quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Cairo - Egito




O Cairo é uma cidade desenvolvida, caótica como a grande maioria das metrópoles hoje em dia e se parece muito, mas muito mesmo com São Paulo. Barulhenta, cosmopolita, engessada pela imobilidade urbana e cheia de jovens promissores, esta gigante não pára – e quem não acompanha o ritmo, dança.

Novos e velhos costumes se encontram no Cairo.
Agressiva, a capital do Egito flui e encontra o seu caminho numa alquimia difícil que combina elementos diametralmente opostos – religiosos, sociais, econômicos – e deixam a impressão que, a qualquer momento, tudo aquilo vai se chocar. O famigerado trânsito é uma boa metáfora: as vias são muito bem cuidadas mas os semáforos, também modernos, são meros elementos decorativos – assim como as faixas de pedestre e da pista. A variedade gritante de carros e motos denunciam o abismo social de país que se comunica (e se expressa) por meio de buzinas frenéticas, como que numa constante gritaria de surdos. E tudo parece por um triz.

Foto "crássica" do Cairo, não?
Assim que chegamos nesta babilônia, fomos recebidos com a melhor experiência que tivemos em todo o país: sermos hospedados por um egípcio, no auge dos seus trinta e poucos anos, de um coração enorme que nos aceitou por quatro noites pelo CouchSurfing. Ahmed é um querido, hoje mais um grande amigo que fizemos aqui do outro lado do mundo e deixa saudade a cada vez que trocamos um email. Com ele pudemos ter uma visão bastante pessoal do que está acontecendo no Egito hoje e como esses conflitos se manifestam na cidade e nas relações interpessoais dos seus habitantes.


Nosso amigo trabalha em uma empresa multinacional de tecnologia da informação e, quando chegamos, ele também estava hospedando a Engy. Ela também é egípcia, mas de Alexandria, se mudou para os Estados Unidos há 15 anos e, depois de servir a marinha americana por 7 anos, foi aceita numa renomada faculdade de medicina da Flórida. 

Gabi e Engy descansam nos muros da citadela.
Enquanto Ahmed trabalhava, nós três fomos conhecer nosso primeiro ponto turístico no Cairo: a Cidadela de Salah Al-Din (quem assistiu Cruzadas?). 

Pátio da Citadela.
Este complexo conta com vários pontos culturais e religiosos e fomos muito bem surpreendidos pela visita ao Museu do Exército, que fica no antigo palácio de um dos últimos reis do Egito e conta com um acervo bastante rico e bem distribuído. Vale fazer uma visita de uma manhã inteira, é bem bacana.
Detalhe do museu do exército.
Essa mesquita rivaliza em tamanho com as de Istanbul. Veremos...
Ainda na Cidadela, visitamos duas mesquitas lindíssimas, com destaque para a maior delas que tem um salão interno absolutamente maravilhoso, com vários lustres em forma de cúpula dispostos de forma concêntrica no teto do edifício. A impressão é de entrar no refeitório do Harry Potter com as velinhas suspensas no ar, maravilhoso ainda mais pelo forte valor simbólico do lugar.

A inesquecível mesquita de Sah Ad-Din.

Depois disso fomos conhecer o Parque Al Azhar que leva o mesmo nome da Universidade mais antiga e mais renomada de estudos islâmicos do mundo, berço das principais lideranças religiosas e políticas que hoje dominam o Egito. Num final de tarde de domingo, o parque estava repleto de jovens casais, com ou sem filhos, passeando pelas árvores, tirando fotos, ouvindo música e batendo papo. Os homens mais novos riam alto, desfilavam com roupas ocidentais da moda, gel no cabelo e sapato de couro enquanto os mais velhos exibiam a barba grossa e o calo escuro na testa como símbolos de devoção à Alá.

Parque Al Azhar.
Finalizamos o dia com uma visita a um dos maiores souks do Cairo, o Khan-el-Khalili. A experiência de passear a noite por aquele labirinto de lojas, ver toda a quinquilharia iluminada pelas lâmpadas, ser carinhosamente assediados pelos vendedores e andar num dos mercados mais antigos do mundo, foi muito especial.

Porta da cidade no antigo mercado.
Quando já estávamos quase terminando nossa ronda, Ahmed jogou uma conversa para um ambulante que estava na frente de uma mesquita histórica e, em poucos minutos, aquela porta imensa se destrancou e se abriu exclusivamente para nós. Mal podíamos acreditar quando entramos naquele prédio sagrado e fomos explorando aos poucos, quase que tímidos, o pátio principal e as arcadas que encerravam um oásis no meio do caos feirante do outro lado dos muros. Subindo por um dos minaretes chegamos ao teto do edifício onde tivemos uma vista única da cidade inteira no meio da noite, com os prédios iluminados acompanhados das sinfonia constante das buzinas dos carros. Lindo, lindo, lindo.

Mesquita invadida no meio da noite.

Vista da Mesquita de Salah Ad-Din vista do telhado da mesquita invadida.
No dia seguinte, nos dedicamos a conhecer um pouco mais do Egito antigo antes de encarar suas monumentais construções. O destino foi o Museu do Cairo. Essa preciosidade instalada no coração da urbe, com uma coleção inesgotável de antiguidades e tesouros de todo o Egito. Dá pra ficar um dia inteiro só em um dos andares mas atenção: uma hora antes do horário previsto para fechar eles começam a expulsar os visitantes de lá de dentro. A curadoria é boa e o Lonely Planet ajuda bastante a fazer um tour independente pelas principais atrações do Museu – como, por exemplo, todo o conteúdo da cripta funerária encontrada na tumba de Tutancâmon. Nós ainda escolhemos conhecer as múmias de diversos faraós em uma sessão específica e que exige a compra de um ingresso separado – bem caro por sinal, mas eu gostei bastante. Até hoje as técnicas de preservação dos corpos não são totalmente conhecidas e é meio surreal ver todos os artefatos de reinos com mais de quatro mil anos de existência e depois, logo ali, conhecer os faraós – em pele e osso, literalmente.  

Museu do CAiro, bem no meio da Tahir Sq.
Estátua no pátio do museu do Cairo. As fotos lá dentro são proibidas...
Quando avisamos Ahmed de que iríamos visitar as pirâmides de Giza ele foi logo nos alertando de que os vendedores eram extremamente agressivos por lá – e que, portanto, nós tínhamos que ser ainda mais “machos” que os caras. Mas nada nos preparou para o que encontramos. Foi tenso... muito tenso! Fomos com um taxista de confiança do nosso amigo que fez questão de dar inúmeras orientações em árabe para o motorista de maneira que ele não tivesse dúvidas sobre como nos levar até o local. Mas acho que nem ele esperava o que estava por vir. As situações narradas a seguir relatam com fidelidade a experiência que tivemos em nossa visita independente às Pirâmides de Giza.

Três pirâmides e uma esfinge, quem dá mais?
Ao chegarmos próximos à entrada do Parque, nosso taxi foi parado por alguns árabes que, colocando-se a frente do veículo, começaram a dar instruções sobre os preços das entradas. Em pouco tempo de conversa, percebemos que a entrada oficial não era ali e nosso motorista, que também entendeu o esquema, tentou sair com o carro. O ser humano que estava nos engambelando começou a gritar e bater no veículo, nosso taxista engrossou a voz e acelerou. Não satisfeito, o cara pulou na traseira no carro e se agarrou lá (com o carro em movimento), ainda batendo e discutindo com o motorista, até que este último começou a fazer movimentos laterais para tentar desequilibrar o cara. Entre urros e xingamentos árabes, esta loucura durou 5 minutos – bem assustadores, diga-se de passagem, quando nós dois gritávamos para Mohamed: “Go, go, go!” – até chegarmos à entrada oficial, quando o infeliz se desapinchou da traseira do veículo.

Já ta virando marca registrada...
Compramos os ingressos na bilheteria e, mais uma vez, algumas pessoas tentaram nos convencer de que o taxi não poderia passar daquele ponto – mais uma mentira que Ahmed já tinha nos avisado. Assim que saímos da catraca alguns homens de cara amarrada pediram para ver nossos ingressos (como que para conferi-los) e nós dois, já sacando o grau da malandragem, fechamos a cara e adotamos a política do “eu sou mais macho”: passamos reto, passo firme e determinado, dizendo que não tínhamos que mostrar ticket nenhum. E esta foi a política adotada para todo o nosso passeio por Giza. (De fato, depois ficamos sabendo que esses caras são “guias” que pegam o seu bilhete e não devolvem até você pagar um extra.)

A bichinha é grande, viu?
A primeira pirâmide é imensa, monumental, e fica difícil chegar até ela por uma razão muito simples: a cada três passos você é insistentemente abordado por vendedores oferecendo camelo, cavalo, jegue, carroça, zepellin, e sei lá mais o quê. Enche o saco – e eles sabem disso. Não adianta tentar ser simpático, nem educado: qualquer “talvez”, “depois” ou até um meio sorriso é interpretado como uma possibilidade de compra que leva, invariavelmente, ao vendedor te (per)seguir e tentar vencer pelo cansaço. E muitas vezes eles conseguem.

Entrada para uma das criptas.
Esta é a dinâmica em tempo in-te-gral de visita às pirâmides de Giza. É impossível fugir do assédio. A técnica que descobri ser menos falha é não fazer qualquer tipo de contato visual e, quando não funcionar, mandar um “no english”. Enfim, tudo isso é uma pena, porque a visita fica bastante prejudicada e em determinado momento você simplesmente não vê a hora de sair de lá.


As pirâmides por outro lado são lindíssimas e fazem jus a tudo que você sempre sonhou na sua fase egípcia de infância – sim, todo mundo teve uma. São absolutamente monumentais, os blocos de calcário são gigantes e têm uma precisão de encaixe que torna ainda mais complexo o enigma que circunda  a construção destes monumentos.

De pedra em pedra se faz uma pirâmide.
A esfinge, um pouco mais abaixo do complexo das pirâmides, é muito simpática e cativa imediatamente. Mais uma vez, é impressionante imaginar envolvida na instalação de algo tão majestoso somado aos detalhes ainda hoje bastante preservados, das feições humanas e felinas.

Beijinho, mas são só amigas...
Depois de tanta antiguidade, estávamos precisando de um gostinho mais moderno – e o Cairo é o lugar perfeito para esta combinação. Com nosso querido amigo egípcio, felizmente também um amante da boa comida, fizemos um tour gastronômico passando pelas melhores barracas de falafel e foul até chegar no paladar mais hypado de todo o Egito. Robi já tinha dado a dica de que o Zamalek é um bairro super bacana e descolado e foi pra lá que seguimos, algumas noites, aproveitando excelentes cafés, pratos contemporâneos e sobremesas de tirar o fôlego. E os dois aqui, que estavam super esbeltos depois de uma temporada na Etiópia, já voltaram a adquirir sua tradicional forma rotunda – gordinhos mas felizes!


E para encerrar nossa temporada na capital da melhor maneira possível, Ahmed e eu arquitetamos o terceiro episódio de “como manter as tradições mesmo do outro lado do mundo” (depois do Natal e Ano Novo). Dia 7 de janeiro foi aniversário do Ivan e como a mochila não comporta muito presentes – a regra é, só entra uma coisa quando outra sair – então partimos para a criatividade. Surpreendemos o aniversariante com uma ida ao cinema para ver o Hobbit em 3D (tínhamos o convencido de que não estava mais em cartaz), um filme que ele estava doido para ver na telona – eu nunca vi alguém passar três horas com um sorriso de orelha a orelha. 

Eu e Ahmed comemorando meu aniversário com aquela cerveja!
Depois fomos para um super restaurante comer um belíssimo steak e, pra finalizar, teve até cheesecake com Parabéns e velinhas.  

A noite acabou conosco nos despedindo de Ahmed e seguindo de trem noturno para Aswan.



3 comentários:

Kelly Zeferino disse...

Olá Ivan e Gabi,
Sempre passamos aqui para saber como está a viajem de vcs....o blog está muito bacana
Gostaram de Istambul?
Esperamos que estejam bem .
Kelly e Junior

Ivan e Gabi disse...

Olá Kelly e Junior,

Valeu pelo blog, estamos trabalhando pra deixá-lo cada vez melhor. Amamos Istanbul, logo logo ela vem pra cá tbm.

Beijos

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
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