quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Cratera Ngorongoro & Serengueti - Tanzania



O dia acaba no Serengueti.


  CRATERA DE NGORONGORO

A entrada do parque.

A história que dá nome ao lugar já traz em si toda a poesia milenar de um dos berços da humanidade. Quando os primeiros habitantes da cratera viram os Masai Mara chegarem, identificaram imediatamente seu traço guerreiro acompanhado de uma trilha sonora única: o ngoro-ngoro do sino do rebanho. Depois de tomarem a cratera como seu território, os masai imprimiram um dos aspectos mais fortes de sua cultura, a vida indissociável e quase simbiótica com o gado. E a cratera passou a ter voz própria, e nome próprio – Cratera de Ngorongoro.

Ornitólogos de plantão?

Para se chegar lá há que se acordar cedo, ver o sol nascer da estrada e chegar na borda quando a cratera ainda está envolvida em uma névoa matinal. A descida aos poucos revela o aspecto de santuário natural: vários animais dispersos em uma imensa cratera vulcânica e, vivendo tranquilamente na proteção de suas barreiras que definem uma circunferência monumental.

Vista de parte da cratera, verdadeiro caldeirão da natureza.

Flamingos, búfalos, gazelas, rinocerontes, gnus, zebras e inúmeros outros animais da savana (menos as girafas e impalas, tendo em vista que a vegetação não é própria a estas espécies) pontuam a planície num colorido inesquecível. Apesar de não impressionar muito pela quantidade, a variedade dos bichos permite com que os veículos quatro-por-quatro rodem pela cratera em busca dos big five dando excelente oportunidade para fotos e um primeiro gostinho de safari.

Flamingos no lago da cratera.

E até hoje os masai são os únicos habitantes com permissão para viver dentro do parque porque, segundo as autoridades, eles são o único povo que conseguem ter uma convivência plenamente harmoniosa com a natureza. Sem exigir mais daquilo que extraem da terra e dos seus animais, sem retribuir menos do que seria justo à natureza que lhes dá sentido e existência. Harmonia e equilíbrio, simples assim, preservados conscientemente por milhares e milhares de anos.

Vila Masai na cratera.


SERENGUETI

O Serengueti sempre foi um paraíso distante, que nos acompanhou desde as narrações dramáticas do Planeta Terra da TV Cultura – que eu esperava, ansiosamente, todo domingo a noite com a família reunida. Ali, assistíamos com expectativa incontrolável o eterno dilema daquela natureza árida e exótica: torcer para que a gazela não virasse jantar ou pela leoa que precisava alimentar os filhotinhos?

Leoa procura sua caça e não está nem aí pros espectadores.

Todos os dias a gazela acorda sabendo que tem que correr mais que a leoa e esta, por sua vez, também desperta consciente que precisa ser mais rápida que a gazela – é matar ou morrer. E agente, do outro lado da telinha, procurando em vão alguma justiça numa natureza sem mocinhos ou vilões, apenas e tão somente, o ciclo da vida. E assim é.

Jumento com listras, até enjoa de tanto que tem.

Quando cruzamos a placa de entrada do parque, era difícil de acreditar que, finalmente e realmente estávamos lá. Os oito passageiros do Toyota quatro-por-quatro mal conseguiam conter a excitação de conhecer (e acampar uma noite!) no parque, até que alguém resolveu colocar o tema de abertura do Rei Leão, só pra dar uma extravasada – e todos cantaram juntos, numa emoção quase pueril.

Hora do almoço, é bom olhar pros lados pra não virar o prato principal...

Serengueti vem da língua ma, falada pelos masai, que ao chegarem naquele lugar o batizaram de siringueti – planície sem fim. De fato, é difícil imaginar uma vastidão como aquela, que só termina na linha do horizonte criando uma estranha sensação de solidão infinita. O nome não poderia ser mais apropriado ao significado – ou seria o signo que daria origem ao substantivo próprio?

Planície sem fim: onde o mar de grama encontra o céu.

Com os janelas e teto escancarados, câmeras na mão e o coração quase pulando pela boca, vimos em um único dia de safari todos os big five. 

Momento "cuti-cuti": mãe amamentando filhote.

Para quem imaginava que veríamos alguns animais aqui e ali, espalhados por uma savana interminável, foi absolutamente surpreendente ver uma exuberância tão diversa de bichos desfilando curiosos pertinho do carro.

Um dos mais temíveis animais da savana, o amigo hipo.

Manadas infindáveis de gnus, zebras, gazelas Thomson, waterbuck, búfalos, elefantes, girafas, leões e leoas, chitas, hipopótamos, crocodilos, babuínos e inúmeros pássaros como se estivessem todos ali apenas para deleite de nossas lentes. 

As simpáticas girafas.

Terminamos o dia vendo um leopardo acompanhar preguiçoso o pôr do sol enquanto se preparava para uma nova caçada.

E a coisa vinha vindo...

Seria nossa primeira vez acampando no meio da savana, sem qualquer tipo de barreira entre nossas barracas e os animais – afinal, nós erámos os intrusos naquele parque, estávamos no território deles. 

Mamãe elefante e seus pequenos.

E logo que chegamos, algumas recomendações: não andar sozinho, apenas em duplas; ao sair da tenda sempre olhar em volta para checar se não há nenhum animal; no caso de ouvir algum animal a noite, não ficar curioso e esperar ele passar; se precisar ir ao banheiro durante a noite, acordar o seu dupla e ir ao lado da barraca (ou seja, não ir até o banheiro que ficava longe); se puder, tentar não ir ao banheiro durante a noite, just in case.

Casal de leões.

O jantar é servido dentro de um galpão fechado com grades até o teto – e na noite anterior um grupo teve que ficar esperando uma hora lá dentro porque havia um grupo de leões rondando o local. Assim que terminamos de comer e quando ainda havia bastante movimento no acampamento, Ivan e eu fomos escovar os dentes e iluminamos com a lanterna dois olhos nos enxergando: nada mais nada menos que uma hiena curiosa.

Cena típica da savana: abutres esperam a hiena terminar com a carcaça.

Ah tá, vamos dormir então – suuuper tranquilos. No meio da noite, é claro, ouve-se todos os tipos de barulhos (rugidos de leões, risadas assustadoras das hienas) e, só pra dar mais um gostinho de savana, algum animal ficou rondando a nossa barraca por volta das 2h da madrugada. E quem já dormiu em barraca sabe que qualquer som que vem de fora dá  a impressão de estar dentro da barraca – que, por sua vez, está longe de fornecer qualquer tipo de sensação remota de segurança.

Os intrusos somos nós. Eles? Nem aí pra hora do Brasil.

Foi uma das experiências mais deliciosamente aterrorizantes que já passamos – e valeu muito a pena. Acampar em um lugar selvagem e sentir-se vulnerável, sendo apenas mais um animal estranho (e potencial presa) no meio de uma natureza que não conhece outros meios é algo único e desperta instintos que nos fazem lembrar que somos, antes de tudo, animais – ainda que humanos.

O amanhecer com as acácias. Um "clássico" local.



5 comentários:

Maria Luiza Cruz disse...

Que delícia! Fiquei ofegante com a sensação da hiena olhando vocês e os animais rondando a barraca... Realmente a sensação é ímpar... e adorei a trilha sonora! Beijo grande!

Carolzinha disse...

Gambi, ouvi vc cantando hakuna matata daqui!
Mas, fala sério... essa coisa de dormir como presa de leão foi de arrepiar, hein?
Adorei a msg q mandaram ontem! Fez meu dia bem feliz! =)
Bjoca

Lu disse...

Sem palavras.... acho que essa é a viagem de todos os sonhos... desde os velhos tempos de voltar mais cedo de viagem pra não perder o "planeta terra"!!!
Beijão aos aventureiros!

Celina disse...

Queridos

Cada foto é um suspiro de intensa beleza. Haja fôlego!!!

Adorei cada cena e as cores brotam da tela.Não há uma que não mereça um tempo maior de admiração.

Parabéns pelo empenho, paciência e sensibilidade.Parabéns por cada palavra colocada de forma que é impossível não reler.

Eu AMARIA estar neste ambiente.

Maravilha ter um sonho infantil e poder realizá-lo.

Atenção sobre o nome do pássaro:
"tecelão mascarado africano"

saudades

Thais disse...

Queridos, cá estou animadíssima com o texto e babando nas fotos...AGAIN!
Que medoooooooooo dessa barraca. Me lembrou o meu (agora pseudo) medo na barraca lá na Chapada! HAHAHAHAHAHA pra mim!!!! Acho que se eu estivesse nessa situação seria uma presa mais fácil ainda...porque iria me borrar toda!!!!! rssssssss...bjossss lindos :-)

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