segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Bwindi Impenetrable Forest - Uganda




Na noite que antecedeu a subida à montanha dos gorilas, era impossível não perceber o tamanho da expectativa que pairava no ar. O fato de não saber qual família iríamos visitar, qual seria o tempo de trilha nem as condições (apesar da chuva torrencial que caía durante a noite) só fazia crescer o clima de surpresa em torno do ponto mais esperado daquela parte da viagem.

Entre o nosso grupo, que seria o primeiro da turma do overlanding a fazer a trilha, havia uma troca de olhares ansiosos que acusavam a cumplicidade de quem sabe, no sorriso do outro, que no dia seguinte iríamos passar por uma experiência inesquecível. E assim foi.

Saímos as 5h da manhã do acampamento e seguimos em uma van pelas estradas tortuosas do Lago Bunyonyi até a entrada do parque. Ao longo do caminho a floresta vai aos poucos se revelando cada vez mais densa e suntuosa até cobrir o cenário por completo, fazendo da estrada um mero risco de terra no meio de tanto verde. O dia foi nascendo devagar, ao seu tempo, e uma névoa leve acariciava a floresta por alguns instantes, como que abençoando aquele ambiente sagrado que estaríamos prestes a entrar – a Floresta Impenetrável de Bwindi.

Gorillas in the mist

Chegando na sede, fomos recebidos por um grupo de rangers extremamente profissionais, que com muita tranquilidade nos explicaram os principais aspectos da vida dos gorilas. No mundo inteiro, restam apenas 700 indivíduos que vivem naquela floresta impenetrável na divisa da Uganda, Rwanda e República Democrática do Congo. A dificuldade de crescimento deste número – depois de décadas de extermínio até beirar a extinção – se dá, dentre outros motivos: pelo elevado índice de mortalidade dos filhotes (apenas 1 em cada 3 sobrevive a idade adulta devido à doenças genéticas pela procriação entre familiares); pela extensão reduzida da floresta que não atende as demandas territoriais das famílias; pelo longo período gestacional (8,5 meses) e maturidade reprodutiva dos indivíduos (em torno de dez anos, salvo engano). Hoje, apenas 7 famílias estão habituadas ao contato humanoe as outras, estritamente selvagens,  são acompanhadas somente para estudo e pesquisa.

A trilha.

Lá ficamos sabendo que a família que iríamos visitar era a Bitukura, composta por 12 indivíduos dentre os quais: três silverbacks, algumas fêmeas e adolescentes, e três filhotes. Nosso rangerestabeleceu algumas regras para o encontro: manter 7m de distância, não usar flashes, não tossir nem espirar na direção deles (por compartilharem mais de 90% do nosso código genético são extremamente suscetíveis as nossas doenças). Com relação ao comportamento com os gorilas, recomendou não olhar nos olhos, não levar comida e, em caso de ser atacado por um deles, não correr e manter a cabeça baixa.

Karamuzi, ou "o juiz". Thanks Camille!

Com estas instruções em mente começamos nossa aventura. O tempo de trilha até encontrar a família pode variar de vinte minutos a seis horas caminhando pela floresta impenetrável - daí trekking, que significa justamente rastrear estes animais.

Parece de brinquedo.

Os rangers monitoram diariamente a localização das famílias e antes do amanhecer dois scoutsvão na frente para precisar o ponto de encontro, orientando os grupos por rádio. Depois de 30 minutos embrenhando-se pela mata densa, nosso guia nos olhou com um sorriso e disse: “Vocês estão com sorte! Os gorilas estão subindo a montanha em nossa direção, vindo ao nosso encontro.”O coração já começou a bater aos pulos.

O encontro.

Em determinado momento ele nos pediu para deixar os nossos bastões de caminhada – que poderiam ser mal interpretados por um dos silverbacks– e segui-lo com cuidado para encontrar a família que estava logo ali. Com os olhos bem abertos e coração na boca, começamos a vasculhar a floresta ao longe, buscando algum vestígio de pelagem preta no meio de tanto verde. De repente, quase sem acreditar, nos deparamos com um velho macho, enorme, sentado de costas a pouco mais de 5 metros de nós.

Sossego em pessoa.

Traduzir o que segue – esta experiência e os sentimentos que ela proporciona – é uma das tarefas mais difíceis de redação deste post, mas vamos tentar passar isso da forma mais genuína possível.

Planeta dos Macacos.

O primeiro encontro é arrebatador. Uma descarga de adrenalina imediata percorre o corpo todo e alerta o cérebro de que aquela situação é, no mínimo, delicada. O coração vai a mil e as pernas falham quando o guia te empurra pra frente dizendo pra você chegar mais perto e tirar uma foto. E você se atrapalha inteiro, entre se equilibrar no terreno íngreme, ficar de olho naquele animal monumental, pegar a câmera na mochila, desligar o flash e tentar focar alguma coisa no meio de tanta excitação.

Ele esta a somente 4m de voce.

Até que ele vira e te olha. E você congela. Não de medo, não por uma possível ameaça, mas sim por experimentar, pela primeira vez, a pureza destilada de um olhar tão selvagem. Nem bom nem mau, nem certo nem errado, apenas e absolutamente cheio de natureza profunda. Um olhar que te atravessa a alma e torna impossível sustentar o seus olhos, humanos, frente à força bruta daquelas pupilas cor de caramelo.

Olhos cor de caramelo.

E depois desse primeiro encontro, desta troca inesquecível de olhares que dura segundos – e marca pela eternidade – eles simplesmente voltam à vida, completamente alheios à sua presença. Herbívoros que são, examinam cada folha, raiz e casca de árvore em busca de nutrientes que parecem insaciáveis para um corpo tão robusto e denso.

Filhotes mascam casca de arvore.

Em pouco tempo, um filhote de quatro anos desce atrapalhado duma árvore logo acima do nosso grupo e, depois de analisar com cuidado o melhor caminho para chegar no chão, aterrissa, e nos olha com um leve desdém. Os bebês mais novos andam agarrados nas costas das mães que ficam mais reservadas mata a dentro, preocupadas em passar em revista os pêlos na busca de algum piolho.




Em determinado momento o macho alfa vocaliza um chamado gutural ordenando que a família se mova um pouco mais para frente e todos obedecem. E quando um dossilverbackssimplesmente levanta e passa por você, a menos de dois metros de distância, você começa a se dar conta da real dimensão do privilégio sagrado daquela situação.


Depois de quase uma hora observando em êxtase aquela família interagindo, brincando, comendo, vivendo, é impossível não reconhecer-se e ser acometido imediatamente por uma sensação de abandono.


Um fragmento de instinto que ainda não foi esmagado pela nossa “evolução” escancara uma similaridadeobscena entre você e aqueles também mamíferos. Você perde a virgindade da sua condição humana e se dá conta que, talvez, haja tanta semelhança – nos gestos, na profundidade do olhar, no carinho do colo, na complexidade da família – que beira algum tipo de humanidade compartilhada.


Acompanhado a este (re)conhecimento vem uma imediata sensação de perda. De que algo se perdeu entre você e aqueles parentes tão obviamente próximos e ao mesmo tempo tão reservadamente distantes. E o estranho não pertencimento àquele mundo remete à raízes mais primitivas, como se uma linguagem sagrada tivesse se perdido no tempo de forma irrecuperável. Talvez por isso a profunda sensação de abandono: você sabe que sempre vai se lembrar deles mas provavelmente nunca será lembrado por eles. Estranho sentimento de saudade que dói a visita toda.


E justamente por isso, ao término da nossa uma hora com os gorilas, você é acometido por uma sensação esmagadora de gratidão. Gratidão plena e profunda por ter tido a oportunidade de vivenciar esta experiência, de estar na presença destes animais sagrados, de ser atropelado por um turbilhão de sensações que remetem a um instinto natural que você desconhecia até então. Sentimento genuíno de pertencer e (re)conhecer-se em uma das maiores criações da natureza – e saber-se parte dela, finalmente.

Conseguimos!
Quando deixamos de olhar para os animais, que infelizmente ficaram pra trás, e passamos e enxergar os nossos companheiros de expedição notamos que a emoção não foi só nossa. Olhos inchados e uma alegria coletiva permeavam o grupo em uma sensação compartilhada de realização. Deixamos a família de gorilas pra traz, em silêncio respeitoso, e voltamos para a nossa realidade.

Já de volta ao ponto de partida, na sede dos rangers, participamos de uma cerimônia de “formatura”, onde os sortudos que conseguiram ter o encontro com os animais são agraciados com um diploma.


O sonho acaba aí. Reconhecidamente, o trabalho que está sendo feito para a preservação dos animais é fantástico. Apesar de absurdamente cara (pagamos U$500 por pessoa, mas o preço já subiu para U$650), a licença para rastrear os gorilas (obtida em Kampala) é totalmente convertida para a manutenção do trabalho de preservação e proliferação do gorilas. O passeio todo é tão bem organizado e profissional que chegamos a desconfiar quando viria o resto da conta.

Muito além do que mais que uma atração nessa viagem enorme que estamos fazendo, estar com os gorilas em Uganda foi uma lição de humanidade. Pelos animais, que seguem protegidos, mas também da capacidade de um país pobre e cheio de dificuldades em reconhecer seu patrimônio e preservá-lo para as futuras gerações.

 

6 comentários:

Thais disse...

SENSACIONAL!
Estou sem palavras...deixo apenas essa hoje!!
Parabéns pela conquista queridos. Uhuhuhuhuhuhuhuh
TCC

douhlas disse...

Meus queridos, mais uma vez vcs me fizeram chorar. Bjs

Hélida disse...

Fantástico! Vcs inspiraram a minha viagem de 2013, muito obrigada!

Carolzinha disse...

A foto final é linda e traduz todo o sentimento relatado no post! Coração apertado de saudades, queridos! =)

Celina disse...

Gabi e Ivan

Que beleza de relato extremamente sensível e respeitoso perante a imensidão desta natureza animal e vegetal.

Amei todoas as fotos principalmente a última aonde você está de costas e o Querido Ivan de perfil, consolando e carinhosamente te olhando.Vocês estão mais bonitos e iluminados a cada nova experiência.

A Saudade aperta!

Maria Luiza Cruz disse...

Emocionante mesmo! E, mais uma vez, chorei... de felicidade pelo sentimento e a percepção e a sensibilidade de vocês! beijo grande "macaquinhos lindos"

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...