terça-feira, 26 de março de 2013

Capadoccia - Turquia




A Capadoccia que a gente chama de “Capadócia” pronuncia-se, na verdade, “Kapadókia”. E a sonoridade deste nome antigo combinada perfeitamente com o formato másculo dos pináculos rochosos que dão um aspecto cênico único para esta região. 

As formações rochosas que caracterizam a região.
Este sonho de lua-de-mel da maioria dos casais apaixonados fica circunscrito à vila de Goreme, sede turística para explorar a região com calma e fonte de uma preguiça deliciosa para as maravilhas deste lugar.

A cidade de Goreme vista do alto.
Chegamos lá de ônibus que, a propósito, foi um dos melhores transportes públicos que pegamos nessa viagem, com direito a assentos espaçosos e até uma TV individual – áudio em turco, só pra deixar as coisas mais interessantes e serviço de bordo. A esta altura, o inverno já apertava bastante e eu, que especialmente o-de-i-o frio, até estava bem animada com a possibilidade de pegar neve na Capadoccia. O Ivan por outro lado estava amando a friaca, como sempre, e já dava sinais ansiolíticos claros pela possibilidade de pegar uma nevasca novinha em folha e fazer fotos incríveis.

Fala se não é o Indiana Mohamed Jones?
Depois de passar por um bocado de hotéis/albergues/pousadas, alguns chiquetosos e outros (grande maioria) bastante xexelentos, fica claro que são os pequenos detalhes que fazem TODA  a diferença. Foi esta experiência que tivemos com a Goreme Guest House, onde fomos acolhidos com carinho. Assim que chegamos, por volta das 7 da manhã fomos encaminhados para o quarto e eles ainda nos ofereceram, como cortesia, o café da manhã que estava sendo servido – registro: ma-ra-vi-lho-so. No check-out, o mesmo procedimento: mesmo tendo que pegar o ônibus as 20h, eles nos deixaram ficar até o último minuto, sem nenhuma cobrança. Recomendadíssimo!

Muitos hoteis a escolher.
Goreme em si é um charme. Apesar de receber milhares de visitantes anualmente, a vila ainda consegue manter um ar interiorano e intimista que faz você querer ficar lá por dias. As hospedagens intrincadas nas pedras são uma atração à parte que mantêm uma atmosfera autêntica das antigas residências da região e, ao mesmo tempo, trazem todo o conforto moderno.

Goreme depois da chuva.
E não é que, na nossa primeira volta pela cidade nos deparamos com um Hamman (banho turco). Estávamos morrendo de vontade de fazer um ao mesmo tempo que não queríamos a opção pra turista. Foi ai que encontramos esse em Goreme cheio de locais. Não tivemos dúvida, entramos e fizemos o banho completo. Muito relaxante.

Para conhecer os principais pontos de interesse existem dois tours principais: o Vermelho e o Verde. As agências operam por preço fixo acordado todo início de ano entre elas, o que dispensa o rolê da negociação de valores – finalmente! Nós fizemos o primeiro que inclui transporte, guia e almoço, com duração de um dia todo.

Vista da primeira parada do tour.
Conhecemos as famosas cidades subterrâneas que impressionam pelo tamanho e arquitetura, toda escavada por força humana. Estes abrigos eram usados no máximo por três meses, como refúgio para guerras e também contra o frio intenso do inverno turco. Lá viviam inúmeras famílias num complexo sistema de túneis que interligavam diversos andares (mais de 8!). Cada pavimento tinha sua função onde foram construídos condutos de ventilação, poços, espaços religiosos e de assembleia, além de rotas de fuga detalhadamente planejadas. Muito bacana!

Gabi em um dos túneis das inúmeras cavernas.
Em outro ponto, visitamos algumas capelas antigas, igualmente escavadas na pedra mas que desta vez foram recobertas por uma fina camada de reboco que permitu a pintura de cenas bíblicas. Ali é possível contemplar cenas da anunciação de Maria, nascimento de Jesus Cristo e pregação para os apóstolos.

Jorge sentou praça na cavalaria...

Durante o almoço comendo uma bela truta de forno, conhecemos um casal indiano, um colombiano, e dois japoneses, todos no mesmo tour. Além da laranja fatiada, desfrutamos de sobremesa o prenúncio de uma nevasca, que ainda misturava chuva com alguns floquinhos mas já abria possibilidade para uma neve fresquinha. Os japoneses, surpresos, davam risada da nossa cara de espanto e alegria, animadíssimos com a chance de ver neve caindo, pela segunda vez na vida.

No meio da nevasca!
No meio do caminho, a tempestade aumentou causando algum congestionamento na estrada. E é claro que, aproveitando a oportunidade, nós fomos nos divertir na neve branquinha e fofa que tinha acabado de cair. 
Paisagens surreais cobertas de neve.
Todo mundo entrou na brincadeira e em pouco tempo estávamos nos jogando no chão, vendo quanto tempo demorava pra barba do Ivan congelar, rindo por não conseguir abrir o olho sem ser atingido por um floquinho de neve. Delícia!

Vai encarar subir a montanha? 
Ivan estava com um sorriso de orelha a orelha. Esta era a oportunidade que ele tanto esperava, de poder fotografar as fálicas formações rochosas polvilhadas de branco num cenário único e maravilhoso. Tudo parecia conspirar a favor disso. No meio do caminho encontramos umas paisagens lindas que só ficavam mais dramáticas naquela situação particular. 


A cidade em si ficou ainda mais idílica com o telhado das casas todo branquinho amparado por uma linda cadeia de montanhas atrás, igualmente salpicadas de branco.

A cadeia de montanhas que envolve Goreme coberta de neve.
Ele ficou tão entusiasmado com o cenário que me largou no hotel e subiu o morro que margeia a cidade, armado de câmera e tripé e todos os equipamentos de frio que temos para fazer mais fotos. 
Pôr-do-sol em Goreme após nevasca.
Ficou lá em cima das 4h30 até escurecer e quase morreu de frio com uma forte chuva seguida de nova nevasca. O doido ainda disse que adorou, pois fez algumas das fotos que estão aqui postadas em cenários surreais entre relevos e cores . Quem falou que vida de fotografo é fácil?

Após a tempestade sempre fica mais bonito! 

No dia seguinte, andamos de balão – mas esta experiência magnífica merece um post específico. Quando o frio deu uma amenizada, nós nos encapotamos e fomos desbravar a pé os arredores da cidade, em direção ao Museu a Céu Aberto. 
Prédios dentro da montanha no museu a céu aberto.

O museu é bastante interessante e quase que não dá pra acreditar naquela cidade com casas, inúmeras igrejas todas detalhadamente decoradas, refeitórios e espaços administrativos. Todos escavados dentro da pedra, dando um aspecto ainda mais surreal ao lugar.


Rio que corta o vale das igrejas escavadas na pedra.
Depois disso seguimos em frente, e aqui vale uma dica da nossa experiência: estas caminhadas despretensiosas nos arredores sempre acabam sendo uma grata surpresa. Tenho a impressão que estes caminhos, quando não planejados anteriormente acabam sendo aqueles que a sua alma instintivamente fareja e normalmente trazem descobertas maravilhosas.

Cavalo do Rancho Dalton Brothers. O nome é bom!
Foi nessa toada que contemplamos a dança entre um border collie e alguns cavalos, que brincavam de se perseguir. Encontramos uma árvore toda enfeitada de jarros de barro, como se eles fossem seu fruto humano. Brincamos com um filhote de vira-lata que assim que nos viu despontar do alto da montanha começou a saltitar e se rebolar todo – e eu morri de saudades do Luke. Encontramos uma capela escavada dentro de um dos pináculos rochosos com pinturas ainda vivas de um passado distante. Conduzidos por um senhor turco, fomos conhecer uma pequena casa que produzia vinhos e depois foi convertida em pombal para treinamento e abrigo dos pombos-correio.



Estas são aquelas coisas que não existem, a não ser se criadas pelo acaso do andar sem destino. No caso meu e do Ivan, o hábito é quase uma necessidade terapêutica, ainda mais vivendo tanta coisa como estamos agora. Desde o início do casal, num daqueles pactos silenciosos que seguem pela vida, adotamos a didática socrática para resolver todos os problemas do nosso mundo. Pra gente, é sempre caminhando que o ritmo dos passos encadeia melhor o pensamento – e aí nos encontramos de novo, no espaço e no tempo. Fazer isso descobrindo novas paisagens e deixando o destino revelar o próximo mirante, é praticar o desprendimento e confiar na sorte do andar bêbado do viajante. É ir sem rumo e chegar mesmo assim.


5 comentários:

Carlos A. S. Junior disse...

Adorei o post. A descrição nos faz gostar do que desconhecíamos, desejando estar lá de verdade. Adorei a redação e as fotos, dignas de reconhecimento nesta ocasião. Parabéns. Beto Spinelli.

Carlos A. S. Junior disse...

Ivam e Gabi, parabéns pelo post. Adorei tanto a redação quanto as fotos. Abraço.

Flavia Rosa disse...

Maravilhoso, Ivan e Gabi estava saudosa de ler os escritos de vcs!!
Fotos lindas Ivan... Feliz Páscoa!!!

Celina disse...

Belo o pensamento desenvolvido por vocês e resultado do conhecimento amoroso. Vou anotar para meus momentos de busca.

"é sempre caminhando que o ritmo dos passos encadeia melhor o pensamento – e aí nos encontramos de novo, no espaço e no tempo. Fazer isso descobrindo novas paisagens e deixando o destino revelar o próximo mirante, é praticar o desprendimento e confiar na sorte do andar bêbado do viajante"

Anônimo disse...

Viajar e' a abrir a porta para o momento presente, ser grato ao novo, amar o que se esta fazendo simplesmente porque o agora e' a unica coisa que existe ... Isso e' verdadeiro estado meditativo ... Boa meditacao para voces e boa viagem!!

Rafael (de Rishikesh) Quando chegarem no Brasil e passarem por brasilia entre em contato (rafaelvieites@hotmail.com).

P.s. tentei ligar para vcs mas estava tarde, era so para desejar boa viagem!!!

abracos

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