domingo, 16 de janeiro de 2011

Índia IV


Mais um relato das vivências incríveis de Tato Flit. Nós aqui com saudades nos deliciamos com essas aventuras pouco convencionais, agora regadas com imagem e som. Aproveitem!


Galera,

Em primeiro lugar feliz ano novo! Já estamos em 2011, nem dá pra acreditar! O irmão do Eitan já é maior de idade, já tem amigo meu fazendo o primeiro milhão, o João vai casar, a Lyca já se formou na faculdade e ainda não lançaram os carros que voam. Na Índia, tudo segue na mesma. Divertido, estressante, incompreensível, imprevisível, surpreendente! A Índia é uma mescla de tudo aquilo que você jamais faria com tudo o que você sempre teve vontade de fazer! Como diria o Alex, a Índia é uma quebra de paradigmas: já comi em lugares em que jamais cagaria...hahaha

Começarei esse email um tanto quanto youtubescco (sim! baixei vários dos vídeos q estavam na câmera pro Youtube...) pra vcs verem como a Índia pode ser divertida. Esses primeiros vídeos a seguir são candidatos ao Pânico. Apenas uma breve explicação: esse senhor conhecemos num dia em que fomos ao ponto mais ao sul da Índia. Uma viagem de 80 km de ida e mais 80 de volta que nos tomou nada menos do que 10 horas. Paramos em uma praia onde não tem absolutamente nada pq o estresse tava grande no carro. Claro, havia um bêbado...


Comecei esse email em um ferry boat entre Kollam e Alaphi. 8 horas e meia de tédio puro pelos canais que ligam essas duas cidades (cerca de 1,5hora de trem). É um ferry bem turístico com todos os aposentados suecos que vem passar as férias aqui. Serve para atualizar a vida: vi um filme no laptop, li 2 capítulos do meu livro e escrevi esse relato. Para não ser injusto, o passeio vale a pena pelas paisagens (com o tempo a coisa fica meio monótona e - como tudo na Índia – as paisagens são mais bonitas de longe). De ferry, a única coisa que lembro é que fiquei puto pq na minha vez acabou o almoço. Sempre curto ser o último da fila pra ver oq tá rolando e deu no que deu. Na minha vez, o cara do bandejão da ilhota em que paramos disse que eles haviam dimensionado mal a comida. Sussas, não? Bemvindos a Índia! Não me estresso, mas lembro de ter escrito o princípio desse mail com uma fome absurda. Fecho ele aqui do Ashram.

O Ashram ta sendo uma experiência surreal. O balanço é bem positivo. Já faz 6 dias que me fechei aqui para um retiro espiritual e para conhecer a Mother Amma, segundo vários disípulos, encarncação divina, uma alma realizada, um espírito pleno. Ela é conhecida pelos darshan (abraços energizadores que, segundo muitos, muda a vida das pessoas) e pelas boas açoes. Tentar descrever o abraço é difícil, a sensação foi diferente. Para muitos foi só burocrático. Outros dizem que faz efeito no longo prazo. Não importa! O que importa é que isso é um misto de seita, filosofia, religião, mistificação, espiritualidade, meditação, devoção, kibutz, sei lá. Ontem, por exemplo, recolhi o lixo reciclável do Ashram como parte do meu trabalho "seva", ou como diz a Amma, trabalho desinteressado. É uma cidade aqui. Anteontem a Amma estava aqui e havia nada menos do que 5 mil pessoas vivendo nessa comunidade. É muito doido explicar! Gente de todo o mundo: dos hippies catastrofistas aos mochileiros de primeira viagem que nem eu. A primeira impressão foi d um shopping center, depois de caos, depois de veneração excessiva à imagem, depois de reorganização de tudo isso na minha cabeça. Tem q ver as coisas de um ponto de vista! A mulher é realemnte impressionante, reconhecida mundialmente. Essa conversa tá fresca na minha cabeça, mas não quero tomar o tempo de vcs só com isso...
Na real, esse período mais recente desde o Natal tem sido de férias puras, num sentido mais indiano claro. Fui para lugares mais católicos em Kerala (Kerala é o Estado indiano com os melhores indicadores sociais), de praias do Mar Arábico (me sinto o Macgayver dizendo isso!), em que existe a idéia de festa (pelo menos a idéia pq na prática, já vos contarei...), aonde comer comida ocidental é prática inclusive entre os indianos (calma! Você nunca se salva por completo de um ultra spicy inesperado) e aonde o mar dá uma sossegada na vista, até então acostumada com lixo, pobreza, lixo, pobreza (não necessariamente nessa ordem). Aqui tenho comido mais seafood, conversado com “indianos mais normais” (vc identifica um qdo ele pára de olhar pra vc em menos de 10 minutos, qdo ele não é um possível estuprador, qdo ele sabe falar inglês decente ou qdo ele, pelo menos, sabe aonde é o Brasil) e feito uma rotina mais preguiçosa. Em Goa passei 10 dias, em Kovalam uma semana e em Varkala mais uma semana. Lugares em que acordei tarde, fiz amigos, fui pra praia e comi bem (dica inútil: empanada de chapati na Black Beach em Varkala)

Esse período mais recente de Goa a Varkala que chega até Alaphi (semana passada) contarei com mais calma no fim do email. Só queria atualizá-los de todo o resto da trip que acabei pulando/não contei por motivos logísticos. Quando lembro desses lugares, lenbro de pessoas bem especiais que conheci no meio do meu trajeto. Algumas fui revendo inesperadamente, o que é bem interessante na Índia. Gente que conheci há 2 meses no norte do país se reecontra numa praia deserta do sul da Índia num restaurante de comida thai. Acho que o tesão maior está em conhecer pessoas. Lugares quando se está sozinho perdem um pouco do sentido, porque não tem compartilhamento. Das pessoas mais especiais: casal boliviano que mora na Bélgica e descobriu uma brecha pra "trancar" seus trabalhos por uma ano pagos pelo Estado Belga, dois amigos argentinos de infância que são completamente opostos (um malabarista nos semáforos de Barça, o outro economista e fazendeiro. Muito loka a combinação!), uma irlandesa perdida que se juntou ao grupo, não falava um pingo de espanhol e era a que mais ria das piadas, dois eslovenos produtores culturais que tinham uma puta vibração loka e curtiam comer que nem uns porcos (claro, sempre com uma breja na mão e gargalhando alto. Pela primeira vez na Índia, consegui gastar tipo 35 reais num restaurante...), dois atores brasileiros que encontrei aqui no Ashram (um deles morando num teatro na Itália). Meu próximo destino será acompanhado de um irlandês e um israelense que, por coincidência, os encontrei na porta do Ashram e já se foram para o meu próximo destino: Kumali, parque nacional de Tekedi (detalhe: o irlandês é tão maluco que esqueceu metade das roupas dele na lavanderia do Ashram. Por sorte, tô eu aqui pra salvar a vida do cara e levar as roupas dele para Kumali...)

Recapitulando: da última vez que escrevi ainda tava no Nepal começando minha jornada. Pois bem, já voltei do Nepal pra Ínida, fui pra Bangalore aonde comecei minha parte mais "trabalho" da trip, fui num fim de semana pra Hampi (trombei o Alex por lá, figura q tem se repetido nos meus rolês desde então), acampei com crianças de uma favela de Bangalore por um trampo voluntário por 3 dias (insano!), gravei um filme de Tallywood como figurante ("Ayyeré" que será lançado em 2 meses!) e ainda fui pra Hyderabad na casa do Alex por uma semana, antes de chegar em Pune e Mumbai. Mumbai já contei no último email. Meu roteiro tá meio irregular para quem vir um mapa da Índia (pretendo mandar um mapa da Índia com tudo o que já fiz), o que se explica por eu ter ido para sul trampar e abortado a missão no meio do caminho.

Só para esclarecer: o trampo que eu arrumei demandava mais tempo do que eu dispunha e Bangalore (cidade aonde ficava o escritório da ONG) foi a pior cidade até o momento. Em 2 semanas, conheci apenas 2 pessoas. Solidão total no meio do pior do caos urbano. Segui viagem. Mas de um modo diferente. Aproveitando cada um dos contatos profissionais que se abriram no setor de social business para conhecer mais do setor. Aqui isso tá bombando! Cheguei até a ir num evento em Hyderabad sobre o tema e tenho feito bons contatos com gente bem legal (fiquei bem feliz de ir ao Hub Mumbai e ser reconhecido por algumas dos empreendedores que trampam lá e que me viram no evento).

Voltando lá atrás na viagem: quem não foi ao Nepal, tem q ir! É sensacional! Lindo! Depois do Brasil, não lembro de outro destino que tenha me encantado tanto pela natureza (talvez Cuba). Por lá, mais da metade do meu tempo passei no treking para Anapurna Dolaguiri ( a 8a montanha mais alta do mundo). Fica dentro das cadeias de Annapurna, mas é bem menos turístico (o rolê de Annapurna pode durar até 21 dias e ultimamente anda bem crowdiado). Foi incrível! (e um pouco salgado também: 8 dias de treking por 550 dólares) Fomos ao ponto até aonde dá pra chegar, tipo um base camp da montanha, a 5.200 metros de altura. Aprendi oq é ter asma nesse dia! Deve ser a mesma sensação: dificuldade de respirar é bizarra, seu corpo treme pelo esforço (subimos de 3700 para 5200 de altitude num mesmo dia e descemos, 16 km de caminhada no mesmo dia) e o frio aonde não há sol já me dá arrepio. A noite a temperatura baixa de zero e pra dormir é aquele esquema "segura se precisar ir no banheiro" pq se não congela tudo.

O grupo que formamos foi bem heterogêneo, desta vez nenhuma biba maluca querendo descer do camelo: 2 dinamarqueses, 1 belga, 1 americano, 1 suíco e eu. O americano, além de ser o melhor fotógrafo que eu já conheci, tem um blog em que conta dia-dia nosso treking. O cara só confundiu minha mãe com meu imrão na hora em que escreveu sobre mim. Mas vale a visita tanto no blog como no flicker dele.

No Nepal, conheci um dos caras mais interessantes da trip. O famoso espanhol de quem já comentei com vários de vcs q faz urinoterapia e cruzou o Atlântico como cozinheiro de um veleiro, sem sequer ter feito qualquer outro trampo de cozinha na vida. O cara caiu em Recife no meio do carnaval. Com 30 anos esse cara fez mais do que 99% das pessoas que já conheci. Além de beber xixi, o cara fez teatro, cozinha, navegação,... Quando o conheci, estava perdido pelas montanhas do Nepal sozinho, sem guia (lá tem trilhas, claro, mas é bem fácil de dar merda), enfim, mais um Macgayver da vida para quem eu e o Raul Gil tiramos o chapéu.

Acho da trilha em si oq ficou de mais divertido foi a emoção de todos se abraçando e dançando ao chegar no topo, oq foi documentado pelo americano. A dança era quase uma tentaiva de resignificar tudo aquilo. Pq é inevitável chegar lá semi-morto e se perguntar "pra que?". A reflexão mais interessante é uma que o Resão sempre me lembra: nós que inventamos objetivos pras nossas vidas. Não há um sentido. Não tem porquê salvar pobres ou escalar montanhas. Mas o ato de desafiarmos a nós mesmos é o que nos mantém vivos.


De volta a Índia ou a "classe sem professor", conforme apelido que um amigo israelense deu pra Índia, trombei o Gustavão no mesmo avião... Cara, imagina vc tá voltando de Kathmandu pra Índia e aparece um broder seu na porta de desembarque...hahaha... Passamos umas 3hs juntos pq ele foi comigo de metrô pra cidade de Delhi conhecer o Chandi Chowk, o mercado público no centro de Delhi. Horas de risadas, boas histórias do Nepal, todo mundo fedido e cansado, mais magro, mas super feliz! Não preciso nem dizer q ao voltar pra Índia passamos um perrengue básico que nos custou bem caro: o taxista nos deixou bem longe do combinado, tivemos que pegar o metrô de Delhi na última estação. É bem pior que sair de Iaquera para chegar na Vila Madalena, acreditem!

Depois de Delhi, Bangalore. Bangalore, em síntese, é uma cidade que me tratou muito mal. Uma cidade na qual tentei simular uma vida mais longa e em poucos dias, desisti. Imagino que é como um turista chegando em SP sem mapa, sem amigos, sem falar a lingua, buscando casas pela internet, pegando taxistas que não te entendem, não encontrando áreas de lazer, preso no trânsito. Mas foi a cidade que me permitiu resolver várias burocracias da vida (tipo mochilão, óculos e etc) e me fez abrir ainda mais os olhos pra negócios sociais e pra saudade que me deu de viajar. Duas semanas parado e já queria me jogar da janela. Passei dias sem nada para fazer, contando as vezes que o meu vizinho indiano de quarto vinha bater a minha porta pra me apresentar seus amigos.

É um caldo de cultura interessante pq é uma cidade que convive com a modernidade sem saber muito como. Tem festa, mas fecha tudo às 23:30. Foi em Bangalore tb que assisti ao meu primeiro filme em hindi, muito muito engraçado (ahh...tem intervalo no meio do filme e os caras quase se escondem qdo pode pintar uma cena mais quente). Lá em Bangalore q tb começaram a aumentar os custos da trip. Uma merda a vida na cidade grande. Ainda mais na Índia quando vc está hospedado em um lugar com baratas, em q o vizinho de quarto cozinha todo dia alguma coisa com alho e cebola (sim, ele montou uma cozinha no banheiro dele) e na rua de trás tem uma mesquita que acorda todo o bairro às 5 da manhã. Sussas, não?

Em Bangalore, entre os contatos que fiz, conheci uma ONG que me ofereceu um trabalho voluntário que adoro fazer: ser monitor de camping. Sobre o acampamento com a molecada, fiquei até ansioso, pq tive q me comunicar com a molecada sem sequer falar a língua deles (tudo oq eu já sabia de hindi não serviu de nada pq em Bangalore a língua é o karnnadá). Fazia mais de 5 anos que não era monitor de acampamento (saudades...). Na real, foram 44 crianças da faixa de 8-10 (idade excelente!) e num pico maravilhoso. O lugar é conhecido por ser um pico para escalada de paredão e eu nunca fui lá muito bom nisso... O maior sucesso com a molecada foi o hit "fala bum ti ca bum!" por incrível q pareça. Bons links de vídeos: Primeiro, segundo e terceiro.

A verdade é que tem coisas que vc nunca vai entender na Índia. Hoje comprei uma pasta de dente. Custava 47. Entreguei uma nota de 50. Perguntei se o cara queria mais 2 rúpias para ficar 52 e ele me devolver 5. Básico. Na real, um parto. Mostrei as 2 rúpias e o cara fez sinal para que eu as entregasse. O cara me devolve 5 de troco em moedas. Porra, mano! Era a mesma coisa que me dar 3 de troco em moedas, ora bolas. Ele simplesmente me devolveu minha moeda e deu mais 3. E não foi a única vez em que isso me ocorreu.

Outro dia aqui em Bangalore fui atrá de mochilão. Graças a Trilhas e Rumos e ao sobrepeso (acho que meu mochilão de 70 litros já tinha sido expandido para mais de 100 faz tempo), a costura rasgou. Cara, se vc imagina que vc está numa cidade de shoppings, estrangeiros, lojas, comércio farto, na parte mais central da cidade, vc deveria achar um mochilão com uma certa facilidade, certo? Óbvio que não. Bem vindo a Índia! Vc não acha nada pela internet... Se achar, vc não entende como chegar pq os endereços são um capítulo a parte (o guarda da esquina da rua não sabe nem aonde ele tá, as ruas não tem numeração, não tem placas, tem nomes duplicados em outras partes da cidade, perde-se muito muito muito tempo em deslocamentos). Fui pedindo indicações na rua em que me disseram haviam lojas de mochilas para treking. Cheguei numa loja de mochilas que só tinha mochilas escolares do Pluto, Pateta e etc. Só de puto pergunto pro cara se ele tem alguma mochila de treking de 60 litros. O cara me pega uma mochila do Mickey e uma da mãe dele vestida de Bozo e me dá. Digo, então: oq é isso? "Duas de 30 litros. Dinheiro ou cartão?"...hahahaha... não é q o cara achou q eu ia mochilar com duas mochilas escolares???!!! é isso que eu digo: chega a ser tão sem noção e é todo dia que vc fica anestesiado. No fim das contas, os caras não estão nem aí com nada. Se eles te fornecem a informação correta ou não, se eles estão te oferecendo oq vc pediu, se eles sabem oq perguntou ou não. Dá na mesma. Indiano tem uma mescla de vergonha de dizer não sei com uma falta de dimensão de prestação de serviços, o que gera o caos que tenho tentado descrever.

Outro dia fui num KFC. Tava com saudades. Pedi sozinho um balde de fritura. Aí pedi sal no caixa. Um puta rebuliço no balcão. “O cara pediu sal, o cara pediu sal...” Mano, num tem sachê de sal num fast food??? O cara me traz uma cumbuca com sal até a boca na minha mesa perguntando se era suficiente. É nisso que eu me pergunto se o cara se propôs a pensar antes de fazer. Porra, bixo! Eu não bebo sal! Aí ficava todo mundo me olhando como o cara que causou na loja. Já te olham normalmente. Se vc tropeça ou pede sal, então... Putz.

É impressionante quanto tempo demora para fazer as coisas mais básicas na Índia: só para achar uma loja de mochila foram 2 dias. Não tem na internet, as pessoas não entendem oq vc diz e isso é foda. Tem dias em q vc simplesmente quer se matar, tem dias que vc ri. Eu fico pensando e discuti com muita gente como alguns gestos simples não reverberam para eles. Parece problema de cognição mesmo, já não é de linguagem. Pedimos carona em Hampi por exemplo para voltar da repesa e dissemos apenas o destino: Hampi. Queríamos voltar para onde estávamos hospedados. O cara deixou a gente 2 vezes mais longe e disse: "here!". "Here what cassete?" Como estávamos eu, o Alex e uma amiga dele o passeio fica agradável, divertido e vc ri. Mas qdo vc precisa de alguma coisa com pressa te tira do sério, bixo.

Só pra completar a trilogia dos serviços: precisei fazer óculos aqui. Tive a genial idéia no Brasil de passar numa fotóptica em Sampa e pegar uma receita da minha lente antes de vir. De curioso, passei em 2 lojas e pedi para tirarem meu grau. Bixo, o bagulho sai completamente diferente da receita que eu tinha. Aí perguntei: mas pq é diferente? a moça responde: é igual. Mano, num sô burro! Tá escrito em um S: +1,25 e na outra -0,75. A moça faz aquele gesto típico de chacoalhar a cabeça e diz: "oq importa é a soma. Dá na mesma". Não sou oftalmo, mas sei q se vc tem -1 num olho e +1 no outro não é a mesma coisa q vc ter -3 em olho e +3 no outro. Mas, quer saber, desencana. Entreguei minha receita e falei usa a q vc achar melhor...hahaha. Tô com óculos novo e, pior, funciona!

Sei lá. De vez em qdo vc suspeita dos caras (com motivos), mas normalmente com muita paciência e perseverança dá certo. Essa é uma lição da Índia. Na mesma medida em q os caras vivem numa classe sem professor em q tudo pode e nada se resolve racionalmente, por outro lado, acontecem milagres do nada, situações completamente inusitadas. Mas se vc tiver na Índia de mau humor e com pressa, meu amigo... No fim das contas, os caras, não esqueçamos, tem 11 prêmios nobéis e nós não temos nenhum. Então vai ver q eles entendem alguma coisa de alguma coisa...

Hampi foi um alívio! Passamos um fim de semana por lá que foi de cinema, bixo. Ou como diria o Schatan, de fechar o comércio...hahaha (Schats, adoro suas expressões!). Trombei o Alex que tava com 3 amigas, mas só uma era gente fina (vocês veram nos vídeos do youtube). No primeiro dia, sábado, alugamos uma moto (detalhe: nenhum dos dois jamais tinha dirigido uma antes) e saímos pra dar rolê pelas ruínas da cidade. Logo no primeiro minuto eu derrubei os dois da moto, abri meu dedão, a correia soltou e tudo isso em frente a polícia. Claro q ninguém veio ajudar, eles queriam saber primeiro de q país eu era ("witch country?" hahaha) e eu como dedo sangrando. A cidade foi capital de um império nos séculos XIV e XV... Uma cidade que misturava ruínas com clima de praia. Cheio de israelenses. Lindo! Um fim de semana foi pouco. Sobre Hampi: Primeiro, segundo e terceiro.

Uou! Tem também o filme que fizemos em Hyderabad. Nos créditos certamente aparecerão Tatola Sódezuera Flit...hahaha (o cara pdeiu para a gente colocar nossos nomes pra vir nos créditos). A gravação em si é um saco, mas é muito divertido ver quão precária é a coisa. Ao mesmo tempo, é sempre divertido. Fui o fotógrafo em uma das cenas do filme, pq não me deram papel nenhum e o diretor ficou com dó de mim...hahaha. Vejam do que trata logo abaixo: Primeiro, segundo e terceiro.

Pulando um pouco mais (agora desencanei por completo de ordem cronológica), preciso contar do meu reveillon. Cara, sem noção. No mau sentido. Bizarro! Fomos pra uma praia chamada Kovalan, típica praia de indianos em férias. Areia suja, pouco espaço, milhares de vendedores, nada de surf (o brazuca que escolheu o roteiro tinha escolhido por conta das supostas ondas do local). O divertido era o volley de praia dos estrangeiros contra os indianos no fim da tarde.

A festa de reveillon em Kovallam me lembro como um caos. Descemos pra paia depois do tradicional esquenta. 11: 30 já haviam pelo menos 5 mil indianos em volta de nós (13 pessoas). Eles chamavam os amigos para nos observarem e assim fica um pouco mais difícil manter alguma privacidade, digamos assim. Fotos, gentes se atirando e, claro, imitando os ocidentais. Na hora da virada, sem fogos, sob o olhar atento de vários indianozinhos, fomos saltar as 7 ondinhas. Claro, vieram os policiais armados com bambu... hahaha. Bambu, mano?! Pois é. E os caras dão no teu calcanhar pra vc nunca mais pular 7 ondinhas...hahaha. Beleza. Desencanamos. Os indianos já estavam fervorosos e começaram a perder a estribeira. Melhor parar. Alguns indianos vinham nos abraçar. No começo, sussas. Depois, vc percebia que era uma desculpa ara apertar as minas do grupo. Aí o clima fechou. Sem 7 ondinhas e sob proteção anti-estupro, fomos a um hotel na frente da praia. Não pensei duas vezes. Pulei na piscina. No que eu pulo, vejo a merda: cagada ensaiada. Os indianos começam a fazer o mesmo. Metade nao sabia nadar. Era 12:30 am e eu tava resgatando indiano que ia se afogar na piscina do hotel. O gerente do hotel pára a música. Manda todo mundo sair da piscina. 3 celulares boiando, nenhum indiano morto. Pára de servir breja. Voltamos para nossa casa. 4 da manh~a: invasão. Indianos vestidos com máscaras querem participar da festa. hahaha. Assustador. Imagina que vc tá na varanda da sua casa e entram 3 indianos com máscaras e começam a tentar fazer gracinha do lado de dentro da sua casa. Claro, noção de propriedade aqui e outra...

Engraçado foi um dia ainda em Kovalan que saí de rolê com o Alex e com o Flaf e conhecemos um motorista de rickshaw que tava visivelemnte chapado. Queria nos levar voando, segundo ele. hahaha. Imagina um indianozinho de um metro e cinquenta querendo te convencer a entrar no carrinho dele pq ele conseguiria voar...hahaha. Esse era um ex-pescador local que nos explicou como se pescava na região: "é fácil! só botar dinamite no mar..."Uou! Isso explicava os milhões de ppeixes que ficavam mortos na arei da praia. Uma chacina diária. Até q a polícia resolveu proibir (não resolveu muito pelo jeito) e o personagem em questão mudou de profissão.

Profundos conhecedores de como as coisas funcionam por aqui, eu, o Alex e o Flaf (francês doidão) estávamos passando em frente uma delegacia qdo o Alex teve a idéia genial: vamos fazer um documentário sobre isso! hahaha. Entramos. Os indianos guardinhas nos receberam super bem. Nos apresentamos como jornalistas documentaristas internacionais que queriam entender o porquê dessa absurda proibição da pesca com dinamites...hahaha. Sensacional! O foda foi que quando tirei a câmera do bolso, o tempo fechou. Aí veio o xerife pedindo passaportes. Detalhe: eu tava de sunga...hahaha. Claro que sabíamos que não ia dar nada. Nos comprometemos a voltar no dia seguinte e nunca mais aparecemos.

Ahhh... No reveillon conheci o Sam. Um francês que veio estudar budismo em Delhi. QUer nos receber na casa dele para frequentarmos umas aulas com ele. Parece bem loko. Na real, a possibilidade cairmos para Delhi é grande! Planos ficarão para o próximo email, pq até o momento nada certo. Possibilidade grande de ficar mais um tempo, pelo menos. Agradeço a todos que tem acompanhado e pedido mais relatos. O mesmo tesão que eu tenho em contar essas histórias, eu tenho em vivê-las. E ainda tem mito chão pela frente... Bom, tinha muito mais coisa pra falar. E que esqueci. Essa é a merda de não documentar. Culpa minha. O Ric me deu esporro no telefone por causa disso e com razão. A idéia é começar um blog pra contar a Índia com bom humor. Esse é o plano para depois que eu voltar do Sri Lanka com o Alex. Prevemos fazer essa trip até meio de fevereiro (alguém mais?).

Semana que vem estarei em Auroviile, cidade criada para ser um modelo anarco-ecumênico de convívio mundial e experimentação. 2/3 da população é de estrangeiros e a idéia é cair pra lá com o Alex que tem um bom contato por lá.

Namastê!
Tatão

Ps1: Tour pela "maior favela" da Ásia!

Ps2: dicas inúteis (pq ninguém vai usar):
Melhores restaurentes:
ruci & idoni (Hyderabad)
ice & sipcy (Bangalore. Hobby lanches local. Melhor sanduíche de lamb da história!)
mango tree (já valeria ir a Hampi só por causa desse restaurante. Salada de manga com chapati)
8th Wounder (Palolem, Goa. Buscar pelo Jimy, garçom, broder, mutretero e pescador)
Melhor praia: Marari Beach (14km acima de Allappey)
Melhor sorvete: Scoops (Hyderabad, atrás do Shoppers Stop)

Ps3: Hyderabad: num forte, resolvemos conversar com cada indiano que nos parava. Depois resolver parar alguns indianos. Na Índia, tudo é possível: esse moleque virou o herói da escola. Fizemos como se ele já fosse um velho conhecido meu...hahaha
(its an honour to meet you, sir!)

Ps4: tem mais um vídeo só pra terminar. Tá no blog de uma amiga aqui. Se quiserem o link, tá aí atrás.
(só dar uma busca por maluco corinthiano...hahaha)

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