segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Depressão Danakil (Parte II) - Etiópia





O VULCÃO ERTA ALE

Ainda no segundo dia da nossa expedição, depois de completar uma viagem exaustiva de 8 horas para percorrer 80km no deserto, chegamos no acampamento que fica na base do vulcão para, em poucas horas, iniciar a subida à cratera.

Descansamos um pouco, jantamos cedo e pontualmente às oito horas da noite, já bem escuro, calçamos nossas botas de caminhada, cada um pegou a sua garrafa de água e lá fomos nós montanha a cima. Era surreal começar um trekking aquela hora da noite mas o horário é justificado: ninguém aguenta fazer o percurso com o sol à pino. Por isso, as lanternas de cabeça são os itens mais essenciais e o restante (alguns colchonetes, sacos de dormir e mais água) é levado pelos dromedários – que a todo momento deixam bem claro seu protesto contrário àquela maluquice toda.

Na volta com os camelos carregando tudo.
A trilha, apesar de ser feita sobre pedra vulcânica, não é exatamente difícil e se estende por 9 km até o cume. O que adiciona um elemento de tensão ao percurso é fazê-lo no breu total, sem ter a menor ideia do terreno que vêm a frente para além do um metro e meio iluminado pelo feixe de luz da sua lanterna. Muitos tropeços, muitas topadas, muito cuidado – e as nossas botas de caminhada mais uma vez se provaram valiosíssimas.

Depois de três horas e com algumas paradas no caminho, chegamos a um “acampamento” e já conseguíamos sentir o calor e o forte cheiro de enxofre. À meia noite, descíamos uma pequena parede que nos separava da cratera do vulcão e em poucos metros pudemos entender porque o Erta Ale é chamado de porta do inferno.

A rocha derrete e dá vazão à lava incandescente.
Na beirada da caldeira. 
Ali, estávamos literalmente nas margens de um imenso lago de lava, plenamente ativo, e uma raridade – considerando que existem apenas quatro no mundo. A impressão é, realmente, de ter chegado numa caldeira que dá entrada para um outro mundo. É inacreditável ver ali, a menos de 5 metros de profundidade, a lava incandescente borbulhando sem trégua, como que expondo as entranhas da terra numa sangria raivosa.
Fazendo graça na porta do inferno.

O dia nasce na beirada do vulcão.
E a gente, que normalmente não pensa no nosso planeta como um ser vivo em si, se espanta ao ver toda aquela energia alaranjada que pulsa com alguma irritação inconstante nas veias da Terra. Aos poucos fomos sentindo na pele a força e o viço desse organismo: conforme o vento bate, você é pego de surpresa por uma lufada de calor escaldante ou pelos gases tóxicos do dióxido de enxofre – que invadem os pulmões sem dó como que avisando “aqui não é lugar pra você”.  

Erupção na caldeira do Erta Ale.
A experiência de estar na cratera de um vulcão ativo, de ver e sentir aquela lava toda inquieta que sai diretamente do centro da Terra, ser pego de surpresa por uma mini-erupção ou pelo desmanchar de uma fina camada solidificada é pura adrenalina.
(Holandes e Australiano com as cores do Brasil). Todo mundo intoxicado e eu tirando foto...
Depois de termos finalizado nossos momentos de êxtase no Erta Ale, fomos para o ‘acampamento’ na cratera, a poucos metros da caldeira, que consistia em cabanas de pedras vulcânicas cuidadosamente empilhadas com um cobertura de palha. Nosso guia passou rapidamente na choça onde nos encolhíamos Ivan, Will e eu para dar um aviso: “Cuidado para não chutar as paredes durante a noite porque as pedras estão apenas empilhadas e certamente irão desabar.” Claro, fomos dormir super tranquilos.

Dormir aqui é mais perigoso que o vulcão.
Passada uma noite bastante fria, acordamos ao nascer do sol e ainda pudemos nos despedir do nosso vulcão que, para provar sua força, nos deixou uma bela erupção de lembrança. Começamos nossa descida para o acampamento base e durante as duas horas de caminhada foi interessante “descobrir” a paisagem que havíamos cruzado na noite anterior.

Topo da montanha enrugada. Reparem nas pessoas caminhando.
Chegando no pé do vulcão, tomamos um belíssimo café da manhã e em pouco tempo já estávamos a postos nos nossos jipes para encarar mais um dia inteiro de deserto.

E ainda não acabou, aguardem o último capítulo dessa aventura. Até lá!

De volta pra estrada!

2 comentários:

Celina disse...

Casal

Essa etapa da viagem me transmitiu medo e ouvi a música do último desenho do Walt Disney" Fantasia".

Estejam com o lemam dos escoteiros:
Sempre Alerta!

saudades

Luciana Castro disse...

Simplesmente: IMPRESSIONANTE!!!
Luciana Castro

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...