CRUZANDO A FRONTEIRA DE ISRAEL
Estávamos ansiosíssimos para chegar em Israel. Primeiro porque a
minha mãe iria nos encontrar lá, fazer o país todo com a gente e ainda levar a
Jordânia de bônus. Segundo por conta das histórias um tanto quanto assustadoras
sobre atravessar a fronteira do país, ainda mais considerando o nosso roteiro.
Terceiro porque, talvez por termos vários amigos judeus muito queridos,
tínhamos altas expectativas com relação as maravilhas naturais e a cultura
daquilo que é chamada a “Europa do Oriente Médio”.
Mas vamos por partes, primeiro sobre o processo de atravessar a
fronteira. No nosso roteiro inicial tínhamos planejado passar uma temporada em
dois países lindíssimos mas que não têm relações diplomáticas amistosas (para
dizer o mínimo) com Israel. Neste sentido, começamos a fazer mil malabarismos,
pesquisas, entrevistas e tudo mais o que era possível para saber como visitar
todos os países que queríamos de forma segura e sem dores de cabeça nas
fronteiras. O fato é que descobrimos que não havia muita saída: para conseguir “despistar”
nossa passagem pela Terra Prometida, teríamos de comprar uma passagem para um terceiro
país, cruzar a fronteira por lá, conseguir convencer o oficial a não carimbar
nosso passaporte e, no fim das contas, gastar uma baita grana para, talvez,
conseguir entrar naqueles outros dois países – ou não. Ouvimos relatos de gente
que, depois de passar por todo o perrengue oficial da fronteira foi pego com um
Lonely Planet de Israel na mala, quando passava pelo raio-x e não teve dúvida:
deportado direto para o país de origem. Outro ainda conseguiu passar por tudo
e, chegando no albergue apresentou a carteirinha de desconto que acusava, no
sistema, que ele tinha usado em Israel. O gerente do hostel chamou a polícia na mesma hora e, igualmente, o coitado foi
mandado de volta. Ou seja, é tenso.
O fato é que, como atravessaríamos a fronteira do Egito por terra,
pela cidade de Taba, o único lugar que alguém pode fisicamente ir de lá é para
Eilat (Israel) – e era justamente esta passagem que nos denunciava. Ou seja:
mesmo que o nosso passaporte não fosse carimbado pelo lado israelense, tínhamos
ali uma evidência pelo local de saída do Egito – e até isso eles checam. Apesar
de eu ter dupla nacionalidade e sempre andar com outro passaporte, Ivan ainda
não conta com esta possibilidade e não queríamos arriscar mais contratempos por
conta da chegada da minha mãe. Sem saída, tivemos que tomar a triste (mas
ponderada) decisão de mudar nossos planos, desencanar de conhecer estes dois países
que dizem ser maravilhosos e deixa-los para uma próxima oportunidade. No fim
trocamos esses dois pela Turquia, mas isso é uma história para o futuro.
Pegamos um ônibus de Dahab para Taba (que demora em torno de duas
horas) e chegamos andando, com mochila nas costas para atravessar a fronteira
do lado egípcio. Este deve ser o posto mais disputado por todos os oficiais de
fronteira de ambos os lados, porque é lindíssimo: às margens do Mar Vermelho,
numa cidadela bem com cara de interior, uma paz que só vendo e uns pouquíssimos
turistas se aventurando por aquelas bandas. Até ficamos meio desconfiados
porque só tínhamos nós dois ali. Pagamos todas as taxas, preenchemos o
formulário, carimbo daqui e de lá e em pouco tempo estávamos na no man’s land (terra de ninguém) – aquele estreito pedaço de
terra que separa dois postos de fronteira e é praticamente a Neverland geopolítica.
Chegando no lado de Israel, percebe-se que o lugar foi todo
inspirado em algum projeto de marketing motivacional da Disney: sinalizações coloridas e amistosas para “descontrair” o
ambiente. Fomos recebidos por jovens militares uniformizados que revistaram
minuciosamente nossas malas de mão procurando vestígios de bomba. O oficial de
fronteira, por sua vez, fez um papel bastante intimidador e nada amigável:
perguntou onde iríamos ficar, quis ver a confirmação do hotel, fez “pegadinhas”
para saber se iríamos a Petra (Jordânia), quis ver os meus cartões de crédito e
débito (todos), perguntou o equivalente em dólares de quanto eu tinha na conta
do meu banco. Me senti numa prova oral. No fim, foi muito melhor do que
imaginávamos, nada de terror e pânico como as pessoas gostam de contar. Sérios
e diretos mas educados e profissionais.
TEL AVIV E JAFFA
Chegando no lado israelense, em Eilat, o apelido de “Europa do
Oriente Médio” veio a calhar, por algumas constatações imediatas. Primeiro, tem
wifi grátis nos ônibus intermunicipais
(oi?!). Segundo, o clima europeu se reflete nos custos: levamos um susto com os
preços para os itens mais básicos e em poucas horas descobrimos que Israel ficaria
completamente fora da nossa média de gastos. Tivemos que apertar os cintos para
não extrapolar (muito) a nossa verba e foi difícil – ô paisinho caro! Terceiro,
a primeira coisa que falei para o Ivan foi “Estou me sentindo super mal
vestida” – frente a mulheres de cabelão, bota de cano alto e casacos
descolados. E eu ali, com as mesmas quatro mudas de roupa (que a propósito, não
têm gênero, servem tanto para mulher quanto pra homem) que uso há quatro meses e
todas com cara de mochileira das galáxias. Mas, para meu conforto, as minhas
roupitchas são super práticas e secam em dois minutos, tá?!
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Crianças brincam na fonte do zodíaco em Jaffa. |
Desembarcamos em Tel Aviv depois cinco horas de uma viagem muito
confortável e seguimos para o nosso albergue, o Florentine Hostel. Os quartos são
bem ajeitadinhos e conseguimos um dorm para
quatro pessoas com banheiro. A equipe é esforçada mas logo notamos uma certa
diferença de profissionalismo: alguns voluntários ajudam na organização do
albergue, o que faz com que haja um nível de comprometimento e responsabilidade
também voluntários.
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Lanchinho rápido no centro da cidade: pão assado na hora com queijo e zatar. |
De qualquer forma, por indicação de uma pessoa de lá, fomos comer um
sanduíche absolutamente espetacular, numa portinha do bairro boêmio de
Florentine, ali ao lado do hostel. O lugar chama-se Reuben, é um balcão com
alguns banquinhos altos de madeira, uma decoração de “estamos em reforma” e
serve uma única delícia em três tamanhos: sanduíche de pastrami. (Só de lembrar
dá água na boca). Saboreamos com cerveja cada pedacinho da carne que era
preparada pelo próprio dono, num equilíbrio perfeito entre pão, recheio e
molhos.
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Deu fome? |
No dia seguinte, colocamos nossas mochilas e fomos de mudança para o
outro albergue onde ficaríamos com a minha mãe – já que o primeiro não aceitava
pessoas com mais de 45 anos (?!). Pegamos o trem para buscá-la no aeroporto e,
quando ela chegou, já estava toda aventureira: mochilão nas costas, bota no pé
e gorro colorido – linda! Foi uma alegria só matar a saudade e saber que nos
próximos dias teríamos nossa primeira acompanhante oficial da viagem!
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Celina e Gabi no meio da feira de Carmel. |
O Old Jaffa Hostel é muito
bem recomendado e tem um charme indiscutível: fica em uma casa muito antiga,
tem toda a uma decoração vintage e um terraço magnífico que dá vista para o mar
e para o burburinho das ruas. A localização é imbatível: fica no coração de
Jaffa antigo (old Jaffa) em uma das
regiões mais descoladas de Tel Aviv.
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Praça no centro de Old Jaffa. |
Saindo da porta do albergue, fomos conhecer o Mercado de Pulgas e
tivemos uma forte sensação de deja vu: parecia
que estávamos em um sábado na Praça Benedito Calixto (São Paulo – Brasil). Comerciantes
de antiguidades ofereciam móveis, joias, roupas e enfeites de segunda mão
espalhados nas calçadas ou nas bancas do bazar, dando um aspecto maravilhoso de
feira a céu aberto. É uma delícia passear por lá, sem pressa, olhando cada cacareco
e se perdendo nas infinitas inutilidades que podem ser encontradas por lá.
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Pechinchas e bugigangas. |
Um pouco mais a frente, próximo à Torre do Relógio, parecia que
tínhamos entrado na Vila Madalena (São Paulo – Brasil). Várias lojinhas descoladas
com peças artesanais, galerias expondo os trabalhos de artistas locais, cafés
com preços super-estimados e uma atmosfera que simplesmente convida ao ócio.
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Detalhe de uma das lojas de Jaffa. |
Foi aí que começamos a entender porque Tel Aviv é chamada de “bolha” num país que frequentemente aparece nas manchetes de jornal por conta do conflito com palestinos. Aqui a sensação é de mais pura tranquilidade, numa cidade moderna e hypada com cafés, restaurantes e lojas de grifes internacionais.
Ainda em Jaffa é possível conhecer vários pontos turísticos que
ficam bem no miolinho da cidade. Uma rápida caminhada para conhecer a Igreja de
São Pedro leva a uma passagem por um pequeno e charmoso parque da região, uma
praça bastante antiga com fontes modernas que chocam com o ambiente antigo e,
logo ao lado, é possível ver a casa que um dia foi de Simão, O Tintureiro (que
teria abrigado apóstolo Pedro em sua peregrinação pelo país).
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Porta da casa onde S. Pedro ressuscitou Thabita. |
HaTachana (“estação de trem” em hebraico) é hoje um dos lugares mais
hypados para um domingo ensolarado em
Tel Aviv. A antiga estação de trem foi completamente restaurada e assumiu a
função de um amplo complexo cultural e comercial. Um grupo seleto de restaurantes,
cafés, livrarias, lojas de roupas e de design abrem suas portas para um público
chique-descolado e suas famílias (além do turista invasor, claro!) que está
disposto a gastar uma boa quantia em produtos exclusivos. O lugar é muito
bonito e vale a pena passear com calma por lá degustando momentos de boemia.
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Família brinca nos antigos trilhos da estação. |
Ainda na mesma rota, o Centro de Teatro e Dança Suzanne Dellal nos
foi muito bem recomendado por apresentar os melhores grupos de dança e as
melhores peças do país. Animadíssimas, minha mãe e eu fomos comprar ingressos
para um show de dança flamenca que aconteceria naquele dia – o que seria uma
ocasião muito especial já que a minha mãe durante muitos anos dançou flamenco. No
entanto, quando chegamos lá, os ingressos já estavam esgotados, infelizmente –
o que mais uma vez comprova o alto nível do lugar.
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Gato preto em Israel também da azar? |
O bairro de Neve Tzedek é o metro quadrado mais chique da cidade e
concentra, por consequência, a créme de
la créme da sociedade israelense, com uma ampla oferta de serviços de
altíssima qualidade.
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Poses no espelho em Neve Tzedek. |
Mais uma vez, é muito gostoso passear a pé com calma pelas
ruas estreitas mas convidativas, vendo a arquitetura Bauhaus que pauta boa
parte dos edifícios desta região. Neste passeio e por indicação de amigos que
moram no país, comemos um sorvete maravilhoso na sorveteria Anita, franquia já
bastante estabelecida no país e que faz jus à fama.
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Entrada de uma das casas do simpático bairro de Neve Tzedek. |
Um passeio imperdível em Tel Aviv e que tem de ser feito com tempo,
é uma ida ao Museu de Arte da cidade, que conta com uma estrutura
impressionante e um acervo de tirar o fôlego. São três prédios enorme que
exibem uma farta coleção de arte moderna e contemporânea, arte israelense, pinturas
e desenhos, contando ainda com e acervo temporário, fotografia, arquitetura e
design. Os destaques são obras de Van Gogh, Chagall, Pissaro e Pollock que
ficam em um pavilhão específico dedicado aos grandes mestres. Em nossa visita
tivemos a oportunidade de ver uma belíssima exposição do estilista basco
Cristóbal Balenciaga além de fotografias do sul-africano Roger Ballen.
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Fachada moderníssima do Museu de Arte de Tel Aviv. |
Depois de alguns dias batendo perna pela cidade inteira, resolvemos
fazer algo que todo viajante cansado merece: ir ao cinema. Além de já ser uma
das diversões favoritas da família em tempos de Brasil, foi uma boa
oportunidade para descansar um pouco antes do estirão final até o albergue e
enganar a fome com uma pipoca amiga.
Uma boa dica baratex é caminhar pelo boulevard da praia no fim do
dia em direção à Jaffa. Além de uma paisagem linda, as cores do pôr do sol ao
lado da cidade antiga se iluminando faz do passeio uma opção muito prazerosa.
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Pescadores no pôr do sol. |
Talvez a experiência mais divertida em Tel Aviv foi ter feito
compras no Carmell Market, uma grande feita livre que vende de roupas e
brinquedos ao hummus mais saboroso da cidade.
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Muitas cores na feira de Carmel. |
Nos esbaldamos nos diversos
antepastos desconhecidos, cortes de frios misteriosos e queijos que não
sabíamos nem pronunciar os nomes. Só podemos dizer que dali saiu um belo jantar
regado a um vinho local também muito do bom. Fica a dica pra gastar pouco e
comer muito bem.
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Vendedor de azeites e azeitonas. |
O melhor foi em uma barraca de queijos onde o vendedor
querendo ser simpático perguntou ao Ivan se ele estudava para ser rabino. A
barba - que está cada dia maior – sempre faz a alegria dos feirantes e vendedores
de rua.
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Todos os tipos de frutas secas. |
Tel Aviv se mostrou uma cidade fácil de se gostar, com todo tipo de
serviços e produtos do mundo todo – facilidades sedutoras depois de algum tempo
em África.
Um grande amigo comparou o espírito da cidade à outras que abrigam
pessoas conhecidas por viverem o melhor da vida, como Barcelona ou mesmo o
nosso Rio de Janeiro. Talvez, pelo pouco tempo que ficamos por lá e o choque de
contraste na comparação com os países que visitamos anteriormente, não nos
permitam ir tão longe, mas dá para entender como as pessoas se apaixonam por
esse lugar.