segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Thistlegorm - Egito




O dia 06 de outubro de 1941 amanheceu tenso no posto de ancoragem F, Mar Vermelho, águas egípcias. A viagem de Glasgow, Escócia, até a Cape Town, na África do Sul, havia sido tranquila apesar do medo de ataques de U-Boats nazistas.

Tudo ia bem no cargueiro de sua Majestade e a missão de chegar até Alexandria atravessando o Canal de Suez se mostrava factível depois de mais de três meses de viagem.

Porém, Alexandria não seria o destino final do SS Thistlegorm e sim o fundo do mar de Ras Mohamed. No começo da mesma manhã, dois aviões Heinkel He 111 alemães decolaram de Creta em busca de um navio inglês que supostamente traria novas tropas para a guerra no norte da África. Nunca encontraram o alvo pretendido mas depararam-se com um gigantesco navio de suprimentos ancorado próximo à ponta sul do Sinai. Este era o fim da jovem vida do Thistlegorm. Ao disparar uma de suas bombas o piloto do Heinkel nunca imaginou o que acertaria.

O projétil atingiu em cheio o compartimento de carga número 4 do navio, carregado de tanques e munição de todos os tipos. Uma única bomba ativou a carga altamente explosiva do cargueiro que partiu-se em dois, catapultando para longe dois blindados universal carrier e duas locomotivas. O navio afundou pouco mais de 30 metros de profundidade e desapareceu da história por quase vinte anos.

Um dos blindados virados de lado.
Em meados dos anos 50, conduzido por histórias de pescadores locais, o explorador Jacques Custeau descobriu o que é considerado hoje o melhor ponto de mergulho para naufrágios do mundo.

De volta a 2012, no último dia de um dos anos mais incríveis de nossas vidas, estes humildes exploradores aqui tiveram o privilégio de conhecer essa beleza!

Buraco da bomba e nova entrada para os porões. Acima um dos vagões que o navio transportava.

Dizer que é impossível descrever a sensação de mergulhar em um lugar como Thistlegorm seria um eufemismo banal. Se você chegou a assistir os programas de Custeau no Globo Repórter ou na TV Cultura, se você se transformava em Indiana Jones para descobrir sítios perdidos ou se teve o sonho de descobrir um tesouro escondido do resto do mundo, talvez você consiga sentir o que é entrar n’água e se deparar com o monstruoso naufrágio que se apresenta impávido – ainda que partido em dois – diante de seus olhos.

Além do museu que é o naufrágio em si, tem a vida marinha.
Os seus 128 metros de comprimento, intactos (com exceção da parte destruída pela bomba), e completamente acessíveis fazem com que o naufrágio vire um parque de diversão para mergulhadores. A explosão que levou o navio ao fundo, por sinal, abriu suas entranhas de tal forma que facilitou a penetração, expondo sua carga e permitindo entradas que seriam muito difíceis em mergulhos recreativos.

Pneus de caminhões e muitos destroços lançados ao lado do navio pela explosão.
À parte do mergulho em si, o lugar é um museu da II Guerra Mundial de primeiríssima categoria. O cargueiro foi armado com dois canhões anti-aéreos, carregava caminhões Bedford, motocicletas Norton 16H e BSA, metralhadoras Bren e rifles Enfield, botas de borracha, partes de avião e  munição além das locomotivas e blindados. Como a explosão que afundou o Thistlegorm só partiu um pedaço do navio, muitos desses itens ainda se encontram dentro de suas caixas, guardados para o nosso deleite.

Canhão anti-aéreo, hoje toca de peixe. Olhem minha cara de feliz no video abaixo.

A exploração começa com um reconhecimento do perímetro do navio. Ali, logo no começo, já avistamos os blindados e as locomotivas, além de alguns rifles e partes de caminhão ao jazendo no fundo arenoso ao lado do naufrágio. Após termos uma noção do tamanho do bicho, voltamos à superfície.

Confesso que foi muito difícil manter a respiração serena diante de tanta emoção. Ao colocar a cabeça na água e ver o que nos esperava lá no fundo, percebi que meu consumo de ar estava altíssimo – e se quisesse terminar o percurso teria que me controlar.


Mas o coração bate muito forte ao explorar em primeiríssima mão este museu subaquático e os minutos passam voando. Felizmente conseguimos completar o percurso. No entanto, ainda não era o suficiente, a vontade era de ficar eternamente explorando aquela embarcação magnífica.


De volta ao barco que nos levou até o ponto de mergulho, Gabi e eu não conseguíamos nos conter de tanta euforia enquanto nos preparávamos para a segunda entrada. Em meio à alegria contamos um ao outro nossas descobertas de corais, moréias, peixes de coloridos-mil no meio de um navio completo da II Guerra Mundial. Ela, depois de descer meio metro pra dentro d’água já sabia o quanto eu havia adorado daquela experiência fantástica.

Peixinho simpático? Sai da frente que eu quero ver o navio!
Voltamos para a segunda rodada, dessa vez instruídos a fazer a penetração no naufrágio e explorar o segundo e terceiro porões do navio e subir de volta para a cabine do capitão.

O que já havia sido surreal ficou ainda mais inacreditável. Dessa vez munidos de lanterna, em meio a um breu total descemos aos fundos do naufrágio podendo observar diante de nós as caixas de rifles, munição, poder olhar a cabine dos caminhões através de suas janelas abertas e até montar em uma motocicleta Norton, intacta em seu túmulo submerso. 
Entrada da cabine.
Fazer tudo isso no escuro, somente com o feixe da lanterna dá uma sensação ainda maior de que você está na pele do velho Custeau, descobrindo aquilo tudo pela primeira vez.


Metralhadoras Bren, algumas ainda dentro de caixas.
Ao subirmos à cabine do capitão (um herói de guerra que salvou metade dos tripulantes quando o navio estava a afundar) pudemos ver perfeitamente preservados o banheiro e o quarto do Capitão Ellis, hoje habitado por peixes-leão e uma moréia gigante que seguiu Gabi até a porta de entrada.


Com o espírito de Custeau, filmamos e fotografamos todo o percurso. É uma pena que não possamos compartilhar aqui todo esse acervo devido às restrições do blog e da internet local.
Saída da cabine do capitão.

Para completar a expedição, ainda fizemos um terceiro mergulho no parque nacional de Ras Mohamed, outro local privilegiado para o esporte, considerado entre os dez mais do mundo – Sharks and Yolanda Reef

Corais em Sharks Reef.
Aqui as cores da vida marinha se proliferam em escala geométrica. Porém, confesso que a embriaguez da alegria de ter acabado de mergulhar no naufrágio contaminou essa experiência e, apesar de estar num dos lugares mais bonitos do mundo, só tinha cabeça para processar o que havia visto horas antes.
Moréia gigante se esconde em coral.

Peixe-papagaio no meio do coral faz a alegria dos fotógrafos mergulhadores,
Que fique registrado nos anais da história que no dia 31 de dezembro de 2012 Gabi e Ivan descobriram o melhor mergulho de suas vidas.  


3 comentários:

Anônimo disse...

Queridos, realmente uma experiencia incrivel!
Fico muito orgulhoso pelo casal e com uma inveja saudavel por mergulhar por mais de vinte anos e nunca ter tido uma experiencia nem de perto tão bonita.
Meus parabens!
Beijos do pai.

Fernanda Miranda disse...

Boa tarde! Amei o Blog e a riqueza de detalhes quando escrevem! Vou com meu marido para o Egito no começo do ano que vem. Dahab e Sharm estão no nosso roteiro, e como amamos mergulhar, não podemos perder estes passeios incríveis. Vocês lembram com qual empresa de mergulho fizeram o passeio? Desde já agradeço. Fernanda Miranda ( fernanda0706@yahoo.com.br )

Ivan e Gabi disse...

Oi Fernanda, recomendamos fortemente a Sea Dancer Dive Center. Excelente em equipamentos, profissionalismo e atenção. Tente mergulhar com a Marlis, instrutora sensacional!

Aproveitem!

abs,

Ivan

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