quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Nazareth & Rosh Hanikra - Israel




 NAZARETH

Ainda baseados em Haifa, pegamos um domingo e fomos visitar Nazaré, a maior cidade do distrito Norte de Israel e também onde Jesus haveria passado boa parte de sua infância. De maioria árabe, fomos visita-la num domingo quando as enormes excursões católicas dão trégua para que você consiga explorar os lugares com mais sossego.

Basílica da Anunciação.
Algo muito curioso que se repetiu em todos os lugares históricos e portanto, pontos de peregrinação, há sempre uma disputa entre a Igreja Católica e a Igreja Cristã Ortodoxa para determinar o local exato onde teriam acontecido os acontecimentos bíblicos. Ou seja: tem duas igrejas da natividade, duas igrejas da anunciação, e cada um fica reivindicando para si a verdadeira localização dos fatos. Como diria nosso guia em Jerusalém, para se garantir, reze sempre nos dois.

Parte da nave da Basílica da Anunciação.
Começamos pela Basílica da Anunciação (católica), o lugar mais famoso da cidade. É lá que acredita-se estar as ruínas da casa de Maria e também onde ela teria recebido a visita do anjo Gabriel anunciando que ela carregaria o filho de Deus em seu ventre.

Capela abaixo da nave da Basílica.
Do lado de fora da igreja, há mosaicos doados por todos os países do mundo retratando a Virgem Maria – o que dá uma cara de “comunidade internacional” para o lugar. 

Mosaico doado pelo Brasil tem lugar de destaque na nave da igreja.
Dentro, a arquitetura do edifício é lindíssima e quase modernista de tão simples: colunas de concreto cru decoradas com pequenos orifícios sustentam dois pisos interligados por um vazado em forma de estrela. No andar inferior é possível encontrar as ruínas de uma antiga casa e também resquícios de uma igreja Bizantina. Tocante foi ver algumas pessoas, discretamente, fazendo a genuflexão e depositando um bilhete, uma carta, uma foto naquela que seria a residência da Virgem Maria. Diálogo silencioso, profundo e íntimo.

 

Depois disso tentamos visitar a Igreja de São José, que fica logo ao lado da Basílica da Anunciação e teria sido a oficina de carpintaria de José – mas estava fechada. Partimos então para a Igreja de São Gabriel da Anunciação, onde os Gregos Ortodoxos reclamam o verdadeiro local da anunciação de Maria. Assim que entramos num pátio e começamos a tirar fotos, um padre mau humorado veio correndo nos avisar que a Igreja estava fechando – era horário de almoço, que voltássemos amanhã. Enfim, parece que a fé também tira folga no domingo...

Fachada simples da igreja da anunciação grego-ortodoxa.
Nazaré é uma cidade pequena e bem convidativa para uma caminhada por suas ruazinhas estreitas e medievais. Recentemente ela tem sido muito elogiada por uma cena gastronômica bem desenvolvida e que pretende mostrar o que a fusion food daquela região tem de melhor. 

Gabi e Celina comem suas maçãs nas ruelas medievais de Nazareth.
Infelizmente não tivemos a oportunidade de comer por lá uma vez que quando visitamos tudo estava fechado. A exceção foi uma loja de doces árabes, onde o vendedor não tirava os olhos do jogo do Real Madrid. Fizemos a festa no maravilhoso mundo do açúcar – religião em que o Ivan é devoto fiel!

A foto das frutas porque não deu tempo nem de fotografar os doces, comi antes...
ROSH HANIKRA

Ainda usando Haifa como nosso “centro de operações”, pegamos um sherut para fazer uma visita até Rosh Hanikra. 

Antes disso, importante esclarecer: o sherut é a versão israelense e muito melhorada das nossas velhas conhecidas minitaxi/chapa/dallah-dallah – ou seja, as lotações. Só que aqui, claro, a coisa é incomparavelmente mais organizada e confortável, onde um mini-ônibus grande leva no máximo 10 a 13 pessoas.

Rosh Hanikra é conhecida por suas grutas que recebem o continuo vai-e-vem do mar e suas ondas que insistem em tentar escalar as paredes de pedra. Depois de uma descida de dois minutos pelo bondinho, é possível chegar ao túnel artificial e andar tranquilamente pelos pouco mais de mil metros que exploram as formações rochosas e dão vista para o Mediterrâneo. O movimento do oceano cria um rico jogo de luz e sombra nas partes onde o mar avança pelas grutas.

Interior da gruta. Não dá vontade de nadar?
No final da trilha, chega-se a fronteira com o Líbano. A cerca alta de arame farpado, os equipamentos militares, o forte monitoramento por radares denunciam uma relação extremamente desconfiada e tensa, para dizer o mínimo. E pra gente foi bastante esquisito pensar que logo ali, a poucos metros, era outro país e que, por meio de uma cerca e vários avisos, era absolutamente proibido ultrapassar a fronteira. Uma sensação estranha do que representa uma restrição da liberdade de ir e vir.

O mal encarado aí vive nas pedras da praia. Tem de monte.
Ainda ali é possível conhecer o túnel escavado em 1943 para ampliar a linha férrea Cairo-Haifa até Beirute. Em uma pequena parte adaptada é possível assistir um filme que conta a lenda do local onde uma jovem apaixonada teria sido forçada a se casar com outro homem e acabou se jogando no mar. É por isso que até hoje seria possível ouvir seu canto vindo de dentro das grutas de Rosh Hanikra. Nada como uma boa história de amor para dar mais dramaticidade ao lugar, não? 

O Mediterrâneo mostra sua beleza.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Haifa & Akko - Israel


 
Terceira maior cidade de Israel (perde apenas para Tel Aviv e Jerusalém), Haifa atualmente comporta mais de 260 mil habitantes e, mesmo assim, consegue manter um ar prosaico de uma cidade de pequeno porte.


A população é formada predominantemente por árabes cristãos e judeus russos que, orgulhosos, proclamam-se exemplo nacional de convivência pacífica frente ao restante do país. Talvez aí, mais uma prova de que é possível coexistir na diversidade gerando um ambiente tão agradável e acolhedor que nos fez ficar por lá alguns dias a mais do que o planejado inicialmente.

Gabi faz graça com burrico em um dos jardins de Haifa.
Haifa foi construída nas encostas do Monte Carmelo que, para além dos significados bíblicos, permite excelentes pontos para fotos e uma bela vista panorâmica da cidade. 

Após "roubar" gorro dentro da igreja, a meliante conhecida como "tia Celina" aproveita o pôr do sol tomando bronca da filha.
De quebra você ainda ganha uma boa musculação para os glúteos e pernas que têm que trabalhar bastante para vencer o sobe e desce dos morros da cidade – até finalmente você se render ao funicular que cumpre exatamente esta função.

Teto da basílica de Sta. Maria.
A Basílica da Virgem Maria fica encrustada exatamente em uma destas encostas do Monte, perto da gruta do Profeta Elias. A pequena construção hoje guardada pelas freiras carmelitas, tem as paredes e o teto decorados com passagens da Bíblia e ainda uma reprodução da gruta do profeta embaixo do altar.


Uma das principais atrações de Haifa são os jardins do Centro Mundial Bahai, uma religião monoteísta independente fundada no século XIX e que reúne cerca de seis milhões de seguidores no mundo. Nomeado Patrimônio Mundial da UNESCO em 2008, os imensos terraços suspensos sobre o Monte Carmel criam uma visão quase que surreal: arbustos, pinheiros, flores e pedras meticulosamente lapidados, folha a folha, para se criar uma composição perfeitamente simétrica e bela.

Detalhe do Jardim Bahai.
A grande cúpula dourada que pode ser vista de praticamente qualquer ponto da cidade marca o lugar mais sagrado para esta religião. O Santuário de Bab guarda a tumba do precursor da fé Bahai, o profeta Bahá’u’lláh, que teve no Monte Carmel a visão do local ideal para o seu descanso eterno. Em seus ensinamentos há um forte sentido de convergência das principais religiões do mundo, Krishna (hinduísmo), Abraão (judaísmo), Buda (budismo), Jesus (cristianismo) e Maomé (islamismo) como Mensageiros Divinos. Nesta linha, a humanidade estaria caminhando para uma civilização mundial de “um só deus, uma só religião, um só mundo”.

Jardins Bahai.
De fato, o interior deste local sagrado reúne referencias de todos os cantos do mundo. Enquanto é necessário retirar os calçados para entrar no vestíbulo (como nas mesquitas), as paredes são todas brancas e dois grandes ramalhetes de rosas perfumam o local, dando uma sensação de paz de espírito. Não há altar mas, no centro, um pequeno degrau forrado com tapetes persas guarda oferendas como castiçais, vasos com flores e velas. Muito interessante.

Vista de Haifa do alto do jardim Bahai.
Com este espírito cosmopolita, Haifa é uma cidade tranquila que pode ser feita de “base” para visitar outros municípios da região – como Akko, Rosh Hanikra e Nazaré, por exemplo. As opções de acomodação são boas e apresentam uma relação custo-benefício bastante interessante para os padrões de Israel. Nós fomos tão bem recebidos por uma equipe atenciosa do Louis Hotel que resolvemos estender nossa estadia de duas para quatro noites e fazer dali nossa base para explorar o norte do país.

A lua vista do alto da Basílica de Sta. Maria.

Nesse clima de descontração, vale a pena aproveitar os supermercados da cidade para se aventurar pelo maravilhoso mundo dos pães e pastas acompanhados de um bom vinho. De sobremesa, morangos fresquinhos e bem vermelhos que minha mãe e eu fizemos questão de matar um pote inteirinho, algumas vezes. Um simpático café-lavanderia ao lado do hotel fechou nossa estadia por lá trazendo o melhor do espírito da cidade: em um ambiente colorido e despretensioso, comemos bons sanduíches com cidra enquanto esperávamos a roupa lavar. Haifa foi uma boa surpresa e vale a visita.

AKKO

Akko ou Acre foi durante mundos anos a capital das cruzadas – e só com esta informação já é possível imaginar a quantidade de história de cavaleiros que o lugar guarda. E, por tabela, é possível deduzir também a animação do Ivan em conhecer o lugar. De fato, depois da visita saímos todos fãs dos hospitaleiros.

Gato folgado.
A principal atração na cidade é, sem dúvida, o castelo dos cavaleiros cruzados da ordem dos hospitaleiros que, nos séculos XII e XIII foi o grande responsável pelo fortalecimento econômico e político da cidade. Estrategicamente posicionados entre o mar e o caminho para a Terra Santa, estes cavaleiros tinham por função dar abrigo, assistência médica e espiritual aos peregrinos que iam e vinham de Jerusalém. No entanto, com a aprofundamento das guerras religiosas, os hospitaleiros acabavam por assumir ainda mais uma função: dar escolta aos fiéis para garantir que chegassem ao seu destino com segurança, por uma módica contribuição à ordem, claro...

Um dos vários salões do castelo.
Escavações arqueológicas revelaram um complexo formado por vários salões interligados, um calabouço, resquícios de uma igreja gótica e uma grande sala de jantar. No auge de sua prosperidade, Acre ganhou reconhecimento internacional quando, no século XVII, derrotou Napoleão que tentava conquista-la como um passo estratégico para fazer da Índia uma colônia francesa. 


Reza a lenda que Alexandre, O Grande e Júlio César visitaram o castelo e que São Francisco de Assis e Marco Polo até jantaram no salão de banquetes da fortaleza.

Inscrição na pedra funerária de um dos cavaleiros - igualzinho no Indiana Jones!

Tumba do cavaleiro Ivan Contente Marques - mais uma pra série "sai já daí menino!" 

Compensa bastante comprar o pacote de ingressos combinados que dão acesso à cidadela, ao túnel templário e ao banho turco. Este último, o Hammam al-Basha, foi construído em 1795 e manteve-se em atividade até 1950. 
Detalhe da apresentação de luz e música no antigo Haman de Akko.

Sala de entrada para a boa apresentação do Haman.
Uma simpática apresentação interativa narra a história de uma família que por várias gerações cuidou do estabelecimento, preservando uma arte milenar de tratamentos por sauna e duchas. Durante a visita é possível conhecer todas as salas do hamman bem como seus propósitos, até chegar ao vestíbulo final que guarda o octógono de mármore onde as massagens e terapias eram realizadas. Grata surpresa!

Estátuas em bronze demonstram como era o ritual do banho turco.
 

Já o Túnel dos Templários, nos deu uma canseira desde o início: demoramos pelo menos uma hora e meia para encontrar uma das entradas e boa parte da passagem estava fechada por conta de uma inundação. Esta construção subterrânea ligava o castelo ao mar e, além de seu uso estratégico óbvio em tempos de guerra, também foi usado como transporte facilitado de mercadorias e suprimentos que chegavam de navio para dentro da fortaleza.

Túnel dos templários.
Finalmente fomos conhecer a mesquita de Jazzar Pasha (1781), também conhecida como Mesquita Branca, que fica bem no meio da cidade. 

Interior da mesquita.
Nomeada em homenagem ao governador otomano Ahmed al-Jazzar, O Carniceiro (medo!),  esta figura ficou internacionalmente conhecida por derrotar Napoleão no cerco da cidade, além de ter requintes de crueldade com seus prisioneiros e/ou opositores. Na mesquita há um monograma em disco de mármore nomeando-o sultão e que logo abaixo guarda a legenda “sempre vitorioso”.

Detalhe da pintura do teto do local de limpeza dos muçulmanos antes das rezas.

Para finalizar nossa incursão, acabamos no pequeno museu que conta a história da vida cotidiana da cidade. Recomendado!

Farmácia antiga retratada no museu.
Sala de visita I.
Sala de visita II.
Em Akko, não há maneira melhor de sentir os ares medievais da época dos templários do que deixar-se perder por suas ruas sinuosas e estreitas, ouvindo os mercadores ainda hoje gritar o preço dos peixes e frutos do mar, recém pescados. Deixe-se levar por este espírito e em pouco tempo, caminhando sobre os muros da cidade, talvez até seja possível enxergar no horizonte marítimo uma caravela, ainda minúscula, despontar com a cruz templária. Quem sabe?

Ruína do antigo porto Cruzado.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Tel Aviv - Israel


 



CRUZANDO A FRONTEIRA DE ISRAEL

Estávamos ansiosíssimos para chegar em Israel. Primeiro porque a minha mãe iria nos encontrar lá, fazer o país todo com a gente e ainda levar a Jordânia de bônus. Segundo por conta das histórias um tanto quanto assustadoras sobre atravessar a fronteira do país, ainda mais considerando o nosso roteiro. Terceiro porque, talvez por termos vários amigos judeus muito queridos, tínhamos altas expectativas com relação as maravilhas naturais e a cultura daquilo que é chamada a “Europa do Oriente Médio”.

Mas vamos por partes, primeiro sobre o processo de atravessar a fronteira. No nosso roteiro inicial tínhamos planejado passar uma temporada em dois países lindíssimos mas que não têm relações diplomáticas amistosas (para dizer o mínimo) com Israel. Neste sentido, começamos a fazer mil malabarismos, pesquisas, entrevistas e tudo mais o que era possível para saber como visitar todos os países que queríamos de forma segura e sem dores de cabeça nas fronteiras. O fato é que descobrimos que não havia muita saída: para conseguir “despistar” nossa passagem pela Terra Prometida, teríamos de comprar uma passagem para um terceiro país, cruzar a fronteira por lá, conseguir convencer o oficial a não carimbar nosso passaporte e, no fim das contas, gastar uma baita grana para, talvez, conseguir entrar naqueles outros dois países – ou não. Ouvimos relatos de gente que, depois de passar por todo o perrengue oficial da fronteira foi pego com um Lonely Planet de Israel na mala, quando passava pelo raio-x e não teve dúvida: deportado direto para o país de origem. Outro ainda conseguiu passar por tudo e, chegando no albergue apresentou a carteirinha de desconto que acusava, no sistema, que ele tinha usado em Israel. O gerente do hostel chamou a polícia na mesma hora e, igualmente, o coitado foi mandado de volta. Ou seja, é tenso.

O fato é que, como atravessaríamos a fronteira do Egito por terra, pela cidade de Taba, o único lugar que alguém pode fisicamente ir de lá é para Eilat (Israel) – e era justamente esta passagem que nos denunciava. Ou seja: mesmo que o nosso passaporte não fosse carimbado pelo lado israelense, tínhamos ali uma evidência pelo local de saída do Egito – e até isso eles checam. Apesar de eu ter dupla nacionalidade e sempre andar com outro passaporte, Ivan ainda não conta com esta possibilidade e não queríamos arriscar mais contratempos por conta da chegada da minha mãe. Sem saída, tivemos que tomar a triste (mas ponderada) decisão de mudar nossos planos, desencanar de conhecer estes dois países que dizem ser maravilhosos e deixa-los para uma próxima oportunidade. No fim trocamos esses dois pela Turquia, mas isso é uma história para o futuro.

Pegamos um ônibus de Dahab para Taba (que demora em torno de duas horas) e chegamos andando, com mochila nas costas para atravessar a fronteira do lado egípcio. Este deve ser o posto mais disputado por todos os oficiais de fronteira de ambos os lados, porque é lindíssimo: às margens do Mar Vermelho, numa cidadela bem com cara de interior, uma paz que só vendo e uns pouquíssimos turistas se aventurando por aquelas bandas. Até ficamos meio desconfiados porque só tínhamos nós dois ali. Pagamos todas as taxas, preenchemos o formulário, carimbo daqui e de lá e em pouco tempo estávamos na no man’s land  (terra de ninguém) – aquele estreito pedaço de terra que separa dois postos de fronteira e é praticamente a Neverland geopolítica.

Chegando no lado de Israel, percebe-se que o lugar foi todo inspirado em algum projeto de marketing motivacional da Disney: sinalizações coloridas e amistosas para “descontrair” o ambiente. Fomos recebidos por jovens militares uniformizados que revistaram minuciosamente nossas malas de mão procurando vestígios de bomba. O oficial de fronteira, por sua vez, fez um papel bastante intimidador e nada amigável: perguntou onde iríamos ficar, quis ver a confirmação do hotel, fez “pegadinhas” para saber se iríamos a Petra (Jordânia), quis ver os meus cartões de crédito e débito (todos), perguntou o equivalente em dólares de quanto eu tinha na conta do meu banco. Me senti numa prova oral. No fim, foi muito melhor do que imaginávamos, nada de terror e pânico como as pessoas gostam de contar. Sérios e diretos mas educados e profissionais.


TEL AVIV E JAFFA

Chegando no lado israelense, em Eilat, o apelido de “Europa do Oriente Médio” veio a calhar, por algumas constatações imediatas. Primeiro, tem wifi grátis nos ônibus intermunicipais (oi?!). Segundo, o clima europeu se reflete nos custos: levamos um susto com os preços para os itens mais básicos e em poucas horas descobrimos que Israel ficaria completamente fora da nossa média de gastos. Tivemos que apertar os cintos para não extrapolar (muito) a nossa verba e foi difícil – ô paisinho caro! Terceiro, a primeira coisa que falei para o Ivan foi “Estou me sentindo super mal vestida” – frente a mulheres de cabelão, bota de cano alto e casacos descolados. E eu ali, com as mesmas quatro mudas de roupa (que a propósito, não têm gênero, servem tanto para mulher quanto pra homem) que uso há quatro meses e todas com cara de mochileira das galáxias. Mas, para meu conforto, as minhas roupitchas são super práticas e secam em dois minutos, tá?!

Crianças brincam na fonte do zodíaco em Jaffa.
Desembarcamos em Tel Aviv depois cinco horas de uma viagem muito confortável e seguimos para o nosso albergue, o Florentine Hostel. Os quartos são bem ajeitadinhos e conseguimos um dorm para quatro pessoas com banheiro. A equipe é esforçada mas logo notamos uma certa diferença de profissionalismo: alguns voluntários ajudam na organização do albergue, o que faz com que haja um nível de comprometimento e responsabilidade também voluntários.

Lanchinho rápido no centro da cidade: pão assado na hora com queijo e zatar.
De qualquer forma, por indicação de uma pessoa de lá, fomos comer um sanduíche absolutamente espetacular, numa portinha do bairro boêmio de Florentine, ali ao lado do hostel. O lugar chama-se Reuben, é um balcão com alguns banquinhos altos de madeira, uma decoração de “estamos em reforma” e serve uma única delícia em três tamanhos: sanduíche de pastrami. (Só de lembrar dá água na boca). Saboreamos com cerveja cada pedacinho da carne que era preparada pelo próprio dono, num equilíbrio perfeito entre pão, recheio e molhos.

Deu fome?
No dia seguinte, colocamos nossas mochilas e fomos de mudança para o outro albergue onde ficaríamos com a minha mãe – já que o primeiro não aceitava pessoas com mais de 45 anos (?!). Pegamos o trem para buscá-la no aeroporto e, quando ela chegou, já estava toda aventureira: mochilão nas costas, bota no pé e gorro colorido – linda! Foi uma alegria só matar a saudade e saber que nos próximos dias teríamos nossa primeira acompanhante oficial da viagem!

Celina e Gabi no meio da feira de Carmel.
O Old Jaffa Hostel é muito bem recomendado e tem um charme indiscutível: fica em uma casa muito antiga, tem toda a uma decoração vintage e um terraço magnífico que dá vista para o mar e para o burburinho das ruas. A localização é imbatível: fica no coração de Jaffa antigo (old Jaffa) em uma das regiões mais descoladas de Tel Aviv.

Praça no centro de Old Jaffa.
Saindo da porta do albergue, fomos conhecer o Mercado de Pulgas e tivemos uma forte sensação de deja vu: parecia que estávamos em um sábado na Praça Benedito Calixto (São Paulo – Brasil). Comerciantes de antiguidades ofereciam móveis, joias, roupas e enfeites de segunda mão espalhados nas calçadas ou nas bancas do bazar, dando um aspecto maravilhoso de feira a céu aberto. É uma delícia passear por lá, sem pressa, olhando cada cacareco e se perdendo nas infinitas inutilidades que podem ser encontradas por lá.

Pechinchas e bugigangas.
Um pouco mais a frente, próximo à Torre do Relógio, parecia que tínhamos entrado na Vila Madalena (São Paulo – Brasil). Várias lojinhas descoladas com peças artesanais, galerias expondo os trabalhos de artistas locais, cafés com preços super-estimados e uma atmosfera que simplesmente convida ao ócio. 

Detalhe de uma das lojas de Jaffa.
Foi aí que começamos a entender porque Tel Aviv é chamada de “bolha” num país que frequentemente aparece nas manchetes de jornal por conta do conflito com palestinos. Aqui a sensação é de mais pura tranquilidade, numa cidade moderna e hypada com cafés, restaurantes e lojas de grifes internacionais.

 

Ainda em Jaffa é possível conhecer vários pontos turísticos que ficam bem no miolinho da cidade. Uma rápida caminhada para conhecer a Igreja de São Pedro leva a uma passagem por um pequeno e charmoso parque da região, uma praça bastante antiga com fontes modernas que chocam com o ambiente antigo e, logo ao lado, é possível ver a casa que um dia foi de Simão, O Tintureiro (que teria abrigado apóstolo Pedro em sua peregrinação pelo país).

Porta da casa onde S. Pedro ressuscitou Thabita.
HaTachana (“estação de trem” em hebraico) é hoje um dos lugares mais hypados para um domingo ensolarado em Tel Aviv. A antiga estação de trem foi completamente restaurada e assumiu a função de um amplo complexo cultural e comercial. Um grupo seleto de restaurantes, cafés, livrarias, lojas de roupas e de design abrem suas portas para um público chique-descolado e suas famílias (além do turista invasor, claro!) que está disposto a gastar uma boa quantia em produtos exclusivos. O lugar é muito bonito e vale a pena passear com calma por lá degustando momentos de boemia.

Família brinca nos antigos trilhos da estação.
Ainda na mesma rota, o Centro de Teatro e Dança Suzanne Dellal nos foi muito bem recomendado por apresentar os melhores grupos de dança e as melhores peças do país. Animadíssimas, minha mãe e eu fomos comprar ingressos para um show de dança flamenca que aconteceria naquele dia – o que seria uma ocasião muito especial já que a minha mãe durante muitos anos dançou flamenco. No entanto, quando chegamos lá, os ingressos já estavam esgotados, infelizmente – o que mais uma vez comprova o alto nível do lugar.

Gato preto em Israel também da azar? 
O bairro de Neve Tzedek é o metro quadrado mais chique da cidade e concentra, por consequência, a créme de la créme da sociedade israelense, com uma ampla oferta de serviços de altíssima qualidade. 

Poses no espelho em Neve Tzedek.
Mais uma vez, é muito gostoso passear a pé com calma pelas ruas estreitas mas convidativas, vendo a arquitetura Bauhaus que pauta boa parte dos edifícios desta região. Neste passeio e por indicação de amigos que moram no país, comemos um sorvete maravilhoso na sorveteria Anita, franquia já bastante estabelecida no país e que faz jus à fama.

Entrada de uma das casas do simpático bairro de Neve Tzedek.
Um passeio imperdível em Tel Aviv e que tem de ser feito com tempo, é uma ida ao Museu de Arte da cidade, que conta com uma estrutura impressionante e um acervo de tirar o fôlego. São três prédios enorme que exibem uma farta coleção de arte moderna e contemporânea, arte israelense, pinturas e desenhos, contando ainda com e acervo temporário, fotografia, arquitetura e design. Os destaques são obras de Van Gogh, Chagall, Pissaro e Pollock que ficam em um pavilhão específico dedicado aos grandes mestres. Em nossa visita tivemos a oportunidade de ver uma belíssima exposição do estilista basco Cristóbal Balenciaga além de fotografias do sul-africano Roger Ballen.

Fachada moderníssima do Museu de Arte de Tel Aviv.
Depois de alguns dias batendo perna pela cidade inteira, resolvemos fazer algo que todo viajante cansado merece: ir ao cinema. Além de já ser uma das diversões favoritas da família em tempos de Brasil, foi uma boa oportunidade para descansar um pouco antes do estirão final até o albergue e enganar a fome com uma pipoca amiga.

Uma boa dica baratex é caminhar pelo boulevard da praia no fim do dia em direção à Jaffa. Além de uma paisagem linda, as cores do pôr do sol ao lado da cidade antiga se iluminando faz do passeio uma opção muito prazerosa.

Pescadores no pôr do sol.
Talvez a experiência mais divertida em Tel Aviv foi ter feito compras no Carmell Market, uma grande feita livre que vende de roupas e brinquedos ao hummus mais saboroso da cidade.

Muitas cores na feira de Carmel.
Nos esbaldamos nos diversos antepastos desconhecidos, cortes de frios misteriosos e queijos que não sabíamos nem pronunciar os nomes. Só podemos dizer que dali saiu um belo jantar regado a um vinho local também muito do bom. Fica a dica pra gastar pouco e comer muito bem. 

Vendedor de azeites e azeitonas.
O melhor foi em uma barraca de queijos onde o vendedor querendo ser simpático perguntou ao Ivan se ele estudava para ser rabino. A barba - que está cada dia maior – sempre faz a alegria dos feirantes e vendedores de rua.

Todos os tipos de frutas secas.
Tel Aviv se mostrou uma cidade fácil de se gostar, com todo tipo de serviços e produtos do mundo todo – facilidades sedutoras depois de algum tempo em África.


Um grande amigo comparou o espírito da cidade à outras que abrigam pessoas conhecidas por viverem o melhor da vida, como Barcelona ou mesmo o nosso Rio de Janeiro. Talvez, pelo pouco tempo que ficamos por lá e o choque de contraste na comparação com os países que visitamos anteriormente, não nos permitam ir tão longe, mas dá para entender como as pessoas se apaixonam por esse lugar.
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