quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Montanhas Semian - Etiópia




Ainda em Bahar Dar, pesquisando um pouco mais sobre as grandes atrações da Etiópia, um dos lugares que mais nos chamou a atenção foram as montanhas Simien, localizadas no norte do país.

A aventureira caminha nas trilhas da montanha.
Reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade, esta cadeia de montanhas tem uma formação geológica específica que além de atribuir uma beleza única para a região também é habitat de algumas espécies de animais que só são encontradas lá.

Babuíno Gelada, só nas Simien.
Por ter se tornado um Parque Nacional apenas em 1969, o turismo ainda está se estabelecendo e a região conta com pouquíssima infraestrutura. Neste sentido, para se fazer o trekking nas montanhas é necessário levar tudo: água, material de camping, lenha para fogueira, equipamento de cozinha, alimentos e eventualmente uma cabra para o jantar. O esquema é bem roots.

Guia, Ivan, Alex, Chris, Will e Scout. Vem você também!

E estas foram as palavras mágicas para que o Ivan – que como a Mon e o Tato bem descreveram no nosso casamento, é mezzo McGiver mezzo porta-voz de direitos humanos – ficasse alucinado para conhecer o lugar.

Depois de barganhar muito pelas inúmeras agências e agentes de turismo em Gonder, finalmente conseguimos fechar um bom preço para a nossa aventura: um trekking de 5 dias e 4 noites pelas montanhas. Ainda com alguns resquícios da minha recente intoxicação alimentar, lá fomos nós com mais três companheiros australianos – Chris, Alex e Will – desbravar mais de 60 km morro acima e morro abaixo – com o detalhe do “morro” ser uma cadeia de montanhas com mais de 4200m de altura.

video 
Colocamos na mochila o estritamente necessário para passar os 5 dias, com especial atenção para roupas de frio (casaco de neve, gorro e segunda pele) por conta dos conselhos enfáticos do nosso guia sobre as baixas temperaturas a noite (chega a graus negativos). Também nos preparamos psicologicamente para nosso último banho até a volta da montanha – o que tornou a nécessaire bem mais leve, só com escovas de dente, desodorante e papel higiênico (na minha situação, o bem mais precioso de todos os itens da mochila).

Chato o visual, não?
Depois de duas horas de estrada de terra, chegamos em Debark onde completamos as formalidades de permissões do parque e encontramos o nosso scout que iria nos acompanhar (com a sua AK47) durante todo o percurso. O “kit”completo para embarcar nessa aventura é composto sempre por um guia local, um cozinheiro, um “muleiro”e seus animais e o amigo armado que descrevi acima. Tudo isso se organiza em Debark, no posto da guarda florestal ou em Gonder através de um agente.

Acampamento em Sankaber. Banheiro com vista!
Lá foi o ponto de partida onde os meninos começaram o primeiro dia de caminhada e eu tive de seguir de carro até Sankaber (o acampamento de chegada), depois de alguns desentendimentos com o banheiro. Ivan e os australianos percorreram 17km iniciais para se aclimatar nos 3.250 metros de altitude e na trilha viram um dos animais típicos das Simiens: os babuínos gelada.

 
Nos outros países que percorremos da África a impressão geral que fica sobre os babuínos é que se você tiver que escolher entre eles e um leão, você fica com o leão. Ou seja: estes macacos são do mau.

Esses são bonzinhos...
É claro que isso se deve à inúmeros fatores dentre eles a redução do habitat natural que faz com que eles entrem em conflito com os humanos e, pra piorar, a crescente horda de turistas desmiolados que alimentam estes animais selvagens – e depois ficam histéricos quando os macacos vêm com unhas e dentes arrancar comida da sua mão.

Portanto é natural que nós, depois de dois meses atentos para as placas “Cuidado com os babuínos”, desconfiássemos um pouco da amizade dos gelada. Qual não foi nossa surpresa ao constatar que eles, são uns gentlemen. E enormes. E poéticos. Além de terem um semblante quase que filosófico acentuado pelos longos bigodes que dão um ar de sabedoria chinesa, eles são cobertos por longos pêlos alourados e lisos que ficam esvoaçantes na brisa das montanhas – imagem de fazer inveja a qualquer patricinha de escova e luzes.

Detalhe do peito pelado.
Para completar, uma das principais características destes símios é que são românticos inexoráveis: têm um bleeding heart (coração que sangra) estampado no meio do peito, parte exposta de uma pele vermelho vibrante que compõe a estética da espécie. Enfim, lindos.

Ao final da tarde, quando os meninos chegaram no acampamento começamos a sentir a temperatura cair drasticamente. Nossas barracas já estavam montadas e fomos recepcionados por café, chá, bolachas e pipoca, depois de lavar as mãos com água quentinha dentro de uma bacia – mimos que, ao longo do tempo, fazem toda a diferença.

Gabi muito bem guardada espera o resto da trupe com café e pipocas.
Nossa primeira base ficava no alto de uma montanha onde pudemos ter um prenúncio de toda a beleza e magnitude geológica que iríamos atravessar nos próximos dias, iluminadas por um pôr do sol dourado.

Depois de algumas horas de descanso, fomos chamados para o jantar que é preparado e servido dentro de uma estrutura de madeira circular, onde sentamos nas muretas laterais e, em volta de uma fogueira, tivemos uma refeição maravilhosa. Sopa de legumes com pãezinhos de entrada, seguido de macarrão com molho vermelho e legumes refogados – em porções absurdamente generosas. Delícia!

Jantar.
No dia seguinte acordamos cedo e depois do café da manhã já com o sanduba do almoço na mochila, fomos para a trilha com o objetivo de chegar em Geech, nosso segundo acampamento. Este foi um dos dias que vimos as paisagens mais bonitas, passando por campos maravilhosos, penhascos com flores da região até chegar no ponto que tem um dos mirantes mais bonitos das montanhas.

O sobe e desce tem suas recompensas.
É dali que é possível ter a real dimensão da magnitude das Simiens, do infinito de colinas que avança até perder de vista e encontra o horizonte numa fusão suave do avermelhado das pedras com o azul do céu de inverno. É dali que você tem certeza de estar no topo da África e se pergunta se é realmente possível tanta beleza ou se tudo aquilo foi simplesmente pintado. 

Mais uma para a coleção "enfarta mãe".
E só depois de acostumar a vista com tanta imensidão é que você consegue reparar nos detalhes. Um gavião que aproveita uma corrente de ar e voa na altura dos seus olhos, alguns babuínos que gritam ao longe e lá no fundo, desafiando uma das beiradas do vale, é possível ver a cachoeira de Jinbar despencando um filete de água por 500 metros do penhasco. Dá vertigem de ouvir tanto silêncio.

É alto, beeeem alto.
Depois de 19 km percorridos finalmente chegamos ao acampamento a 3.600 metros de altitude. No caminho, cruzamos um rio, passamos por inúmeras vilas que nos fizeram relativizar nossos conceitos de vida rural. 

Casa típica da montanha.
Frequentemente vimos crianças de 5 a 7 anos sozinhas nas montanhas, pastoreando gado, ovelhas e/ou espantando famílias de babuínos gelada com suas fundas numa determinação surpreendente.

Agricultor colhe trigo na mão, literalmente.
Quando nos viam, pediam uma caneta (o que doía, lá no fundo) e nós respondíamos com alguma fruta do nosso almoço e, sempre, com as garrafas de água vazias – item valioso pra quem não tem acesso a qualquer tipo de material industrializado numa região onde água é escassa.

Correria pra ver quem pegava a garrafa descartada. (foto Will)
A noite, mesmo depois do jantar e da sopa de legumes milagrosa, o frio não dava trégua. Ainda bem que Ivan e eu tivemos a presença de espírito de levar roupas próprias para muito frio e, além disso, também levamos nossos isolantes e sleeping bags. Para dormirmos de forma “confortável” nós colocamos ‘segunda pele’, a roupa que estávamos por cima, casaco de neve e gorro. Depois entrávamos no nosso sleeping e, em seguida, entrávamos no sleeping fornecido pelo trekking – e só assim conseguíamos pegar no sono.

Momento de descanso após almoço na trilha. (Foto Will) 
Todos os equipamentos e insumos são carregados no lombo de mulas que seguem por trilas mais curtas e chegam nos acampamentos antes dos turistas. Por isso, importante lembrar que a estrutura é mí-ni-ma, e normalmente se resume a uma única construção circular que serve de cozinha e espaço para jantar. E só. Com os banheiros não seria diferente, o que significa um casebre afastado, insuportavelmente mal cheiroso, composto por um buraco no chão. Sem apoio, sem água, sem papel, sem nada – e alguns infelizes ainda fazem questão de errar o buraco. A situação definitivamente não é das mais agradáveis e há de se evocar muita, mas muita iluminação espiritual para não dar uma surtada – ainda mais na minha condição. Haja matinho amigo nessas horas...

Acampamento visto do alto da montanha.
Mais um jantar. A fogueira foi um bom jeito de espantar o frio.
No quarto dia tínhamos mais 21km pela frente em um dos trechos mais extenuantes de todo o trekking. As paisagens sempre deslumbrantes nos recompensavam e o cânion mudava de cor e forma a todo momento conforme a luz do dia. No caminho cruzamos com uma família enorme de gelada com pelo menos 150 indivíduos e, além disso, vimos também o Walia Ibex, uma espécie de veado/carneiro que só é encontrado nas Simiens e, infelizmente, está próximo à extinção. Fizemos uma parada para almoço e descanso no vale de Inatey, a 4.070 metros, e depois seguimos por mais quatro horas até chegar no acampamento de Chennek, nosso objetivo final daquele dia.

Cavalinho de carga no fim da tarde no acampamento de Chenek.
Eu estava absolutamente exausta e, naquele dia, sabia que tinha chegado no meu limite. Ainda me recuperando da intoxicação, sem conseguir comer direito, tendo andado mais de 50km em três dias e com um frio que, nas últimas horas da noite me fazia rezar para que o sol aparecesse, eu estava entregando os pontos. Ivan, Chris, Alex e Will foram extremamente companheiros, o tempo todo, disponibilizando todos os remédios e mandingas possíveis para tentar melhorar a situação e me incentivando a seguir em frente.

Momento relax na beira do abismo.
No nosso último dia, o desafio derradeiro era conquistar o segundo pico mais alto de toda a cadeia das Simien, o Monte Bwahit, a 4.430 metros do nível do mar. Começamos a subida da trilha que a cada ponto ficava mais pesada por conta da altitude, fazendo com que tivéssemos que parar aos poucos para tomar fôlego e seguir em frente. Depois de algumas tentativas e com a voz embargada reconheci para mim mesma e para o grupo que eu tinha chegado no meu limite e que não alcançaria o cume. Depois de algumas palavras muito carinhosas e com o orgulho ferido, insisti para que todos eles continuassem e comecei a voltar sozinha para o acampamento.

Flor típica da montanha.
No meio do caminho, não aguentei, sentei na beirada da trilha e chorei. Me sentia fraca e incapaz por não conseguir chegar ao objetivo final mesmo depois de ter passado por tudo aquilo. Fiquei ali sentada um bom tempo quando, num susto, ouço alguém descendo correndo pela trilha. 

Da séria "o melhor banco de praça do mundo". Vista impressionante.
Ivan me deu uma das maiores provas de amor e lições de vida que eu jamais poderia esperar numa longa e paciente conversa. Fechamos o nosso trekking com uma tarde linda e inesquecível com a certeza de que sim, meu amor, estaremos sempre juntos porque isso é certo. E tudo valeu a pena. Obrigada.


7 comentários:

Maria Luiza Cruz disse...

O amor de vocês, nessa paisagem e nas que vocês verão e viverão, ficará muito mais forte!
Cuidem-se! e a foto do "enfarta mãe", enfarta a mim também! vcs são uns malucos apaixonantes e apaixonados!

Bjssss

Se cuida, Gabi!!! Sei que não há outra opção a não ser essa infecção passar... mas ... mais água, água de coco, e uma canjinha... Ok... Pipoca!!!!

Ana Contente disse...

oooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm... snif!

Suzana disse...

Estou adorando acompanhar a aventura de vocês! Continuem aproveitando e compartilhando as experiências!

Rafael Contente disse...

Espero que agora vá.....fotos lindas, relatos belos, frases encantadoras e visões sensacionais.
Esperamos vocês por aqui ansiosamente!!

Beijo ENORME!!

Josie disse...

Olá!
Não conheço vcs, mas na semana que vem embarco para a Etiópia e, procurando saber algo mais sobre este país (que não fosse sobre fome e miséria), encontrei o blog de vcs. E quase desacreditei que alguns dias atrás vcs estavam na Etiópia e tiraram fotos belíssimas de lá! Muito feliz coincidência. Enfim, gostaria de saber um pouco da experiência de viagem de vcs, talvez dicas e impressões tbm, se puderem. Ficarei muito contente se puderem me escrever de volta, (joberezin@gmail.com) desde já agradeço e desejo uma boa viagem!!! Josie

Carolzinha disse...

Dá pra parar de me fazer chorar cada vez q abro esse blog?!

Celina disse...

Gabizinha

Sempre, sempre abro o blog nos dias posteriores a sua postagem. Me fazem ter a certeza que tudo já está bem de novo.

A sinceridade de " cheguei no meu limite" não significa desistência e sim coragem.

Ivan
Sempre obrigada por ser VOCÊ!

beijo na testa

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