terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Aksun - Etiópia



Depois do nosso intenso trekking pelas Montanhas Simien, era hora de partir para um pouco de história antiga, e lá fomos nós para a cidade de Aksum, conhecida pelos obeliscos antiquíssimos e tumbas milenares dos antigos reis da região.
Stelae (obelisco) caído no parque. 

Chegar lá implicaria em pegar um ônibus local, partindo de Debark, e enfrentar de forma paciente e resignada mais de oito horas de viagem sacolejando em estradas precárias. Até aí tudo bem, nada fora da rotina normal de transporte pela costa leste africana. Mas nós não tínhamos ideia de que o nosso inferno estava apenas começando naquele dia.

Para começar, o embarque no ônibus já foi no mínimo estressante. Primeiro tivemos de insistir firmemente com o cobrador que não tínhamos que pagar um ‘custo extra’ para levar as nossas mochilas. Em seguida, depois de sentados nos nosso lugares, tivemos que levantar a voz para não sermos removidos de onde estávamos para os piores lugares do ônibus – o que, neste caso, significava sentar praticamente no corredor, em cima de caixas de alho, carregamentos de tecido, ou sacos de grãos – só porque éramos estrangeiros.

Mercado de Aksun.
Tendo uma breve ideia do que nos esperaria a frente, os irmãos australianos desistiram de ir conosco. Alex estava há alguns dias com o intestino extremamente irritado e Chris havia passado por uma experiência traumática com o transporte público de Uganda. Com estes dois fatores, nós demos todo apoio, apesar de já com saudades, de que eles voassem para o próximo destino.

Centro de Aksun. 
Completamente espremidos em nossos lugares, começamos a ver o ônibus escalar a cadeia de montanhas que teríamos de atravessar para chegar em Aksun. Na prática, isso significou horas intermináveis de subidas e descidas tortuosas por estradas de terra que, pasmem, estavam em construção – sim, tivemos que esperar algumas escavadeiras (?!) abrir caminho entre as pedras para o ônibus passar – e serpenteavam exatamente na beira dos penhascos. Isso tudo, obviamente, sem nenhuma proteção (nem uma mureta que seja) que impedisse o ônibus de despencar dali. As curvas eram tão fechadas que em determinados momentos você podia jurar que o ônibus estava caindo – e quando os freios gastos davam aquela derrapada pensávamos: “Pronto, é agora.”  

Gabi rezou. Fazia tantos anos que não pronunciava nenhuma oração que ficou absolutamente surpresa ao perceber a velocidade com que podia recitar a Ave Maria, o Pai Nosso e, para seu total espanto, até o Credo. Isso tudo para conseguir afastar os pensamentos do “E se...” que constantemente rondam este tipo de circunstância – e normalmente vêm seguidos de alguma situação trágica perfeitamente cabível ao momento.

As crianças sempre vem puxar conversa. 
Viajávamos colados um no outro por 13 horas sem dizer uma palavra – só aí dá pra ter dimensão da tensão. Nossos joelhos colados no banco da frente, espremidos no espaço mínimo – todos respirando pausadamente invocando um mantra de calma e paciência. Até que chegamos. Mas obviamente o nosso precário meio de transporte não seguiu até o nosso destino final e tivemos que trocar o ônibus por uma lotação que nos levou por mais uma hora até Aksun.

A pergunta óbvia é: “mas porque vocês se submeteram a isso?” A resposta simples seria “porque não havia outro jeito de chegar à Aksun”. Mas, talvez, essa viagem toda seja também uma maneira de testar – e assim conhecer - , nossos limites. Confessamos que, enfim, encontramos. Ao menos no que diz respeito à transportes.

Passado o pesadelo do pseudo ônibus, chegamos já noite adentro à cidade. No dia seguinte, ainda anestesiados pela viagem conturbada pudemos conhecer uma cidade absolutamente fantástica.

Obelisco sendo socorrido.
Aksun foi o centro do chamado império aksunita e desempenhou papel importante no controle do chifre africano por dinastias sem fim de reis e rainhas. Como tudo na história etíope, há muita mistura do que é lenda e o que é fato histórico, transformando as peças arqueológicas sobreviventes em objetos de adoração e mistério.

Igreja de Maria, guarda o mistério nacional!
Ali estão enterrados alguns dos reis e rainhas em tumbas complexas, parecidas com as dos faraós do antigo Egito. Ao invés de pirâmides, o local é marcado por obeliscos gigantes, todos trabalhados em um único monolito. A concentração de todos eles monta um jardim de granito vertical com um subterrâneo recheado de túneis e passagens a serem explorados.

Gabi achou essa múmia dormindo em uma das tumbas. De quem será?
Sem muito controle, a criançada faz a festa correndo no local pra cima e pra baixo. Essa mesma falta de controle, no entanto, faz com que cada câmara que entramos pareça estar sendo descoberta pela primeira vez. Foi o momento Indiana Jones da viagem. Munidos de lanternas de cabeça e muita disposição para agachar e se espreitar pelos labirintos.

Gabi e Will tentam desvendar o segredo dos túmulos antigos.
Entrada de uma das tumbas.
As lendas (ou história?) fazem do lugar uma atração à parte. Reza a crença local que a Arca da Aliança (sim aquela do Moisés e também de “Os Caçadores da Arca Perdida”, para os menos religiosos) está guardada dentro de uma igreja na cidade. O interessante é que ninguém – absolutamente ninguém! – pode ver o objeto bíblico além de seu guardião. O sujeito, que é escolhido por um conselho de monges, após assumir o cargo vitalício não pode deixar o perímetro da igreja pro resto da vida. Além de ser o receptáculo das tábuas da lei de Moisés o objeto tem poderes mágicos, como um oráculo e também como arma mortal.

Questionados porque a Etiópia não usa essa “arma” em suas disputas, a resposta que tivemos foi: “como você acha que ganhamos a última batalha contra a Eritréia?”. Incrível!

Dentro desta igreja, ao fundo, está a Arca da Aliança. Será?
Outra lenda bíblica que os etíopes de Aksun clamam pra si é o reinado da rainha Sheba. A queridinha local (vários hotéis e restaurantes com esse nome) supostamente foi à Israel testar a sabedoria do rei Salomão. Lá casou-se com ele e teve um filho, Menelik. Foi esse sujeito que supostamente levou a Arca para  a Etiópia “subtraindo a coisa alheia móvel” do templo em Jerusalém.

É possível visitar o que eles acreditam ser as ruínas do castelo da rainha Sheba – nenhum arqueólogo comprova a existência de tal rainha, muito menos que aquele castelo tenha pertencido a ela. No entanto, as pedras estão ali e todo etíope jura que tudo é verdade. Inclusive indicam o local onde ela esta enterrada.

Ruínas do castelo da rainha Sheba. Será?
Muitas dessas histórias nos foram contadas e mostradas in locu por um jovem de 14 anos que tem como objetivo ser médico e curar seus conterrâneos de um mal que assola boa parte do país: a cegueira. KB (Quêibí), como ele se apresentou, chegou com a mesma conversa de todos as pessoas que espreitam turistas em sítios históricos. No entanto, sua persistência em nos acompanhar mesmo depois de muitos “nãos” e seu interesse em conversar praticamente sobre tudo venceu a resistência dos três viajantes.

KB e Gabi num papo sério sobre a Rainha Sheba.
Foi através de KB que conhecemos a feira local, um evento que reúne boa parte da produção agrícola em um enorme complexo de compra e venda de sementes, roupas, grãos, animais, peças em metal e tudo mais que se possa precisar para essa vida simples que levam os etíopes do campo.

Feira livre em Aksun.
Como sua mãe trabalha no local vendendo Tef , o famoso grão que produz a enjera – base da alimentação local, ele pôde nos dar  o melhor tour guiado por uma área que normalmente os turistas fogem.


Retratos da feira livre em Aksun.
O dia em Aksun revigorou nossa vontade de continuar explorando o país e também serviu de base para darmos o próximo passo.

Durante nossa expedição pelas montanhas Semien encontramos um casal de americanos que tinha acabado de voltar de uma excursão à uma região chamada de Depressão Danekil. Apesar de terem viajado o mundo todo, nos contaram que havia sido a experiência mais incrível que já tiveram na vida.

Após algumas conversas no frio da montanha descobrimos que o Lonely Planet considera a região como um dos lugares mais inóspitos do planeta (temperaturas extremas + deserto de sal + lagos de ácido sulfúrico + vulcão ativo). Depois de vermos algumas fotos não demorou muito para que nós três (eu, Gabi e Will) tivéssemos certeza que ali seria nossa próxima parada.

Convidamos KB para comer seu prato predileto: macarrão com legumes.

Um comentário:

Maria Luiza Cruz disse...

Que lindo relato! Mais um daqueles que me fazem descer lágrimas bem gordas... E é uma verdade: quando se está aberto para o melhor, nada ou pouco de ruim acontece! A carinha desse menino ao lado de vocês é uma mostra disso!

Beijo grande! Até a próxima parada!

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