quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Zanzibar City / Stone Town - Tanzania



Fim da tarde em Stone Town.


Zanzibar City, ou Stone Town, é uma cidade que estimula todos os seus sentidos do início ao fim. 

A chegada à ilha é uma afronta a qualquer ideia de mar que alguém possa ter: a variedade dos tons de azul que vão do marinho ao turquesa fazem doer os olhos pela beleza e transparência inacreditável da água. Ao pisar em terra, a primeira lufada de ar traz a marca registrada para os próximos dias, numa mistura de maresia com a umidade característica do local. Se fechar os olhos pode-se pensar que chegamos à Belém do Pará. 

Molecada brinca na praia no fim do dia.

Do minarete das mesquitas, o chamado para as rezas ao pouco incorpora-se aos seus ouvidos como a trilha sonora da cidade enquanto, do ponto de vista tátil, é impossível não se surpreender com a transpiração contínua e prolongada de um calor insuportável. 

Cena do labirinto de pedras.

E, por fim, a explosão de sabores desta ilha mágica: o chapati fresco recém torrado, a pimenta verde ainda do cacho, e as delícias do Mercado de Peixes.

Zanzibar é uma provocação (consentida ou não) a qualquer tipo de experiência prévia que se tenha tido no campo da visão, olfato, audição, tato e paladar. A única reação possível é se render de forma irrestrita a esta viagem sensorial, explorando o novo mundo que se apresenta e desafia toda e qualquer referência ocidental/familiar.

A começar pela chegada em Stone Town. Adentrar seus labirintos infinitos, com becos e ruas que se entrecruzam milhares de vezes, as casas coladas umas nas outras ostentando o peso de suas famosas portas milenares, o chão de pedra invariavelmente molhado – pela chuva, pela água das casas, pelas goteiras do ar condicionado – tudo leva a um desespero inicial pela total e absoluta desorientação. É com esta sensação que se entra pela primeira vez na cidade de pedra – e, muito provavelmente, pelas próximas três vezes, pelo menos.

Labirinto em Stone Town.

Conosco não foi diferente, tudo isso somado ao desafio de tentar entender o caminho que o nosso anfitrião nos mostrava para nossa hospedagem nas próximas duas noites, outra experiência via CouchSurfing. 

Chegamos à uma porta meio escondida, ao lado de um beco/bueiro onde ele nos entregou a chave e nos desejou boa sorte. A casa representa bem a moradia de parte dos habitantes de StoneTown: três andares sem janelas construídos um sobre o outro sem qualquer referencia de engenharia profissional. No primeiro andar ficam a sala e a cozinha, no segundo o quarto, banheiro e um pequeno hall, e por último a laje, numa combinação perfeita de caixa d’água, varal e uma cadeira para a fresca. Todos interligados por escadas ex-tre-ma-men-te íngremes (do tipo que não dá pra escalar sem se agarrar no corrimão) com piso composto por todos os tipos de restos de azulejos que se possa imaginar.

Exemplo de casa tradicional de Stone Town.

A chegada na ilha já permite decifrar um de seus principais códigos em tantas informações labirínticas: as regras básicas da cultura muçulmana. Nada de shorts, alcinha, biquíni, sunga ou vestidinho curto num calor úmido de aproximadamente 32oC. 

Para as mulheres as regras ainda são mais agressivas: não há uma moradora do arquipélago que não esteja coberta da cabeça aos pés (literalmente) com as khangas coloridas e uma bata preta por cima, ou ainda o bui-bui – que cobre também a face deixando apenas os olhos de fora, por uma fresta negra. 

Mulher em passeio por Stone Town.

As turistas brancas são frequentemente repreendidas em swahili por estarem com shorts ou bermudas acima do joelho e/ou blusinhas de alcinha que não cubram os ombros. Os homens na sua maioria vestem batas brancas de algodão com adornos/chapéus de cabeça e os não tão tradicionais usam calça comprida e camisa – bermuda, jamais. Na ala masculina a única surpresa era um masai eventual que aparecia desfilando com seus trajes tradicionais onde o vermelho vivo e o azul royal praticamente ironizam os padrões locais.

Em Stone Town - além de se perder incontáveis vezes pelas ruas da cidade, observar a vida dos seus moradores, tomar um café e ver os ânimos se exaltarem no jogo de dominó do Shark Corner - vale ainda conhecer dois palácios transformados em museus.

Menina nos observa. Nós, os "estranhos".

O primeiro, o Palácio conhecido como House of Wonders, é o museu oficial da cidade, conta com um acervo esforçado e diverso e dali é possível compreender melhor vários dos elementos que compõem a fina trama da cultura do arquipélago. O que impressiona bastante é a arquitetura do edifício que rende vista maravilhosa do seu último andar, partindo de uma varanda aberta que margeia todas as faces do museu. 


Vista da House of Wonders

Já o segundo, e frequentemente negligenciado, é o Palácio da Princesa. Tive que insistir muito pra ir – só porque era um Palácio e tinha sido de uma princesa de verdade – e consegui até barganhar o valor da entrada pra convencer o Ivan a entrar.

Nós dois através do espelho da princesa!

Grande surpresa: o museu particular conserva toda a mobília e objetos de uso diário da antiga residência de um dos últimos sultões da ilha bem como de suas duas esposas que dividiam o segundo andar. A riqueza de detalhes, dos móveis, bem como algumas breves explicações sobre o protocolo de uso de cada um tornam a visita ainda mais interessante. Ponto alto foi conhecer os aposentos, tal qual eram usados na época, da Princesa Salme, uma intelectual muito a frente do seu tempo. Criada dentro do regime de sultanato, aprendeu a ler e escrever sozinha copiando as rezas do Alcorão, casou-se com um engenheiro alemão e mudou-se com ele para a Europa onde, posteriormente escreveu um livro que seria um dos primeiros registros fidedignos da cultura local. É dispensável dizer que virei fã incondicional dela.

Um dos passeios mais tradicionais de Zanzibar é a Rota das Especiarias, onde os turistas vão à uma chácara conhecer as origens da maioria dos temperos que usamos hoje. O passeio é bem interessante e instrutivo e dá pra ver a cara de espanto da maioria ao descobrir que o café é uma frutinha vermelha que dá numa arvorezinha e que a star fruit (carambola) não sai da árvore já como uma estrelinha feita. Mas à parte disso, descobrimos: que a pimenta dá em cacho e é uma trepadeira, que a noz moscada é quase que uma obra de arte em semente, que a raiz da canela tem exatamente o cheiro mentolado do Vicky.

Quem adivinharia que isso é pimenta do reino?

Nóz moscada.

Cravo.

O tour inclui ainda um almoço e aí sim tivemos um momento de puro deleite: embaixo de uma cabana, sentamos no chão em roda e saboreamos arroz com canela (pilau), espinafre com pimenta verde, curry de côco, chapati e melancia. 
Gabi aguarda o banquete.

De lá partimos para a pequena praia de Mangapwani que além de suas águas turquesa coalhada pelas tradicionais dhows de pesca, há também uma caverna que durante muitos anos foi usada como esconderijo para tráfico ilegal de escravos negros.

E a barba cresce...

Seguindo nas delícias da culinária local que já havíamos experimentado, para jantar nos aventuramos no Forodhani Garden - uma praça a beira mar que oferece comida de rua local. É impossível não ficar atordoada pelo turbilhão de cheiros, cores e sabores entre lagostas, carangueijos, polvos, lulas, peixes e camarões – que eles juram que são frescos e no dia seguinte desenrolam os mesmos pobres coitados do papel alumínio – disputando espaço com samosas, kebabs, chapati e churrasquinho grego. 

Muitas opções e muito assédio na feirinha de comida.

Nos chamou atenção a pizza de Zanzibar que, de forma bastante simplificada pode ser descrita como um omelete com massinha, onde um moço mistura com agilidade impressionante dos dedos, frango, tomate, cebola, queijo, ovo e especiarias e coloca pra fritar. Uma delícia! Pra beber, caldo de cana com limão ou chai masala do vovô (Babu Chai) para os mais aventureiros. E para fechar com chave de ouro a nossa aventura gastronômica, sobremesa de Nutela com banana – que, pelo tamanho descomunal da fruta, nos foi explicado pelo vendedor que era chamada de bilau de elefante - engraçadinho, não?

Pizza de Zanzibar, bem boa por sinal!


Um comentário:

Ana Contente disse...

gente... não vou falar DE NOVO que as fotos estão incríveis... Ivan, pode mudar de profissão!
Gabi: seu cabelo está IN-CRÍ-VEL! Arrumado ou desarrumado ele fica lindo #invejinha!
Saudades de vocês...

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