segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Depresssão Danakil (Parte III) - Etiópia



De volta do vulcão, mais um dia de estrada no deserto. 
Os carros atolavam constantemente na areia fina e como o nosso motorista (que era o mais experiente) sempre tinha que ajudar, fui intimada a pegar na direção e também dar uma mãozinha – e fiz bonito pela mulherada!

Caravanas de camelo carregam sal.
Finalmente chegamos à vila onde passaríamos a noite e fomos agraciados por uma excelente notícia do nosso guia: poderíamos tomar um banho rápido, de caneca! Maravilha, considerando que estávamos há quatro dias sem banho e o meu cabelo, que já estava mais compridinho, tinha virado um único dread.

Nosso "quarto coletivo". Só dividimos com toda vila... (foto Will)

Parênteses: há de se lembrar que estamos num deserto. Ou seja, até onde você consegue enxergar o horizonte, não há nada, absolutamente nada, nem uma duna ou elevação de pedras, quanto mais um arbusto que seja. Tanto que, a primeira orientação do nosso guia foi de que nós fôssemos ao banheiro um pouco antes do amanhecer, quando a escuridão ainda lhe permitiria algum tipo de privacidade. E depois disso, com o dia claro, nosso lema era: “eu não me importo de fazer em público, se você quiser olhar, o problema é seu”. E vai que vai.


Muito bem, fomos Agnes e eu tomar o nosso banho, felizes da vida. Já escoladas com o método do galão de água e da canequinha, nos colocamos atrás da pequena placa de zinco que nos separava do campo de visão da vila – e, só depois fomos perceber, ficava de frente para a estrada. Em pouco tempo tínhamos dois observadores descarados que simplesmente sentaram há uns 50 metros para assistir o show e depois, como se não bastasse, um caminhão inteiro do exército passou – e igualmente não foi nada discreto. Mas nós não deixamos barato: entoamos muitos palavrões em alto e bom som, ensaiamos gestos universalmente conhecidos de ofensa e conseguimos intimidar os espertinhos para terminar, com o mínimo de dignidade, nossa higiene pessoal. (Tem cabimento isso?!?!?!)

Agnes e Gabi posando no deserto de sal com seus bicos de pato.

Tendo passado mais uma noite ao relento nas camas de ratam (maravilhosas, por sinal), levantamos cedo e fomos conhecer uma das paisagens mais absurdas da Terra. No caminho, fomos acompanhados por inúmeras caravanas de dromedários e jegues que, puxados pelos afares, rumavam para as minas de sal.

Você não está sendo enganado, é dessa cor mesmo!

Não é Marte, é Dallol!
Já tínhamos visto fotos das minas de potássio e enxofre que encontraríamos em Dallol mas é completamente impossível imaginar que se exista um lugar assim – pelo menos no nosso planeta. A sensação é de estar pisando em um território alienígena que recentemente sofreu um desastre industrial – tipo um vazamento de criptonita com plutônio. Ou ainda de estar lúcido numa bad trip psicodélica de ácido. Ou também poderia ser um cenário do filme Heavy Metal, lançado nos início dos anos 80. Enfim, é uma coisa muito louca.

Gabi posando em frente às piscinas dessa coisa esquisita que vocês estão vendo...
Mais uma demonstração (revoltada) da natureza.
Considerado um dos lugares inabitados mais quentes do mundo (média anual de 35oC), Dallol fica a 130 metros abaixo do nível do mar e só se tornou mais ‘conhecido’ em 2004 quando a National Geographic fez um documentário chamado Indo aos Extremos.


Galinha ao molho pardo ou o corvo que deveria ter voado um pouco mais.
A explosão de cores proporcionada pelos diversos minerais encontrados na região, cria um cenário surreal. O cheiro constante de enxofre dá um alerta imediato de perigo aos sentidos – e com razão. Todo cuidado é pouco ao caminhar nas frágeis placas de cristal que cobrem as lagoas de potássio – um escorregão pode significar fortes queimaduras.


O vale colorido da Danakil. Alguém aceita um LCD?

Faltou a companhia dos padrinhos PhD em Química (terreno mais do que mágico para este casal humanista) para explicar o que estava ao nosso redor. Thá e Diogo, vale fazer uma aula virtual à distância?



Montanhas de sal.
Dando continuidade às paisagens muito loucas, fomos visitar umas formações de sal extremamente pontiagudas e afiadas que davam a nítida impressão de estarmos numa maquete das montanhas de Mordor, do Senhor dos Anéis.


Os muros de Mordor! My precious...
Nossa escolta caminha entre as cavernas.
A patota destemida após cruzar a primeira caverna.

Em seguida paramos num deserto de sal que tinha, como atração principal, uma piscina de ácido sulfúrico – sim, aquele mesmo que vaporiza qualquer coisa. Pra finalizar o freak show fomos conhecer uma fonte de óleo do potássio (?!) – que algumas israelenses passaram na pele, por indicação do guia, porque teoricamente era hidratante – e, por último, um salar no meio do deserto.


Tudo branco! (foto Will)


Impossível não tirar essa clássica foto no deserto.
Nossa parada final foi numa mina de sal onde encontramos centenas de pessoas trabalhando com o sol a pino. A extração é feita de forma manual, com ferramentas extremamente rudimentares que permitem cortar as placas (que brotam do chão) em retângulos simétricos. Este trabalho, feito sem nenhuma proteção, acarreta problemas de pele crônicos, constantes queimaduras e cegueira gradual, causada pelo pó e reflexo do sol nos cristais brancos.


Trabalhador modela o bloco de sal.
Os trabalhadores são independentes e, mediante pagamento de 10 Birr por dromedário pela licença de exploração, podem explorar a mina com autorização do governo. O transporte, sempre locado, é feito exclusivamente no lombo dos jegues ou dromedários porque eles acreditam que um veículo motorizado tornaria a exploração muito agressiva – e, portanto, secaria a fonte de renda. 
Camelos sendo carregados de sal.
Com isso, a caravana de bestas leva em média uma semana para chegar até a vila mais próxima onde cada placa de sal será vendida a 15 Birr – e cada dromedário carrega em média 40 placas. Cotação do dia: 1 dólar equivale a 18 Birr. E essa é a única forma de renda da grande maioria da população que vive por lá.


Embalador de sal.
Voltamos estarrecidos por tanta disparidade – natural e social – naquela pequena e inóspita região. Cruzando o deserto, interminável e árido, passamos algumas vezes por vilas de 5 ou 7 cabanas onde as crianças vinham correndo ver o nosso carro passar – e eram deixadas para trás na poeira, sob o nosso olhar incrédulo de quem se pergunta que tipo de vida (ou sobrevivência) poderia existir ali.






No caminho de volta, Will e Ivan subiram no teto do carro para apreciar a vista, colocando ainda mais emoção nessa maluca aventura.






É isso que dá ficar no vento...

Ainda sem conseguir digerir tanto contraste, somos abordados por um dos moradores da vila que nos indaga se queremos uma Coca Cola. Gelada. Por um preço justo. No meio do deserto. Na mesma vila onde não tem luz, nem esgoto, nem água, nem escola. Mas tem Coca Cola – e gelada. Rendidos, respondemos que sim, por favor.


O fim da expedição. Will, Agnes, eu, Gabi, nosso motorista e Ronald.

7 comentários:

Anônimo disse...

Gabi e Ivan

Que experência fantástica...não só esta postada hj...e sim todas as vividas nesta viagem incrível...e com certeza muitas virão...continuarei a acompanhar e desejando BOA SORTE . Bjs e saudades Sueli (Susu)

Thais disse...

Ivan e Gabi,
Essa aventura está demais! Estamos pensando aqui nas repostas às perguntas que vcs possam ter em relação a toda essa química. HEHEHE..mandem as perguntas... vamos buscar as respostas!!!Bjos e divirtam-se cada vez mais!
PS: hoje não chorei...hahahaha

Celina disse...

Queridos

Que lugar agressivo e forte para a visão;tudo é pontiagudo ou reto. Não há meio termo.

Adorei a foto do Will no vento e mesmo não conhecendo a Agnes acredito que o bom humor é o carro chefe desta bela mulher.



AG disse...

Que loucura :)
Beijinhos grandes e bom ano.

Ana (Moçambique)

T2L disse...

Que fotos! Que lugares por onde vocês estão passando!
Aproveitem muito!!!

Bj, Rita (Tofo, MOZ)

Ivan e Gabi disse...

Sueli, brigadão pelo carinho e continue acompanhando!

Ana e Rita, loucura total nesses lugares mais malucos que os viajantes. Que bacana que vocês seguem nos acompanhando!

Thá, nem todos são pra chorar! Chega de lágrimas, s;o alegria!

Beijos a todas!!!

Fê Costta disse...

Que lugar inóspito!!
Até então só tinha ouvido falar em Lalibela... A Etiópia acaba de receber um upgrade na minha wish list!

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