domingo, 3 de março de 2013

Jerusalem - Israel

EM HOMENAGEM À NOSSA CENTÉSIMA FÃ NO FACEBOOK, ESTE POST É DEDICADO À LEITORA ELOÁ CHAVES! MUITO OBRIGADO PELO CARINHO DE TODOS E TODAS QUE NOS ACOMPANHAM NESSE SONHO!




Há uma nuvem sobre Jerusalém.

Assim como Deus, Jerusalém tem vários nomes e diferentes significados para cada um de seus fiéis. Para os judeus, Ierushalein guarda as ruínas do Templo de Salomão, popularmente conhecido como Muro das Lamentações. Este por sua vez, dá sustentação a um terreno mais elevado no qual os muçulmanos têm o seu lugar mais sagrado, o Templo da Pedra, onde acreditam que Maomé subiu aos céus. A poucos metros dali, a Igreja do Santo Sepulcro preserva um dos maiores dogmas do cristianismo, por ter sido o local da crucificação de Jesus Cristo, sua ascensão aos céus e posterior ressurreição.


Rua de comércio na Via Crucis.
Esta pequena cidade circunscrita por seus muros guarda os principais mistérios de três grandes religiões que trava(ra)m uma batalha inglória pela superioridade de suas verdades e/ou prevalecências. Três significados diferentes de um mesmo Deus e de sua história determinam, infelizmente, uma névoa de tensão constante que paira sobre Jerusalém.

Vista da cidade do alto do Monte das Oliveiras.
Sentir isso na pele é parte fundamental para entender um pouco da dimensão e complexidade de um conflito milenar que vai muito além da economia, da política ou da religião. É transcender sobre a importância do significado da fé como aquilo que dá sustentação a um povo.


Para percorrer as ruas históricas da cidade conscientes de onde estávamos passando, começamos o dia cedinho com um tour oferecido gratuitamente (só a gorjeta que é obrigatória no final). 

Parte do imenso mercado nas ruas estreitas de Jerusalém.
Durante uma manhã inteira andamos pelos principais pontos da cidade com um guia que, com muito jogo de cintura para lidar com um grupo heterogêneo (tinha desde de freira até hare-crishna), foi explicando cada situação. Gostamos tanto que, ainda no mesmo dia, decidimos fazer o tour pago em seguida, fechando um dia inteiro de aula sobre a cidade da sagrada discórdia.

A igreja do Sto. Sepulcro.
A Igreja do Santo Sepulcro dá uma boa dimensão do tamanho do problema – e isso só do lado cristão. A gestão religiosa e administrativa do edifício histórico é milimetricamente dividida entre os gregos-ortodoxos, os armênios e os católicos. E isso não é forma de expressão: cada metro da Igreja foi esquadrinhado por um documento chamado Status Quo que repartiu a propriedade de cada pedacinho para uma ordem diferente. Ou seja, em um momento você está em território grego-ortodoxo, em outro num altar que é católico e mais uns passos a frente numa parede armênia.

Cerimônia Grego-Ortodoxa dentro do Sto. Sepulcro.


A máxima de não se mudar absolutamente nada na Igreja é o que mantém este equilíbrio frágil de convivência e toma forma numa famigerada escada de madeira, destas de pintar parede, que na época da redação do contrato de divisão estava lá e, portanto, continua lá intocável, até hoje – e ai de quem resolver encostar um dedo.

A famigerada escada.
O nível da contenda vai ainda mais longe: logo atrás da capela onde acredita-se ter acontecido a ressurreição de Cristo há uma tumba escavada na pedra na qual referencias bíblicas apontam que pode ter sido a câmara funerária de José de Arimatéia que a teria cedido para guardar o corpo de Jesus. O fato é que o local pegou fogo há alguns anos e foi parcialmente queimado, prejudicando a visitação. Até hoje não foi possível chegar a um consenso sobre quem faria os reparos – aparentemente, se alguém se habilitar, este poderia reivindicar a propriedade daquele pedaço. E como ninguém quer ser o causador da discórdia, até que um milagre aconteça o sítio ainda vai ficar lá todo pretejado por um bom tempo.

Teto da Basília que envolve o local onde Jesus teria sido enterrado.
E, lembrem-se, são todos cristãos. Basta dizer que até hoje, a chave da Igreja do Santo Sepulcro fica nas mãos de um muçulmano que tem que abrir e fechar o lugar todos os dias! Sem ter nada a ver com a história toda, essa foi a melhor solução encontrada.

Detalhe do teto da entrada da Igreja do Sto. Sepulcro.
Dvir, nosso guia, foi muito delicado em ressaltar durante todo o tour que, muito além de um destino de peregrinação, as pessoas vivem em Jerusalém. E, maioria delas, só quer ter uma vida normal – só e tanto. As vezes é tanta informação, tanta carga histórica e política, tantas disputas e discussões, que a cidade fica desumanizada. E, como ele bem nos lembrava a todo momento, olha ali um menino indo para a escola, alguém tentando reformar a casa e sendo atropelado por uma excursão gigante, uma senhora estendendo a roupa no varal. Existe vida em Jerusalém e ela quer ser vivida para além dos jornais.


Neste sentido, fomos passando pelos diversos bairros que abrigam estas famílias. Sobre o teto de uma mesquita, Dvir nos mostrou de forma divertida a linha divisória entre os bairros judeus, muçulmanos e cristãos. 

Policiais passam em belos cavalos no portão de Jaffa.
Dali de cima, as casas com teto coalhados de aquecedores e boilers eram judias; os que tinham antena parabólica eram de famílias muçulmanas e aqueles com teto em estilo europeu e telhas avermelhadas eram de famílias cristãs. É claro que estas divisões não são estanques e, quando passávamos pelo bairro árabe, vimos um playground para crianças que mais parecia um bunker de tanto alambrado e arame farpado. Dvir nos explicou que aquela era uma casa judia em bairro árabe e enquanto alguns falavam em integração outros entendiam isso como provocação.

Loja no bairro judeu.
A complexidade do tema vai ainda mais longe. Por exemplo, literalmente no teto da Igreja do Santo Sepulcro vive uma comunidade cristã ortodoxa etíope. Ivan e eu quase não conseguíamos acreditar quando, no miolo de Jerusalém, fomos imediatamente transportados de volta para a Etiópia. Subindo uma estreita escada lateral da Igreja, passamos por capelas exatamente iguais àquela que vimos em Addis Ababa até chegarmos a um pátio onde as tradicionais casas baixas, com teto reto e portas pequenas formavam uma comunidade. Ali, aqueles etíopes se estabeleceram e encontraram seu lar, vivendo em cima do Santo Sepulcro e espremidos entre os muros de duas mesquitas.

Casas etíopes no teto da Igreja do santo Sepúlcro.
Os armênios levaram a ideia de estabelecer sua própria comunidade fechada ao limite – construíram seus muros dentro dos muros. Como todos os outros, chegaram em Jerusalém por motivos religiosos e fundaram suas sociedades baseados no princípio da preservação máxima dos costumes e tradições. Só se relacionam entre si (os casamentos são previamente arranjados), praticam seus cultos na igreja cristã armênia, têm horário de entrada e saída dos próprios muros – que fecha, todos os dias as 22h. 

Coral na Igreja Cristãs Armênia.
Foi a maneira que encontraram de se “resguardar” do restante da situação política da região e voltar-se exclusivamente para as questões internas – como, por exemplo, a querela entre o antigo dirigente máximo dos armênios ortodoxos que, acusado de corrupção, foi deposto do cargo (vitalício) e recusa-se a aceitar a decisão. Hoje mantêm-se encastelado no principal edifício da ordem onde convive em regime de clausura com o outro dirigente, já empossado. Disputas à parte, todos os dias eles fazem uma celebração as 15h, cantada a capela exclusivamente por homens onde é possível entrar e assistir discretamente – só não cruze as pernas (em qualquer formato) para não levar um belo puxão de orelha armênio.


O chamado Muro das Lamentações (West Wall) é um dos lugares mais sagrados para os judeus que acreditam ser parte do que um dia foi o antigo Templo de Salomão. Ali, homens a esquerda e mulheres a direita, separados por um alambrado, fazem preces e depositam suas orações em pequenos bilhetes encravados nas brechas do muro. O movimento ritmado acompanhado do murmúrio conjunto das rezas, entorpece quem está por perto na certeza de um diálogo silencioso criado pela harmonia daqueles movimentos.

Judeus Ortodoxos rezam no Muro das Lamentações.
A poucos metros do muro é possível entrar na fila para conhecer o Dome of the Rock (Templo da Pedra) que supervisiona toda Jerusalém com sua cúpula dourada. À propósito desta, reza a lenda que um dos reis da Jordânia vendeu um apartamento em Londres para reconstruí-la toda recoberta em folhas de ouro – tá, meu bem? O fato é que a chegada neste monumento é uma aula prática sobre o grau de complicação de um da difícil convivência entre os moradores da cidade.

Menino muçulmano bebe água em local para ablução.
Durante nossa permanência na fila, inúmeras placas alertavam os judeus de que, para eles, era proibido subir até àquela plataforma porque, por ter sido o lugar de construção do Templo de Salomão, eles poderiam estar pisando em local sagradíssimo sem saber – o que é condenável pela religião. Além disso, convenhamos, é o sítio mais sagrado para os muçulmanos.

Parte do Templo da Pedra.

A fila termina em um raio-x onde passam-se apenas dois por vez depois de uma rígida revista de malas. É estritamente proibido entrar com qualquer artigo religioso (Bíblia, velas, crucifixo, quipá, etc) que possa incitar má interpretação e/ou ofensas por qualquer um dos lados – ninguém quer ser responsável por começar uma guerra.

Depois, você atravessa uma ponte onde, embaixo, estão sendo conduzidas mais escavações arqueológicas que revelam novas faces do Muro e antigas pavimentações romanas. Construída em madeira, tem caráter “temporário”, esta ponte também é alvo de disputas: não há acordo sobre quem deveria erguer a versão definitiva para que não haja posterior reivindicação de domínio sobre o local.

Templo da Pedra, teto de ouro para o terceiro lugar mais sagrado para o islamismo.

Chegando finalmente ao Templo da Pedra, um pátio livre imenso dá uma sensação gratificante de paz e tranquilidade. No entanto, durante o Ramadan, o vão livre chega a ser tomado por mais de 300 mil muçulmanos que rezam cinco vezes por dia voltados para Meca. A mesquita é uma deslumbre à parte (que só pode ser apreciado por fora): paredes gigantescas ricamente decoradas em azul com detalhes em vermelho numa explosão de cores vivas.

Embaixo do Kiosk.

Detalhes absolutamente incríveis.
Ivan e sua barba foram prontamente abordados por um dos fiscais que guardam a entrada do prédio e investigam eventuais impostores religiosos que querem entrar só para dar uma espiada, fazendo-os recitar trechos do Alcorão. No caso do Ivan, foi difícil convencer o homem de que não, ele não era muçulmano.

Ivan, Muslim version.
O Monte das Oliveiras é o local onde os cristãos acreditam que Jesus foi traído e preso. Por ficar fora dos muros o lugar normalmente não está lotado de excursões mas vale fazer a subida a pé, passando pelo belo cemitério judaico e acompanhando passo a passo o nascer da cidade. É de lá que é possível ter a vista mais bonita do município, uma panorâmica dos muros e seu significado como fortaleza histórica e repositório de fé.
Igreja no Monte das Oliveiras.
Gabi chamou de Palácio da Jasmine (Alladin), mas é a igreja russa no mt. das Oliveiras.
Voltando para o centro de Jerusalém, em sua principal avenida (Jaffa Road), os cafés e restaurantes se espalham alheios (e talvez um pouco cansados) de tanta discussão. Os jovens tomam conta da cidade desfilando de bota e meia calça em um frio que não assusta quem quer ir pra noite e aproveitar os pubs, sorveterias e bares que convidam para uma balada. 
"lodjinhas" que se espalham por todos os cantos na cidade velha.
Tem para todos os gostos: desde galerias com artistas descolados até restaurante japonês, mercado gourmet e cafeterias 24h com wifi grátis para os mais conectados. Foi lá que, com a Mãmis, comemoramos no Canela o jantar mais sofisticado que fizemos na viagem, comendo pratos internacionais perfeitamente preparados e um vinho israelense que foi o melhor que tomamos no país.

Jaffa Road no começo da noite.
Longe do centro histórico mas também local fundamental para conhecer é  o Museu do Holocausto. Com uma das curadorias mais incríveis que já vimos em museus do mundo todo, esse lugar conta a história do desenvolvimento do nazismo na Alemanha e toda a máquina de extermínio do regime que se seguiu. Localizado em um parque muito bonito integrado à uma arquitetura única o passeio de uma tarde toda vale muito a pena. Vá preparado para fortes emoções pois não será um dia fácil, ainda que obrigatório para toda pessoa humana. É lembrar a nossa história para não repetí-la jamais!

Na volta, ainda tentando digerir tudo, fomos surpreendidos por alguns garotos brincando com bombinhas. Alguns davam risada outros olhavam torto e aqueles que eram pegos desprevenidos, paralisavam institivamente. Na maioria, se via um riso tenso. Jerusalém é uma cidade difícil de explicar e que precisa, acima de tudo, ser sentida. Do ponto de vista religioso, do ponto de vista político, do ponto de vista histórico, é preciso estar ali para entender a complexidade do mundo de hoje. Só não pode não ir e passar correndo por lá.  

2 comentários:

Celina disse...

Viver Jerusalem é iniciar o real aprendizado do signigicado do verbo respeitar.É ter a certeza da fé inquebrantável.

Maria Luiza Cruz disse...

Gabi e Ivan!

Mesmo que não conhece, como eu, fica com a sensação de que, durante todo o passeio, há um turbilhão de emoções e de impressões que demoram a desaparecer...
É impressionante a riqueza dos detalhes que vcs descrevem e agradeço a oportunidade de viajar com vocês!

Estou atrasada nas leituras... mas vou alcançá-los!!!

bjsssssss

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