quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Buenos Aires VI




Quinto dia – quarta-feira
Pra variar nos últimos dias, acordamos tarde. Logo saímos para encontrar um dia chuvoso, frio e nada convidativo para passeios a pé. De qualquer maneira, encaramos as intempéries e seguimos rumo ao famoso Teatro Colón. Antes disso a missão foi trocar dinheiro, uma vez que havíamos trocado pouco na chegada. Por indicação do hotel buscamos um Santander Río bem próximo dali para descobrir que eles só fazem operação de câmbio para clientes – 40 minutos de fila depois! Para os desavisados como nós - e o atendente do hotel – um dos bancos que faz o câmbio sem distinção de clientes é o Banco de la Nación, no resto não há negócio.
Após conseguirmos trocar o dinheiro um pouco mais adiante, chegamos ao falado teatro. De fato é uma construção enorme, toda reformada e funcionando perfeitamente com balés aos sábados e orquestra aos domingos. A idéia de conhecê-lo por dentro, no entanto, acabou frustrada. O teatro ainda não está totalmente operacional. Os tours de antes ainda não estão funcionando e a única maneira de conhecer o imponente salão principal é comprando ingressos para os shows descritos acima. Os lugares disponíveis para esse fim de semana eram opostos em conforto e preço: meio da platéia (210 pesos) ou em pé, ao fundo (25 pesos). Deixamos pra decidir depois.
Seguimos para percorrer o circuito de palácios do século XIX e começo do XX que estão entre o fim da Av. 9 de Julio e Bairro da Recoleta, incluindo aí algumas embaixadas como a do Brasil.
Os edifícios são incríveis. A conservação e uso como prédio de escritórios ou mesmo lugar de eventos faz com que todos se integrem à vida porteña de maneira a conservar sua funcionalidade ao mesmo tempo em que são preservadas a história e beleza do local. A embaixada brasileira, um palacete do século XIX construída por uma família criadora de gado e ocupada pela representação diplomática desde 1944, rivaliza a paisagem com a embaixada francesa - logo ao lado. Um pouco mais abaixo há a mansão em tons de vermelho e branco que faz parte do hotel Four Seasons e, diz a lenda, oferece um brunch deslumbrante aos domingos.

Dali, seguimos para o cemitério da Recoleta com direito a uma parada estratégica em um restaurante no comecinho da Calle Junin com Calle Juncal (lado oposto ao cemitério) para comer unas empanadas. O restaurante La Querência figura entre os mais respeitados quando se trata de comida típica do interior da Argentina. Suas empanadas estão entre as 10 melhores de Buenos Aires. Há muitos sabores para escolher, com especial atenção à tradicionalíssima de carne com molho picante (nem tão picante assim), a del tambo (sete tipos de queijo, mais parece uma empanada de fondue), e a de panceta com ciruel (bacon com ameixa). Todas muito boas.
Caímos na besteira de pedir sobremesa, especialmente a minha gula que me obrigou a pedir um alfajor santafesino quando descobri que era uma espécie de mil-folhas de doce de leite. Pois bem, aí abaixo mostra o tamanho da besteira.
Saímos rolando de lá em direção ao cemitério para, enfim, visitar os túmulos de hermanos ilustres. Verdade é que com o frio e o vento que fazia não tínhamos a pretensão de ficar mais que trinta minutos no local. Foi aí que apareceu “o figura”. Vale explicar que o cemitério tem guias gratuitos todos os dias (os tours da tarde são às 14h e às 16h). O detalhe é que quando chove os passeios guiados se suspendem, deixando o turista à própria sorte. Foi aí que “o figura” entrou na história. Como o guia oficial anunciou que não haveria o tour por conta da chuva (não estava chovendo), entramos no cemitério para uma pequena volta.
Nos aborda, então, um cidadão de pouco mais de um metro e meio, uns 60 anos, falando pelos cotovelos, vestido com sobretudo xadrez, chapéu e armado com um guarda-chuva. Diz que é historiador e voluntário no cemitério e nos ofereceu um tour. Ao perguntarmos quanto ele cobraria, respondeu que era tudo voluntário e que não precisaríamos nos preocupar com isso. Desconfiados, aceitamos após alguma insistência e muita simpatia. Foi uma verdadeira aula de história argentina dentro do congelador. O frio e o vento cortavam cada corredor do cemitério e “o figura” falando sem parar de todos os enterrados ilustres, preços de mausoléus, política, aristocracia porteña e tudo mais que ele pudesse repetir a uma velocidade estonteante. O fato de falarmos espanhol só entusiasmou mais o pequeno guia que teimava em parar a todo momento para falar dos presidentes do passado, da Guerra do Paraguai e é claro da ilustre moradora do cemitério: Eva Duarte Perón.
Depois de duas horas de muito frio e muita conversa – na verdade só “o figura” falou – saímos do cemitério. Por um lado valeu a pena ter visto tudo com olhos de quem entende do assunto. Até mesmo a revisão da história da Argentina, que vergonhosamente não estudamos no Brasil, foi muito proveitosa. Por outro lado, o frio que fazia não permitiria tanto tempo de exposição assim, a Gabi virou picolé na primeira meia hora.
Nos despedimos do amigo hiper ativo e de lá descemos para o Museu Nacional de Belas Artes comentando de como aquele senhor tinha sido simpático. Ambos dissemos que estávamos esperando o preço da aula a qualquer momento quando de repente quem surge?!?! “O figura”, claro! Veio com um papo que tinha sido um passeio tão bom, que éramos muito cultos, falávamos um espanhol perfeito, que ele havia esquecido de cobrar pelo seu trabalho. Perguntamos sobre aquela história do "trabalho voluntário" do discurso inicial e foi aí que veio a pegadinha: quando ele disse que era voluntário, se referia a atividade de guia, em oposição aos guias do governo, e que o preço do passeio ficaria a la voluntad do freguês. Sendo assim, enfiei a mão no bolso e paguei o homem, mas que ficou um gosto ruim na boca, ah ficou... Olha ele em ação aqui:
O museu de Belas Artes é um passeio interessante. Acho que vale a pena como complemento da Recoleta. O lugar é pequeno, mas tem um acervo bastante diversificado. A maioria dos grandes mestres está representada por lá: Picasso, Miró, Monet, Gauguin, Delacroix, etc. O que mais chamou atenção foi uma exposição de fotografia de um húngaro do começo do século XX chamado Brassaï. Há uma ala dedicada a artistas argentinos que também vale a visita. Em frente ao museu, do outro lado da Av. Del Libertador está outro prédio histórico, o da faculdade de direito, muito imponente.
A última peripécia do dia foi escolher um restaurante para chutar o balde. Queríamos alguma coisa diferente das tradicionais parrillas, bife de chorizo, etc. Por indicação do blog do Marcelo Barbão fomos ao Dominga (Calle Honduras 5618), um restaurante modernete que não poderia estar em outro lugar da cidade: Palermo Soho, evidente!
Devo dizer que a comida estava nada menos que excepcional. Comecei por uma entrada de camarões com salsa picante em cama de cebolas caramelizadas e quinoa. Gabi teve um ceviche maravilhoso servido com uma pedra fumegante no meio do prato fundo para dar a sensação de diferentes temperaturas no mesmo prato. Passamos para o prato principal: carne de porco com molho de frutas vermelhas acompanhado de purê de batata e água de rosa (eu), e cordeiro com molho vinho tinto acompanhado de risoto de queijo (ela). Tudo estava muito bom e é uma pena que não tenhamos levado a máquina para fotografar e mostrar pra vocês.
Dia cheio, muito bem aproveitado.

2 comentários:

Celina disse...

Que dia intenso e surpreendente!!!!!!

Voces imaginaram que o figura em um dia chuvoso, com artrite, faixa etária evoluída em plena crise financeira no país não iria precisar de money? Amém que sacaram do bolso o famigerado e ajudaram um ser humano capaz de transmitir em apenas 2 horas a noção do pais em questão.

E a mistura de aromas da carne de porco com frutas e aroma de rosas apenas para dar " aquele" toque inimaginável.

Nos locais que eu andei reparei algumas diferenças fundamentais: toda a fiação elétrica é subterrânea o que dá o ar de limpeza e liberdade próxima ao céu(oposto a SP); os jovens estão com pouquíssimo equipamentos tecnológicos: não vi ipod, celulares magníficos e as poucas fotos que eu tirei com celular fui alvo de curiosos e observadores. Não vi peluquerias e pet shop em cada esquina. Vi muito adolescente ou universitários talvez, andando com 20 cachorros. Mão de obra braçal com faixa estária baixa ou seja muito jovem trabalhando como varredor de rua, limpeza de tubulação.....

Cada dia as fotos estão mais coloridas e fico imaginando o que verei no próximo dia.

Eu adoro a capacidade de resumo delicado das atividades diárias mas com a possibilidade de transmitir o todo do dia inteirinho.

Anônimo disse...

E ai, turistas aprendizes, ou seja, os melhores tipos de turistas que podemos desejar!

Tenho lido o blog, entre uma correria e outra, às vezes apenas um pedacinho, mas tudo segue muito bem com vocês e isso é que é importante!!

Concordo com a Celina, ainda bem que vocês soltaram uma "plata" para "a figura". Ele merece pela história contada e pelo personagem. Afinal, a foto dele com o guarda-chuva é memorável! No desenvolvimento da história, achei até que pudesse ser uma das estátuas, subitamente em vida!! Já pensaram?? Em tempos de vampiros, duendes e companhia, tudo é possível!!! Ainda mais num cemitério aéreo, com todos aqueles caixões à mostra!! rsrsrs
Estamos em Ibicity, nos veremos na segunda em Sampa!! E aí vamos às fotos e às histórias ao vivo, com ainda mais graça, porque com vocês juntos.
Beijos, curtam o finalzinho da viagem a los hermanos que isto também dá uma boa história!!!
Castilho

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