sábado, 12 de janeiro de 2013

Depressão Danakil (Parte I) - Etiópia



O que você faria se alguém te oferecesse três noites e quatro dias em um lugar conhecido por fazer mais de 45 graus no verão e não ter temperaturas abaixo de 30 (nem mesmo durante a noite)? E se essa oferta ainda incluísse um imenso deserto de sal salpicado por afloramentos de potássio, enxofre e piscinas de ácido sulfúrico? E, de brinde, você ainda dorme no maior lago vulcânico do mundo. E ai, qual seria sua resposta? Pois bem, a nossa foi: que horas chegamos?


A National Geographic já chamou esse nosso destino de “o lugar mais cruel da terra” e o “local mais extremo do planeta”. Nossa “bíblia”, o Lonely Planet, aconselha: “seja lá o que você faça, nunca vá no verão”. Por fim, o governo etíope proíbe viajar ao local sem escola do exército (razões políticas) e não autoriza um comboio menor do que três carros 4x4 (emergência). Essa foi a ideia que nos atraiu para fora da rota histórica e para dentro desse lugar inóspito.
O céu que nos protege.
A depressão Danakil é uma região do nordeste etíope, coberta de sal e incrustrada a mais de 100 metros abaixo do nível do mar (a leitura da altitude é negativa: - 155 metros). A movimentação de placas tectônicas deixou o local muito parecido com o que deve ter sido nosso planeta no começo dos tempos: um vulcão ativíssimo (Erta Ale), minerais aflorando na superfície por meio de gêiseres e um clima do capeta.

A única ocupação desse território se dá pelo povo Afar, que sobrevive ali extraindo sal das imensas planícies desérticas e carregando os blocos na corcova de dromedários até a cidade mais próxima. O que mais se aproxima de uma vila é uma base do exército etíope que está na região por conta da eterna peleja com a Eritréia. Não há água, esgoto, banheiros ou nada de origem industrial, mesmo materiais mais básicos (pregos, por exemplo). Além da paisagem alienígena, somente pobreza. O que existe ali foi trazido por mais de 15h de 4x4 através de uma cadeia de montanhas que protege o local.

Estrada a saída de Wukro.
Com essa ideia na cabeça, partimos eu, Gabi e Will para a cidade de Wikro (mais uma lotação) onde nos juntaríamos com o nosso grupo para a expedição. Ali esperamos Agnes e Ronald, o casal de médicos holandeses que conhecemos nas Simiens e entraram nessa aventura conosco de olhos fechados e peito aberto.

Comboio parado pra remoção de pedras na estrada.
Levamos 8h de carro 4x4 em estrada de terra cortando as montanhas que separam o mundo civilizado da Danakil. Para quem já teve a oportunidade de conhecer uma mina de extração de ferro – como as de Minas Gerais ou Pará – pode ter uma imagem bem clara do que foi atravessar essa montanha. Por diversas vezes parávamos para retirar da estrada blocos de pedra que rolaram morro abaixo, impedindo a passagem.

O deserto no cair da noite.
Quando escureceu, já estávamos mais próximos do lugar onde iríamos acampar. Já era noite mas pudemos presenciar intermináveis filas de camelos e jumentos carregando blocos de sal. A temperatura no painel do carro mostrava o que nos esperaria fora do conforto do ar condicionado: 36 graus.

Gostaram da decoração do painel?
A imagem que tivemos ao sair do carro e avistarmos o acampamento era muito próxima do cenário dos filmes do Mad Max: cabanas construídas de madeira irregular formando paredes cheias de buracos, lonas de plástico e camas trançadas de ratam sobre um chão batido de terra e salpicado com muitas pedras. O calor, insuportável – e eram 8h da noite...

"casas" da vila.
Após um jantar coletivo feito pelos cozinheiros da expedição, deitamos em nossas camas de ratam no meio do deserto, torcendo para que um ventinho amenizasse aquele forno. Admirando as estrelas, dormimos ao relento embalados ao som de “Garota de Ipanema”, cantada pela inglesa Amy Winehouse que saia do iPod de nosso amigo australiano – e viva a globalização!

Gabi descansa no nosso quarto ao céu aberto.
No segundo dia, mais viagem de carro. A única programação seria cruzar o deserto até o pé do vulcão Erta Ale que seria nossa casa pela noite. Os 80km que nos separavam seriam percorridos em mais de 8h. Os nossos motoristas lançavam outro superlativo da região: “é a pior estrada do mundo”. O que descobrimos é que não havia estrada, só o deserto.

Amanhece no deserto.










O sol nasce na vila.
O amanhecer na vila nos deu provas do porquê vale a pena conhecer a região apesar de tantas dificuldades. Com um nascer do sol no horizonte, as cores em forma bruta inundaram o local. Absolutamente maravilhoso.


Muitas paradas no caminho, carros frequentemente atolados na areia fina, crianças Afar suplicando por dinheiro e canetas (comum na Etiópia). Esse foi basicamente nosso dia de travessia do deserto. 

A "estrada".
O calor passou dos 40 graus, fácil. A cada vez que saíamos do carro e voltávamos pra dentro do ar condicionado era uma garrafa a menos de água. Assim, de um gole só. Tempestades de areia e a seca do ar fazem com que a umidade seja quase nula. Limpar a câmera de 5 em 5 minutos era outra necessidade.

Camelos bebem água em poços.
Menina foge de tempestade de areia.
Numa das vezes em que um dos carros do comboio quebrou fomos rodeados por crianças que vieram – invariavelmente – nos pedir dinheiro ou canetas. Quando cansaram do “give me money/give me pen”, resolveram voltar a brincar. Parte do grupo jogava futebol com um falso tomate, uma fruta venenosa local do tamanho de uma bola de meia. Gabi, como sempre, logo pulou no meio da brincadeira mostrando todo seu gingado brasileiro. Quando o tomate se partiu e a brincadeira de bola acabou, tratou de riscar um jogo de amarelinha na areia e ensinar a molecada a pular. A velha e boa linguagem universal da mímica funcionou perfeitamente, mesmo debaixo de mais de 40 graus.

Brincadeira nova.
Outro grupo se encantou pela câmera e adorou se ver nas imagens. Poses e mais poses num calor de rachar seguidos da festa de ir correndo se enxergar naquela telinha poderosa.
Cadê eu? (Foto Will)

Após mais de 9h de “estrada”, almoço no deserto e muitas paradas chegamos à base do vulcão Erta Ale. Nosso dia ainda estava longe de terminar: teríamos algumas horas de descanso até o cair da noite, quando começaríamos a subida à cratera do vulcão – onde passaríamos a noite.
Esse é o "asfalto".
Aqui, a ideia era passarmos a noite acampados na cratera do dito cujo. Como ninguém aguenta fazer o percurso com o sol ardendo, todo o caminho é feito a noite, com a ajuda de lanternas. Camelos levam pra cima os sacos de dormir, colchonetes e demais necessidades.

Não mudem de canal!

O vulcão Erta Ale.

7 comentários:

Anônimo disse...

estou acompanhando o blog e adorando :) ja inclui a etiopia e a depressão no meu cada vez maior itinerario! abraços e boa viagem

Celina disse...

Queridos

A foto do rei sol está magnífica e o olhar profundo do menino me trouxe timidez. Ele não conhece a cor verde!!!Difícil acreditar.

Italo Nogueira disse...

Ivan e Gabi, pretendo conhecer Danakil em março e gostaria de saber com qual agencia voces foram. E pq partiram de Wukro? Nos relatos que vi o mais comum e sair de Mekelle.

O blog de vcs é uma ótima fonte! Parabéns!

Italo Nogueira disse...

Ivan e Gabi,

pretendo visitar Danakil em março de 2014 e gostaria de saber com que agencia voce foram. E por que sairam de Wukro? Nos relatos que vi, o mais comum é sair de Mekelle.

O blog de vcs é uma ótima fonte! Parabéns!

Ivan e Gabi disse...

Olá Italo, Não fomos de Mekele pq vínhamos de Aksum e Wukro foi o ponto de encontro que acordamos com a agência (vinda de Mekele com os 4x4). Compramos o pacote com a agência de nosso hotel em Aksum, o Africa Hotel. O dono é bem simpático e nos deu um belíssimo desconto, até pq esse tour tem preço de Europa e não de Etiópia. Aproveite pq sem dúvida foi um dos lugares mais incríveis que estivemos! Abraço

victor disse...

Ivan e Gabi...Acabei de começar minha viagem pra etiopia. Na verdade, passarei poucos dias no pais e, por isso e pelo dinheiro, escolherei um ou dois destinos, no maximo, para me aventurar. Pelo seu relato e outros que andei lendo a depressão será meu destino. No entanto, tenho buscado uma cotação de preços e não as tenho encontrado. Gostaria de saber se vocês poderiam me informar mais ou menos quanto eu gastaria neste tour, para assim poder me programar melhor e averiguar se ele cabe dentro do meu orçamento.

O blog está animal, assim como as fotos!

Obrigado!

Ivan e Gabi disse...

Oi Victor, boa sorte na Etiópia.

A expedição pela Depressão Danekil nos custou 450 dólares com absolutamente tudo incluso (transporte, comida, água, acomodação, etc). É caro mas vale a pena. Tente procurar em agências em Mekele, normalmente as de Addis te cobram mais.

Boa sorte e aproveite!

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