quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Bahir Dar - Etiópia


Ao entrar no interior de um dos países mais pobres da África você tem apenas  uma certeza: a Etiópia é dourada. 

Embarcando num ônibus de madrugada na praça Meskel, em Addis Ababa fica difícil de acreditar no cenário que se vê ao acordar, no meio da estrada. São plantações de trigo até onde a vista alcança iluminadas pela luz da manhã em intermináveis tons de amarelo. Riqueza extraída da terra e aclarada pelo céu.

Após conhecer a capital Addis Ababa (post exclusivo futuramente), nossa primeira parada foi em Bahir Dar, porta de entrada da região mais turística do país – a rota histórica. À beira do maior lago do país, a cidade tem um clima de veraneio aliado a um forte componente histórico dado pelos mosteiros antiquíssimos espalhados pelas margens e ilhas da região.

Entrada do mosteiro Kebran Gabriel.
Em todo percurso de ônibus e durante nossa estadia na cidade, pudemos perceber o potencial turístico da região – ainda a ser explorado. Considerando que este é o roteiro mais batido pelos visitantes, ficamos surpresos ao perceber que nós dois éramos uma atração à parte. O motorista do ônibus ficava o tempo todo perguntando se estávamos gostando da viagem, algumas pessoas pediram para tirar foto com a gente. Só se fala o amárico e o inglês é uma exceção bastante limitada – tentar decifrar algum prato num cardápio só com o alfabeto deles é uma diversão.

Embarcação tradicional feita com papiro.

Mas quem sempre adora a visão de um turista branquelo recém chegado são as crianças etíopes. Ao caminhar pelas ruas de Bahir Dar íamos aos poucos sendo seguidos por uma penca de meninos e meninas de dois a sete anos que se amontoavam exponencialmente ao nosso redor. Em pouco tempo percebemos que a aproximação deles era feita em uma sequência única, e infelizmente viciada por um turismo de culpa, conduzindo os pequenos à uma cantilena idêntica que se repete por todo o país: Hello / What’s your name? / Give me money. / Give me pen. (Olá / Qual o seu nome? / Me dá dinheiro. / Me dá caneta.) Quando convencidas de que dali não sairia nada, ou as crianças perdiam o interesse ou tentavam continuar a conversa em amárico – o que não durava muito. Para nossa tristeza percebemos que este é um comportamento padrão e profundamente arraigado no país – mas isso fica para um próximo texto em Percepções.

As acomodações na cidade eram um prenúncio do que encontraríamos pelo país: antigas, mal cuidadas e quase sempre indisponíveis. Para piorar nossa situação um feriado nacional e uma comemoração da federação etíope reunia boa parte do país nesse pequeno balneário. Evidente que não sabíamos disso e quase acabamos dormindo na rua.

A grande atração da cidade, além do imenso lago é a grande concentração de mosteiros cristãos ortodoxos, quase todos localizados à margens do lago ou mesmo em ilhas.  Apesar de não termos conseguido negociar um bom preço para alugar o barco para visitar os mosteiros (mesmo com toda lábia turca do Sr. Ivan Marques), decidimos que iríamos de qualquer jeito.

O lado de fora não dá nenhuma dica da riqueza do interior.

Localizado no meio de uma das vilas nas margens do imenso lago, o Ura Kidane Meret foi construído no início do século XIV para celebração das missas cristãs ortodoxas e continua em uso até hoje. 


A construção é diferente de qualquer monumento religioso que normalmente temos como referência, a começar pela arquitetura. Com técnicas que são usadas até hoje, as casas nesta região têm formato circular e são erguidas com uma fundação de pedra e/ou troncos de madeira na vertical (os nossos tijolos) que são “preenchidos” com uma mistura de barro e palha de trigo, dando às paredes um aspecto de papel machê. O teto é sustentado por uma estrutura de madeira, em formato cônico, e coberto por palha entrelaçada (nossas telhas).

É dessa parte que os fiéis acompanham a missa.

Não parece uma santa?

Os mosteiros seguem exatamente este mesmo padrão contando com duas estruturas circulares: uma externa, somente de madeira e sem preenchimento de barro e palha, que permite iluminação e ventilação; e outra interna, concêntrica, com pinturas sagradas trabalhadas do teto ao chão em toda a circunferência da maqdas (santuário interno). Lá dentro, onde só é permitida a entrada dos monges, que cada um dos mosteiros guarda uma réplica da Arca da Aliança trancada a sete chaves e só exposta nas missas.

Detalhe de uma parede do Ura Kidane. S. Jorge onipresente.

É interessante perceber nas pinturas a forte presença da Virgem Maria – muitas vezes mais importante do que o próprio filho – e de vários santos com histórias bastante particulares que permeiam o cristianismo ortodoxo.

Gabi devidamente trajada dentro do Ura Kidane.

As relíquias também são elementos bastante presentes e têm destaque nos minúsculos museus que ficam ao lado dos mosteiros. Ali são expostos pedaços de cajados, coroas e ornamentos que, segundo dizem, foram usados pelos santos que fundaram os mosteiros. Além disso é possível folhear escrituras antiquíssimas ainda feitas em pele de cabra e escritas em uma língua anterior ao amárico, o geez. As cruzes ortodoxas também têm uma simbologia importante porque além de serem um trabalho riquíssimo de simetria diferem em cada região.

Quase desmaiamos ao ver que estávamos manuseando livros de mais três séculos.

vigas de sustentação do telhado trabalhadas

Seguimos para o segundo mosteiro, de Debre Maryam, originalmente do século XIV mas foi reformado no século XIX.

Finalmente fomos para Kebran Gabriel, que data do século XVII e só permite a entrada de homens – e você, mulher, tem que ficar de castigo esperando num banquinho nas margens da ilha. 

Sorry, no "ladis"
Quando voltou, Ivan me contou que a igreja estava fechada para reforma mas que ele pode ver o suposto cajado que o santo fundador deste monastério usou para matar a cobra que era adorada no lugar do Deus verdadeiro.

A cruz da direita é a arma do crime ambiental.

É interessante perceber que o país mistura suas lendas próprias com a história contada na bíblia para formar sua própria religião. Nesse sentido, visitar os mosteiros e igrejas torna-se uma oportunidade de conhecer através das imagens desenhadas ricamente nas paredes um pouco mais das crenças  locais.

O santo que deu de beber dos próprios olhos ao passarinho.

Os santos estão em todos os lados: há o canibal que foi poupado pela Virgem Maria, o outro que viu um passarinho morrer de sede no deserto e deu a agua de seu próprio olho para salvá-lo e, é claro, São Jorge. 

O santo canibal!
Retratado em todos os cantos, o suposto cavaleiro da Capadócia é figurinha fácil em pinturas, livros, mosaicos. No fim, os mosteiros são uma verdadeira história em quadrinhos gigante, pintados com devoção e suas mensagens tidas como fatos históricos pelos etíopes, não importando quão fantásticas elas sejam. 

Visitas somente sem sapatos!
E ai de quem dar uma risadinha descrédula ao lado do padre (que invariavelmente pedirá dinheiro para mostrar a igreja apesar de você já ter pagado a entrada). 

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