terça-feira, 5 de março de 2013

Bethlehem - Israel



 Nossa ida para a cidade mais lembrada no Natal foi extremamente marcante. Depois de algum tempo em Jerusalém decidimos que era hora de explorar pelo menos uma pequena parte dos Territórios Palestinos. Bethlehem, como é chamada por aqui, fica a meia hora de ônibus e é uma parada importante para os peregrinos. No entanto a nossa experiência foi muito além dos pontos religiosos e se concentrou de forma intensa em algumas horas de conversa com um taxista muçulmano e uma ativista católica que nos marcaram para a vida.


A começar pela Igreja da Natividade, onde acredita-se que aconteceu o nascimento de Jesus e, para boa parte da nossa cultura cristã europeia, é de lá que vem toda a representação do presépio de Natal. A entrada do edifício é desproporcionalmente pequena, com uma única porta com pouco mais de 1,5m de altura e que teve um propósito importante: impedir que cavaleiros entrassem montados no local sagrado.

Entrada da Igreja da Natividade.
O lado grego-ortodoxo é o mais suntuoso e ainda guarda alguns mosaicos da época do Império Bizantino. Os sacerdotes, como sempre, são extremamente rígidos e não tiveram o menor pudor em chamar a atenção dos guias que falavam muito alto e até pedir para alguns turistas mais alvoroçados saírem da igreja passando um sermão de que “this is not a coffee shop!” (isto aqui não é café). Embaixo do altar da igreja fica a gruta com a manjedoura que teriam abrigado o nascimento de Cristo e deu um certo grau de vergonha alheia ao ver um grupo de brasileiros desavisados cantando Noite Feliz – na igreja grega-ortodoxa.

Altar do lado Grego-Ortodoxo.
Como todos os monumentos sagrados em Israel, logo ao lado fica a Igreja da Natividade Católica, administrada pela ordem dos franciscanos que reclamam ser lá o nascimento de Jesus, em uma construção subterrânea maior e mais clara que conta até com uma pequena capela com mosaicos.

Igreja Franciscana.
Em seguida fomos conhecer a Capela do Leite, onde os peregrinos confiam que Maria parou para amamentar Jesus. Hoje acredita-se que este lugar seja uma fonte de fertilidade e muitas pessoas vão até lá para tocar as figuras religiosas, as paredes – e dizem que alguns até experimentam um pouco do pó das pedras para ver se surte um efeito mais imediato. Enfim, a capela é simples e delicada.

Saindo de lá, conversamos com um taxista que nos ofereceu seus serviços para dar uma volta pelo lado Palestino da cidade – e era exatamente o que queríamos. Mohammed é um homem pequeno, que deve ter por volta de 45 anos e durante mais da metade deles foi professor de História para crianças no Ensino Fundamental.

Saída do lado palestino. Perceba a pintura am azul cobrindo os grafites de protesto.

Combinamos o preço e assim que entramos no taxi ele foi aos poucos “experimentando o terreno” para verificar o grau de simpatia em potencial que poderíamos ter com a causa palestina. Quando ele percebeu que estávamos dispostos a escutar ele começou a contar de forma apaixonada e do seu ponto de vista, a história da região, os fatos mais recentes e a história da sua família.



Sabe aquela história da família que, de um dia para outro, acorda separada por um muro? Os avós ficam de um lado, os filhos e netos de outro, primos e tios são fisicamente separados – isso soa familiar? Ou o marido que trabalhava um pouco mais longe e um dia não consegue voltar para casa porque construíram um muro no meio do caminho? Ou ainda, com uma dose de romance, os namorados que não conseguem mais se ver porque há uma parede que os divide fisicamente? Ah, claro – você deve estar pensando – o Muro de Berlim que separava a Alemanha Oriental da Alemanha Ocidental e que o mundo inteiro comemorou a queda em 1989.

 

Não, não é esse. Hoje, há um muro em Israel. São placas de concreto que chegam a mais de doze metros de altura e se estendem por quilômetros e quilômetros isolando o que é hoje considerado território palestino. Hoje, neste exato momento, o muro não só existe como está sendo ampliado. O governo israelense começou a construir o muro em 2002 (que surpreendentemente se fala pouco hoje) para separar fisicamente e restringir o trânsito entre a população israelense e palestina. O muro existe, hoje. Não há liberdade de ir e vir a não ser pelos check points militarmente instalados – e é necessário ter uma licença específica aprovada pelo governo para se passar de um lado para o outro. É literalmente uma parede de concreto enorme erguida no meio de um país.

E em pouco tempo nós estávamos na frente dela. Gigante, cinza e instransponível, o muro cumpre bem a função de intimidar quem chega mais perto, não apenas pelas torres de observação com militares fortemente armados, pelas câmeras de vigilância e pelo arame farpado, mas sim pela sensação de impotência/insignificância que ele cria em qualquer ser humano que se aproxima.

Muro toma cont do que já foi a rua mais movimentada de Belém.
Foi aí que entendemos um pouco da coragem e ousadia dos jovens palestinos que grafitaram partes do muro com mensagens políticas – invariavelmente censuradas pelos israelenses, que passam tinta por cima de tudo, mesmo estando no lado palestino. São manifestações artísticas por todos os lados que dão forma à indignação, à raiva, à esperança e ao ódio com relação a situação do país e precisamente com o muro ali levantado.

São desde mensagens de paz até desenhos sobre a atuação da ONU na região, passando por caricaturas altamente pejorativas e até frases de incitam a continuidade da guerra. Alguns personagens ali estampados são pessoas que praticaram algum tipo de ato terrorista e não foram pegos pela polícia israelense. Outras imagens têm ainda um forte apelo internacional e impactam pela capacidade de síntese de uma situação que é interminavelmente complexa.

Grafites no muro atrás de propriedade da ONU.
Passamos pelo campo de refugiados de Aida, que de tão grande mais parece um bairro pobre remendado aos poucos para comportar um número de pessoas inviável. Mohammed nos explicou que durante anos as pessoas ali foram abrigadas em barracas, quando os órgãos da ONU ainda acreditavam que a situação era temporária. Depois de anos vivendo dentro de tendas, as autoridades se resignaram frente a duração do conflito e começaram a construir cômodos de 16 metros quadrados para abrigar uma família inteira. Hoje, com mais de 60 anos de vida, os moradores do campo de refugiados constroem em cima dos antigos abrigos, dando um aspecto ainda mais insolúvel para a questão.

Campo de refugiados de Aida. Alguma semelhança com uma favela brasileira?
Sem tomar partido porém consternados com a situação exposta à céu aberto, voltamos para Jerusalém. No caminho um check point nos parou. Eles pediram os documentos de todos os que ali estavam, menos o nosso. Os jovens de não mais que 18 anos, nervosos, com rifles na mão entraram e saíram mudos e a tensão aumentava em cada passo. Nós, turistas, não fomos nem um pouco incomodados.


De Jerusalém tomamos outro ônibus rumo à Eilat, nossa velha conhecida cidade de fronteira, tanto com o Egito mas também com a Jordânia, nosso próximo destino. Na fronteira, uma oficial de imigração bastante jovem nos perguntou se tivemos algum problema em Israel, se havíamos gostado. Respondemos que não tivemos sequer um problema para contar, o país funciona como um relógio: transporte de qualidade e pontual, bons hotéis, excelentes atrações, uma maravilha de férias!

Ela, sendo a mais simpática de todos os israelenses que encontramos nessa jornada, ficou um pouco desconfiada. Na verdade é que - como ensinou Tom - da mesma maneira que “é impossível ser feliz sozinho”, não dá pra Israel ser um país tão avançado tendo como “vizinho/anexo” tanta precariedade, injustiça e inequidade nos Territórios Palestinos.

2 comentários:

Celina disse...

A amargura de seu comentário demonstra a indignação frente ao sofrimento de pessoas que poderiam também ter a opção de escolher a paz ,indiferente a credo e nacionalidade.
Ao meu querido Ivan, sempre obrigada pelos ensinamentos claros e puros.

Maria Luiza Cruz disse...

Amores!

Faço minhas as palavras de Celina! Por mais que eu tente, não me é possível assimilar essa situação...

E o comentário acerca dos brasileiros cantando Noite Feliz... Já passei por situações semelhantes... Vergonha alheia mesmo!

beijosssssss

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