segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Dahab - Egito

Quando uma instrutora de mergulho nos perguntou quanto tempo ficaríamos em Dahab respondemos que tínhamos planejado uns 3 ou 4 dias, no máximo. Ela nos olhou condescendente e, com um sorriso largo respondeu: “Daqui uma semana a gente conversa.”

Panorâmica de Dahab do alto da montanha. (clique nas fotos para expandí-las)
Fica difícil imaginar que, a pouco menos de 1 hora da Las Vegas Egípcia de Sharm El Sheikh, exista um paraíso como Dahab. Esta pequena cidade incrustrada no Sinai é o destino certo para mochileiros, mergulhadores e famílias hippie-nice que buscam sossego e good vibrations.

Dahab em seu irresistível e preguiçoso fim do dia.
Assim que chegamos na nossa pousada – barata, limpa, quarto amplo com sacada, internet wi-fi e café da manhã buffet (!!) – fomos recebidos com suco de romã geladinho, um atendimento impecável e um aviso da gerência para, por gentileza, não dar gorjeta para o staff. Estes pequenos detalhes foram suficientes para deixar claro que a nossa temporada em Dahab seria inesquecível e inauguraria um Ano Novo com o pé direito.

Relaxando com um expresso na cafeteria italiana. Chique pra uma cidade hippie, não?
Quando saímos para fazer o reconhecimento da vila, ficou evidente o ar mais simpático e acolhedor que a cidade respira. Muitas bicicletas na rua, um comércio que se estende preguiçoso pelo dia todo, sorriso fácil (e não falso) no rosto e uma tranquilidade latente na fala. Se nas outras cidades tínhamos receio até de falar “bom dia” com medo de que isso fosse entendido como uma intenção de compra que levaria, invariavelmente, ao início de uma negociação de preço interminável, aqui não era exatamente assim. 

Só pra lembrar que tudo isso ainda é nossa lua de mel... Alto da montanha em por do sol no Sinai.
É claro que a simpatia árabe dos vendedores vem normalmente acoplada à apresentação de algum produto, mas em Dahab, na maioria das vezes, os vendedores queriam apenas saber de onde éramos, praticar o inglês dos filhos recém introduzidos à língua, fazer uma brincadeira ou simplesmente elogiar a barba do Ivan – esta última era, sem dúvida, a abordagem mais frequente.

Got beard?
O centro da cidade é composto por basicamente duas ruas: a que beira o mar, uma passarela apenas para pedestres onde ficam a maioria das pousadas, restaurantes e cafés; e a rua de trás, onde se passa a vida real de Dahab, com lavanderias, lanchonetes onde os locais almoçam, os cafés para fumar shisha e um gostinho mais autêntico de Egito praiano.

Mais um dia depois de muito mergulho. Impossível não relaxar.
Como estávamos no Mar Vermelho, um dos melhores pontos de mergulho do mundo, não perdemos tempo e fomos explorar o mercado de operadoras que a cidade oferecia. Depois de conhecer várias empresas, conversar muito com os instrutores, fazer orçamentos e ver procedimentos de segurança, optamos pela Sea Dancer – e hoje sabemos que foi a decisão mais acertada, sem sombra de dúvida. A equipe é muito profissional, eles sempre priorizam a segurança do grupo, seguem todas as recomendações da PADI, são extremamente organizados e têm um bom equipamento. E além de tudo, oferecem um bom preço no pacote de mergulhos!

Diversidade inimaginável pra quem só mergulhou no Brasil! (The Islands)

Foi aí que começamos uma das partes mais incríveis da nossa viagem até agora: mergulhar no Mar Vermelho. Eu sempre desconfio de visibilidades de raio-x e vida marinha super abundante. Por isso, mesmo sabendo que estava numa das “lendas” do mergulho, segurei minhas expectativas quando ouvi que naqueles dias a visibilidade da água estava entre 25 e 30 metros. E, é lógico, nós dois não estávamos preparados para tamanha imensidão, beleza e diversidade marinha.
Absolutamente sensacional!

Mesmo tendo mergulhado há menos de dois meses em Tofo (Moçambique), a operadora exigiu que fizéssemos um mergulho de nivelamento e teste do equipamento no ponto mais básico deles: o Farol. Assim que caímos na água, um susto: conseguíamos enxergar todos, mas absolutamente todos os outros mergulhadores que estavam no mesmo ponto. Pelo menos 25 metros de visibilidade, peixinhos de todas as cores e formatos e um polvo lindo, passando entre a areia e os corais mudando de cor e textura. Nossa instrutora comentou que nunca viu um casal passar o mergulho inteiro com um sorriso de orelha a orelha – e foi assim que ficamos em todos os outros. Dá até pra esquecer de respirar.

A vida é mais divertida embaixo d'água.

No mesmo dia fomos mergulhar no The Islands, uma formação de corais absolutamente única que se abre em uma série de corredores, criando um ambiente protegido para inúmeras formas de vida. É como se estivéssemos explorando o mundo de Alice no País das Maravilhas, só que embaixo d’agua! A diversidade de cores num labirinto de corais, cheio de peixes de todos os tamanhos, sons e luzes fizeram do lugar um dos nossos preferidos.

Que tal mergulhar em um aquário?
O casal mergulhador. (Foto Hans Van Der Meijs)
No dia seguinte partimos para dois mergulhos Gabr El Bint, um dos pontos mais famosos no Norte de Dahab. Lá vimos uma diversidade inacreditável de corais que desenhavam um imenso jardim subaquático num paredão interminável de riqueza de vida em cada detalhe e uma tartaruga dorminhoca que não deu nem bola pras inúmeras fotos que todos tiravam dela.

A tartaruga exibida! (Foto Hans Van Der Meijs)

Blue Spoted Sting Ray. (Foto Hans Van Der Meijs)
O nosso mergulho da virada do ano foi mais do que especial e, justamente por isso, vai ganhar um post só pra ele – aguardem!

Um ponto de mergulho bastante famoso é o Bells & Blue Hole, pela beleza de uma cratera oceânica de mais de 100 metros de profundidade e também (infelizmente) pela quantidade de mortes de mergulhadores imprudentes que se aventuraram muito mais do que o necessário. Lá fomos nós e o ponto de partida do mergulho é bem bacana, com uma descida em uma pequeno cânion para atravessar um arco de pedras e depois seguir acompanhando o paredão de corais até chegar ao famigerado Blue Hole. Quando se está bem no meio do buraco, a sensação é de estar voando numa imensidão azul e, justamente por isso, é muito fácil perder a referência e o senso de orientação (onde é pra cima, onde é para baixo, qual a distância real). Uma experiência bem bacana!

Peixe-Leão. Vimos vários...
No mesmo dia ainda fizemos o Canyon,  um mergulho muito bonito por conta de uma fissura que se forma entre os corais criando uma caverna semi-aberta e bastante longilínea que pode ser percorrida tranquilamente para exploração. 


Detalhe: a maioria das saídas de mergulho são feitas diretamente da praia, o que torna tudo imensamente mais fácil, tranquilo e flexível. Você praticamente pode ir mergulhar a hora que quiser, desde que haja instrutor disponível. Aí é só se equipar, atravessar o calçadão parecendo um astronauta e cair na água saindo diretamente da prainha – e bem ali, na frente de todos os restaurantes, fazendo a diversão da garotada.

De quebra a lua ainda estava assim, cheia cheia!!!
Depois de ter gastado toda nosso ar nos mergulhos resolvemos dar uma espiada no que havia na superfície terrestre do Sinai. Contratamos uma agência de turismo (Nasaim Tours) de família beduína para conhecer um pouco do deserto e logo partimos para o primeiro tour: pôr do sol fotográfico de camelo. 

A rainha do deserto.

Mais turista impossível – mas é claro que nós dois estávamos morrendo de vontade de andar naquele bicho temperamental. 


Gabi não para de rir enquanto o bicho nos leva montanha acima.
Apesar de termos ficado um pouco decepcionados com o pouco tempo em cima do quadrúpede e as montanhas bem próximas à cidade, as fotos ficaram bem bacanas.

Voto noturna de Dahab de cima das montanhas od Sinai. (HDR)
No dia seguinte – e depois de uma hora e meia de atraso – seguimos para o segundo tour contratado: um dia inteiro de passeio pelo White & Colour Canyon. 

White Canyon. 
Foi bem tranquilo, nada de mais, as formações são bonitas mas bem pequenas e a coloração das pedras aparece em pequenos veios nas rochas. De toda forma foi uma boa oportunidade para conhecermos o deserto mais de perto.

Talvez tenha sido esse arbusto que Moisés viu pegar fogo ao falar com Deus. Será?

Formação geológica faz as pedras nessas tonalidades diferentes.
Pastrami? Não, pedras no Coloured Canyion do Sinai.
Gabi no topo do Sinai esperando os mandamentos.
O único (grande) inconveniente desta viagem toda foi a Nasaim Tours. Depois de inúmeras enrolações, confusões de horário e transporte, reclamamos enfaticamente com o gerente e depois de muito bate boca achamos que a questão estava resolvida. Mal sabíamos que seria apenas o começo de uma briga surreal que tivemos – e, em determinado momento, quase que tivemos que chamar a polícia para interceder por um guia beduíno que tentava nos impedir fisicamente de entrar no taxi para pegar o ônibus para o Cairo. Enfim, NUNCA contratem esta agência, é só dor de cabeça (mais detalhes na nossa revisão do TripAdvisor).

Apesar do velhinho ter virado um psico total, o tour até que foi bom.
De qualquer forma, esta foi a única experiência ruim que tivemos em Dahab e, de tão tranquila que é a cidade, acabamos ficando 1 semana inteira por lá. Há três anos escrevi um post sobre Santo André na Bahia e fiquei me perguntando como é que uma joia dessas ainda existia sem ser invadida por hordas de turistas. Dahab não é diferente e já entrou na nossa lista de “lugares preferidos no mundo” – que, apesar de extremamente seletiva, felizmente cada vez fica mais longa. Nossa dica é: corra pra lá antes que o resto do mundo descubra esta maravilha!

Dahab no por do sol.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Sharm El Sheikh - Egito




Gabi devora o bolo de lua de mel que ganhamos no quarto do hotel.
Muito bem, depois de pouco mais de três semanas de Etiópia, tomamos uma decisão difícil: não ir para Lalibela.

Esta cidade que guarda inúmeras igrejas monolíticas escavadas em pedra viva, fornece uma visão única: construções “negativas” esculpidas chão abaixo. Este foi o principal motivo para nós querermos ir para este país e, chegada a hora, decidimos não ir. Por quê? Porque, mais uma vez, foi preciso conhecer e saber respeitar nossos limites e nós dois já tínhamos cruzado a fronteira da razão com o transporte, a falta de infraestrutura, a constante exploração dos turistas e as mais de 14 horas de lotação que teríamos de enfrentar para chegar à Lalibela. E era Natal.
Surpresa boa de Mekele (Etiópia): o time mais internacional do Brasil!!!

Em poucas horas trocamos nossa passagem de avião Lalibela-Addis Ababa (onde passaríamos o Natal orginalmente) para outra saindo de Mekele (onde fomos deixados depois da Danakil Depression) para Addis Ababa e um dia depois direto para Sharm El Sheikh – que, segundo apuramos, é considerada a Riviera francesa do Egito e a resposta do país à Las Vegas. De quebra ainda pegamos uma promoção no resort da rede Hilton, estourando sem dó nosso orçamento para os próximos dias. Porque, afinal, era Natal – e esse era o nosso presente.

Praia exclusiva dos resorts.
E aí vale uma observação: em determinados momentos é preciso tirar férias da viagem. Ser viajante – que é completamente diferente de estar de férias ou ser turista – é um estado de espírito constante, de possibilidades inesgotáveis que não permitem um “final de semana” no sofá. Afinal, todo dia é dia de conhecer mais um canto do mundo (e descobrir como chegar lá, qual a conversão da moeda, onde dormir, o que comer, etc, etc, etc). E nesse ponto, nós estávamos exaustos.

Dezembro foi um mês duro. Muito além das aventuras e perrengues, estávamos cientes de que este seria nosso primeiro Natal como casados e, principalmente, porque pela primeira vez passaríamos longe das nossas famílias – e, quem nos conhece, sabe que é um momento muito especial para ambos. Depois de muita conversa, uma pontada de angústia e um ímpeto de dar a volta por cima, decidimos que faríamos o nosso Natal da melhor maneira possível e que seria sim, muito especial.

Cair da noite perto do velho souk de Sharm.

E pra isso, com muito orgulho, chutamos o balde numa combinação infalível: praia com águas cristalinas, a cidade mais ocidentalizada do Oriente Médio, um resort que você não tem que pensar em absolutamente nada, comida conhecida e uma cama king size. Durante três dias seríamos os mais turistas dos turistas, não faríamos nada o dia todo e descansaríamos (!!!) num Natal inesquecível. E foi exatamente assim.

Ceia com direito a salmão defumado, velas e muito queijo! Já diria Bono: home is where the heart is!
Sharm El Sheik é, de fato, a cidade mais over que já conhecemos depois de Las Vegas – e com praia, o que dá direito a milhares de russos estreando toda a sua alvice com os trajes de banho mais OMG da história. Some a essa Disney adulta despudorada todo o imaginário mais brega possível da cultura egípcia com decorações de dourado e preto, Cleópatras e hieróglifos espalhados em cada cardápio e saída de banho. Ah, e regue essa mistura com muita bebida, restaurantes caros e gente endinheirada. Pronto, isso é Sharm.

Ah, the Russians! O que seria da nossa viagem sem esses seres de outro mundo?? 
Mas nem tudo é essa bizarrice. No mundo hermeticamente fechado dos resorts, tudo funciona, você não tem que negociar preço, dá pra confiar na água que você bebe e a comida é amplamente conhecida de antemão. Pequenas coisas que fazem a cabeça descansar. A cidade ainda conta com McDonalds, KFC, TGI Fridays, Starbucks, Carrefour, Hard Rock Café e as demais franquias que adoramos detestar. No entanto, depois de passar três meses na dúvida se o que você pediu pro almoço é sopa de fígado de macaco ou frango à passarinho, restaurantes assim foram o melhor presente de Papai Noel!

Rua das baladas em Sharm.
Para aqueles que gostam de mergulho, a cidade oferece várias operadoras que te levam aos melhores pontos do Mar Vermelho – por algumas dezenas de euros e um certo desdém pela sua cara de mochileiro. A água é tão transparente que dá pra ver os peixes nadando diretamente da praia!
Andando na beira da praia! Imagina mergulhando...
Para nós, foi o break perfeito da viagem, altamente necessário e aproveitamos cada momento de dolce far niente. Nos jogamos de cabeça e sem a menor culpa nos sundays do McDonald’s, café da manhã buffet, espreguiçadeira na praia e hambúrgueres com batata frita a noite. E toda a manhã ainda ganhávamos um quarto milimetricamente limpo (e decorado!) e, como cortesia do hotel, um bolo cafonérrimo em formato de coração pela nossa lua de mel. It’s egyptian Vegas, baby!


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Addis Ababa - Etiópia


O Leão de Judah, símbolo do país.
 Addis Ababa, além de ser a sede político administrativa da Etiópia, é também considerada a capital internacional do continente africano. A cidade abriga a representação das principais organizações multilaterais e não governamentais que atuam na África e, por isso, conta com uma grande comunidade de expatriados que dão um ar cosmopolita à urbe.


Nossa experiência com a cidade se deu em dois momentos: assim que chegamos ao país, quando ficamos quatro dias por lá e depois da volta que fizemos na região norte, antes de pegarmos o avião para o Egito.

Imperador Haille Salassie ensina crianças. 
Como porta de entrada à Etiópia, a cidade conseguiu definir em pouco tempo o que  encontraríamos no resto do país: cultura incrível, comidas sensacionais, hospitalidade fantástica, mas também imensa pobreza (e os problemas a ela relacionadas) e uma dificuldade enorme de transportes.

Resolvemos encarar todas esses desafios com disposição, entendendo que todas estas características enriqueceriam nossa experiência neste país incrível e ainda pouco explorado pelo turismo internacional.
Ivan sendo abençoado pela Virgem Maria. Na verdade, pintura do Museu de Etnologia.
Começamos com uma longa caminhada a pé para fazer o “reconhecimento” da região (e que acabou se estendendo para a cidade toda), procedimento este que adotamos quase que como padrão para todo lugar novo que chegamos. Parando algumas vezes para pedir informação e depois de algum tempo chegamos ao Museu de Etnologia. Uma das principais atrações da cidade, este museu fica num antigo palácio de Haile Selassie, hoje dentro do complexo da Universidade de Addis Ababa.

É uma delícia perceber que o ambiente universitário é, normalmente e no mundo todo, território único. Sagrado na dialética, rico na diversidade e irrevogavelmente fresco – seja pela juventude em si ou pelo ímpeto das ideias que carrega – a universidade é espaço de liberdade e criação. Entrar num campus em outro país, ainda que apenas como observador, gera imediatamente uma sensação de pertencimento e renova qualquer espírito combalido por alguns anos de realidade crua e nua.

Depois de passearmos um pouco por lá, entramos no museu e assim que compramos nossos bilhetes de entrada a luz acabou – e fizemos uma horinha vendo a coleção de imagens e objetos sacros no andar superior que recebiam iluminação natural. Já com as questões elétricas reestabelecidas, pudemos explorar melhor o acervo que conta com inúmeros objetos, fotos, instrumentos e vestimentas de todas as etnias que compõem a Etiópia.

A luz acabou...
Ficamos sabendo que no norte do país há uma comunidade judia etíope antiquíssima mas que, para ser reconhecida como parte legítima do povo escolhido, teve de passar por inúmeras comprovações, inclusive uma análise de DNA que indicaria a “procedência” das famílias. Quando provado que sim, aqueles negros eram efetivamente judeus, todos foram levados de avião para Israel – onde até hoje têm sérias dificuldades de integração e adaptação no território. 

Também conhecemos alguns hábitos das tribos do sul do país, onde há um forte componente cultural de manifestação da beleza estética por meio de tatuagens, alargadores e cicatrizes pelo corpo acompanhados da fabricação de adereços lindíssimos de contas e pedras. Mais uma lição aprendida com relação ao nosso mundo ocidental tão pequeno (e tão cheio de si) onde a beleza é cada vez mais padronizada e “monoteísta” – e aqui, do outro lado, a diversidade manifestada em conceitos estéticos que nos são absolutamente estranhos, é o que se conta nos museus.
Gabi posa de macaquinha em frente aos seus tatatatatatataravós. Museu de História Natural.
Ainda outra parte muito interessante do museu e com uma curadoria inovadora, era a seção que trazia o ‘ciclo da vida’ como fio condutor, onde foi possível conhecer aspectos referentes ao nascimento, infância, fase adulta e velhice do povo etíope. O que nos marcou foram alguns painéis dedicados a preservar às histórias que os pais contam às crianças, sempre com alguma lição de moral que, por meio de metáforas, ensina sobre a vida. Essa pérola da tradição oral trazia todos os elementos da fauna e flora da savana africana, abordando com delicadeza temas como egoísmo, inveja, sexo e amizade. Dava para fazer um belo livro! 

Esse é o esqueleto da pequena Lucy.
De lá partimos para o Museu de História Natural, onde a vedete inconteste é Lucy – o esqueleto mais antigo já encontrado por paleontólogos que estabelece o elo entre o homem e os primatas (essa é a versão para leigos, porque a história é bem mais complicada do que isso). A mocinha é bem pequenina – tem pouco mais de 1,20m – e seu simpático nome é dado em homenagem à música dos Beatles Lucy in the Sky with Diamonds. Tem como não se apaixonar pela menina-macaquinha?

Detalhe dos vitrais da igreja que misturam a hstória da Etiópia com passagens da bíblia.
Depois de ter pegado uma baita chuva no meio do caminho, fomos visitar a Igreja da Santíssima Trindade, um dos principais destinos de peregrinação católica-ortodoxa do país. Chegando lá, pagamos o nosso ingresso e entramos no edifício que tem uma arquitetura diferente das igrejas góticas que estamos mais acostumados. 

Igreja da Santíssima Trindade.
Um padre nos acompanhou e nos “convidou” a tirar uma foto da tumba do imperador Haleil Selassie e de sua mulher. Após o click, a exigência da gorjeta - claro.

Santa Gabi e o padre malandrão em frente ao túmulo de Haille Salasie (Ras Tafari).
No meio dessas andanças tivemos uma triste experiência, devidamente avisada pelo Lonely Planet. A quantidade de moradores de rua é enorme, os pedintes estão em todos os lugares e as crianças são um percentual considerável dessa população. Pequenos, eles vêm pedir dinheiro em bando e enquanto um tenta te vender uma caixinha de lenços o outro estende a mão para alcançar o interior do seu bolso, enquanto alguns outros empurram e pedem dinheiro. No meio da confusão, se você tiver qualquer coisa no bolso, vai perder. Eu passei por isso e mesmo depois de, indignada, perguntar para um deles se ele realmente iria me roubar na cara dura. Não adiantando, Ivan teve que ser mais brusco para dar um basta no golpe infantil: sapecou uma guarda-chuvada na mão do engraçadinho que tentava alcançar meu bolso. Resultado: o bando fugiu. Triste.

Para revigorar o espírito fomos descobrir uma das principais atrações da cultura gastronômica do país: o café. E sim, o café etíope é absolutamente maravilhoso. Viramos fregueses do Tomoka Café, um dos lugares mais antigos da cidade, bem no centro, onde a qualquer hora você vai encontrar vários etíopes disputando a cotoveladas o famoso macchiato. Simplesmente delicioso!

Cafezitos no centro da cidade, uma das melhores experiências locais.
E aí entramos num dos principais aspectos da Etiópia: é preciso passar pelo estômago para entender o que acontece no país, para degustar seu sabor único e saber daquilo que nutre o seu povo. A experiência gastronômica no país concretiza em uma só tacada a importância da culinária como patrimônio cultural. É impossível alguém dizer que conheceu a Etiópia se não passou, de peito aberto, por pelo menos uma destas maravilhas da culinária local.

A começar pela injera, o arroz-com-feijão etíope. Feita de farinha de tef (um cereal que só cresce aqui), a enjera é como uma panqueca enorme, que depois de passar por um processo de fermentação natural adquire um aspecto esponjoso, tem uma coloração meio cinza/areia e tem um gosto meio azedo. E é uma delícia. Como a maioria dos outros pratos etíopes, é sempre servido no centro de uma mesinha baixa, redonda, onde todos comem conjuntamente resgatando aquilo que perdemos há algum tempo: o hábito de compartilhar a comida, de um mesmo prato, em roda. Sobre a mesma imensa enjera, são colocadas inúmeras pastas (grão de bico, lentilha, espinafre cozido, cenoura, etc) e as várias mãos direitas vão cortando aquela panqueca imensa e se deliciando nos recheios.

Sim, porque não há talheres. E só se come com a mão direita – porque a esquerda é usada para higiene pessoal e, portanto, não se come (nem se cumprimenta) com ela. Depois de ter lavado as mãos numa pequena tigela que é trazida à mesa, você, ocidental super moderno, se vê no dilema de ter perdido um dos hábitos mais basilares do ser humano: comer com mão. E dá uma saudade de saber fazer uma coisa tão simples com tanta graça e conforto – que demoram alguns dias para adquirir. Mas depois que você (re)aprende essa habilidade, não há ser humano que lhe convença que  a vida não pode ser mais feliz explorada por meio dos seus dedos.

 

E o que falar das bebidas? Com destaque para duas – além do já mencionado café, maravilhoso: as cervejas e as casas de suco. Nossa eleita predileta para a Etiópia foi a Saint George, uma cerveja bem gostosa, não muito pesada e que vai bem com praticamente tudo – e até de estômago vazio. Já as casas de suco são uma tradição do país que, para os mochileiros já enjoados da combinação batatinha com bolacha, surgem mais como uma bênção. Pequenas bancas de frutas que em alguns minutos – e por pouquíssimos birr – servem sucos e/ou vitaminas de abacate, goiaba e manga. Simplesmente uma salvação para estômagos ansiosos por alguma comida fresca e saudável! 

Da mesma forma surge o kitfo, um prato extremamente apreciado pelos etíopes mas que só é degustado em ocasiões festivas (casamentos, principalmente) por uma razão simples: o prato consiste, essencialmente, em carne.

A breve ocupação italiana deixou uma herança culinária: pizza e espaguete em todo lugar! 
Parênteses: acho que já deu para perceber que, durante os vinte dias que passamos na Etiópia, comemos carne uma ou duas vezes, no máximo. A dieta deles é majoritariamente vegetaria e, pasmem, o Ivan que é um carnívoro incorrigível disse que vivendo aqui ele passaria muito bem sem carne – de tão boa que é comida. De fato, o sabor único da enjera e o tempero dos vegetais que acompanham, mesmo quando misturados com arroz ou macarrão, fazem você se questionar sobre a falta que a carne realmente faz no dia a dia – ou se é apenas mais um hábito.

Mas voltemos ao kitfo. No nosso último dia de Etiópia tínhamos que experimentar esta iguaria para completar nosso tour gastronômico do país. Depois de muita – muita mesmo – pesquisa na internet, consultas com os nossos amigos médicos e algumas recomendações dos locais, fomos parar no restaurante mais famoso de Addis para comer o único prato servido lá. Logo na entrada, uma belíssima metade de vaca nos esperava sangrando como que anunciando o frescor (ou terror?) do que estávamos para enfrentar. Para sermos mais comedidos, pedimos apenas uma porção para experimentar e o prato chegou bem rápido – claro, não há exatamente um ‘preparo’ necessário. 

O sensacional Kitfo!
A garçonete colocou uma pequena tigela com alguns bons gramas de carne moída crua (extremamente crua) na nossa frente e jogou uma mistura aquecida de manteiga com ervas – e pronto. E lá fomos nós, para o primeiro punhado de enjera com a tal carne e... foi maravilhoso! Ainda que bastante apimentado, a textura é uma surpresa e o sabor da carne crua surpreende pela delicadeza e sabor marcante. Comemos tudinho e só não repetimos porque a dose de pimenta não permitia mas, sem dúvida, recomendamos e repetiríamos a experiência.

Ah, detalhe imprescindível da cerimônia do kitfo: tomar um vermífugo forte, sem falta, alguns dias depois de comer a iguaria. Just in case
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