terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Addis Ababa - Etiópia


O Leão de Judah, símbolo do país.
 Addis Ababa, além de ser a sede político administrativa da Etiópia, é também considerada a capital internacional do continente africano. A cidade abriga a representação das principais organizações multilaterais e não governamentais que atuam na África e, por isso, conta com uma grande comunidade de expatriados que dão um ar cosmopolita à urbe.


Nossa experiência com a cidade se deu em dois momentos: assim que chegamos ao país, quando ficamos quatro dias por lá e depois da volta que fizemos na região norte, antes de pegarmos o avião para o Egito.

Imperador Haille Salassie ensina crianças. 
Como porta de entrada à Etiópia, a cidade conseguiu definir em pouco tempo o que  encontraríamos no resto do país: cultura incrível, comidas sensacionais, hospitalidade fantástica, mas também imensa pobreza (e os problemas a ela relacionadas) e uma dificuldade enorme de transportes.

Resolvemos encarar todas esses desafios com disposição, entendendo que todas estas características enriqueceriam nossa experiência neste país incrível e ainda pouco explorado pelo turismo internacional.
Ivan sendo abençoado pela Virgem Maria. Na verdade, pintura do Museu de Etnologia.
Começamos com uma longa caminhada a pé para fazer o “reconhecimento” da região (e que acabou se estendendo para a cidade toda), procedimento este que adotamos quase que como padrão para todo lugar novo que chegamos. Parando algumas vezes para pedir informação e depois de algum tempo chegamos ao Museu de Etnologia. Uma das principais atrações da cidade, este museu fica num antigo palácio de Haile Selassie, hoje dentro do complexo da Universidade de Addis Ababa.

É uma delícia perceber que o ambiente universitário é, normalmente e no mundo todo, território único. Sagrado na dialética, rico na diversidade e irrevogavelmente fresco – seja pela juventude em si ou pelo ímpeto das ideias que carrega – a universidade é espaço de liberdade e criação. Entrar num campus em outro país, ainda que apenas como observador, gera imediatamente uma sensação de pertencimento e renova qualquer espírito combalido por alguns anos de realidade crua e nua.

Depois de passearmos um pouco por lá, entramos no museu e assim que compramos nossos bilhetes de entrada a luz acabou – e fizemos uma horinha vendo a coleção de imagens e objetos sacros no andar superior que recebiam iluminação natural. Já com as questões elétricas reestabelecidas, pudemos explorar melhor o acervo que conta com inúmeros objetos, fotos, instrumentos e vestimentas de todas as etnias que compõem a Etiópia.

A luz acabou...
Ficamos sabendo que no norte do país há uma comunidade judia etíope antiquíssima mas que, para ser reconhecida como parte legítima do povo escolhido, teve de passar por inúmeras comprovações, inclusive uma análise de DNA que indicaria a “procedência” das famílias. Quando provado que sim, aqueles negros eram efetivamente judeus, todos foram levados de avião para Israel – onde até hoje têm sérias dificuldades de integração e adaptação no território. 

Também conhecemos alguns hábitos das tribos do sul do país, onde há um forte componente cultural de manifestação da beleza estética por meio de tatuagens, alargadores e cicatrizes pelo corpo acompanhados da fabricação de adereços lindíssimos de contas e pedras. Mais uma lição aprendida com relação ao nosso mundo ocidental tão pequeno (e tão cheio de si) onde a beleza é cada vez mais padronizada e “monoteísta” – e aqui, do outro lado, a diversidade manifestada em conceitos estéticos que nos são absolutamente estranhos, é o que se conta nos museus.
Gabi posa de macaquinha em frente aos seus tatatatatatataravós. Museu de História Natural.
Ainda outra parte muito interessante do museu e com uma curadoria inovadora, era a seção que trazia o ‘ciclo da vida’ como fio condutor, onde foi possível conhecer aspectos referentes ao nascimento, infância, fase adulta e velhice do povo etíope. O que nos marcou foram alguns painéis dedicados a preservar às histórias que os pais contam às crianças, sempre com alguma lição de moral que, por meio de metáforas, ensina sobre a vida. Essa pérola da tradição oral trazia todos os elementos da fauna e flora da savana africana, abordando com delicadeza temas como egoísmo, inveja, sexo e amizade. Dava para fazer um belo livro! 

Esse é o esqueleto da pequena Lucy.
De lá partimos para o Museu de História Natural, onde a vedete inconteste é Lucy – o esqueleto mais antigo já encontrado por paleontólogos que estabelece o elo entre o homem e os primatas (essa é a versão para leigos, porque a história é bem mais complicada do que isso). A mocinha é bem pequenina – tem pouco mais de 1,20m – e seu simpático nome é dado em homenagem à música dos Beatles Lucy in the Sky with Diamonds. Tem como não se apaixonar pela menina-macaquinha?

Detalhe dos vitrais da igreja que misturam a hstória da Etiópia com passagens da bíblia.
Depois de ter pegado uma baita chuva no meio do caminho, fomos visitar a Igreja da Santíssima Trindade, um dos principais destinos de peregrinação católica-ortodoxa do país. Chegando lá, pagamos o nosso ingresso e entramos no edifício que tem uma arquitetura diferente das igrejas góticas que estamos mais acostumados. 

Igreja da Santíssima Trindade.
Um padre nos acompanhou e nos “convidou” a tirar uma foto da tumba do imperador Haleil Selassie e de sua mulher. Após o click, a exigência da gorjeta - claro.

Santa Gabi e o padre malandrão em frente ao túmulo de Haille Salasie (Ras Tafari).
No meio dessas andanças tivemos uma triste experiência, devidamente avisada pelo Lonely Planet. A quantidade de moradores de rua é enorme, os pedintes estão em todos os lugares e as crianças são um percentual considerável dessa população. Pequenos, eles vêm pedir dinheiro em bando e enquanto um tenta te vender uma caixinha de lenços o outro estende a mão para alcançar o interior do seu bolso, enquanto alguns outros empurram e pedem dinheiro. No meio da confusão, se você tiver qualquer coisa no bolso, vai perder. Eu passei por isso e mesmo depois de, indignada, perguntar para um deles se ele realmente iria me roubar na cara dura. Não adiantando, Ivan teve que ser mais brusco para dar um basta no golpe infantil: sapecou uma guarda-chuvada na mão do engraçadinho que tentava alcançar meu bolso. Resultado: o bando fugiu. Triste.

Para revigorar o espírito fomos descobrir uma das principais atrações da cultura gastronômica do país: o café. E sim, o café etíope é absolutamente maravilhoso. Viramos fregueses do Tomoka Café, um dos lugares mais antigos da cidade, bem no centro, onde a qualquer hora você vai encontrar vários etíopes disputando a cotoveladas o famoso macchiato. Simplesmente delicioso!

Cafezitos no centro da cidade, uma das melhores experiências locais.
E aí entramos num dos principais aspectos da Etiópia: é preciso passar pelo estômago para entender o que acontece no país, para degustar seu sabor único e saber daquilo que nutre o seu povo. A experiência gastronômica no país concretiza em uma só tacada a importância da culinária como patrimônio cultural. É impossível alguém dizer que conheceu a Etiópia se não passou, de peito aberto, por pelo menos uma destas maravilhas da culinária local.

A começar pela injera, o arroz-com-feijão etíope. Feita de farinha de tef (um cereal que só cresce aqui), a enjera é como uma panqueca enorme, que depois de passar por um processo de fermentação natural adquire um aspecto esponjoso, tem uma coloração meio cinza/areia e tem um gosto meio azedo. E é uma delícia. Como a maioria dos outros pratos etíopes, é sempre servido no centro de uma mesinha baixa, redonda, onde todos comem conjuntamente resgatando aquilo que perdemos há algum tempo: o hábito de compartilhar a comida, de um mesmo prato, em roda. Sobre a mesma imensa enjera, são colocadas inúmeras pastas (grão de bico, lentilha, espinafre cozido, cenoura, etc) e as várias mãos direitas vão cortando aquela panqueca imensa e se deliciando nos recheios.

Sim, porque não há talheres. E só se come com a mão direita – porque a esquerda é usada para higiene pessoal e, portanto, não se come (nem se cumprimenta) com ela. Depois de ter lavado as mãos numa pequena tigela que é trazida à mesa, você, ocidental super moderno, se vê no dilema de ter perdido um dos hábitos mais basilares do ser humano: comer com mão. E dá uma saudade de saber fazer uma coisa tão simples com tanta graça e conforto – que demoram alguns dias para adquirir. Mas depois que você (re)aprende essa habilidade, não há ser humano que lhe convença que  a vida não pode ser mais feliz explorada por meio dos seus dedos.

 

E o que falar das bebidas? Com destaque para duas – além do já mencionado café, maravilhoso: as cervejas e as casas de suco. Nossa eleita predileta para a Etiópia foi a Saint George, uma cerveja bem gostosa, não muito pesada e que vai bem com praticamente tudo – e até de estômago vazio. Já as casas de suco são uma tradição do país que, para os mochileiros já enjoados da combinação batatinha com bolacha, surgem mais como uma bênção. Pequenas bancas de frutas que em alguns minutos – e por pouquíssimos birr – servem sucos e/ou vitaminas de abacate, goiaba e manga. Simplesmente uma salvação para estômagos ansiosos por alguma comida fresca e saudável! 

Da mesma forma surge o kitfo, um prato extremamente apreciado pelos etíopes mas que só é degustado em ocasiões festivas (casamentos, principalmente) por uma razão simples: o prato consiste, essencialmente, em carne.

A breve ocupação italiana deixou uma herança culinária: pizza e espaguete em todo lugar! 
Parênteses: acho que já deu para perceber que, durante os vinte dias que passamos na Etiópia, comemos carne uma ou duas vezes, no máximo. A dieta deles é majoritariamente vegetaria e, pasmem, o Ivan que é um carnívoro incorrigível disse que vivendo aqui ele passaria muito bem sem carne – de tão boa que é comida. De fato, o sabor único da enjera e o tempero dos vegetais que acompanham, mesmo quando misturados com arroz ou macarrão, fazem você se questionar sobre a falta que a carne realmente faz no dia a dia – ou se é apenas mais um hábito.

Mas voltemos ao kitfo. No nosso último dia de Etiópia tínhamos que experimentar esta iguaria para completar nosso tour gastronômico do país. Depois de muita – muita mesmo – pesquisa na internet, consultas com os nossos amigos médicos e algumas recomendações dos locais, fomos parar no restaurante mais famoso de Addis para comer o único prato servido lá. Logo na entrada, uma belíssima metade de vaca nos esperava sangrando como que anunciando o frescor (ou terror?) do que estávamos para enfrentar. Para sermos mais comedidos, pedimos apenas uma porção para experimentar e o prato chegou bem rápido – claro, não há exatamente um ‘preparo’ necessário. 

O sensacional Kitfo!
A garçonete colocou uma pequena tigela com alguns bons gramas de carne moída crua (extremamente crua) na nossa frente e jogou uma mistura aquecida de manteiga com ervas – e pronto. E lá fomos nós, para o primeiro punhado de enjera com a tal carne e... foi maravilhoso! Ainda que bastante apimentado, a textura é uma surpresa e o sabor da carne crua surpreende pela delicadeza e sabor marcante. Comemos tudinho e só não repetimos porque a dose de pimenta não permitia mas, sem dúvida, recomendamos e repetiríamos a experiência.

Ah, detalhe imprescindível da cerimônia do kitfo: tomar um vermífugo forte, sem falta, alguns dias depois de comer a iguaria. Just in case

3 comentários:

Carolzinha disse...

Até eu, que não tomo café, fiquei com água na boca diante desses copinhos! =)

Ivan e Gabi disse...

Realmente sansacional Carol! Vale ir lá tomar. beijos

Horides Benjamim da Silva Junior disse...

Tivemos o prazer de conhecer esse casal simpático e aventureiro em Luxor e compartilhar de algumas histórias dessa viagem, que são sensacionais e de arrepiar. Estaremos acompanhando e curtindo com vocês esse sonho e torcendo pelo sucesso dessa jornada. Abraços Junior e Kelly

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