domingo, 31 de março de 2013

Quando voamos pela primeira vez - Turquia




Na nossa super planilha orçamentária com milhares de abas temos uma tabela específica chamada “Atividades Extras”. Ela é até que pequena, tem 4x10 células em dimensões excelianas, mas é basicamente lá que estão concentrados todos os nossos sonhos mais ousados: mergulhos, safaris, expedições para lugares inóspitos. E um passeio de balão, claro, sonho romântico antigo do casal.

Os balões sendo preparados no nascer do sol.
Ou seja, ali listamos todas as extravagâncias orçamentárias que representavam uma experiência once in a life time mas que, sem dúvida, estavam fora dos nosso padrões de gasto. Foi aí que, numa das vivências mais lindas de carinho e gratidão que já tivemos dos nossos amigos e familiares, todo mundo resolveu embarcar junto nessa viagem. Compartilhamos este sonho com pessoas queridas e, em pouco tempo, elas estavam apostando com a gente que iria dar certo e investindo numa felicidade que além de nossa, era também de todo mundo.


Uma das coisas mais gostosas foi ver cada um construindo parte da volta ao mundo com a gente e sonhando cada passeio junto com o casal, como se efetivamente estivesse lá – e estão, em todos os momentos. No caso do vôo de balão, foi muito especial. Nossos padrinhos de casamento Duda e também a Fá e o Paulo foram categóricos na escolha: queriam que a gente vivesse uma experiência inesquecível sobrevoando de balão paisagens lindas. E, como todos os outros, recebemos este presente com um sentimento de gratidão que não cabe no peito.


Foi nesse sentido que o passeio de balão foi carregado de emoção e boas energias, além de um certo grau de ansiedade que toda primeira vez leva em si. Honrando nossos amigos, escolhemos a melhor empresa da região, a Butterfly, que segundo os próprios donos de agência de turismo, não tem nem comparação em qualidade com as outras – e nós acreditamos. E veja, para um casal bastante cético sobre as coincidências da vida, estamos começando a acreditar piamente que o as vezes universo conspira em favor da beleza.


Como já falamos no post anterior, o Ivan quase não cabia em si de tanto frisson pela possibilidade de poder fotografar a Capadoccia com neve. Mas, em tratando-se de um fenômeno natural, estávamos tentando (sem muito sucesso) controlar as nossas expectativas. Foi ai que, como em resposta a essa energia positiva dos nossos amigos, nevou. Como num passe de mágica, um céu cinzento e uma garoa fina que até desanimavam o fotógrafo transformaram-se, no dia seguinte, na combinação perfeita de um céu azul claro límpido e uma paisagem inteira salpicada de neve fofa e branquinha. Quase não podíamos acreditar.

Panorâmica do cenário dos balões.
O dia do sobrevôo começou, ainda escuro, numa atmosfera de alegria e excitação que aumentava exponencialmente em cada preparativo da subida. Chegamos num campo aberto, forrado de neve, onde os três balões da empresa eram inflados com ar quente e enormes ventiladores. Enquanto isso nós acompanhávamos a cidade ser acordada pelo nascer do sol enquanto outros balões já pontilhavam o horizonte num espetáculo único.

Balões sendo preparados na neve.

Depois de algum tempo, fomos convocados a subir na cesta de vime e eu quase não cabia em mim de tanto entusiasmo. Ali de pé sentimos aos poucos a força do ar quente nos puxando para cima, sem quase sentir o peso das dez outras pessoas que estavam conosco. E quando começamos a ganhar altitude, sobrevoando as formações rochosas, os rios e as estradas que nos separavam da cidade lá longe, finalmente entendemos qual é a magia de andar de balão.

O caminho para felicidade. Não acredita? Olha o vídeo abaixo!



Andar de balão é como estar acordada num sonho. Não há descrição melhor, ainda mais tratando-se de um sobrevôo na Capadoccia com neve. 

Lindo, não?
Sentindo o vento bater no rosto e com metade do corpo para fora da cesta de vime, a sensação é de estar nadando no ar sobre uma imensa cadeia montanhosa toda salpicada de branco fofinho. 

Cenário melhor, impossível!
Nos nossos sonhos de gordinhos, isso seria interpretado como um bolo gigante, recém saído do forno, todo polvilhado com açúcar de confeiteiro* – e nós, é claro, estaríamos voando em cima dele. Voando de balão naquele cenário nós estávamos vivendo esse sonho – e era realidade.

Cadê o bolo?
Não há vidros, cinto de segurança, motor nem nada. Ali em cima, um silêncio que traduz da melhor forma a sensação completa de paz – e só é interrompida pelo barulho forte das chamas. 

São dezenas de balões no ar toda manhã.
Num mundo onde a viagem de avião está se tornando cada vez mais banal, é fácil esquecer que estamos literalmente voando quando dentro de uma aeronave, por conta do barulho constante das turbinas, o ar condicionado reciclado e aquele mundaréu de gente espremida em micro-assentos. Voando de balão a primeira coisa que você se dá conta e não se contêm em falar em voz alta é: “eu estou voando!

Hey Francis, let's fly!
Não há leme. Basicamente não há como controlar aquele globo gigante flutuando na atmosfera – por isso a necessidade de se fazer este passeio com profissionais credenciados e empresas extremamente bem recomendadas. 


O nosso piloto nos explicou que para conseguir navegar é necessário subir e descer até encontrar uma corrente de ar que sopre para alguma direção. Para fazer as movimentações laterais, para sair do lugar, é necessário procurar um caminho e confiar numa força que te conduza para algum novo destino. Mesmo sem leme, mesmo sem certeza de onde se vai parar, é preciso confiar na sorte quando venta. Lição de vida.


Na descida, depois de pouco menos de duas horas de deleite voando no céu azul, fomos convidados a nos “encaixar” com nossos parceiros para deitar a cesta para aterrisagem. Sacanagem ou não do piloto, foi divertido! Depois disso, teve o momento turistada chique: fizemos cara de blazé quando a equipe abriu um espumante (as 8h20 da matina!) para fazer a comemoração do vôo. Pra completar, ainda ganhamos um certificado todo bonitinho por isso!

Acho que trocaríamos o espumante por mais 15 minutos de vôo.
Sobrevoar a Capadoccia com neve em um balão foi sem dúvida uma das experiências mais marcantes desta viagem. Como tantas outras que tivemos por aqui, tentamos sempre transmitir e (re)significar tudo isso que estamos vivendo por aqui com as fotos e os relatos. Para isso, buscamos compartilhar a realização deste sonho conjunto que carrega consigo as boas energias de muita gente querida sem o qual nada disso seria possível. A todos os nossos familiares e amigos, neste post representados pelos padrinhos Duda, Fá e Paulo, nosso eterno obrigada por nos ensinarem a voar!

Uma pena que acabou!

*Nota: na verdade eu pensei especificamente num bolo lindo que a Paolinha Biselli faz que é exatamente da cor das montanhas da Capadoccia e tem o açúcar de confeiteiro polvilhado por cima, tal qual a neve. Saudades, lindona! 

terça-feira, 26 de março de 2013

Capadoccia - Turquia




A Capadoccia que a gente chama de “Capadócia” pronuncia-se, na verdade, “Kapadókia”. E a sonoridade deste nome antigo combinada perfeitamente com o formato másculo dos pináculos rochosos que dão um aspecto cênico único para esta região. 

As formações rochosas que caracterizam a região.
Este sonho de lua-de-mel da maioria dos casais apaixonados fica circunscrito à vila de Goreme, sede turística para explorar a região com calma e fonte de uma preguiça deliciosa para as maravilhas deste lugar.

A cidade de Goreme vista do alto.
Chegamos lá de ônibus que, a propósito, foi um dos melhores transportes públicos que pegamos nessa viagem, com direito a assentos espaçosos e até uma TV individual – áudio em turco, só pra deixar as coisas mais interessantes e serviço de bordo. A esta altura, o inverno já apertava bastante e eu, que especialmente o-de-i-o frio, até estava bem animada com a possibilidade de pegar neve na Capadoccia. O Ivan por outro lado estava amando a friaca, como sempre, e já dava sinais ansiolíticos claros pela possibilidade de pegar uma nevasca novinha em folha e fazer fotos incríveis.

Fala se não é o Indiana Mohamed Jones?
Depois de passar por um bocado de hotéis/albergues/pousadas, alguns chiquetosos e outros (grande maioria) bastante xexelentos, fica claro que são os pequenos detalhes que fazem TODA  a diferença. Foi esta experiência que tivemos com a Goreme Guest House, onde fomos acolhidos com carinho. Assim que chegamos, por volta das 7 da manhã fomos encaminhados para o quarto e eles ainda nos ofereceram, como cortesia, o café da manhã que estava sendo servido – registro: ma-ra-vi-lho-so. No check-out, o mesmo procedimento: mesmo tendo que pegar o ônibus as 20h, eles nos deixaram ficar até o último minuto, sem nenhuma cobrança. Recomendadíssimo!

Muitos hoteis a escolher.
Goreme em si é um charme. Apesar de receber milhares de visitantes anualmente, a vila ainda consegue manter um ar interiorano e intimista que faz você querer ficar lá por dias. As hospedagens intrincadas nas pedras são uma atração à parte que mantêm uma atmosfera autêntica das antigas residências da região e, ao mesmo tempo, trazem todo o conforto moderno.

Goreme depois da chuva.
E não é que, na nossa primeira volta pela cidade nos deparamos com um Hamman (banho turco). Estávamos morrendo de vontade de fazer um ao mesmo tempo que não queríamos a opção pra turista. Foi ai que encontramos esse em Goreme cheio de locais. Não tivemos dúvida, entramos e fizemos o banho completo. Muito relaxante.

Para conhecer os principais pontos de interesse existem dois tours principais: o Vermelho e o Verde. As agências operam por preço fixo acordado todo início de ano entre elas, o que dispensa o rolê da negociação de valores – finalmente! Nós fizemos o primeiro que inclui transporte, guia e almoço, com duração de um dia todo.

Vista da primeira parada do tour.
Conhecemos as famosas cidades subterrâneas que impressionam pelo tamanho e arquitetura, toda escavada por força humana. Estes abrigos eram usados no máximo por três meses, como refúgio para guerras e também contra o frio intenso do inverno turco. Lá viviam inúmeras famílias num complexo sistema de túneis que interligavam diversos andares (mais de 8!). Cada pavimento tinha sua função onde foram construídos condutos de ventilação, poços, espaços religiosos e de assembleia, além de rotas de fuga detalhadamente planejadas. Muito bacana!

Gabi em um dos túneis das inúmeras cavernas.
Em outro ponto, visitamos algumas capelas antigas, igualmente escavadas na pedra mas que desta vez foram recobertas por uma fina camada de reboco que permitu a pintura de cenas bíblicas. Ali é possível contemplar cenas da anunciação de Maria, nascimento de Jesus Cristo e pregação para os apóstolos.

Jorge sentou praça na cavalaria...

Durante o almoço comendo uma bela truta de forno, conhecemos um casal indiano, um colombiano, e dois japoneses, todos no mesmo tour. Além da laranja fatiada, desfrutamos de sobremesa o prenúncio de uma nevasca, que ainda misturava chuva com alguns floquinhos mas já abria possibilidade para uma neve fresquinha. Os japoneses, surpresos, davam risada da nossa cara de espanto e alegria, animadíssimos com a chance de ver neve caindo, pela segunda vez na vida.

No meio da nevasca!
No meio do caminho, a tempestade aumentou causando algum congestionamento na estrada. E é claro que, aproveitando a oportunidade, nós fomos nos divertir na neve branquinha e fofa que tinha acabado de cair. 
Paisagens surreais cobertas de neve.
Todo mundo entrou na brincadeira e em pouco tempo estávamos nos jogando no chão, vendo quanto tempo demorava pra barba do Ivan congelar, rindo por não conseguir abrir o olho sem ser atingido por um floquinho de neve. Delícia!

Vai encarar subir a montanha? 
Ivan estava com um sorriso de orelha a orelha. Esta era a oportunidade que ele tanto esperava, de poder fotografar as fálicas formações rochosas polvilhadas de branco num cenário único e maravilhoso. Tudo parecia conspirar a favor disso. No meio do caminho encontramos umas paisagens lindas que só ficavam mais dramáticas naquela situação particular. 


A cidade em si ficou ainda mais idílica com o telhado das casas todo branquinho amparado por uma linda cadeia de montanhas atrás, igualmente salpicadas de branco.

A cadeia de montanhas que envolve Goreme coberta de neve.
Ele ficou tão entusiasmado com o cenário que me largou no hotel e subiu o morro que margeia a cidade, armado de câmera e tripé e todos os equipamentos de frio que temos para fazer mais fotos. 
Pôr-do-sol em Goreme após nevasca.
Ficou lá em cima das 4h30 até escurecer e quase morreu de frio com uma forte chuva seguida de nova nevasca. O doido ainda disse que adorou, pois fez algumas das fotos que estão aqui postadas em cenários surreais entre relevos e cores . Quem falou que vida de fotografo é fácil?

Após a tempestade sempre fica mais bonito! 

No dia seguinte, andamos de balão – mas esta experiência magnífica merece um post específico. Quando o frio deu uma amenizada, nós nos encapotamos e fomos desbravar a pé os arredores da cidade, em direção ao Museu a Céu Aberto. 
Prédios dentro da montanha no museu a céu aberto.

O museu é bastante interessante e quase que não dá pra acreditar naquela cidade com casas, inúmeras igrejas todas detalhadamente decoradas, refeitórios e espaços administrativos. Todos escavados dentro da pedra, dando um aspecto ainda mais surreal ao lugar.


Rio que corta o vale das igrejas escavadas na pedra.
Depois disso seguimos em frente, e aqui vale uma dica da nossa experiência: estas caminhadas despretensiosas nos arredores sempre acabam sendo uma grata surpresa. Tenho a impressão que estes caminhos, quando não planejados anteriormente acabam sendo aqueles que a sua alma instintivamente fareja e normalmente trazem descobertas maravilhosas.

Cavalo do Rancho Dalton Brothers. O nome é bom!
Foi nessa toada que contemplamos a dança entre um border collie e alguns cavalos, que brincavam de se perseguir. Encontramos uma árvore toda enfeitada de jarros de barro, como se eles fossem seu fruto humano. Brincamos com um filhote de vira-lata que assim que nos viu despontar do alto da montanha começou a saltitar e se rebolar todo – e eu morri de saudades do Luke. Encontramos uma capela escavada dentro de um dos pináculos rochosos com pinturas ainda vivas de um passado distante. Conduzidos por um senhor turco, fomos conhecer uma pequena casa que produzia vinhos e depois foi convertida em pombal para treinamento e abrigo dos pombos-correio.



Estas são aquelas coisas que não existem, a não ser se criadas pelo acaso do andar sem destino. No caso meu e do Ivan, o hábito é quase uma necessidade terapêutica, ainda mais vivendo tanta coisa como estamos agora. Desde o início do casal, num daqueles pactos silenciosos que seguem pela vida, adotamos a didática socrática para resolver todos os problemas do nosso mundo. Pra gente, é sempre caminhando que o ritmo dos passos encadeia melhor o pensamento – e aí nos encontramos de novo, no espaço e no tempo. Fazer isso descobrindo novas paisagens e deixando o destino revelar o próximo mirante, é praticar o desprendimento e confiar na sorte do andar bêbado do viajante. É ir sem rumo e chegar mesmo assim.


segunda-feira, 25 de março de 2013

Istanbul II - Turquia




Seguimos contando um pouco mais da nossa estadia em Istanbul. Aproveitem!

BAZAAR

Este é “O” lugar para os compradores compulsivos e mesmo aqueles que não se inspiram muito na prática sentir-se-ão tentados. E a melhor maneira de explorar esta região (pelo menos foi assim que nós fizemos e adoramos) é aplicando a filosofia de Tom Zé: “tô te confundindo pra te esclarecer / tô te perdendo pra você se achar”.


Para coloca-la em prática imediatamente, nada melhor do que se jogar de cara no Grande Bazaar. É um fato: você vai se perder – e vai gostar. 


Corre-se o risco altíssimo de ser envolvido pelos vendedores que, com calma e carinho, quase que num chamego, vão conversando num inglês gostoso e oferecendo um chá doce que aquece a alma. 
Tem de tudo no Grand Bazaar.
Conversa vai, conversa vem, o amigo sempre tem um primo que mora em São Paulo e vende tapete na Avenida São Gabriel. E, de repente, não é que aquela pashmina ficou bem mais bonitinha e você até acha que iria combinar direitinho com aquele seu casaco?


No meio de tanta gentileza, precisa ter um faro muito apurado para separar o que vale a pena e o que é picaretagem. Mas se procurar bem e souber o que se quer comprar, têm muitos itens bacanas e de altíssima qualidade por um preço negociável. 

Muito bom humor dos turcos. (foto celular)

E essa combinação é o prato predileto do brasileiro: não a toa foi no Grand Bazaar que vimos a maior concentração de conterrâneos, alguns até carregando malas de rodinhas pra tanta compra no melhor estilo “outlet em Miami”.

Eles ficam orgulhosos e te respeitam mais se você pede chá turco ao invés do de maçã.
A parte boa de quando se está mochilando numa viagem de dez meses é que você não sofre (a não ser quando o Ivan resolve comprar uma espada, claro). Normalmente não cabe mais nada na mochila que já incomoda de tão pesada e você também não quer abrir a mão pra mandar nada pro Brasil – sem problema não há sofrimento. Nessa de não comprar nada mesmo vendo tanta coisa linda que a gente adoraria ter na nossa casa (que, a propósito, não existe mais) resolvemos matar a vontade de forma criativa. Criamos a nossa World House Wishlist, onde fotografamos e listamos todos os itens de diferentes países que gostaríamos de ter em casa. Um dia, em alguma casa, em algum canto. Um dia.

Bazar Egípcio ou de especiarías.
O Bazaar das Especiarias é uma perdição ainda maior – pelo menos pra mim. 

Da vontade de levar tudo e ir direto pra cozinha!
Eu com síndrome de abstinência de cozinhar e nós dois ali, passeando despretensiosamente no meio dos chás de flor de lótus, pencas de cardamomo, pistache a granel, tâmara fresca, curry e mil outros pozinhos mágicos que eu adoraria brincar na cozinha. Fué, fué, fué... Só fiquei babando.

Vista noturna da ponte.
Logo ali perto fica a Ponte Galata, que leva para os distritos ocidentais da cidade. A ponte em si é uma atração, não só pelos restaurantes que ficam embaixo dela e acompanham os barcos fazendo a travessia do Golden Horn mas também (e principalmente) pelos pescadores que jogam a linha lá de cima e são sobrevoados (e agourados) pelas gaivotas a espera de um almoço de graça. A dinâmica é bem engraçada.
Pescador tenta a sorte na ponte.
Num dos extremos da ponte nos passeamos por um mercado de peixes e eu que adoro feira fiquei animadíssima. Peixes ali fresquinhos (alguns ainda se contorcendo, coitados) pra escolher, levar pra casa e fazer. E quem não tem casa pode comer ali mesmo: é só optar por uma forma de preparo e comer em um dos botecos que ficam ali servindo freneticamente. Nós optamos pelo famoso (e barato) sanduíche de filé de peixe, uma unanimidade na Turquia, servido no pão com salada, cebola e limão. Uma delícia simples pra tomar com cerveja.

BEYOGLU

Uma das tarefas que tínhamos que resolver em Istanbul era o tal do visto indiano e por isso tivemos (felizmente) que reservar um tempo maior para ficar na cidade. Depois de uma leve trapalhada que fizemos em Tel Aviv (Israel), esta era a nossa última chance de conseguir ir pra Índia legalmente e portanto estávamos super focados na questão. 

Brincadeira com poses e cores nas ruas de Beyoglu.
O fato é que depois de muita canseira e um excesso de burocracia, conseguimos finalmente o tal do visto – ô paizinho chato de conseguir entrar! O lado bom disso tudo é que o Consulado Indiano em Istanbul fica em uma região muito bacana e talvez pouco explorada pelo turismo mainstream, chamada Beyoglu. E como nós tivemos que ir pra lá “só” cinco vezes (sim, cinco) por conta do visto, acabamos por adquirir um afeto especial por este bairro.

Mas a coisa mais importante que você precisa saber sobre a cidade (e quiçá sobre a Turquia) fica logo depois de atravessar a ponte. É sério. Razoavelmente escondida entre uma ruazinha paralela ao braço de mar, está a Karaköy Güllüoglu. Este nome mafioso é pra impor respeito sim – e depois que você souber o que eles fazem, vai praticamente querer criar uma seita de adoração a isso. É exatamente neste lugar que você vai comer a melhor baklava da sua vida inteira. E talvez o melhor doce de pistache já inventado no mundo. É lá. E olha que eu não sou muito chegada aos doces árabes porque normalmente acho excessivamente doce mas este, em especial, é de morrer. Tem a dose exata entre um choque hiperglicêmico e o delírio orgástico.

Não vou mentir, é um dos melhores doces que já comi na vida. Mas é só o desse lugar, juro que tentei vários outros.
Num jogo rápido entre pagar-pedir-levar pra mesa você se acotovela entre os turcos, tentando atrair a atenção dos vendedores que não estão nem ai pra você – porque, é claro, eles sabem que tudo o que separa você de um pedaço do céu são eles mesmos. 

Salão do Karakoy.
Apesar de terem várias imitações com o mesmo nome, eles fazem questão de reforçar que só existem lá (não há filiais) e nós, como bons viciados, fizemos questão de voltar lá pra comer todas as vezes que pudemos – inclusive numa não-ida ao consulado. Em suma, a Karaköy Güllüoglu está para as baklavas assim como a avó da nossa amiga Carol está para as esfihas (piada interna para poucos conhecedores, sorry!). Capisci?
Olha a cara de feliz. Não é pra menos.
A Torre de Galata aparece quase como um marco solitário, no alto do bairro de Beyoglu, destacando o local que um dia foi chamado de Genoese. Hoje considerada um excelente mirante para uma vista panorâmica da cidade, a torre sobreviveu diversos terremotos e segue em pé. Mas, muito mais importante do que isso tudo, é o fato do Ivan ficar super empolgado de ver ao vivo a mesma torre que está no quarto dele em São Paulo só que em modelo de papel. Adoro a minha criança feliz.

Torre de Galata. Vistas incríveis, vá a noite!
O boulevard Istiklal Caddesi é um must da rapaziada chique da capital. Esta larga avenida onde não são permitidos veículos (a não ser por um bondinho retrô que fica subindo e descendo o meio da rua) fica lo-ta-da de gente atrás de um bom café (vários, até Starbucks), umas compras em lojas de marcas internacionais ou ainda o bom e velho footing pra dar uma olhada nos transeuntes a passeio. Para ver e ser visto – ou desfilar um pouco, para aqueles que têm síndrome de diva.

Mais uma da série brincando com poses & cores. Dessa vez na frente da torre de Galata.
A gente que já tinha cansado um pouco desse burburinho que ficava bem no caminho de volta do Consulado Indiano, resolveu explorar os arredores. Qual não foi a nossa surpresa que logo ali, algumas ruas mais atrás ficava o reduto Vila Madalena de Istanbul. Hippies descolados e músicos tomando a sua cerveja barata e café meio frio nos banquinhos baixos da calçada. Em volta, brechós, design independente, inutilidades e lojas de instrumentos musicais. Gostei tanto que fiz a minha segunda aquisição da viagem (depois da echarpe na Etiópia): uma camiseta!

No melhor estilo saudades-do-meu-bar, adotamos esse boteco em Istanbul. Ficamos até amigos dos garçons.
E como a gente não nega o nosso lado glutão, fizemos mais uma incrível descoberta gastronômica: o pide – apelidado de forma infame de “pizza turca”. 

Esse é de queijo, mas as variações são muitas.
Encontramos esta delicia de rua numa portinha que empacotava freneticamente os pedidos para levar recém saídos do forno e, pra não deixar a gente na mão, dispunha de três mesinhas de plástico na porta. Do jeito que a gente gosta. A janela de vidro deixava transparecer a maestria com que o chef fazia a massa, colocava o recheio e atirava no forno a lenha. E dali saía uma espécie de “barquinho” recheado de queijo, carne ou ovo com molho de tomate. E pra beber no melhor estilo turco: iogurte. Hum-hum!

E claro que não podia faltar nessa vida boêmia o churrasquinho grego, ops, turco!
O que vivemos com Istanbul foi, sem sombra de dúvida, um romance de inverno em que a cidade se revelava em cada esquina, num jogo de sedução impossível de resistir. Se estávamos descendo o badalado Boulevard Istiklal, era só entrarmos numa quebrada escondida que uma mini-praça cheia de estudantes turcos tomando chá se descobria num oásis. Se o frio apertava enquanto passeando na rua, em poucos instantes éramos convidados por um vendedor turco que, num mágico pacto silenciosos afirmava que o convite não era pra comprar (e não era mesmo) mas sim pra se esquentar. Finalmente, Instanbul é do tipo de mulher pra casar, que te recebe com carinho, abraça e envolve até o mochileiro mais pé sujo, fazendo você acreditar que sim, existe amor pra toda a vida. From Istanbul, with love.


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