sábado, 23 de fevereiro de 2013

Tel Aviv - Israel


 



CRUZANDO A FRONTEIRA DE ISRAEL

Estávamos ansiosíssimos para chegar em Israel. Primeiro porque a minha mãe iria nos encontrar lá, fazer o país todo com a gente e ainda levar a Jordânia de bônus. Segundo por conta das histórias um tanto quanto assustadoras sobre atravessar a fronteira do país, ainda mais considerando o nosso roteiro. Terceiro porque, talvez por termos vários amigos judeus muito queridos, tínhamos altas expectativas com relação as maravilhas naturais e a cultura daquilo que é chamada a “Europa do Oriente Médio”.

Mas vamos por partes, primeiro sobre o processo de atravessar a fronteira. No nosso roteiro inicial tínhamos planejado passar uma temporada em dois países lindíssimos mas que não têm relações diplomáticas amistosas (para dizer o mínimo) com Israel. Neste sentido, começamos a fazer mil malabarismos, pesquisas, entrevistas e tudo mais o que era possível para saber como visitar todos os países que queríamos de forma segura e sem dores de cabeça nas fronteiras. O fato é que descobrimos que não havia muita saída: para conseguir “despistar” nossa passagem pela Terra Prometida, teríamos de comprar uma passagem para um terceiro país, cruzar a fronteira por lá, conseguir convencer o oficial a não carimbar nosso passaporte e, no fim das contas, gastar uma baita grana para, talvez, conseguir entrar naqueles outros dois países – ou não. Ouvimos relatos de gente que, depois de passar por todo o perrengue oficial da fronteira foi pego com um Lonely Planet de Israel na mala, quando passava pelo raio-x e não teve dúvida: deportado direto para o país de origem. Outro ainda conseguiu passar por tudo e, chegando no albergue apresentou a carteirinha de desconto que acusava, no sistema, que ele tinha usado em Israel. O gerente do hostel chamou a polícia na mesma hora e, igualmente, o coitado foi mandado de volta. Ou seja, é tenso.

O fato é que, como atravessaríamos a fronteira do Egito por terra, pela cidade de Taba, o único lugar que alguém pode fisicamente ir de lá é para Eilat (Israel) – e era justamente esta passagem que nos denunciava. Ou seja: mesmo que o nosso passaporte não fosse carimbado pelo lado israelense, tínhamos ali uma evidência pelo local de saída do Egito – e até isso eles checam. Apesar de eu ter dupla nacionalidade e sempre andar com outro passaporte, Ivan ainda não conta com esta possibilidade e não queríamos arriscar mais contratempos por conta da chegada da minha mãe. Sem saída, tivemos que tomar a triste (mas ponderada) decisão de mudar nossos planos, desencanar de conhecer estes dois países que dizem ser maravilhosos e deixa-los para uma próxima oportunidade. No fim trocamos esses dois pela Turquia, mas isso é uma história para o futuro.

Pegamos um ônibus de Dahab para Taba (que demora em torno de duas horas) e chegamos andando, com mochila nas costas para atravessar a fronteira do lado egípcio. Este deve ser o posto mais disputado por todos os oficiais de fronteira de ambos os lados, porque é lindíssimo: às margens do Mar Vermelho, numa cidadela bem com cara de interior, uma paz que só vendo e uns pouquíssimos turistas se aventurando por aquelas bandas. Até ficamos meio desconfiados porque só tínhamos nós dois ali. Pagamos todas as taxas, preenchemos o formulário, carimbo daqui e de lá e em pouco tempo estávamos na no man’s land  (terra de ninguém) – aquele estreito pedaço de terra que separa dois postos de fronteira e é praticamente a Neverland geopolítica.

Chegando no lado de Israel, percebe-se que o lugar foi todo inspirado em algum projeto de marketing motivacional da Disney: sinalizações coloridas e amistosas para “descontrair” o ambiente. Fomos recebidos por jovens militares uniformizados que revistaram minuciosamente nossas malas de mão procurando vestígios de bomba. O oficial de fronteira, por sua vez, fez um papel bastante intimidador e nada amigável: perguntou onde iríamos ficar, quis ver a confirmação do hotel, fez “pegadinhas” para saber se iríamos a Petra (Jordânia), quis ver os meus cartões de crédito e débito (todos), perguntou o equivalente em dólares de quanto eu tinha na conta do meu banco. Me senti numa prova oral. No fim, foi muito melhor do que imaginávamos, nada de terror e pânico como as pessoas gostam de contar. Sérios e diretos mas educados e profissionais.


TEL AVIV E JAFFA

Chegando no lado israelense, em Eilat, o apelido de “Europa do Oriente Médio” veio a calhar, por algumas constatações imediatas. Primeiro, tem wifi grátis nos ônibus intermunicipais (oi?!). Segundo, o clima europeu se reflete nos custos: levamos um susto com os preços para os itens mais básicos e em poucas horas descobrimos que Israel ficaria completamente fora da nossa média de gastos. Tivemos que apertar os cintos para não extrapolar (muito) a nossa verba e foi difícil – ô paisinho caro! Terceiro, a primeira coisa que falei para o Ivan foi “Estou me sentindo super mal vestida” – frente a mulheres de cabelão, bota de cano alto e casacos descolados. E eu ali, com as mesmas quatro mudas de roupa (que a propósito, não têm gênero, servem tanto para mulher quanto pra homem) que uso há quatro meses e todas com cara de mochileira das galáxias. Mas, para meu conforto, as minhas roupitchas são super práticas e secam em dois minutos, tá?!

Crianças brincam na fonte do zodíaco em Jaffa.
Desembarcamos em Tel Aviv depois cinco horas de uma viagem muito confortável e seguimos para o nosso albergue, o Florentine Hostel. Os quartos são bem ajeitadinhos e conseguimos um dorm para quatro pessoas com banheiro. A equipe é esforçada mas logo notamos uma certa diferença de profissionalismo: alguns voluntários ajudam na organização do albergue, o que faz com que haja um nível de comprometimento e responsabilidade também voluntários.

Lanchinho rápido no centro da cidade: pão assado na hora com queijo e zatar.
De qualquer forma, por indicação de uma pessoa de lá, fomos comer um sanduíche absolutamente espetacular, numa portinha do bairro boêmio de Florentine, ali ao lado do hostel. O lugar chama-se Reuben, é um balcão com alguns banquinhos altos de madeira, uma decoração de “estamos em reforma” e serve uma única delícia em três tamanhos: sanduíche de pastrami. (Só de lembrar dá água na boca). Saboreamos com cerveja cada pedacinho da carne que era preparada pelo próprio dono, num equilíbrio perfeito entre pão, recheio e molhos.

Deu fome?
No dia seguinte, colocamos nossas mochilas e fomos de mudança para o outro albergue onde ficaríamos com a minha mãe – já que o primeiro não aceitava pessoas com mais de 45 anos (?!). Pegamos o trem para buscá-la no aeroporto e, quando ela chegou, já estava toda aventureira: mochilão nas costas, bota no pé e gorro colorido – linda! Foi uma alegria só matar a saudade e saber que nos próximos dias teríamos nossa primeira acompanhante oficial da viagem!

Celina e Gabi no meio da feira de Carmel.
O Old Jaffa Hostel é muito bem recomendado e tem um charme indiscutível: fica em uma casa muito antiga, tem toda a uma decoração vintage e um terraço magnífico que dá vista para o mar e para o burburinho das ruas. A localização é imbatível: fica no coração de Jaffa antigo (old Jaffa) em uma das regiões mais descoladas de Tel Aviv.

Praça no centro de Old Jaffa.
Saindo da porta do albergue, fomos conhecer o Mercado de Pulgas e tivemos uma forte sensação de deja vu: parecia que estávamos em um sábado na Praça Benedito Calixto (São Paulo – Brasil). Comerciantes de antiguidades ofereciam móveis, joias, roupas e enfeites de segunda mão espalhados nas calçadas ou nas bancas do bazar, dando um aspecto maravilhoso de feira a céu aberto. É uma delícia passear por lá, sem pressa, olhando cada cacareco e se perdendo nas infinitas inutilidades que podem ser encontradas por lá.

Pechinchas e bugigangas.
Um pouco mais a frente, próximo à Torre do Relógio, parecia que tínhamos entrado na Vila Madalena (São Paulo – Brasil). Várias lojinhas descoladas com peças artesanais, galerias expondo os trabalhos de artistas locais, cafés com preços super-estimados e uma atmosfera que simplesmente convida ao ócio. 

Detalhe de uma das lojas de Jaffa.
Foi aí que começamos a entender porque Tel Aviv é chamada de “bolha” num país que frequentemente aparece nas manchetes de jornal por conta do conflito com palestinos. Aqui a sensação é de mais pura tranquilidade, numa cidade moderna e hypada com cafés, restaurantes e lojas de grifes internacionais.

 

Ainda em Jaffa é possível conhecer vários pontos turísticos que ficam bem no miolinho da cidade. Uma rápida caminhada para conhecer a Igreja de São Pedro leva a uma passagem por um pequeno e charmoso parque da região, uma praça bastante antiga com fontes modernas que chocam com o ambiente antigo e, logo ao lado, é possível ver a casa que um dia foi de Simão, O Tintureiro (que teria abrigado apóstolo Pedro em sua peregrinação pelo país).

Porta da casa onde S. Pedro ressuscitou Thabita.
HaTachana (“estação de trem” em hebraico) é hoje um dos lugares mais hypados para um domingo ensolarado em Tel Aviv. A antiga estação de trem foi completamente restaurada e assumiu a função de um amplo complexo cultural e comercial. Um grupo seleto de restaurantes, cafés, livrarias, lojas de roupas e de design abrem suas portas para um público chique-descolado e suas famílias (além do turista invasor, claro!) que está disposto a gastar uma boa quantia em produtos exclusivos. O lugar é muito bonito e vale a pena passear com calma por lá degustando momentos de boemia.

Família brinca nos antigos trilhos da estação.
Ainda na mesma rota, o Centro de Teatro e Dança Suzanne Dellal nos foi muito bem recomendado por apresentar os melhores grupos de dança e as melhores peças do país. Animadíssimas, minha mãe e eu fomos comprar ingressos para um show de dança flamenca que aconteceria naquele dia – o que seria uma ocasião muito especial já que a minha mãe durante muitos anos dançou flamenco. No entanto, quando chegamos lá, os ingressos já estavam esgotados, infelizmente – o que mais uma vez comprova o alto nível do lugar.

Gato preto em Israel também da azar? 
O bairro de Neve Tzedek é o metro quadrado mais chique da cidade e concentra, por consequência, a créme de la créme da sociedade israelense, com uma ampla oferta de serviços de altíssima qualidade. 

Poses no espelho em Neve Tzedek.
Mais uma vez, é muito gostoso passear a pé com calma pelas ruas estreitas mas convidativas, vendo a arquitetura Bauhaus que pauta boa parte dos edifícios desta região. Neste passeio e por indicação de amigos que moram no país, comemos um sorvete maravilhoso na sorveteria Anita, franquia já bastante estabelecida no país e que faz jus à fama.

Entrada de uma das casas do simpático bairro de Neve Tzedek.
Um passeio imperdível em Tel Aviv e que tem de ser feito com tempo, é uma ida ao Museu de Arte da cidade, que conta com uma estrutura impressionante e um acervo de tirar o fôlego. São três prédios enorme que exibem uma farta coleção de arte moderna e contemporânea, arte israelense, pinturas e desenhos, contando ainda com e acervo temporário, fotografia, arquitetura e design. Os destaques são obras de Van Gogh, Chagall, Pissaro e Pollock que ficam em um pavilhão específico dedicado aos grandes mestres. Em nossa visita tivemos a oportunidade de ver uma belíssima exposição do estilista basco Cristóbal Balenciaga além de fotografias do sul-africano Roger Ballen.

Fachada moderníssima do Museu de Arte de Tel Aviv.
Depois de alguns dias batendo perna pela cidade inteira, resolvemos fazer algo que todo viajante cansado merece: ir ao cinema. Além de já ser uma das diversões favoritas da família em tempos de Brasil, foi uma boa oportunidade para descansar um pouco antes do estirão final até o albergue e enganar a fome com uma pipoca amiga.

Uma boa dica baratex é caminhar pelo boulevard da praia no fim do dia em direção à Jaffa. Além de uma paisagem linda, as cores do pôr do sol ao lado da cidade antiga se iluminando faz do passeio uma opção muito prazerosa.

Pescadores no pôr do sol.
Talvez a experiência mais divertida em Tel Aviv foi ter feito compras no Carmell Market, uma grande feita livre que vende de roupas e brinquedos ao hummus mais saboroso da cidade.

Muitas cores na feira de Carmel.
Nos esbaldamos nos diversos antepastos desconhecidos, cortes de frios misteriosos e queijos que não sabíamos nem pronunciar os nomes. Só podemos dizer que dali saiu um belo jantar regado a um vinho local também muito do bom. Fica a dica pra gastar pouco e comer muito bem. 

Vendedor de azeites e azeitonas.
O melhor foi em uma barraca de queijos onde o vendedor querendo ser simpático perguntou ao Ivan se ele estudava para ser rabino. A barba - que está cada dia maior – sempre faz a alegria dos feirantes e vendedores de rua.

Todos os tipos de frutas secas.
Tel Aviv se mostrou uma cidade fácil de se gostar, com todo tipo de serviços e produtos do mundo todo – facilidades sedutoras depois de algum tempo em África.


Um grande amigo comparou o espírito da cidade à outras que abrigam pessoas conhecidas por viverem o melhor da vida, como Barcelona ou mesmo o nosso Rio de Janeiro. Talvez, pelo pouco tempo que ficamos por lá e o choque de contraste na comparação com os países que visitamos anteriormente, não nos permitam ir tão longe, mas dá para entender como as pessoas se apaixonam por esse lugar.

3 comentários:

Karla Mirelle disse...

Gabi e Ivan, vocês não me conhecem, e eu também não os conheço, mas sinto como se conhecesse. Descobri hoje o blog, depois de ler em um site de vestidos de casamento sobre o casamento de vocês e passei (de verdade) toda a manhã e a tarde inteira lendo todos os posts, desde a primeira saga. Estou impressionada com a coragem e com com a determinação de vocês de irem atrás desse sonho. Sou de Maceió e pouco viajada (e olha que já tenho 22 anos!! rs), mas acabei de conhecer lugares que nunca imaginei e pude viver um pouco de cada situação vivida por vocês, graças aos relatos emocionantes e verdadeiros. Desejo a vocês dois, casal lindo, uma maravilhosa continuação dessa viagem, e estarei acompanhando o blog sempre! Beijão!

Ivan e Gabi disse...

Olá Karla, muito obrigado pelo carinho. Você sabe que fazemos o blog pra que as pessoas possam viajar conosco também. Como você pode ver, o blog mudou muito desde o primeiro post sobre a Chapada dos Veadeiros, que era um destino que íamos muito quando morávamos em Brasília. Adoramos aquele lugar! Ali, já tinhamos essa volta ao mundo na cabeça mas não sabíamos quando teríamos condições de sair por ai. E o sonho é isso mesmo, um dia acontece - desde que vc trabalhe por isso. Continue acompanhando e não se esqueça de curtir nossa fan page no facebook: www.facebook.com/esefossemospara

Luciana Castro disse...

As fotos são a tradução perfeita do olhar sensível e delicado que vocês têm lançado a cada lugar, seja de valor histórico-cultural ou puramente emocional. Cada vez que visito o blog de vocês, fico mais encantada. Parabéns sempre! Luciana Castro

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