sábado, 8 de dezembro de 2012

Lagos: Victoria & Bunyonyi








Depois de tanta planície sem fim – savana por definição – ficava difícil visualizar alguns gorilas no meio daquela paisagem razoavelmente árida. No entanto, assim que começamos adentar o coração do continente africano, a vegetação ia se tornando mais densa, mais verde, mais úmida, mais propícia aos grandes primatas. Todo o caminho é permeado por intermináveis plantações de chá, uma das principais economias do país.

Plantação de chá em Uganda.

LAGO VICTORIA (Kenya)

As estradas até o Lago Vitória, divisa do Kenya e Uganda, são bastante complicadas e em determinado momento fica difícil diferenciar se o mal estar geral era por estar chacoalhando há algumas horas dentro no caminhão, se pelo barulho infernal de coisas batendo uma nas outras no armário dos fundos ou se pela repetição de tomate-repolho-cenoura-batata. Talvez uma mistura de tudo, vá lá.

Haja livro pra tanta estrada. (E a barba cresce...)
Finalmente chegamos no nosso acampamento ao anoitecer e depois do ciclo montar barraca / encher colchões / pegar malas, fomos para o bar, a beira do lago, tomar a nossa merecida Tusker gelada. Pouco depois e já noite, enquanto todos estavam jantando, ouvimos um barulho assustador – como se fosse um jegue-bombado muito, mas muito bravo e urrando grosso.

Silêncio na roda inteira, ninguém moveu um talher e todos olharam com uma cara de pânico para o team leader. Reproduzo aqui, na íntegra, o dialogo que ocorreu na referida situação:

Pessoas (assustadas): Que barulho é esse?
Team Leader (TL): Ah, esqueci de falar, é bom prestar muita atenção ao andar pelo camping. Este lago que estamos (Lago Vitória) tem uma grande concentração de hipopótamos e são eles que fazem este barulho que vocês estão ouvindo.

Pessoas: E onde eles estão?

TL: Logo ali no lago, mas a noite eles vêm pastar aqui na grama.

Ivan: Mas os hipopótamos não são um dos animais mais perigosos da savana?

TL: Sim, e é por isso que se você encontrar algum durante a noite, é só não ficar entre ele e a água – do contrário ele pode atacar.

Gabi: E onde estão as nossas barracas?

TL: Bem ali, na beirada do lago.

(Ahhh tá...)

Vamos dormir, meu bem?
Com um friozinho na barriga que frequentemente era aguçado por mais um barulho assustador de hipopótamos, voltamos ao bar. Dali a pouco, o gerente do camping veio nos chamar para vermos uma mãe e um filhote que estavam ali perto (uns 20 metros) entre o lago e algumas saídas para a grama. Com a adrenalina a mil, vimos o pequeno se refestelar no mato alto sob o olhar atento da mãe monumental – e quando aqueles olhos deixaram de refletir a luz da nossa lanterna e sumiram na água, achamos que era hora de voltar para o nosso canto.


LAKE BUNYONYI (Uganda)

Corrida de canoa. A Gabi ganhou!
A chegada no acampamento sede para a saída aos gorilas acontece num clima de pura excitação por algumas razões: a proximidade do ponto alto da viagem (o trekking com os gorilas); a surpresa de um lago imenso que se revela, nas alturas, contornado por uma floresta fechada; pela possibilidade de ficar três noites em um mesmo lugar sem ter de montar/desmontar barraca.

Com tempo de sobra, da até pra descansar. Valeu Aninha!!!
Nosso camping, sede para todos os overlandings que vão para aquela cidade, tinha uma vista linda e era bem estruturado, lugar ideal para, pela primeira vez na viagem, relaxar e não fazer nada por alguns dias – além é claro de lavar roupa, fazer uma higiene pessoal profunda, limpar a barraca e algumas outras coisas que, tendo tempo, se faz até com prazer.

Tempo livre? As tomadas não aguentam tanto ócio.
Tendo em vista que a trilha com os gorilas comporta um número bastante restrito de pessoas (no máximo 8 por família), as empresas normalmente ficam três noites no local, revezando um grupo por dia para fazer o trekking. Isso abre espaço para algumas outras atividades opcionais para se fazer em Bunyoni, dentre elas um passeio na vila para conhecer os moradores e um projeto social chamado Little Angels.

Sempre tem um jeito.
O passeio começa com uma subida íngreme até um casebre isolado que fica no alto do morro. Lá vive uma senhora idosa, de nome Frida, que acabou virando atração local pelo seu entusiasmo e afeto extremos, talvez um pouco estranhos ao mundo moderno. Ao abrir sua casa, ela recebe cada um dos estrangeiros com uma alegria esfuziante que intimida nossos padrões tão comedidos de demonstração emocional. Como se não bastasse, ela percorre em revista o corpo de cada um daqueles brancos assustados, pegando e brincando com braços, peitos, bundas e pernas deixando-os numa situação visivelmente desconfortável.

Frida, como ela faz questão de reforçar.
E aí, me permitam uma divagação: há algum tempo, assistindo uma palestra do Ivaldo Bertazzo no SESC, ele nos alertava sobre a perda completa da nossa capacidade de se tocar, do com-tato, de pegar no corpo do outro e se deixar ser apalpado. Mais ainda, que este modelo de relacionamento interpessoal altamente individualista, onde cada um tem o seu espaço físico intransponível e delimitado, gerava uma série de carências onde as pessoas tinham simplesmente perdido a naturalidade do toque. E ali, no meio de uma vila minúscula de Uganda, tudo aquilo fez sentido: uma senhora, que sem pudor nenhum brincava e abraçava desconhecidos, era recebida com estranhamento e desconforto total por ingleses, australianos e americanos que fugiam de tanto toque.

Aprovado!
Em seguida, fomos guiados para a sede dos Little Angels, um projeto social que abriga um orfanato-escola para 170 crianças de 2 a 9 anos de idade. Nós chegamos um pouco antes do almoço, quando as crianças estavam no meio do aula e fomos convidados a sentar no fundo da sala, em bancos apropriados para os pequeninos. Depois de alguns instantes de excitação e “hello miss” aquelas mais de trinta crianças começaram a recitar todas as lições em inglês, numa alegria de quem enche os pulmões pra dizer que sim, sabe aquilo tudo.

Hello Miss!
A professora, uma ugandense de pouco mais de 28 anos, conduziu com maestria aquele grupo de olhinhos atentos e ansiosos para serem escolhidos para responder o exercício na lousa – me teacher, pick me! Quando um deles, depois de se esticar até a ponta do pé para alcançar o local da resposta – os menores são devidamente levantados pelos maiores – volta ao seu lugar com olhar vitorioso, ciente da resposta correta, a classe canta em coro: Well done “Joana”, you’re so good and precious!

You are so good and precious!
E todos seguem entoando músicas, lições e o alfabeto completo para deleite de todos nós, sentados no fundo da classe, até que somos intimados pela professora a propor alguns exercícios. Algum americano sem noção certamente vai inventar uma soma que ultrapassa dez unidades (limite de aprendizado daquela classe com faixa etária média de 5 anos) mas a maioria segue sem erro a pedagogia proposta sentindo-se parte, ainda que por alguns segundos, daquela torrente de aprendizado.

Aprender cansa!
Depois disso, o líder do projeto conversa com os participantes gringos explicando que ele mesmo foi educado naquela escola e que a continuidade do projeto depende de patrocínio. A contribuição pode ser feita de forma imediata, em dinheiro, mediante preenchimento de um formulário com dados cadastrais ou, melhor ainda, “patrocinando” uma daquelas crianças. Com um valor anual de US$ 600 é possível fornecer uniforme, alimentação adequada e material escolar ao apadrinhado além de parte desta quantia ser destinada aos professores. Para maiores informações clique aqui.

Oportunidade agarrada.
Hora do recreio: as crianças saem em debandada disputando a tapa as duas únicas mãos que lhe restam enquanto participam das brincadeiras propostas pelos mestres. Novamente os turistas são convidados a entrar na roda, literalmente, sugerindo novas formas de diversão e as crianças ficam na expectativa de uma novidade. 

Felicidade.
Depois de alguns minutos constrangedores onde ninguém se prontificou a participar, eu me coloquei no meio da roda sob o olhar atento dos pequenos – e só aí me dei conta que não conhecia nenhuma cantiga infantil em inglês (referência para a maioria deles). E aí lembrei do Tato, queridíssimo, que passou por uma situação parecida na Índia, e teve a seguinte sacada: Fala bum-chica-bum / fala bum-chica-laca-chica-laca-chica-bum / Ahã – oh yes / One more time / This time louder / Fala bum... E as crianças, é claro, gritando a plenos pulmões aquela língua engraçada que elas acabavam de conhecer. 

Linguagem universal do fala-bum-chica-bum!
E aí fica a nossa lição: que a sede de saber das crianças é universal e irrefreável. A alegria extasiante de todas aquelas classes, ainda que em condições razoavelmente precárias, é a prova de que o direito à educação é uma necessidade vital da criança e do ser humano. Ver os olhos delas brilharem de prazer pela apreensão de um novo código – uma letra, uma língua, um número – é ter a certeza de que dali abre-se um novo mundo, calcado na vontade inesgotável de saber mais e mais. E a nossa esperança renovada, escorre pelo rosto.

5 comentários:

Maria Luiza Cruz disse...

"que a sede de saber das crianças é universal e irrefreável. A alegria extasiante de todas aquelas classes, ainda que em condições razoavelmente precárias, é a prova de que o direito à educação é uma necessidade vital da criança e do ser humano." Vcs devem ter a noção do quanto estão dando ao mundo, a vocês e a mim... E me devem algumas caixas de lenços... Obrigada por serem tão lindos e fazerem esse mundo mais bonito!

Priscila A. dos Ramos Cunha Pontes disse...

Ivan, estou acompanhando pelo blog essa incrível aventura que vocês estão vivendo! As fotos estão deslumbrantes! Aproveitem!

Thais disse...

Acompanharei a minha Mestre nas suas palavras. Vocês estão dando a oportunidade do MUNDO re-ver o que nunca deveria ter sido esquecido!
Fala-bum-chica-bum...VIVA!
Me tragam lenços também...que vontade de ter vivido isso ao seu lado.
Vcs são DEMAIS!
Amo :-)

Carolzinha disse...

Adorei o post, emocionante!
Mas duvido q vcs ainda vão ter q remar mto naquela canoa p vencer a dupla Carol & Thomas! =p
Bjocas, dears!

Celina disse...

Gabi e Ivan

Não consegui conter a torrente de água frente as fotos e o relato de crianças que tem muito menos do que merecem mas a esperteza do olhar e o desejo do saber poderão transformar o amanhã.

Ao querido e criativo Tato obrigada pelo ensinamento do improviso.

Evidente que eu vou clicar.

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