sábado, 16 de outubro de 2010

Índia

O amigo do casal, e agora do Blog, Renato Flit, conhecido como Tato, resolveu largar tudo e se aventurar em um dos países exóticos para nós brasileiros: Índia. A carta que postamos abaixo foi o primeiro relato que ele mandou de volta pra casa, direcionado a um grupo de amigos curiosos.

Com sua permissão, passaremos a postar suas aventuras (se é que ele mandará algum outro e-mail...). Esse é o primeiro post de amigos viajantes. Esperamos que outros se entusiasmem e mandem pra cá suas experiências ao redor do mundo.

Grande abraço,

Ivan e Gabi



Galera,
Desde que cheguei tô pra escrever as novidades.
Não preciso nem dizer que esse é o país mais diferente que já fui. Poderia usar pitoresco, bizarro, maluco, surreal... Experiência realmente incrível!
Vos escrevo de um povoadinho pequeno chamado McLeod Ganj ao lado de Dharmasala, capital espiritual dos tibetanos no exílio. Já estou há uns 2 mil e poucos metros de altitude e hoje devo subir mais. Vou para Manali em algumas horinhas, uma cidade dentro das cadeias do Himalaia que fica há uns 250 km daqui, o que significa umas 12 horas de bumba (!).
É exatamente por isso que não se pode fazer grandes planejamentos na Índia, você vai indo e vendo qual o próximo passo. Para vocês terem idéia, tenho 3 roteiros possíveis a partir de Manali: Caxemira, Leh ou Rishkash. Caxemira é o mais irado, imperdível e tô com um puta contato por lá de um cara que me convidou pro casamento do seu melhor amigo e que me hospedaria. O único problema é que até semana passada a situação por lá era de tumulto nas ruas, acusações contra o exército e toque de recolher. Veremos como a coisa por lá se desenrola. Leh que é a segunda opção está quase na fronteira com a China e deve estar há uns 4 mil metros de altitude, mas por conta de uma nevasca na estrada, parece que os busões não estão subindo mais. Rishkash é a capital mundial da yoga e uma das primeiras cidades do Ganges, onde ele ainda é limpo e cheio de esportes de aventura. Segundo dizem, é um dos melhores raftings do mundo...
Em Manali estou acompanhado de uma holandesa gente finíssima que conheci no busão de ida para cá junto com dois canadenses. A holandesa é oceanógrafa e breakdancer (???) e os canadenses, montanhistas. Aliás, um deles de origem iraniana suava mais que um porco no cio (como diria o Schattan). Bicho, o cara torcia a camisa de suor a cada 10 minutos de trilha. Mas ontém foi suadeira mesmo! Um dos canadenses resolveu que iríamos atravessar Baksu (um vilarejo cheio de israelenses há 2 km daqui) e ir pelas cachoeiras. Até aí beleza! O foda é que o cara colocou como objetivo subir o outro lado do Vale, algo em torno de 1 km pra cima, o que na prática seriam uns 3km serpenteando a montanha até chegar no cume (ao todo foram uns 10km).
Cara, o Himalaia é pontiagudo, as subidas são íngremes e obviamente quando chegamos lá em cima, veio a chuva. Sem comida, de shorts e com as pedras que na subida estavam secas começando a virar pedra-sabão. Resultado: dor de garganta e ficou barato! (fora as dores no corpo por causa da aula de yoga que fizemos por aqui: eu comecei a rir uma hora em que o professor fez uma posição que eu num sabia nem como começar... O professor só faltou levitar...). É curioso quanta gente está em busca de conforto espiritual nessas bandas, seja via meditação, montanha, yoga, budismo, sei lá.
Aliás, o que não falta aqui é budista. A população já vai ficando cada vez mais “achinezada” quando você vai subindo e na montanha o assédio aos ocidentais alivia um pouco. Vocês não tem idéia de quanta gente já pediu pra tirar foto comigo ou perguntou de onde eu sou, ou simplesmente me filmava num ponto de ônibus. Pros indianos, ter amigos ocidentais é sinal de status, de modernidade, de prosperidade. Eles não tem muita idéia de mundo, mas sabem que nós estamos melhores (a pobreza aqui é um capítulo a parte). Chega a ser engraçado porque por mais que seja cansativa a abordagem, ela muitas vezes é ingênua, completamente desinteressada, cheia de curiosidade. Com as mulheres já é diferente: eles acham que é tudo puta! (até mesmo porque com as indianas num dá...hahaha).
O estilo de vida não tem nada a ver com o que estamos acostumados. A vida aqui te estressa os sentidos, se é que existe essa expressão. Você vive no limite do barulho, do paladar, de todos os sentidos. Só pra exemplificar: os caras não tem a noção de privacidade que nós temos, então encostar (muitos homens andam de mãos dadas com os amigos), empurrar, pegar alguma coisa alheia pra ver é normal. No começo, você fica puto, mas depois vê que é assim mesmo. O cara que veio comigo no avião era o melhor exemplo: ele simplesmente pegou meu travesseiro pessoal pra ver como ficava nele. Quase mandei o cara à merda. Mas depois vi que além disso ele comia com as mãos e jogava todas as embalagens que descartava no chão do avião...hahaha... O avião tava um lixo em volta da gente...
Esse negócio de castas é foda também! Os caras realmente se dão ao direito de não tirar sua bandeja do McDonalds nos shopping porque são de uma casta superior.
Higiene incomoda, mas é de boa. Já comi até na rodoviária, dá pra se acostumar. Água é que tem que tomar mais cuidado mesmo. Acho que a galera tem muito piriri por aqui por conta da pimenta mesmo. É surreal! Em Chandigardh estávamos em um grupo grande e resolvemos sair pra comer de madrugada. Mano, a única coisa que você não quer as 3h da manhã (já que num tem Hobby aberto) é comer vegetais com curry. E se você pede sem pimenta eles quase riem. Foda!
Mas num posso reclamar da comida: em muitos lugares tem muita comida ocidentalizada, cheguei até a comer no Fridays (na vasca) com o Luís, amigo brasileiro que trampa em Delhi e me hospedou na sua casa. O cara foi um irmãozão assim que eu cheguei. Fiquei numa suíte com cama de casal no apê dele, com conexão de internet num dos bairros mais chiques de Delhi. Na verdade, quando eu falo isso você tem que ter em mente que estamos falando da Índia, ou seja, a rua não tem asfalto, o prédio tem tratamento de água próprio pros condôminos (já q você não pode usar água da rua nem no bairro nobre). Mesmo na casa dele, os picos de energia são constantes, dada a instabilidade da corrente. Aqui tudo é feito meio nas coxas, no trambique, na barganha, até as coisas mais tabeladas, básicas. Fui comprar um celular e barganhei o valor da conta. Ou quando comprei minha conexão de net sem fio que os caras sequer me deram contrato e a parada só começou a funcionar tipo uma semana depois. É assim mesmo, não adianta estressar... Teve um dia que estressei com essa parada da net e liguei no HelpLine da companhia: o inglês dos caras é tão inteligível quanto o meu japonês. Eu não conseguia entender o jeito como o cara soletrava a minha senha de acesso!
Tirando o estresse, é divertido! Tudo pode acontecer: O taxi é, na real, uma moto com uma carcaça com um motorista que não tem a menor idéia pra onde tá indo. Ele simplesmente diz pra você subir e vai rodando. O cara pára no meio das ruas pra perguntar e vai se aproximando. Então não dá pra ter pressa! Quando cheguei, o Luís (brazuca que me recebeu) me indicou uma cia de taxi. Liguei e chamei o taxi. Uns 40 minutos depois não havia chegado. Desci e vi que na frente do prédio tinha uma placa indicando uma cia de taxi. Legal, era um telemarketing de taxi. Entrei no telemarketing e pedi o taxi. O cara pediu pra eu introduzir os meus dados no Excel enquanto ele ia ao banheiro...hahaha. Ou seja, até pedir um táxi foi bizarro. Tive que entrar num telemarketing e sentar na cadeira de uns funcionários pra colocar meus dados...hahaha. Quando você pega o táxi é que se dá conta da zona: tem árvore no meio da rua, o transito é maluco, pra onde quer que você vá te pedem esmolas dentro dos carros, você desvia de mil vacas no caminho e acha que vai morrer a cada 5 segundos porque na rua simplesmente não tem mão... Sem noção! É muito, muito difícil dirigir aqui! A quantidade de buzinadas é insuportável.... Ah, e como os indianos não falam inglês você acaba aprimorando suas habilidades de “Imagem e Ação”, virou meu passatempo favorito.
É tanta coisa que fica difícil descrever: como assim você pede uma salada Caesar no shopping e vem com chocolate? Ou como assim você vai subir pra estação de metro com a escada de entrada descendo e a galera vai correndo contra o sentido pra entrar na estação? Como assim você está andando na rua e, de repente, uma vaca vem comer o pão que você ta levando na mão?
O governo é por estado, só que cada estado é como se fosse um país (você paga pedágio, tem idiomas distintos, alguns estados proíbem álcool e tudo), as estradas demoram umas 6 vezes mais do que deveriam demorar porque os carros são um lixo, os caras simplesmente param no meio da estrada (!) pra pedir informação, fumar,...
Qualquer trem sai com galera pendurada do lado de fora, qualquer estrada tem povoados de milhares de pessoas a cada 5 km. Dizem que sub-notificação de nascimento na Índia é muito grande: ou seja, são bem mais de 1,2 bi de pessoas que é a estatística oficial.
A pobreza assusta também. Uma pobreza escancarada, uma miséria crua, seca, árida. O cara sem perna andando de skate, galera revirando lixo e disputando restos com vacas, mendigos deitados nas estações de ônibus, cachorros perambulando com doenças dentro de lojas... Mano, você fica desorientado!
As coisas tem passado rápido, tenho tido sorte e acho que tá valendo muito a pena. Mais legal ainda é que já estou com a perspectiva de começar a trabalhar no fim do mês, o que me dá ainda uns 20 dias de viagem pela frente. Nem acredito que já estou indo pra minha quarta cidade na Índia!
Depois de Chandigardh (capital de Punjab, uma cidade planejada pelo Le Coubusier, lembra bastante Brasília pelo concreto, rotatórias, espaços livres,...), Amritsar e Dharmasala, agora vem Manali por aí. Meu busão sai em 2 horas e tá uma puta chuva, aliás, aqui o clima é foda: ou chove ou neva ou faz um calor insuportável. Na real, espero que o busão saia mesmo às 5h, porque aqui 5 e 7 dá na mesma. E se o motorista tiver com piriri o bumba nem sai...
Eu já tô escrevendo há uma hora e lembrei que nem falei de Amritsar, capital da religião Sikh. Os sikhs sao um povo amigável que usa um turbante na cabeça e que prega a união das pessoas. Uma religião meio do tipo paz e amor: todos são bem vindos, você dorme no templo dos caras, trampa na cozinha voluntariamente e come de graça (não garanto que a qualidade seja boa, mas beleza) e fica por lá perambulando. Interessantíssimo! Não há como não ficar ao mesmo tempo surpreso com a hospitalidade e com a bagunça. O pico é a Meca dos caras, não fecha, o templo é 24hs por dia cheio, a cozinha não fecha e as tradições são malucas. Tem umas de levar pasta de amendoim com manteiga numa folha de “não sei o que” que é uma oferenda. Tem que tirar o sapato, andar descalço e com a cabeça coberta (bandanas obviamente são vendidas por 10 rúpias ao redor do templo).
Uma cosa legal de Amristsar é ir pra fronteira com o Paquistão. Lá tem uma espécie de cerimônia ridícula de troca de guarda na fronteira que leva milhares de pessoas diariamente pra torcer. É tipo torcida de futebol mesmo! Isso eu acho que só dá pra descrever com vídeos. E não sei porque os que eu fiz tão sem som... Isso vocês tem que ver!
Os deuses hindus são outra parada maluca. Ou você entra na "fantasia" deles ou o negócio chega a parecer maluco, ate engraçado. São mais de 160 deuses, alguns são crianças, outros são elefantes que voam, outros que são apenas criancinhas com roupas de sultão, sei lá.
O aprendizado é gigante, o inglês tá melhorando, você aprende a respeitar a cultura milenar dos caras e dá um jeito de se virar porque não tem outro jeito...
No mais, tem um monte de mochileiro (vários israelenses como sempre) e gente interessante que acaba cruzando seu caminho e tornando a viagem uma jornada surpreendente. Os preços também são super convidativos pra quem quer dar rolê no mundo: paguei 2,3 dólares para dormir cada noite aqui em Dharmasala, 1,5 dólar pelas 2hs de internet, 4 dólares num cobertor irado, 4,5 dólares na aula de yoga de 2 horas e por aí vai.
Já tenho até telefone celular.
Acho que no fim das contas, a melhor coisa tem sido essa sensação pessoal de estar vivo, de fazer valer a pena, de se aventurar, de estar aonde se quer estar, de decidir sua vida por si mesmo, de saber que a vida pode ser bastante grata com quem tem gana de correr atrás e que em breve novos e velhos amigos estarão me acompanhando por aí.
Índia é uma país diferente, complexo, bonito e meio bruto. Tem que vir!
Abraços e beijos,
Tato
Ps1: tive que reescrever esse email 2 vezes por causa de pico de luz...
Ps2: começou a chover granizo...acabou de passar um turista com o guarda chuva furado...hahaha
Ps3: demorou mas chegou: o primeiro piriri a gente nunca esquece...

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