quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Aswan e Abu Simbel - Egito




Depois que viajamos de trem noturno pela Shosholosa na África do Sul, eu tinha um único objetivo com relação a este assunto: andar de trem de novo – e quantas mais vezes pudesse. Foi por isso que quando planejamos nossa travessia para o sul do Egito onde começaríamos a desbravar as tão esperadas ruínas de umas das civilizações antigas mais incríveis que já existiram neste planeta, o trem foi nossa primeiríssima opção.

Viajar sobre trilhos é um prazer indescritível. É daquele tipo de deleite que, infelizmente e aos poucos, vai se perdendo no tempo. E você, brasileiro de vinte e poucos anos que o mais próximo que já chegou de um comboio foi no metrô de São Paulo, ao entrar num vagão a céu aberto já é acometido por um saudosismo doído – mesmo que seja sua primeira vez. É como comer bala de coco quente ou leitão a pururuca: você simplesmente não entende quando foi que o mundo deixou de praticar este tipo de ritual. Andar de trem é a expressão genuína do slow travel que, nos dias de hoje, proporciona uma experiência única: viajar lentamente, em linha reta, olhando a paisagem passar pela janela embalado por um balanço gentil.

O Nilo corta Aswan e embeleza suas ilhas.
Fomos na primeira classe do trem noturno que ia até Aswan e assim que você pisa no vagão a sensação é de ser transportado para algumas décadas atrás: serviços bons, na medida, e pessoas gentis aparentemente felizes com o que fazem. Fomos recebidos na entrada por um senhor de terno que nos direcionou à nossa cabine (que, a propósito, é muito melhor do que vários albergues que já ficamos) e nos ambientou com o funcionamento da janela, do porta malas, das luzes, sistema de som e toilette (sem banheiro) do recinto. Depois de um belo jantar, já em trânsito, ele nos perguntou se poderia montar as camas e, delírio: um beliche, com roupa de cama limpinha, travesseiros e cobertor surgiu da parede. Depois de uma das melhores noites da minha vida – nada se compara a dormir embalada pelo balanço do trem – fomos acordados pelo mesmo senhor que, depois de um “bom dia” acompanhado do café da manhã avisou que nos chamaria quando estivéssemos a 30 minutos do destino final para que pudéssemos nos aprontar. 

Cara de quem acabou de acordar. Só pra abrir a janela e ver o Nilo...
Saímos da estação caminhando na suposta direção da nossa pousada e em poucos metros, entramos no souk de Aswan. 

O mercado é bem tradicional do mundo árabe, ainda que não tão sinuoso considerando que tem apenas uma rua principal. Mas o estilo de interação é praticamente o mesmo: qualquer turista que dá sopa o vendedor oferece 200% de desconto e um chaveiro pra você levar para sua mãe. Uma delícia se você levar na brincadeira, um inferno se você resolver se esquentar com o assédio. 

Souq de Swan. Só não vendem a mãe aqui.

A barganha dos preços é uma arte zen-budista – da qual eu, para dizer o mínimo, ainda não estava exatamente ambientada. Apenas para dar um exemplo, no auge da minha irritação com o preço-que-nunca-é-o-preço resolvi comprar duzentos gramas de amendoim - que em Aswan são especiais. Perguntei o valor já meio rosnando, dizendo que queria o preço de verdade, e o maroto vendedor atrás do balcão teve a infeliz ideia de me responder que eram 100 libras egípcias. Meu cenho franzido e a cara de eu-vou-te-matar foram acompanhadas das seguintes palavras: “O quêêêê? Isto é uma OFENÇA! O senhor acha que eu não sei o quanto custa um amendoim?! (não fazia a mais pálida ideia) Cem libras por um punhado de a-men-do-im?!?!?!”. Ofensa é uma coisa muito séria no Egito e, depois de pedir muitas desculpas, levei o pacote por 10 libras – e ainda achei que paguei caro.
Pinturas ainda preservadas nas ruínas de Aswan.
Ela de tranças, eu de bigode!
Nosso grande objetivo com a vinda até Aswan era, na verdade, conhecer Abu Simbel. Acordamos as 2h15 da madrugada e viajamos numa van por três horas até chegar no destino final quando, pouco depois do sol nascer, entramos no complexo arqueológico às margens do Lago Nasser.

Os dois templos: Ramses II ao fundo e Nefertari à direita.
E aí, dobrando um pequeno monte, surge o templo de Ramsés II. Daquelas coisas que só vendo pra acreditar. De uma majestade que você se sente impróprio para registrar tanta beleza e herança histórica. De uma arquitetura e precisão que você chega a pensar em algum tipo de técnica divina que só seria possível há mais de quatro mil anos, presente em cada cinzel dos artesãos que trabalharam algo tão monumental. 

Os prisioneiros de Ramses II ao pé da estátua.
São quatro faraós altivos, certos de sua realeza sublime, observando impávidos para além-mar do imenso Nasser. Quanto mais perto você chega, menor você se sente não apenas pela monstruosidade das dimensões das imagens de calcário mas sim (e principalmente) porque eles não movem um músculo para sequer notar a sua presença. Uma sensação de insignificância misturada com paganismo por estar adentrando de forma tão prosaica um espaço tão sagrado.

O vandalismo centenário de nomes inscritos nas imagens de Ramses II.
Ainda meio atordoado, você entra no primeiro compartimento, chamado de sala dos pilares porque é composta por oito representações do deus Osíris de 16 metros de altura. E eles têm cor: delineador preto no contorno dos olhos, um vermelho-terra nos saiotes e os cinturões trazem uma mistura já um pouco apagada de amarelo com azul. Depois você começa a notar as paredes e percebe que de cima abaixo, nos 18 metros de comprimento, todas elas são esculpidas em baixo relevo e pintadas, com as cores ainda vivas. É uma história em quadrinhos de milhares de anos pintada por uma matiz que não deixa morrer a narrativa e faz jus à memória de uma civilização magnífica.

OK, é proibido tirar fotos dentro do templo, mas eu não aguentei...
O segundo templo do complexo é dedicado à esposa preferida de Ramsés II, Nefertari. Com dimensões bem mais comedidas do que o primeiro ele chama a atenção pelos detalhes: é um dos únicos lugares onde a mulher aparece com a mesma altura e/ou grau de importância do que o próprio faraó. Destinado à Hathor, a deusa do amor e da beleza, este santuário tem uma estrutura terna e sólida, mantendo-se fiel e paciente à sombra de Abu Simbel pelo tempo destinado à eternidade.

Gabi e seus três Ramses II e 1/2.
No caminho de volta, pegamos um barquinho para visitar a Ilha de Philae, que fica no coração do Nilo. Residência do Templo de Isis, é um edifício bastante preservado e que ainda conta com a mística de estar insulado e protegido pelo maior rio do mundo. O pátio de entrada é bastante impressionante pelo colunado que encerra as delimitações da construção e traz também as influências arquitetônicas da era Ptolomaica. Leões, obeliscos, locais de sacrifício bem como representações de Hórus e Osíris adornam as paredes do santuário que tem hieróglifos imortalizando sua história do chão ao teto.
Chegada à ilha de Philae.
Gabi em frente ao Templo de Isis.

Patrimônios mundiais da UNESCO, estas são maravilhas do mundo antigo e, para nosso maior espanto, também maravilhas do mundo moderno. Isto que vamos contar é verdade, acreditem se quiser – ou deem um Google.
O egiptólogo Ivan Contente decifra mais um hieróglifo.
Detalhe do pátio principal de Philae.
Estes monumentos gigantescos, que demoraram mais de vinte anos para serem construídos pelos egípcios foram desmontados e reconstruídos em pouco mais de cinco anos, na década de 60. Explico: em 1959 o então Presidente do Egito decidiu que era necessário construir uma barragem que inundaria boa parte da região Núbia e, de quebra, sumiria com vários tesouros arqueológicos da humanidade, dentre eles Abu Simbel e Philae.

Pátio do Templo de Isis em Philae.
Coluna em formato de flor de papirus.
Depois de uma enorme campanha internacional, a solução encontrada foi de mover e remontar, pedra por pedra, estes dois santuários em lugares que não fossem atingidos pela inundação da área. No caso de Abu Simbel, foram 200 metros mais a frente das margens do lago e Philae por sua vez foi “transferida” para a ilha vizinha, de Agilkia.

Colunas em Philae.
E foi exatamente isso que se fez. Comandados pela UNESCO em uma mega operação de mais de 40 milhões de dólares, estes monumentos foram recortados, removidos e remontados milimetricamente em lugar seguro. Fato: o contrato das empresas prestadoras de serviço previa que a maior alteração que poderia ter entre o “original” e a remontagem era de, no máximo, 7 milímetros de variação.

Fim do egiptólogo Ivan Contente após traduzir porcamente hieróglifos antigos.

Templo na ilha de Philae.

 Eles deram conta do recado e hoje, sem desconfiar de nada, a gente vai lá visitar uma maravilha que poderia estar para sempre perdida nas profundezas do lago. Combinação entre uma imensa mobilização para sensibilizar o mundo pela necessidade de resguardar nossa herança cultural com uma boa dose de milagres praticados pela engenharia antiga e moderna. Só poderia dar nisso: seres humanos mais conscientes do seu patrimônio e da capacidade de intervenção para preservar a sua história.


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