno do trecking, aluguel de jipe e etc. No meu primeiro dia conheci os caras mais nerds que já vi na minha vida e claro, seguimos juntos. 2 israelenses e 3 britânicos. O mais normal, babava. Os israelenses jogavam cards, um dos britânicos de dread que achei que era o traficas da região gostava de livros de ficção científica e só fazia piadas infames... (formamos um daqueles grupos de viagem que valem só pelo período em que duram na viagem. E isso é bonito de reconhcer: quem tá de passagem na sua vida e quem vai ficar... Certamente conheci gente que vai ficar...mas isso é outro capítulo). Ficamos 3 a 4 dias juntos e cada dia achávamos que sairíamos no dia seguinte prum trecking, mas cada dia acontecia algo diferente. Não fizemos, eu tava meio doente e resolvi seguir pra Delhi (acho que tô fazendo o trecking aqui no Nepal um pouco pra compensar a desilusão de Manali). Como cagada pouca é bobagem, esqueci todos os meus carregadores em Manali, o que fez com que a trip do Rajastão só estivesse registrada pela câmera dos outros (pra fazer o cara da guest house mandar por correio pra casa de uma amiga em Delhi com compromisso de depósito prévio e etc foi foda...pior é a mina não estar em casa e o pacote voltar... ou seja, 2 semanas de dor de cabeça. Tudo aqui te dá dor de cabeça tremenda. Tem dias que vc aceita e ri e tem dias que quer matar o primeiro FDP que não te responde o que vc pergunta,, que te presta um serviço surreal ou que te simplesmente vem te dizer que adora o Ronaldinho). Ahhh... Dica importante: Manali tem o melhor cookie que já comi na vida. Na boa, nacreditável. Pra quem achou que eu ia voltar mais magro...
Fim da primeia quinzena de mochilão no Himalaia. Voltei pra Delhi pra novamente... Lá virou meu ponto de referência da trip aonde deixo minhas coisas, faço os serviços básicos (tipo banco, barba e bigode,...) e parto novamente.
Desta vez a escala foi bem curta pq num tava de saco cheio com o caos de Delhi... Juro que já me cai a pressão de pensar no trampo que é se virar em cidade grande como essa. Fora a poeira. Muita gente anda com pano na cara, cheiro de foligem e carburador. Acho que a coisa que me dá mais raiva é que os indianos nunca respondem oq vc pergunta... Eles sempre fazem um gesto típico com a cabeça que é uma mistura de "sim, não, talvez, irrelevante, foda-se". Na verdade, acho que tenho ficado mais calejado com os caras, oq te torna mais avesso a qualquer contato... Normalmente, via de regra, os contatos tem sempre grana envolvida: ou pela via escancarada ou pela via sacana. As perguntas tb são meio protocolares:” witch country? name? Hotel? do you want some...?” e aí começam... a te oferecer guias turísticos, hotéis, comida, blablablá... Aqui vc tem q ficar espero e pagar de macho qdo necessario. Vc descobre qdo... Me lembrou um pouco o que o Marcelo, um broder que tinha vindo antes, disse: muitas vezes faz cara feia, ameaça, empurra e fecha a cara. Só assim eles entendem... É muito assédio, muita pergunta invasiva, muita cara de pau, muita folga de vez em qdo... Acho que acabei mudando um pouco mudando minha opinião sobre os indianos, tem dias que eu simplesmente num quero ver um na minha frente com suas perguntas, truqes sujos e etc.
A buzina eu acho que é o que me faz cair na real e perder a cebaça. Um barulhho atordoante que incomoda pacas. O indiano dirige buzinando mesmo quando não tem absolutamente nada na sua frente.
A minha relação com eles começou a ficar um pouco difernete (ou pelo menos um pouco mais “pé atrás”) no deserto do Rajastão aonde fui ameaçado de morte por um gerente de hotel depois de terem roubado minha carteira dentro do quarto do hotel. Sumiram 5 mil rúpias, o equivalente a 115 dólares, ou seja, toda a grana que eu tinha naquele momento. Isso aconteceu em Udaipur. Por sorte do destino tava com dois israelenses ninjas pra quem eu tinha arrrumdo quarto por 50 rúpias no hotel (é tipo 1 dólar por dia...hahaha...com banheiro dentro do quarto). Os caras me adoravam e a gente jogava xadrez todo dia em Udaipur. Não fosse o Yonatan que foi chefe de uma sessão da inteligência do exército que falou com o manager do hotel de uma maneira que até eu fiquei apavorado. Curto e grosso: “a grana sumiu aqui.Responsabilidade de vcs. Fui agente se segurança por 3 anos. Sei como proceder. Num tem outra solução: em uma hora quero esse dinheiro de volta...se não é caso de polícia”. Pois bem, fomos tomar uma breja pra esfriar a cabeça e ver oq rolava em uma hora. Na volta, os caras tavam se cagando da polícia, tava todo o staff do hotel reunido (tipo 5 negos) e um puta clima de fim de feira. Então o manager diz “não se preocupe. Seu dinheiro será devolvido integralmente amanhã”. Breja pra geral por conta do Tato... Mas obviamente no dia seguinte, cadê a grana? Pra resumir, o cara me pagou em 3 parcelas, me contava da sua história pessoal de já ter perdido 2 hotéis por sua má reputação com a polícia (daí o fato de ele se borrar com a polícia...), fazia um amigo dele me parar na rua pra contar das dificuldades porque já havia passado na vida o cara, dizia que era kharma e etc. Enfim, ele me pagou nos últimos 5 minutos da prorrogação e eu já puto ameacei chamar a polícia. Então, o cara me ameaçou de morte. Na Índia, vc não baixa a cabeça! Me deu o dinheiro 10 minutos depois no ponto de encontro e me pediu 30 mil desculpas. Acho que ssou o único cara que foi roubado na Índia que recuperou sua grana. No final, fizemos uma prece juntos pra Ganesh, o Deus Elefante (da prosperidade?) e me fui, quase refugiado com meu broder chileno pra Pushkar.
Udaipur e Pushkar foram cidades especiais. Conheci umas 10 pessoas que valem a pena manter contato: França, Itália, Austrália, Chile (broderzaço), Argentina (broderzaço), Espanha e Israel. No fim das contas, a trip fica muito mais legal com companhia. Sozinho em 2 dias minha cabeça começa a girar em círculos e é muito boa a sensação de compratilhar alguma energia com gente em todos os cantos do mundo... no fundo, somos muito muito parecidos...
Voltando ao Rajastão. Apenas pra contextualizar: o Rajastão é um estado que é quase um conjunto de feudos. As fotalezas (mini-estados) ainda existentes são imensas e algumas ainda dão muita importância pro seu marajá (daí, surgiu a expressão: o cara que num faz nada e é rico sem trabalhar...eram os governantes dessa região). As cidades mais famosas da região estão relacionadas a importância dos seus fortes: Udaipur, Jaipur e Jaisalmer.
Jaipur foi um puta nabo! Fomos num grupo de 8 pessoas com bastante gente chata, gostos diferentes e etc. Tínhamos fechado um preço fixo com 2 taxista que nos levariam de Delhi e rodariam conosco por lá. Chegando lá, começaram os golpes: “não podemos andar tantos quilômentros assim... esse hotel é longe (claro, no outro o motorista ganharia comissão...), vcs tem q me pagar a minha noite no hotel (afinal qdo vc fecha um preço fixo, ainda teria que pagar um extra pro cara dormir no carro e embolsar a grana...)”e por aí vai. Esse é o tipo de estresse que pode rolar. E olha que o cara era motorista da cia. em que uma das minas trampava... Ou seja, depois ela o veria todo santo dia... Os caras simplesmente não se importam... é tudo por grana... São raros os indianos em que se pode confiar!
Pra não dizer que eu num falei das flores: Jaipur é imensa (faz parte do triângulo turístico Delhi-Agra-Jaipur), o Amber Fort é legal, mas não imperdível, não vale a pena o role de elefantes porque lá eles cobram uma bica e o que eu mais gostei é o Monkey Temple (tem um aqui em Pokara no Nepal yambém. Diga-se de passagem Nepal é quase uma extensão da Índia, só que mais caro e com gente mais "moderna")... Pra quem num sabe na Índia tem macacos nas ruas, em todos o lugar,... E nesse templo específicamente eles tomaram conta, agridem turistas, muito legal. Um templo que é no Rajastão - recomendado Top 10 do Lonely Planet- mas que eu num fui é o Templo dos Ratos. Pois é, são mais de 5 mil ratos dentro do templo, no qual vc tem q entrar descalço e o bichinho passa em cima do seu pé. Pra vcs terem uma idéia da insanidade da coisa: os indianos dão comida pros ratos e se eles não comem todo o arroz que lhes é dado, é sagrado comer a xepa. Juro. Restos de saliva dos ratos são uma bendição. Aí é muito pra mim... Não tive coragem de ir nesse templo porque está a 12 horas de Jaisalmer em uma direção completamente distinta, bem fora de mão. Tenho amigos que foram e dizem que num rola entrar só pelo cheiro que já rola do lado de fora.
Breve digressão: a cultura dos caras é muito ininteligível. Tem templo pra ratos (!), mas eles destratam qualquer cachorro que eles vêem nas ruas dão uma pancada. Cachorro é o pior animal, é encarnacação do mal. O cão é basicamente no que vc se transforma se vc não se comprtar nessa vida... A coisa fica pior quando a categorização se dá entre pessoas: um amigo que morava na Austrália fazendo mestrado disse que um dos indianos se recusava a fazer trabalho de grupo com o outro que era de uma casta inferior...
Jaisalmer: outro nabo! Mas dessa vez mais engraçado... É quase na fronteira com o Paquistão e só fui pra lá pq queria fazer um rolê de camelo no deserto (é a cidade do bang lassi pra quem entende...). Logo que cheguei no hotel, o cara que organiza o rolê dos camelos me perguntou “rolê turístico ou não turístico?”. Eu, claro, respondi desafiador “não turístico”. O cara então só pra confirmar me pergunta: são mais de 100km, entra na rota do ópio e dura 3 dias inteiros. Vc topa? “Claro, achei pouco...”hahaha. Que nabo!
Nesse tipo de trip vc depende de sorte. O guia e as companhias de viagem fazem toda a diferença (espero ter sorte amanhã no trecking). Legal, calhou pra mim de ir com um hoolingan inglês e sua namorada obesa (juro que dava até dó do camelo de vez em quando) e uma biba-loka canadense. Que seja homossexual, obviamente não há problemas, mas qdo começa a andar de cueca no camelo canntando like a virgin, num rola... Era um choque cultural tão grande pro guia que ele vinha me perguntar se ninguém ia comer o cara...hahaha O guia era o tipo indiano do Rajastão: seco, árido, pão com pão, macho alfa, poucas palavras... Até que surge Samuel, a Rainha do Deserto...
Perguntei pro guia por curiosidade se poderíamos conhecer sua casa. Era mais ou menos no caminho. Paramos pra tomar um tchae (chá em leite que todo mundo vicia por aqui e no qual já estou viciado). O guia –pai de 6 filhos com a mesma esposa – simplesmente não cumprimenta a mulher. Manda ela fazer tchae pra todo mundo e ela calada obedece. Depois de sairmos de lá, lhe pergunto se ele ama sua esposa...ele ri e me responde...”Claro que não”...hahaha... Aqui a coisa é meio assim: medieval mesmo. No Rajastão ainda pior. Há casos de assassinato da mulher que é estéril, os casamentos ainda são arranjados por castas e há casamentos em que o noivo conhece sua futura esposa no 6º dia de festa... Aliás, as festas de casamento aqui parecem muito legais. Preciso me infiltrar em uma, oq seria muito fácil, pq eles acham meio exótico, meio status ter um ocidental como amigo... que puta viagem da minha parte achar que era uma boa dar meu telefone prum moleque indiano que conheci no busão! No dia seguinte, 5 ligações perdidas e 2 mensagens de texto. Por isso que disse há pouco que mesmo qdo é desinteressada a aproximação é inconveniente (eu disse isso, não?).
Bem, voltando ao deserto ( e ao insuportável número de insetos que há no fim da tarde), já tinha me arrependido no primeiro dia de ter sido tão metido a Macgyver na hora em que subi num camelo pela primeira vez. Juro, um dia tava mais do que suficiente. No segundo dia, dói tanto a bunda que vc simplesmente num desce do camelo nas paradas pq depois vai ter q subir outra vez e esse movimento dói pacas... No fim do segundo dia, a biba vê uns coreanos e dormindo há uns 2km de distância e decide que quer fazer amigos. Chegamos lá com um dog que nos acompanhava. Os coréias curiosos perguntam “da onde vem esse dog?” A primeira coisa que a biba fala pros coréia: “trouxemos pra vcs comerem”. Indignação! O coréia responde “Não somos chineses...” e aí vem a rainha do deserto e diz “dá no mesmo...” Começaamos bem. Logo vemos que os caras tem camas e nós não (estávamos dormindo na areia friam afinal eramos "não turistas". Havíamos dormido na areia que congela de madrugada pra ver as estrelas. Nem isso: era uma puta noite de lua cheia. Lhes perguntamos se podíamos pegar algumas camas que estavam sobrando. Ufa! Maravilha! Menos frio de madrugada... Mas aí vem a biba de novo e fala do nada “dont you guys wanna gangbang wuth us?”. Do nada, a biba sugeriu uma suruba no meio do deserto. Os coreanos respondem se não podemos deixá-los mais à vontade...hahaha. Q q passou pela cabeça do Samuel? Q ia rolar uma orgia com coreanos nas areias do Rajastão?! Enfim, pelo menos, voltamos sem um cachorro e com algumas camas pra dormirmos na nossa última noite de deserto...
Uma coisa que tenho gostado de fazer é me questionar sobre a história das pessoas. Não fosse pela falta de vocabulário em inglês que me me impede, por vezes, de ter discussões mais complexas, seria ainda melhor. Mas já deu pra ver que tem muito europeu que não faz universidade e trampa em qq coisa que dê grana, tem os que só trampam pra poder viajar (preferencialmente em lugares que te permitam 2 ou 3 meses de férias como hotéis ou escolas), alguns que são barmans de verão que passam 4 meses por ano em cada lugar, outros que viajam pra trampar, economizar e seguir viajando (Nova Zelândia é o paraíso do emprego fácil com grana boa). Tem uma francesa gente fina trampa num barco só no verão e viajava pelo resto do ano (acabou de me mandar um email oderecendo aprendizado pro barco do próximo verão...ai ai...). Outros muitos que tem emprego fixo ou abandonaram seus empregos, estão com seguro desemprego (um ex-guarada costas por 6 anos na Espanha estava ganhando 900 euros por mês por 18 meses de Seguro Desemprego), viajam aa trabalho (e entre uma viagem e outra abrem bilhetes) e por aí vai. O importante é ver que o mundo é bem mais acessível do que foi há poucos anos atrás. Não será incomum vermos qualquer pessoa mais tradicional/conservadora vindo visitar a Índia, China, Butão... Aliás no Nepal me impressinei positivamente com a quantidade de senhores(as) de idade fazendo trecking, muitas vezes bem pesados.
Uma coisa que fica clara depois de um tempo de estrada é que vc se acostuma com a solidão, perde o cagaço de fazer coisas antes improváveis (por pura covardia em relação ao desconhecido) e toma gosto pela coisa. Uma delícia! Se esquece dos perrengues e não se lembra mais como era possível uma vida em que no começo e no fim do mês vc estaria no mesmo lugar (claro que dei uma exgaerada...). Tudo isso pra dizer que eu tô curtindo pacas e que se depender de mim a trip hoje se estenderia (até o momento nenhum brasileiro pelo caminho, nenhum!).
Foi mais ou menos nessas que vim parar no Nepal, sem guia e sozinho. Hoje passei o dia com um portuga massagista em barcos turísticos e um mexicano que se foi pra Australia pra recomeçar a vida depois que vendeu sua parte em um negócio que criou. Justificativa: os ficais do governo (mera coincidência...). Primeiras impressões do Nepal: água da pia com o gosto mais escroto que já experimentei, povo mais acostumado ao gringo (talvez por ser mundialmente famoso pelo Everest), mais contato com ocidentais (tem bandas de rock, caras cabeludos, cerveja, boates - ainda que acredito que só nas regiões turísticas) e me parece também um povo mais divertido. Fiz o rafting com 3 nepalis e os caras são bem mais próximos do nosso vida. O país é colorido, a comida é boa, a música é péssima, são super hospitaleros e os preços são bem mais altos que na Índia. Pra me hospedar pago 5 dolares o que já tô achando um absurdo.
O plano depois do trecking [e pegar mais um dia em Kathmandu pra conhecer um rio onde se jogam os corpos dos hundus e buscar a chamada deusa menina. Uma menina de 7 anos considerada deusa sei lá pq raios. Mas dizem q é legal. Só bater palma que ela aparece. E ainda tem o segundo maior bang jump do mundo e o 3o templo budista mais alto do mundo...
Agora voltarei pro meu quarto pra matar a maior aranha que já vi, arrumar as coisas do trecking (chegarei a 5 mil metros em 4 dias) e lembrar de todas as histórias que me esqueci de contar.
Ahh... Feliz Diwali pra todos! Hj é o dia das luzes no Nepal e na Índia. Há milhares de oferendas nas calçadas, as pessoas dançam no meio da rua, há velas de boa sorte por toda a cidade aqui e como sempre às 23hs tudo fecha. Surreal! Afinal, quem quer diversão, vai pra Ibiza!
O bonde segue sua nau!
Namastê e feliz diwali pra todos!
Tato

sábado, 16 de outubro de 2010

Índia

O amigo do casal, e agora do Blog, Renato Flit, conhecido como Tato, resolveu largar tudo e se aventurar em um dos países exóticos para nós brasileiros: Índia. A carta que postamos abaixo foi o primeiro relato que ele mandou de volta pra casa, direcionado a um grupo de amigos curiosos.

Com sua permissão, passaremos a postar suas aventuras (se é que ele mandará algum outro e-mail...). Esse é o primeiro post de amigos viajantes. Esperamos que outros se entusiasmem e mandem pra cá suas experiências ao redor do mundo.

Grande abraço,

Ivan e Gabi



Galera,
Desde que cheguei tô pra escrever as novidades.
Não preciso nem dizer que esse é o país mais diferente que já fui. Poderia usar pitoresco, bizarro, maluco, surreal... Experiência realmente incrível!
Vos escrevo de um povoadinho pequeno chamado McLeod Ganj ao lado de Dharmasala, capital espiritual dos tibetanos no exílio. Já estou há uns 2 mil e poucos metros de altitude e hoje devo subir mais. Vou para Manali em algumas horinhas, uma cidade dentro das cadeias do Himalaia que fica há uns 250 km daqui, o que significa umas 12 horas de bumba (!).
É exatamente por isso que não se pode fazer grandes planejamentos na Índia, você vai indo e vendo qual o próximo passo. Para vocês terem idéia, tenho 3 roteiros possíveis a partir de Manali: Caxemira, Leh ou Rishkash. Caxemira é o mais irado, imperdível e tô com um puta contato por lá de um cara que me convidou pro casamento do seu melhor amigo e que me hospedaria. O único problema é que até semana passada a situação por lá era de tumulto nas ruas, acusações contra o exército e toque de recolher. Veremos como a coisa por lá se desenrola. Leh que é a segunda opção está quase na fronteira com a China e deve estar há uns 4 mil metros de altitude, mas por conta de uma nevasca na estrada, parece que os busões não estão subindo mais. Rishkash é a capital mundial da yoga e uma das primeiras cidades do Ganges, onde ele ainda é limpo e cheio de esportes de aventura. Segundo dizem, é um dos melhores raftings do mundo...
Em Manali estou acompanhado de uma holandesa gente finíssima que conheci no busão de ida para cá junto com dois canadenses. A holandesa é oceanógrafa e breakdancer (???) e os canadenses, montanhistas. Aliás, um deles de origem iraniana suava mais que um porco no cio (como diria o Schattan). Bicho, o cara torcia a camisa de suor a cada 10 minutos de trilha. Mas ontém foi suadeira mesmo! Um dos canadenses resolveu que iríamos atravessar Baksu (um vilarejo cheio de israelenses há 2 km daqui) e ir pelas cachoeiras. Até aí beleza! O foda é que o cara colocou como objetivo subir o outro lado do Vale, algo em torno de 1 km pra cima, o que na prática seriam uns 3km serpenteando a montanha até chegar no cume (ao todo foram uns 10km).
Cara, o Himalaia é pontiagudo, as subidas são íngremes e obviamente quando chegamos lá em cima, veio a chuva. Sem comida, de shorts e com as pedras que na subida estavam secas começando a virar pedra-sabão. Resultado: dor de garganta e ficou barato! (fora as dores no corpo por causa da aula de yoga que fizemos por aqui: eu comecei a rir uma hora em que o professor fez uma posição que eu num sabia nem como começar... O professor só faltou levitar...). É curioso quanta gente está em busca de conforto espiritual nessas bandas, seja via meditação, montanha, yoga, budismo, sei lá.
Aliás, o que não falta aqui é budista. A população já vai ficando cada vez mais “achinezada” quando você vai subindo e na montanha o assédio aos ocidentais alivia um pouco. Vocês não tem idéia de quanta gente já pediu pra tirar foto comigo ou perguntou de onde eu sou, ou simplesmente me filmava num ponto de ônibus. Pros indianos, ter amigos ocidentais é sinal de status, de modernidade, de prosperidade. Eles não tem muita idéia de mundo, mas sabem que nós estamos melhores (a pobreza aqui é um capítulo a parte). Chega a ser engraçado porque por mais que seja cansativa a abordagem, ela muitas vezes é ingênua, completamente desinteressada, cheia de curiosidade. Com as mulheres já é diferente: eles acham que é tudo puta! (até mesmo porque com as indianas num dá...hahaha).
O estilo de vida não tem nada a ver com o que estamos acostumados. A vida aqui te estressa os sentidos, se é que existe essa expressão. Você vive no limite do barulho, do paladar, de todos os sentidos. Só pra exemplificar: os caras não tem a noção de privacidade que nós temos, então encostar (muitos homens andam de mãos dadas com os amigos), empurrar, pegar alguma coisa alheia pra ver é normal. No começo, você fica puto, mas depois vê que é assim mesmo. O cara que veio comigo no avião era o melhor exemplo: ele simplesmente pegou meu travesseiro pessoal pra ver como ficava nele. Quase mandei o cara à merda. Mas depois vi que além disso ele comia com as mãos e jogava todas as embalagens que descartava no chão do avião...hahaha... O avião tava um lixo em volta da gente...
Esse negócio de castas é foda também! Os caras realmente se dão ao direito de não tirar sua bandeja do McDonalds nos shopping porque são de uma casta superior.
Higiene incomoda, mas é de boa. Já comi até na rodoviária, dá pra se acostumar. Água é que tem que tomar mais cuidado mesmo. Acho que a galera tem muito piriri por aqui por conta da pimenta mesmo. É surreal! Em Chandigardh estávamos em um grupo grande e resolvemos sair pra comer de madrugada. Mano, a única coisa que você não quer as 3h da manhã (já que num tem Hobby aberto) é comer vegetais com curry. E se você pede sem pimenta eles quase riem. Foda!
Mas num posso reclamar da comida: em muitos lugares tem muita comida ocidentalizada, cheguei até a comer no Fridays (na vasca) com o Luís, amigo brasileiro que trampa em Delhi e me hospedou na sua casa. O cara foi um irmãozão assim que eu cheguei. Fiquei numa suíte com cama de casal no apê dele, com conexão de internet num dos bairros mais chiques de Delhi. Na verdade, quando eu falo isso você tem que ter em mente que estamos falando da Índia, ou seja, a rua não tem asfalto, o prédio tem tratamento de água próprio pros condôminos (já q você não pode usar água da rua nem no bairro nobre). Mesmo na casa dele, os picos de energia são constantes, dada a instabilidade da corrente. Aqui tudo é feito meio nas coxas, no trambique, na barganha, até as coisas mais tabeladas, básicas. Fui comprar um celular e barganhei o valor da conta. Ou quando comprei minha conexão de net sem fio que os caras sequer me deram contrato e a parada só começou a funcionar tipo uma semana depois. É assim mesmo, não adianta estressar... Teve um dia que estressei com essa parada da net e liguei no HelpLine da companhia: o inglês dos caras é tão inteligível quanto o meu japonês. Eu não conseguia entender o jeito como o cara soletrava a minha senha de acesso!
Tirando o estresse, é divertido! Tudo pode acontecer: O taxi é, na real, uma moto com uma carcaça com um motorista que não tem a menor idéia pra onde tá indo. Ele simplesmente diz pra você subir e vai rodando. O cara pára no meio das ruas pra perguntar e vai se aproximando. Então não dá pra ter pressa! Quando cheguei, o Luís (brazuca que me recebeu) me indicou uma cia de taxi. Liguei e chamei o taxi. Uns 40 minutos depois não havia chegado. Desci e vi que na frente do prédio tinha uma placa indicando uma cia de taxi. Legal, era um telemarketing de taxi. Entrei no telemarketing e pedi o taxi. O cara pediu pra eu introduzir os meus dados no Excel enquanto ele ia ao banheiro...hahaha. Ou seja, até pedir um táxi foi bizarro. Tive que entrar num telemarketing e sentar na cadeira de uns funcionários pra colocar meus dados...hahaha. Quando você pega o táxi é que se dá conta da zona: tem árvore no meio da rua, o transito é maluco, pra onde quer que você vá te pedem esmolas dentro dos carros, você desvia de mil vacas no caminho e acha que vai morrer a cada 5 segundos porque na rua simplesmente não tem mão... Sem noção! É muito, muito difícil dirigir aqui! A quantidade de buzinadas é insuportável.... Ah, e como os indianos não falam inglês você acaba aprimorando suas habilidades de “Imagem e Ação”, virou meu passatempo favorito.
É tanta coisa que fica difícil descrever: como assim você pede uma salada Caesar no shopping e vem com chocolate? Ou como assim você vai subir pra estação de metro com a escada de entrada descendo e a galera vai correndo contra o sentido pra entrar na estação? Como assim você está andando na rua e, de repente, uma vaca vem comer o pão que você ta levando na mão?
O governo é por estado, só que cada estado é como se fosse um país (você paga pedágio, tem idiomas distintos, alguns estados proíbem álcool e tudo), as estradas demoram umas 6 vezes mais do que deveriam demorar porque os carros são um lixo, os caras simplesmente param no meio da estrada (!) pra pedir informação, fumar,...
Qualquer trem sai com galera pendurada do lado de fora, qualquer estrada tem povoados de milhares de pessoas a cada 5 km. Dizem que sub-notificação de nascimento na Índia é muito grande: ou seja, são bem mais de 1,2 bi de pessoas que é a estatística oficial.
A pobreza assusta também. Uma pobreza escancarada, uma miséria crua, seca, árida. O cara sem perna andando de skate, galera revirando lixo e disputando restos com vacas, mendigos deitados nas estações de ônibus, cachorros perambulando com doenças dentro de lojas... Mano, você fica desorientado!
As coisas tem passado rápido, tenho tido sorte e acho que tá valendo muito a pena. Mais legal ainda é que já estou com a perspectiva de começar a trabalhar no fim do mês, o que me dá ainda uns 20 dias de viagem pela frente. Nem acredito que já estou indo pra minha quarta cidade na Índia!
Depois de Chandigardh (capital de Punjab, uma cidade planejada pelo Le Coubusier, lembra bastante Brasília pelo concreto, rotatórias, espaços livres,...), Amritsar e Dharmasala, agora vem Manali por aí. Meu busão sai em 2 horas e tá uma puta chuva, aliás, aqui o clima é foda: ou chove ou neva ou faz um calor insuportável. Na real, espero que o busão saia mesmo às 5h, porque aqui 5 e 7 dá na mesma. E se o motorista tiver com piriri o bumba nem sai...
Eu já tô escrevendo há uma hora e lembrei que nem falei de Amritsar, capital da religião Sikh. Os sikhs sao um povo amigável que usa um turbante na cabeça e que prega a união das pessoas. Uma religião meio do tipo paz e amor: todos são bem vindos, você dorme no templo dos caras, trampa na cozinha voluntariamente e come de graça (não garanto que a qualidade seja boa, mas beleza) e fica por lá perambulando. Interessantíssimo! Não há como não ficar ao mesmo tempo surpreso com a hospitalidade e com a bagunça. O pico é a Meca dos caras, não fecha, o templo é 24hs por dia cheio, a cozinha não fecha e as tradições são malucas. Tem umas de levar pasta de amendoim com manteiga numa folha de “não sei o que” que é uma oferenda. Tem que tirar o sapato, andar descalço e com a cabeça coberta (bandanas obviamente são vendidas por 10 rúpias ao redor do templo).
Uma cosa legal de Amristsar é ir pra fronteira com o Paquistão. Lá tem uma espécie de cerimônia ridícula de troca de guarda na fronteira que leva milhares de pessoas diariamente pra torcer. É tipo torcida de futebol mesmo! Isso eu acho que só dá pra descrever com vídeos. E não sei porque os que eu fiz tão sem som... Isso vocês tem que ver!
Os deuses hindus são outra parada maluca. Ou você entra na "fantasia" deles ou o negócio chega a parecer maluco, ate engraçado. São mais de 160 deuses, alguns são crianças, outros são elefantes que voam, outros que são apenas criancinhas com roupas de sultão, sei lá.
O aprendizado é gigante, o inglês tá melhorando, você aprende a respeitar a cultura milenar dos caras e dá um jeito de se virar porque não tem outro jeito...
No mais, tem um monte de mochileiro (vários israelenses como sempre) e gente interessante que acaba cruzando seu caminho e tornando a viagem uma jornada surpreendente. Os preços também são super convidativos pra quem quer dar rolê no mundo: paguei 2,3 dólares para dormir cada noite aqui em Dharmasala, 1,5 dólar pelas 2hs de internet, 4 dólares num cobertor irado, 4,5 dólares na aula de yoga de 2 horas e por aí vai.
Já tenho até telefone celular.
Acho que no fim das contas, a melhor coisa tem sido essa sensação pessoal de estar vivo, de fazer valer a pena, de se aventurar, de estar aonde se quer estar, de decidir sua vida por si mesmo, de saber que a vida pode ser bastante grata com quem tem gana de correr atrás e que em breve novos e velhos amigos estarão me acompanhando por aí.
Índia é uma país diferente, complexo, bonito e meio bruto. Tem que vir!
Abraços e beijos,
Tato
Ps1: tive que reescrever esse email 2 vezes por causa de pico de luz...
Ps2: começou a chover granizo...acabou de passar um turista com o guarda chuva furado...hahaha
Ps3: demorou mas chegou: o primeiro piriri a gente nunca esquece...

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Miami


Pensei muito em postar ou não esse relato sobre minha ida a Miami. Primeiro por ter sido muito rápida e, segundo, por ter sido a trabalho. Pelo pouquíssimo tempo que tive para perambular pela cidade seria pretensioso querer dar qualquer tipo de dica. De todo modo, acho que vale compartilhar algumas impressões e falar um pouco sobre o que encontrei por lá, ainda mais em uma cidade que é destino para muita gente que vai ao encontro de congressos e viagens de negócio. Enfim, vamos lá!
Chegar aos Estados Unidos pra mim é uma sensação quase sinestésica. Não por ser o meu destino favorito – o mundo é meu destino favorito! -, mas pela inequívoca certeza que seu corpo tem de estar pisando em solo americano. Explico: ao desembarcar do avião você subitamente é submetido ao frio-de-ar-condicionado. Logo na saída do finger, normalmente, você começa a transitar sobre um carpete, geralmente azul ou vermelho. Algum tempo de caminhada depois (depende do aeroporto) vem a temida imigration line e seus oficiais não muito simpáticos. Agora, acima de tudo isso e é o que mais me chama a atenção, é o “cheiro de EUA”. Já comentei isso com alguns amigos que confirmaram sentir a mesma coisa. Não sei se pelo mesmo produto de limpeza usado no sistema de ventilação de todos os aeroportos ou outra questão técnica qualquer, só sei que esse aroma é algo que sempre vem a minha cabeça quando desembarco por lá e é inconfundível.
Passei quatro noites e três dias em Miami, dos quais tive uma manhã, uma tarde e uma noite livres para circular. O problema é que esses períodos não aconteceram no mesmo dia. Fui participar de um simpósio que aconteceu em um dos grandes resorts de Miami Beach, o Fontanebleau Hotel. O saguão do hotel é bastante imponente, com seu pé direito alto e sua decoração art decó bem ao estilo Miami Beach.
Como a diária que recebi não era tudo isso, acabei optando por ficar em um hotel próximo ao Fontainebleau, o Best Western da Collins Ave. Apesar de não desfrutar do luxo do resort 5 estrelas, fiquei bem feliz com o atendimento e com as acomodações deste hotel de rede, com a vantagem do preço bem mais em conta. A pesquisa que fiz mostrou que para essa época do ano se consegue um hotel razoável em Miami Beach por até Us$ 75,00/dia. Já indiquei sites de hotéis aqui, mas vale sempre lembrar do tripadvisor, kayak e do hotels. Dou sempre muito valor aos comentários dos hóspedes.
Cheguei em uma segunda-feira à noite e meu seminário começaria as seis da tarde do dia seguinte. Pensando no pouco tempo e na dificuldade de locomoção para lugares que queria visitar (leia-se satisfazer listinhas de encomendas, o que vale um post à parte sobre o tema) resolvi alugar um carro por um dia.
É impressionante como é barato o aluguel de carros nos EUA, vale demais. Optei por uma promoção da Dollar e fiz a reserva aqui do Brasil mesmo. Um Ford Focus, com GPS, por um dia, estava anunciado por Us$21, pechincha não? Mais barato que o táxi que me levaria do aeroporto ao hotel. Pois é, o que encarece essa brincadeira é o tal do seguro e as taxas locais. Colocando na ponta do lápis deu mais ou menos uns Us$ 70,00, preço que a maioria das grandes locadoras cobram pelo pacote todo. De qualquer maneira, pelo tanto que rodei, valeu a pena. Mas fica o aviso: chequem o preço total (seguro, taxas, gasolina, etc) e não só do aluguel do carro!
Na manhã do primeiro período livre peguei o carro e fui visitar um outlet mall (aqui também vale outro post sobre outlets nos EUA) bastante conhecido dos brasileiros, o Dolphin Mall. Complexo de lojas da linha outlet, bem grande e com boas opções de comida. Vejam as lojas do lugar aqui. Pelo tempo curto acredito que não tenha valido muito a pena, o lugar é longe de Miami Beach (apesar dos hotéis terem serviço de transporte para shoppings – agendar no dia anterior) e enfrentei belo trânsito pra chegar lá. Aliás, não fosse o santo GPS seria praticamente impossível cumprir todas as tarefas nesse dia.
Pulei o almoço (na verdade um sorvetão de doce de leite da Haagen -Dazs) e fui direto atrás de outras encomendas perto do hotel de volta em Miami Beach. Aí sim pude ver algo diferente e que realmente é interessante tanto para compras como para um passeio despretensioso: a Lincoln Road Mall. Trata-se de uma rua fechada em South Beach onde se pode encontrar todo tipo de loja, desde as mais tradicionais GAP e Banana Republic até pequenas lojas de designers e estilistas passando por cozinha, cinema, bares e restaurantes. Sem contar que o passeio é bem agradável, com especial charme identifiquei a livraria Books & Books escondida atrás de seu próprio café (tia Fá disse que os cupcakes são incríveis!!!), muito legal mesmo!
Depois dessas aventuras, só tive mais uma noite livre e junto a outros amigos que estavam no simpósio seguimos para o Bayside Marketplace, local bacaninha na baia de Downtown Miami. Ali se encontram algumas lojas (poucas que valham a pena, eu diria) e alguns restaurantes de frente pro mar. Jantamos no Bubba Gump, restaurante temático do filme Forrest Gump especializado em comida americana com um forte para os camarões, por que será?
É claro que nos outros dias tive que jantar, e, já sem carro, procurei por opções nas redondezas do hotel. A distância de South Beach (maior concentração de restaurantes) foi amenizada por um eficiente ônibus que descia até a 5th street e me devolvia na porta do hotel, na 41th street. Aí a dica pra ter bastante opção é descer a Ocean Drive, a famosa beira-mar do sul da península. Muitos restaurantes, muita badalação, muito turista. Apesar do ambiente poluído de som alto, gente andando pra cima e pra baixo e garçons querendo apresentar cardápios já na calçada, achei um restaurante incrível: A Fish Called Avalon. Restaurante do hotel Avalon, tem um cardápio bem variado e por Us$ 35,00 se come como rei.
Outro programa bacana que fiz foi almoçar no Ásia de Cuba, restaurante fusion que se propõe a misturar comida latina e asiática e conta filiais em NY e LA (com uma aparentemente fake em Buenos Aires). A comida é excelente! Fui em uma promoção do Miami Spice, festival gastronômico local que segue a mesma filosofia do nosso restaurant week – ou será o contrário? Além da excepcional comida e serviço, o restaurante tem uma decoração fantástica que flerta com o surreal. Faz parte do luxuoso Hotel Mondrian, com tudo em branco, preto e dourado. Vale conhecer!
Por fim, com a inesperada finalização dos trabalhos do seminário um pouco mais cedo, tomei um ônibus e fui parar no Aventura Mall, o shopping de luxo de Miami que concentra lojas de todas as grifes e marcas em um grande complexo que, confesso, não pude ver tudo. Porém, do que vi, gostei. Questionei até se não teria sido melhor aproveitar as promoções das lojas de rede a perder um tempão no outlet mall do outro lado da cidade. Enfim, finalizei esse dia com um maravilhoso jantar no The Cheese Cake Factory. Passei só pra comer uma fatia de cheese cake – um de meus doces favoritos - e acabei surpreendido com um delicioso gumbo – aí que saudades de Nova Orleans...
Apesar do tempo curtíssimo, deu pra perceber que Miami não é uma cidade pra se deixar de lado na hora de pensar as próximas férias. O destino tem muitas facilidades de vôo do Brasil, a língua não é um problema - mesmo para os que não falam inglês, e andar pela cidade, ainda que só nessa parte mais nobre de Miami Beach, vale a pena.
As praias são bem legais também, apesar de - como bom brasileiro - achar difícil encontrar algo comparável ao nosso litoral. Hordas de cubanos, porto riquenhos, brasileiros, haitianos e velhinhos judeus de NY fazem de Miami um caldeirão muito interessante que vive do glamour de um passado recente e a dificuldade de ser a porta de entrada para todos esses imigrantes latinos.
Enfim, para uma viagem de trabalho e o pouco tempo que tive, Miami deixou o gostinho de quero mais.
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