quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Johannesburg



São muitas fotos de bichinhos, mas juramos que Johannesburg é super urbana...


É impossível passar incólume pela relevância de Johannesburgo na África do Sul. Em termos econômicos, é responsável por mais de um terço do PIB do país e, se não tem praias paradisíacas nem montanhas, conta com uma forte indústria de entretenimento, vida noturna agitada e moderna. Os próprios sul-africanos vêm a cidade com uma mistura de medo e tentação: ao tempo em que falam muito da violência e caos típicos da metrópole, também fazem referência aos shoppings e restaurantes de luxo – apelidando-a, carinhosamente, como Joburg.

Definitivamente é uma cidade cosmopolita – com seus prós e contras, como estamos percebendo a África, sempre muito intensos. Chegamos na Park Station logo pela manhã e, como bons mochileiros, recusamos todas as ofertas de taxi e resolvemos nos aventurar mais uma vez nos minibuses – as lotações. Saímos da estação central e fomos buscar o local (que, claro, nunca é sinalizado, as pessoas simplesmente sabem que de lá saem as vans que vão para determinado lugar) de onde teoricamente sairiam as vans para o nosso bairro.
Esculturas em madeira.

Temos que confessar que foi, sem dúvida, a situação mais assustadora e hostil que tivemos na viagem até agora. O trajeto inteiro que fizemos, com duas mochilas enormes nas costas e mais duas na frente, os dois palidamente brancos e evidentemente estrangeiros foi praticamente um insulto à análise de risco do índice VDM*. Nossa sensação o tempo todo em que estivemos lá era simplesmente de que nós não deveríamos estar ali – e isto ficava nítido no rosto das pessoas que nos olhavam com sisudez. Depois, fomos saber que esta região era exatamente a mais perigosa da cidade, centro do tráfico e definitivamente um ponto para não circular sem propósito específico e muito menos sem saber onde ir.

Enfim, existem situações desnecessárias e esta foi, definitivamente, uma delas – ou seja: se chegarem sozinhos na Park Station em Joburg, por favor peguem um taxi.

No nosso albergue, Melville International Backpackers, já chegamos com uma lista enorme de burocras pra resolver: lavanderia, remédios de malária, comprar dólares, arranjar lugar pra ficar em Maputo, aplicar pra vistos em Ruanda, entre outros itens que tivemos de resolver.

Zebra na reserva/Simba safari de Lion's Park.

A noite, resolvemos sair na 7th Street, muito conhecida por seus bares e noite animada, um dos motivos por termos escolhido ficar nessa parte da cidade. A Gabi pôde estrear sua “roupa de balada”: rímel e batom vermelho (uhú). Escolhemos o bar com mais locais e um cardápio não abusivo – Six Cocktails talvez seja o nome – e entramos confiantes do impacto do nosso uniforme de mochileiro entre jovens bonitos, bem vestidos e descolados. Pedimos uma cerveja e aproveitamos plenamente da cosmopolidade de Joburg: comida muito boa (lulas recheadas com espinafre e abacaxi), música excelente, gente realmente bonita e alegre, diversidade e cultura. E ninguém se importava com nós dois ali, porque éramos mais um casal se divertindo, jogando conversa fora e falando uma língua estranha. Delícia!

No dia seguinte, depois de muita negociação fechamos um pacote de um dia inteiro com Ignácius, taxista originalmente do Zimbábue. Ele nos contou que chegou em Johannesburgo ainda na época do Apartheid e, quando perguntamos qual a principal diferença com os dias de hoje ele nos respondeu imediatamente “a liberdade de ir e vir”. Para os negros, não era possível simplesmente se deslocar de um lugar para o outro, algumas vezes nem sob justificativa de trabalho, havia toque de recolher (aos não brancos) e qualquer um poderia ser abordado a qualquer momento e, algumas vezes, ser preso só por estar ali. 

Quando questionado se esta já era uma questão superada, ele se resigna diante do fato ser ainda muito recente e estar profundamente marcado nas relações, acreditando que só as próximas gerações (que não vivenciaram isto) é que poderiam mudar esta dinâmica. Em todo trajeto pela cidade, Ignácius foi nos explicando algumas peculiaridades da África do Sul e que exemplificam uma fragmentação latente: negros gostam de futebol, indianos de críquete, brancos de rúgbi e cada um deles está devidamente alocado em seus respectivos bairros e comunidades.

Leoas ao sol.

Depois de 15 dias em território sul-africano, já era hora de finalmente encontrarmos alguns animais que fazem desse país o maior destino do mundo para safaris. E assim fomos para o parque mais próximo de Joburg, sem dúvida super turístico, mas também acessível: o Lion Park – e nos divertimos muito! 

Quem tem maior língua, os Contente ou as girafas?

Em um território não muito extenso tivemos a oportunidade de ver zebras, gazelas de várias espécies, gnus e girafas para depois partir para os carnívoros: leões, chitas, cachorros selvagens e inclusive uma ninhada de 4 leõezinhos (um deles era branco!) com menos de 1 mês de idade. Tudo isso a muito, muito poucos metros do carro – tipo, um leão macho gigante a menos de dois metros do carro.

Guepardo olhando o horizonte, bem ao lado do carro.

E claro, depois de tudo isso vem o momento Disney-cuti-cuti: fazer carinho nos leõezinhos (siiiim!) e dar comida para as girafas. Não é preciso falar mais nada, as fotos deixam o grau da empolgação bem evidentes...

Quem quer abraçar até esmagar?

Não, não é de pelúcia...

Gabi quis colocar um na mochila, mas o guarda viu e não deixou levar.


Uma das partes mais legais é alimentar uma das girafas gulosas que tem por ali. Sobe-se em uma plataforma e ela já aparece enfiando aquela carona de vaga gigante em busca de ração, devidamente cobrada a parte, é claro.



Depois da diversão veio a parte séria, fomos terminar o dia no Museu do Apartheid, uma das obras mais impactantes que já vimos em vários sentidos: pela narrativa em si, pelo edifício, pela curadoria, pelos depoimentos, por Mandela. É muito difícil tentar descrever a profundidade e a dimensão que o conjunto de imagens e textos deste período negro podem trazer. Em determinado momento, a Gabi chorava baixinho, em outros o Ivan ficava inteiro arrepiado.

Você, brasileiro de raça misturada, entra em qual porta?

É admirável que um povo possa (re)conhecer sua história, por mais dolorida e aberta que a ferida ainda esteja. A conciliação tão almejada por Mandela e Cia talvez ainda não tenha sido concretizada em toda sua necessária profundidade, ainda mais quando se nota tão claramente que há uma separação de ordem econômica entre brancos e não-brancos no país. No entanto, materializar a luta pela igualdade racial-étnica-cultural em forma de um museu didático e altamente atraente para toda população (mundial), faz com que o “não-branco” do Soweto, ou da Rocinha, possa entender que vale a pena lutar. Seria eufemismo dizer que “vale a pena visitar”, é marco obrigatório para todo ser humano que passe por Johannesburgo. 

O mais impressionante é pensar que tudo isso aconteceu a poucos, muito poucos anos atrás e que as lideranças ainda estão vivas – ou seja, não é um passado distante. Esperamos que o Brasil e toda América Latina que mergulhou durante anos em ditaduras sangrentas possam se inspirar em ações como essa e começar a fazer as pazes com nosso passado, também muito recente.

No caminho do albergue, uma das únicas palavras que trocamos em um silêncio de mais de uma hora foi: é pra isso que trabalhamos, pra não deixar acontecer de novo, nunca mais.

*VDM (Vai Dar Merda). Criado pelo maior palindromísta do país, Sr. Almeida de Almeida, é um instrumento de medição muito difundido (ainda que pouco utilizado) na capital do país para finalidades auto-explicativas.

12 comentários:

Fábio disse...

Top. To aguardando o próximo post! Vcs se superam a cada post.

Thais Contente disse...

Ok, again...
Eu AMEI esse post, aliás, adoro todos, não tenho um preferido. Toda vez que entro já vou buscando as novidades. rsss...Parabéns aos dois pelos relatos, detalhes (que não são nada cansativos) e pelas LINDAS fotos. Por falar em foto, Gabi a foto em P.E. está divina, digna de porta retrato. A parte ruim é que bate uma saudadinha...bjos da madrinha/afilhada!

Ana Contente disse...

Ivan e Gabi...
tenho lido todos os posts de vocês... mas tava com um probleminha na hora de postar comentários (vulgo: burrice extrema ao quadrado!)
enfim...
nem vou falar que estão óoootimos... um melhor que o outro!
parabéns, parabéns, béns, béns!
e pra terminar de puxar o saco: IVAAAAAAAAN, SUAS FOOOOTOOOOOSSSSS ESTÃO IN-CRÍ-VEIS!!!
Parabéns, primo... pode começar na carreira de fotógrafo também (além da de historiador, filósofo, professor de inglês e espanhol,geógrafo, etc etc etc)

Ana Contente disse...

genteeeeeeeeeeee...
super amei!
só um comentário: IVAN, PODE VIRAR FOTÓGRAFO... só mais uma profissão pra vc, tá (além da de historiador, tradutor trilíngue, filósofo, geógrafo, etc etc etc...)

Ana Contente disse...

genteeeeeeeeeeee...
super amei!
só um comentário: IVAN, PODE VIRAR FOTÓGRAFO... só mais uma profissão pra vc, tá (além da de historiador, tradutor trilíngue, filósofo, geógrafo, etc etc etc...)

EXCLUÍDO disse...

Ivan e Gabi: eu ia comecar dizendo ao Ivan que estava com saudades (Gabi, saudades respeitosas, claro), mas depois que li os posts e me deliciei com as fotos, elas diminuiram. Como tudo que eh bem escrito e verdadeiro, fica-se com a sensacao de estar junto, compartilhando os momentos todos. Que sorte a minha de poder ter amigos tao generosos! E acho que ao final da aventura, com a sensacao de conhece-los mais a fundo, desconfio que terei saudades de ambos igualmente! Muitos beijos. PS: almoco na Faria Lima com Romeiro, Pedro, Beto e Fernando renderam minutos de puro wishful thinking para voces dois, com carinho grande. PJ, claro, com uns 20 minutos de futebol (eles) e bocejos (eu).

Carolzinha disse...

Arrepiada com a parte sobre o apartheid. E sim, tenho certeza que é por isso q lutamos, para que esse tipo de coisa jamais se repita! <3

Carolzinha disse...

Arrepiada com a parte do Apartheid.
E sim, tenho certeza de que é por isso que lutamos, para que esse tipo de coisa jamais se repita!
<3

Viaje com a Flora disse...

Cheguei aqui pelo VnV. Uma experiência invejável esta volta ao mundo. Sempre quis fazer isto, mas...
Estive no inicio do ano na África com minha filha. Não consegui chegar ao fim da visita ao Museu do Apartheid. Ela continuou sozinha e eu fui andar naquele pedaço verde lindo que representa a beleza do país e chorei muito. Eu sou mais velha, uma das minhas primeiras professoras de ingles, loirinha de olhos azuis, era sul africana e comecei a conhecer esta realidade na época que estava acontecendo, assim como a ditadura militar no nosso país.
Fiquei encantada com o relato de vocês e principalmente com a visão e opinião dos fatos. Parabéns. Vou com certeza acompanhar a viagem de vocês.

Leonardo Mantovanini disse...

Estou planejando de ir para Joanesburgo com mais 4 amigos... Queria saber se a cidade tem a noite agitada, se têm muitos bares, baladas, enfim opções de diversão...

Ivan e Gabi disse...

Oi Leonardo, o bairro mais bacana que achamos pra baladas e afins foi Melville. Muitos bares descolados e lugares com música ao vivo. Só cuidado na hora de andar por lá pra não se afastar muito do agito: ruas escuras e desertas...

J. Maria Beija Flor disse...

Cheguei hoje em johanesburgue e foi muito bom lê as postagens de vcs me serviram em muito.dicas maravilhosas e interessantes .

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