domingo, 24 de março de 2013

Istanbul - Turquia





Istanbul é uma cidade para se apaixonar. É para sentir aquele tipo de paixão arrebatadora, que te pega desprevenida e, quando você menos espera, já se vê construindo grandes planos para o futuro. Você sempre soube que ela era maravilhosa – todo mundo sempre diz isso – mas nunca tinha se preparado para encontra-la pessoalmente, cara a cara e viver uma linda história de amor. From Istanbul, with love.

Foi exatamente desse jeito que esta cidade maravilhosa foi nos envolvendo, golinho por golinho de chá preto ou de maçã, e quando nos demos conta já estávamos completamente comprometidos em morar lá. Não por acaso acabamos vivenciando essa doce ilusão nas semanas que ali passamos: alugamos um apartamento, lindinho, com direito a mini-cozinha, máquina de lavar roupas (yes!) e vista para uma mesquita pra chamar de nossa. 

Você não fica com dó da cara de triste? O motivo? frio...

No começo a gente até assustava com o minarete chamando para a primeira reza (as 5h da manhã) e as gaivotas que brigavam na frente da nossa janela até quase entrar no apartamento. Mas depois de pouco tempo, já o chamávamos de “casa” – e a gente finalmente aplacou a saudade de ter um lar durante alguns dias.

Parênteses necessário: a esta altura do campeonato nós dois já acumulávamos 4 meses de estrada. Sem parar. E depois de 120 dias numa rotina non-stop de procurar albergue, trancar e destrancar tudo dentro das mochilas, tentar se localizar numa nova cidade e invariavelmente acabar perdido e ter que começar tudo de novo, estávamos cansados. Alugar um apartamento e ter um lugar pra chamar de seu, ter uma referência de espaço e uma cama que você tem certeza que só você está usando – e portanto pode ficar bagunçada no meio da tarde – é uma dádiva. Poder cozinhar (a sua comida, do seu jeito) e lavar louça foi uma das melhores terapias que fizemos durante esses dias, relembrando nossa rotina de casal e de casa, onde quer que fosse. Esses pequenos momentos são absolutamente fundamentais numa viagem longa como essa e sua importância não pode ser subestimada. Fica a dica.

A janela da cozinha. (foto celular)
É tanta coisa para falar sobre esta cidade maravilhosa que decidimos fazer jus a ela com um post longo, mais detalhado, que passa pelas descobertas que fizemos nos bairros que visitamos em Istanbul. Esperamos que gostem!


SULTANAHMET

Nosso primeiro encontro com Istanbul foi um prenúncio do que viria pela frente e despertou os sintomas iniciais da paixonite. Uma das melhores surpresas para o mochileiro (e, acredito, para qualquer viajante independente) é ter um transporte público que liga o aeroporto a outras partes da cidade. Algo tão óbvio mas que infelizmente ainda não acontece na maioria das metrópoles, gerando caos no trânsito, na negociação de preço com taxistas, roubadas com turistas, etc.

Mas como Istanbul veio com tudo, nem chegamos a sair do aeroporto quando uma placa indicava a entrada para um metrô de superfície que funciona muito bem e vai para todos os cantos da urbe. Em dois minutos nós nos localizamos, compramos o bilhete (e a máquina não engoliu o nosso dinheiro!) e passamos pela catraca sem crise. Depois de quase uma hora, descemos em Sultanahmet, o bairro onde ficava o nosso apezinho e sofremos o nosso segundo golpe de misericórdia: demos de cara com o Museu Aya Sofia e a Mesquita Azul – os dois ali, só pra provocar.


Ficamos nesta área que concentra as principais atrações da capital da Turquia e, de tão linda e grande, as vezes é a única região que a maioria dos turistas acaba conhecendo. Acomodados no nosso apezinho numa ruela tranquila, conhecemos o gerente/zelador do prédio chamado Hikmet e que terminava todas (todas!) as frases com “Welcome Turkey, Istanbul!”. 

Saindo da porta de casa tínhamos que passar, invariavelmente, por dentro de uma das mesquitas mais charmosas da cidade, do tamanho certo para ser intimista e com toda a riqueza de detalhes e beleza que este lugar merece.  
Entrada da mesquita vizinha ao nosso apezitchos.
No pátio, os meninos do bairro jogavam bola e abriam um sorriso quando falávamos que éramos do Brasil. Em suma, nós estávamos em casa.
A "nossa" mesquita.
Nessa região o esquema é andar para todo canto. Começamos pela imponente Cisterna romana construída por Justiniano em 532, que ficou abandonada por muito tempo até ser “re-descoberta” e finalmente restaurada. 

Detalhe do teto da cisterna.
O passeio é feito pelas passarelas de maneira sobre uma rasa camada de água que abriga alguns peixinhos no meio da escuridão. Entre os inúmeros pilares que sustentam a construção, as vedetes são duas pedras esculpidas com o formato da cabeça da Medusa, sendo que uma delas está de lado e a outra de ponta cabeça, ambas na base de duas colunas.

Até hoje são feitas especulações holísticas em torno destas duas figuras estranhamente posicionadas mas Ivan e eu temos nossa própria teoria – mais pragmática, claro. Por um erro de cálculo alguém fez o pilar menor do que deveria e o material pra terminar a obra já havia sido orçado. O empreiteiro, já atrasado no prazo, quando foi pedir orientação para o governador recebeu a seguinte resposta: “Querido, tá cheio de pedra grande por aí, pega qualquer uma dessas e faz um calço pra essas pilastras. Só peloamordedeus, temos que terminar isso pra inauguração do Imperador!”. E o moço achou dois blocos do tamanho certinho que ele precisava, ainda que com o desenho de uma mulher com cabelos de cobra. Enfim, ninguém ia ver mesmo...

O mistério da cabeça da Medusa!
Saindo dali e seguindo um pouco mais a linha do metrô de superfície, é impossível não notar um jardim lindíssimo encerrado por altos muros. 

Entrada do Palácio de Topkapi
De fato, o Palácio de Topkapi é o sonho de realeza das Mil e uma Noites – e um luxo só do início ao fim. Depois de passar por grandes portões, entra-se na infinidade de alas do edifício, que conta com exposições de roupas da época (super fashions, a propósito), objetos pessoais e uma lindíssima coleção de joias. 

Detalhe de um dos inúmeros jardins do palácio.
Para se ter uma ideia da nobreza, um dos arranjos de cabeça tinha um diamante do tamanho de um relógio grande e em outra ala havia ainda uma caixa de vidro (do tamanho de uma caixa de sapato) lotada de esmeraldas lapidadas. Tá, meu bem?

Torneira real antes da sala de audiências.
Uma das partes mais legais do palácio (o bilhete tem que ser comprado separado) é o Harém. Muito diferente do que a pudica cultura ocidental interpretou, a palavra “haren” nada mais significa do que “privado” e, portanto, estes eram os aposentos privados do sultão e sua família. 

Entrada do harem.
As pinturas nos azulejos e a decoração do lugar são de tirar o fôlego: incontáveis tons de azul e verde finamente combinados com toques em vermelho e amarelo dão um aspecto deslumbrante aos cômodos. 

Teto de um dos aposentos do harem.
Tradição, obrigação e cerimônia eram os preceitos que regiam um estrito código de conduta e hierarquia entre as concubinas, as esposas do sultão, a “rainha regente” e os serventes eunucos negros. 

Outro aposento real.
As belas jovens eram vendidas como escravas pelas famílias (que eram amplamente recompensadas) e chegando ao harem recebiam a melhor educação do país juntamente com aprendizado em artes como música, pintura, dança etc.

Mais palácio!
Voltando ao coração de Sultanahmet, o Hipódromo reúne em torno de si os dois mais belos monumentos da região: a Mesquita Azul e o Museu Aya Sofia. 

Mesquisa Azul.
A primeira é, sem dúvida, um dos lugares mais bonitos que eu já entrei na minha vida – e acho que vai continuar no páreo por algum tempo. É um prédio que resume em si toda a aspiração de beleza e devoção ao sagrado que podem ser construídos pelo homem, numa combinação sublime de força e delicadeza. 

O interior da mesquita é imenso!
As dimensões são imensas, cada centímetro é decorado por azulejos ou vitrais e o piso todo é coberto por um imenso e único tapete vermelho, que cria um contraste ainda mais bonito com o tom azulado da atmosfera do local. Felizmente há um espaço reservado para turistas de maneira que os homens e mulheres (em espaços separados) possam fazer suas orações em paz. 


Um cartaz anuncia, do lado de fora, que todos os dias as 15h é possível participar de uma conversa com estudiosos da religião, onde eles esclarecem os dogmas, tradições e costumes do islamismo, combatendo a alienação. Achei extremamente interessante.

Além de lindo, ainda é um lugar de fé.
O Museu Aya Sofia, por sua vez, é outro deslumbre. Construído por ordem de Justiniano em 537, esta seria a maior igreja da época na tentativa de resgatar a grandiosidade do Império Romano, até que foi tomada por Mehmet, o Conquistador, que a converteu em mesquita até posteriormente ser declarada um museu, em 1935. 
Aya Sofia no começo da noite.

É justamente por isso que um dos pontos mais interessantes da visita é justamente perceber nos detalhes as influências cristãs e muçulmanas – e a maneira como elas foram encobertas ou disfarçadas com o passar do tempo. 


O interior do prédio é inteiro decorado em amarelo-ouro e verde, com lustres lindíssimos (e enormes) pendurados no teto que dão uma melhor referencia do tamanho deste monumento. 


No segundo andar, é possível ver ainda boa parte dos mosaicos da época cristã retratando o dia do julgamento, São João Batista, São Inácio, o Imperador Alexandros, entre outros.
A minha bailarina no segundo andar da Aya Sofia.
E esse foi o NOSSO bairro pelo tempo que passamos na cidade. A parte da concentração de turistas, conseguimos aproveitar o lado caseiro do lugar, uma experiência incrível pra conhecer um pouco mais da vida na cidade. 

4 comentários:

Maria Luiza Cruz disse...

Amores,

Que delícia de texto! Que lugar maravilhoso! Que gostoso passear com vocês!

As fotos e a descrição de tudo são tão claras que me senti ao lado...

Beijo grande e até a próxima parada!

douhlas disse...

Como se fila uma carta em um jogo de baralhos, fui lendo e observando cada detalhe descrito por vcs, tudo lindo.

Luciana Castro disse...

Oi Gabi,
eu sempre fico maravilhada com os textos e as fotos que vocês postam. Sempre que desejo viajar e aprender,visito o blog de vocês. Parabéns ao casal. Luciana (sua colega da Pós - UnB)

Luzia Azevedo disse...

Parabéns pelo belo trabalho.Realmente vocês fazem a diferença dos demais blogs.

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