sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Notícias da Índia III

Mais um relato incrível do amigo Tato. Já estamos com saudades!
Galera,
Primeiro devo confessar que tenho sido um pouco displicente, digamos assim. Fui deixando mil histórias se perderem pelo caminho, porque não sou lá o cara mais disciplinado do mundo para documentar e nem congitei parar minha trip para escrever. Ou seja, melhor viver que contar. Mas hj sobrou tempo e uma certa vergonha na cara pra atualizá-los. To tomando café da manhã num pico maravilhoso em Goa (praia de Palolem para quem quiser ver as fotos), nada mais inspirador! É uam espécie de Bahia dos anos 80, mas com muitos turistas ingleses, russos e israelenses, o que enche bem o saco!


Aliás, existe a lenda de q aki se fala português e tem natal. Tô pra ver. Um amigo que veio pra cá disse que colou num velhinho pra trocar idéia e o cara disse que só os mais velhos falam português...Meu amigo perguntou a idade daquele senhor. Veio a resposta: "78"...hahaha. Acho que vou ter q ir pro asilo pra falar português por aki entaum.

Falando em falar português tem coisas q acho q só acontecem comigo. Vi um cara falando português de Portugal de longe e fui pedir informação. Mano, o cara era gago: "A hospe-pe-pe-dadagem é mui-mui-..." Portuga e gago...hahaha. Virou meu broder aqui! Outro que virou meu broder aqui é o rabino local. Pois bem, tem casa judaica aqui e o cara era bem gente boa. Fiz o cara se convencer que a Torá tá errada...hahaha. Na real, é um dos raros casos de rabinos abertos ao diálogo. Desses que toca violão, fuma maconha e pede ajuda pra cozinhar algo brasileiro pro Shabat. Virou broder tb!

Passei por Mumbai antes de chegar aqui. Mumbai é uma loucura! Nunca vi nada parecido! É uma São Paulo quase que só de favelas. O mar é porco. O Trânsito insuportável! A poeira em suspensão combinada com a poluição já te alerta para os riscos de respirar em uma grande cidade indiana. Ratos se acumulam nos trilhos de trem a céu aberto. E pessoas se expremem para entrar no trem, que, na hora do rush, é quase inadentrável! Em uma das vezes fui pendurado do lado de fora e é assim mesmo, num tem jeito. Assim que perdi meu celular que caiu do meu bolso. Pois bem, já fiz um novo chip (1 dólar + 25 doletas do novo aparelho). Novo número é +91 904 924 7097. Mas como ninguém vai me ligar aqui não faz lá mta diferença (Tato em momento meio carente)... Detalhe divertido é q qdo comprei meu aparelho, eu tinha 1100 rúpias no bolso e o aparelho da Nokia custava 1200. Solução: o cara abriu a caixa e tirou o carregador (eu já tinha um)...hahaha... Qdo vc ia conseguir algo assim no Brasil em uma "loja oficial"? É por essas e outras que a Índia pode te surpreender todo dia...

Meu porto seguro em Mumbai foi Colaba, parte sul da península. Lá vc pode conhecer os lugares dos atentados terroristas de 2008 (o hotel Taj e o restaurante Leopold - tipo um Sujinho da Consolação), o famoso India Gate, comer comida ocidental de primeira, comprar bugigangas em mercados para turistas e ir ao parque (uma espécie de Central Park de Mumbai) onde 70 partidas de cricket são jogadas ao mesmo tempo. É loko q vc nem sabe de onde vem a bolinha...só vê uns indianos correndo pra lé e pra cá, batendo cabeça, reclamando e etc.

Uma das partes mais interessantes foi conhecer o escritório do Hub Mumbai (escritório de empreendedores sociais presente em Sampa tb) e ir a favela Dharavi, considerada a maior da Ásia. Graças aos contatos do Alex, fomos na vasca e fomos recebidos por uma ONG local com pompas e honrarias. A favela é assunto pra uma reflexão maior. Mas vale apenas dizer q não é muito diferente do resto da cidade e nem é exatamente uma favela (pelo menos por onde o tour nos levou): era uma zona de industria de migrantes sazonais vivendo em condição semi-escrava em industrias de plástico. Essa conversa é mais longa...

Em Mumbai ficamos na casa de uns AIESECs. Nada mais insuportável! Na boa, num tenho mais saco pra compartir geladeira ou pra ver um moleque reclamar que acha um absurdo a colombiana trazer tantas visitas para a casa. O mais chato, sem dúvida, era o brasileiro e o mais legal um lituano. Mó identificação! hahaha... Mumbai vale pelo falafel, o parque no norte da cidade (um Ibirapuera mal cuidado, nada demais!), a muvuca, Colaba e pra ir ao médico...hahaha...essa história é boa!

Tava zoado de garganta (pra variar). Resolvi ir ao médico com o Alex. Primeiro que era domingo e rodamos mais de uma hora para encontrar um hospital. Como indiano dá informação precisa é capaz de vc ficar dando voltas no quarteirão indefinidamente... Juro que chegamos a passar na frente do hospital e não o reconhecemos. Na real, foi um prédio que eu parei para "tirar água do joelho" (deu pra entender né?) minutos antes de saber que ali era o hospital. Beleza. Vc entra, num tem recepção, num tem nada. O prédio nem é branco por fora, como estamos acostumados. Subimos ao primeiro andar. O elevador quando pára começa a tocar "Chorando se foi quem um dia só me fez chorar..." Lambada brasileira em elvador de hospital, só na Índia mesmo. Entramos no consultório. Era um consultório privado, mas eu achava que o hospital era público. Não estava entendendo. Comecei a discutir com a moça da recepção:

- Quanto é a consulta? - pergunto eu
- 300
- No boss, too much! - falo isso pra todos os motoristas de rickshaw da cidade que tentam te sacanear ininterruptamente
- This is the price. Yes or no?

- My friend went in Hyderabad to see the doctor... It was 150 with all the medicines included! - usando aqui a velha tática de usar referências terceiras para baixar o preço (mas era verdade mesmo). E levei o Alex comigo que é de Hyderabad pra ficar fazendo que sim com a cabeça. Detalhe: nesse momento estava barganhando reduzir o preço de uma consulta médica privada de 6,5 dólares para 3,5 dólares. Shame on you, Brazil!
- Sorry, here is Mumbai...
- Oh yeah?! So, what is the speciality of this doctor? - mando eu naquele meu inglês enroscado e desafiador
- I am the doctor!
hahaha. Eu tava barganhando com a doutora. Eles não tem recepcionista. Ou seja, a mulher que tava lendo a revista "Caras"na porta do consultório vestida com roupas típicas indianas era uma puta doutora (cheia de diplomas na parede, fotos de operações com médicos famosos e etc). E tudo isso ao som de lambada brasileira pq o elevador ainda estava parado no nosso andar. Claro que a consulta rolou ao som de lambada e com a doutora correndo pra atender o telefone a cada 5 minutos (afinal não havia recepcionista). Era infecção. Recomendou antibiótico: 2 dólares 3 cápsulas de Azitromicina. Shame on you again, Brazil!


Antes de Mumbai, passei por Pune, uma das 4 bases militares da Índia, muito famosa pelos Ashrams (alguns no meio da cidade) - espécies de retiros espirituais que tentam reequilibrar os sentidos das pessoas por meio de yoga/meditação/silêncio/boa comida orgânica e/ou vegetariana. Enfim, não fiz nada disso. Não daria tempo. Talvez o faça mais pra frente. Na real, fui pruma aula de yoga em um dos Ashrams, cujo dono é amigo de um indiano que conheci no Filial uma semana antes de vir pra cá (loko como tudo deve ter algum sentido. Ou não...). A aula foi massa, bem mais beginer que dá outra vez e me senti bem melhor fazendo. Já não emiti sons pelo menos como em Dharmashala, qdo uma menina virou e pediu para q eu fizesse yoga em silêncio...hehehe (aqui em Goa tem massagem na praia por uma hora por 9 dolares...vou ter q fazer, num tem jeito!)

Pune foi minha primeira experiência de couch surfing (site em q vc compartilha sofás pelo mundo, ou seja, vc abre sua casa e é recebido. Maioria é mochileiro e a ética da parada é o tradicional "uma mão lava a outra": ajudar para ser ajudado). Na verdade, foi sem querer. Uma amiga que é couch surfer me indicou um cara aqui. E por tabela caí na casa do cara. Um achado! Cara gente fina, conhece todos os Djs da cidade (leia-se: balada na faixa! tá bom só fui uma vez e nem foi tão legal assim, mas quem conta um conto...), já teve um bar em Goa, fala inglês inteligível, trampa com TI (das 9pm às 4am) e me ajudou até com os rickshaws (akelas motocas de 3 rodas que querem sempre te enganar...). Resolvi tentar o mesmo rolê para Goa e consegui (mas o cara mora bem no norte de Goa, tipo há umas 5 horas de onde estou). Pensei em ir pra lá nos próximos dias. Veremos se dá certo... Se a moda pega, não gastarei mais um puto com estadia (mas precisa se planejar, o que eu nunca faço).

Uma coisa que senti um pko mais forte em Goa é a falta de saco pra fazer amigos. Depois de quase 3 meses dá preguiça de tentar fazer amigos. Conversei com algumas pessoas sobre isso e é normal. Tem a ver com o fato de, por exemplo, não conseguir entender oq o escocês quer dizer com um inglês inacreditavelmente travado e, ultimamente, desistir. O mais chato é que muitas potencias amizades acabam antes de se concretizarem por circunstâncias de desencontro, limitação de tempo ou mesmo casualidade. Enfim, acho que não posso reclamar. Viajo hoje sozinho e até esqueço disso. Sempre penso nas lições do saudoso Ricardo Altman: "e se der merda, oq pode acontecer?" Nada. Uns rolês a mais, uns 10 dólares a menos e sem estresse.

Você não pode se estressar na Índia. Não funciona! Acho que esta é uma das principais mudanças que ocorrem durante o processo de um mochilão por aki. E aí vc começa a diferenciar quem sabe mochilar aqui e quem não entendeu ainda como a coisa rola por aki. O Alex, por exemplo, apprendeu a falar ""snerretudu" ("somos amigos" em Telugo, língua de Hyderabad) e pronto! Conquista metade dos rickshaws com esse lero. Quem se estressa manda o rickshaw a merda no primeiro preço que ele te oferece, que normalmente é completamente abusivo. Quem se vira bem, ri da situação e segue em frente.

Não digo que virei um monge. Mas passei por coisas absurdas aqui! Uma mina gorfou no meu mochilão todo vindo pra Goa (e claro q o cheiro fétido fez com q outras pessoas fizessem o mesmo durante a viagem). Ainda puta que eu reclamei com o motorista do busão para que o cara parasse pra limpar pq ainda teríamos mais de 6 horas de viagem e o busão começava a feder, a mina grudou um chiclete na minha mochila. Foda! Passei o dia de ontem limpando meu mochilão, um pé no saco.

Outra coisa q me tira do sério é a desorganização com coisas muito simples e q, no fundo, me fazem desacreditar no próprio desenvolvimento daki (desenvolvimento de alguma maneira exige instituições, ordem, racionalidade,..). Tem dia q vc comprar um ticket de trem e a única coisa q vc espera é pegar o trem de forma fácil, eficiente. Justo o contrário! Os caras sequer colocam qual a plataforma do trem q vc vai pegar no ticket. Pq não, catso? E vai pedir informação pra indiano qdo vc tá atrasado? Os caras respondem qq coisa, não entendem as coisas mais elemntares e ainda por cima, por vergonha de não saberem, te indicam qq lado. Em algum deles, vc tem q confiar.

E o pior: tem mil pessoas te encostando, cutucando ou te secando (como eles fazem o tempo todo). Me lembro de uma mina q já tava estressada no meio da estação indo pedir informação e os indianos se amontoando em volta. Deu muita dó de ver a mina gritando em italiano... Tem dias q a galera perde a compostura. Como diz o Alex,, de vez em qdo parece q estamos em outro planeta.

Tô com outro email quase pronto (portanto, leiam esse email logo que tem mais!) sobre uma boa parte da viagem que pulei nesse relato: final do Nepal, Bangalore, Hampi, Hyderabad, camping com a ONG, o filme de Talywwood que fizemos,... cenas dos próximos capítulos! Acho q até domingo mando as novas (meio antigas...hehehe) pra vcs! Enquanto isso, se vcs quiserem ver alguns vídeos antigos sobre a troca de guarda na fronteira ÍndiaxPaquiestão:

Namastê!
Tato

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