quarta-feira, 24 de abril de 2013

Sigiriya - Sri Lanka




Sigiriya é a representação perfeita do castelo misteriosamente encrustado no topo de uma imensa pedra solitária que vigia a vasta floresta ao seu redor. Do alto do monólito sólido, fantasmas de um reino distante conduzem o leme daquilo que parece um navio fantasma de pedra que navega por um oceano de folhas verdes. (A fantasia perde um pouco o encanto quando você descobre que no cume mesmo só ficavam os monges de um antigo mosteiro, mas tudo bem...)

O caminho que leva ao monastério.
Esta cidade teve grande relevância no auge do império cingalês quando o Imperador Kasyapa resolveu construir sua sede ali. Um rico projeto de paisagismo conservado até hoje mantêm a atmosfera de realeza: vários jardins planos conservados em diferentes níveis recebiam piscinas naturais, irrigação e fontes trazendo água para refrescar um calor quase insuportável.

O bom museu, todo moderno contrastando com o complexo antigo.
Aí começa a subida – e haja pernas! Para quem estava a fim de fazer um pouco de exercício, esta é uma excelente academia: são milhares de degraus serpenteando por uma subida que parece sem fim. Leve MUITA água (o suficiente pra não pesar tanto nas costas), protetor solar e vá o mais cedo possível – depois das 11h os sol não dá trégua e só começa a melhorar lá pelas 15h30.

Haja escada...
Passando por ruínas de antigos santuários e pontos de reunião, chega-se à primeira parada de interesse: os afrescos do século X. Subindo uma escada em caracol na lateral de uma das paredes da pedra (quem tem medo de altura pode sofrer um pouco), chega-se a uma pequena passarela onde é possível admirar as pinturas.

Um dos afrescos. Traços incomuns.
Mulheres bonitas, bem adornadas, com uma cinturinha de dar inveja e uma comissão de frente que só pode ser silicone, apresentam-se de forma lasciva aos observadores. Apesar de não haver muito consenso sobre quem eram as moçoilas e qual o propósito das figuras ali expostas, vale a pena subir para ver as cores vivas que se mantêm conservadas até hoje e o traço realista (?) das imagens. E também as petchugas, porque não?

Petchugas, sacou?
Logo depois, também ladeando a imensa pedra, fica a Parede dos Espelhos, um  muro alto com um revestimento tão polido que permite ver vagamente sua imagem refletida na parede. Alguns grafites que datam da época áurea do império registram a admiração e o medo pelas mulheres misteriosas da cidade, com suas pulseiras de ouro e beleza sedutora.

A beleza sedutora da Gabi meditando.
Mais alguns degraus e chega-se ao lado de duas imensas patas de leão que guardam a subida final. Reza a lenda que o rei mandou construir esta representação monumental do felino asiático, primo do africano (que conhecemos mais), como uma demonstração da força e poder do seu governo.

Detalhe de uma das patas do leão e a clara falta de paciência do fotógrafo em aparecer na foto.
Chegando ao cume, finalmente, tivemos a revelação de uma vista absolutamente maravilhosa. Dali de cima é possível admirar toda a densidade da floresta num giro de 360 graus. Pequenas stupas, templos e estátuas do Buda emergem num mar de copas de árvores que deixam bem claro quem de fato manda (e domina, felizmente) aquele ambiente.

Esse "pequeno" Budha deve ter mais de 50m.
As ruínas do monastério em si não impressionam muito. Vários retos de paredes destruídas e reconstruídas são as reminiscências da antiga morada dos monges que conta apenas com um grande reservatório de água (frequentemente chamado de piscina pelos guias locais) e uma pedra polida que leva o nome de trono.

Escada que leva à etapa final da grande pedra.
Fora isso, é um excelente lugar para admirar uma paisagem maravilhosa que se estende até onde a vista alcança, sentir o cansaço gostoso de uma subida que passa por momentos históricos de uma antiga civilização e desfrutar de um silêncio gostoso que só é interrompido pelo vento amigo que bate no rosto. Vale a pena! 


Elefante leva turistas para a entrada do sítio histórico.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Kandy - Sri Lanka


 KANDY



A cidade que já foi capital do reino é hoje a segunda em tamanho e população – atualmente fica atrás apenas de Colombo, a capital. E é claro que, em tratando-se de um país que resume-se a uma pequena ilha no meio do Índico, a cidade não tem lá muitos ares de metrópole – ainda bem!

Peixes no lago.
A atmosfera interiorana no meio das montanhas dá à Kandy um ar bastante bucólico, transformando suas ruas e prédios coloniais somados aos templos antigos em um grande parque à céu aberto pronto para receber os turistas e curiosos dispostos a explorá-los.

O lago e a estátua gigante do Buda.
Resolvemos esbanjar um pouco e ficamos no McLeod Inn no alto do vale, com direito à vista para o Templo do Dente e para o lago. 

Gabi posa ao lado de mulheres no centro de Kandy.
Era a recompensa pelo “esforço” de termos economizado no resto de nossas viagens pelo país. Apesar de se localizar no meio de um vale, a cidade é muito agradável para caminhadas ao redor do lago e pelo parque central que abriga o famoso Templo do Dente.

Vista do nascer do sol da janela do nosso quarto.
Acredita-se que dentro deste templo está um dos únicos restos mortais do Buda. A lenda diz que de sua pira funerária fora surrupiado um dente que passou a ter atribuições milagrosas. Com toda a instabilidade no norte da Índia, budistas levaram a preciosidade para o Sri Lanka e lá sobreviveu entre idas e vindas da história como a maior relíquia budista do país.

Muro externo no Templo do Dente.
Entrada do Templo.
O que importa aos não-budistas é a riqueza e grandiosidade do templo que abriga o artefato, uma das maiores atrações da cidade.

Corredor que leva ao primeiro altar.
Apesar de ninguém poder de fato ver o famigerado dente, tudo que o envolve é magnífico: portas de madeira trabalhadas, entalhes pintados de ouro, ornamentos, estátuas e bandeiras coloridas marcam a suntuosidade do lugar.

Bandeiras e entalhes.



 Outro fator que chama a atenção é a fé dos que encaram a experiência do templo como seguidores da religião e não como meros apreciadores da arte impregnada no edifício. 

Alguém tem a chave para o paraíso?
Sentamos no chão, em frente à sala do dente, junto à outros cingaleses ali postos para meditar, outros reunidos em família, com crianças pequenas, apenas para receber alguma iluminação daquele lugar sagrado. A troca se dá por meio das oferendas, basicamente composta de flores e incenso.

Oferendas.
Outra atração local é um show de dança folclórica cingalesa que é apresentado conjuntamente com uma demonstração de pirotecnia: engolidores de fogo, gente andando em brasa e toda aquela história que vemos (víamos?) nos circos. 




A plateia é composta 100% de turistas, ainda assim dá pra aproveitar como uma introdução aos rituais artísticos locais.

Mr. Malox.
Kandy se valoriza ainda mais no pôr-do-sol quando o mundo fica azul e as luzes da cidade pintam o lago de amarelo. Da mesma maneira, presenciamos o nascer do sol no alto da montanha (modestamente da janela do nosso quarto).

 

Ao fim de nossa passagem pela cidade, resolvemos deixa-la da mesma maneira que chegamos: de trem. Em duas horas estávamos mais uma vez em Colombo, na beira do mar, mas já com  saudades da tranquilidade da cidade que se pinta de luz.

O trem de volta a Colombo.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Ella - Sri Lanka


ELLA



Quando passamos um sábado com uma família cingalesa todos foram unânimes ao dizer que uma das melhores coisas a se fazer no país era uma viagem de trem de primeira classe entre o pequeno município de Ella e Kandy, no centro do Sri Lanka. O trajeto sai do alto da montanha e passa por inúmeras plantações de chá (considerado um dos melhores do mundo) e diversas vilas que parecem estar paradas no tempo.

Trem chega à estação.
No entanto, quando decidimos (com dor no coração) abandonar as praias e explorar o interior da antiga ilha do Ceilão, nunca imaginamos que esse trajeto seria tão bonito.

Detalhe de antigo vagão de engenheiros.
Chegamos na pequena estação de trem de Ella embaixo de uma chuva torrencial, após algumas horas de ônibus, vindos de Tissamaragama. 

A chuva e a neblina nos fizeram perder o trem.
Por conta desse obstáculo acabamos perdendo nosso trem por 15 minutos, o que nos forçou a esperar o seguinte por mais de três horas.

O tempo parou por aqui.
Como há males que vem para o bem, a espera serviu para aproveitarmos aquele momento para relaxar na charmosa estação e conseguir, com calma, tirar algumas dessas fotos aqui expostas. 

Mulher caminha nos trilhos para cortar caminho pela montanha.
Desse ponto de observação pacato e privilegiado pudemos assistir a vida simples de uma cidade no meio da montanha, rodeada de cachoeiras e de um profundo verde escuro. A ideia que se tinha ali, sentados na estação, é de que o tempo realmente havia parado.





As horas de espera passaram-se rapidamente e logo já estávamos desfrutando de almoço e chá, sentados em nossas poltronas modernas observando a paisagem mudar a cada segundo no chacoalhar carinhoso do trem.

Plantação de chá.
Ao final, as expectativas se comprovaram verdadeiras: a viagem é uma experiência sensacional que só reforçou ainda mais a fascinação da Gabi por viagens de trem. Cenários incríveis, bom serviço do vagão - que contava até com cozinha - fizeram do passeio um dos pontos altos de nossa passagem pelo país. Recomendadíssimo!


quarta-feira, 10 de abril de 2013

Galle, Tangalla & Kataragama - Sri Lanka




As armas e os barões assinalados
Que, na ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram
(Os Lusíadas, Camões)

Camões cantou, já há muito tempo, sobre uma terra desconhecida que marcava o início dos mares nunca d’antes navegados pelos exploradores portugueses. A Taprobana era este marco simbólico que assinalava a porta de entrada para um outro mundo, até então ignorado pela elite europeia. Os mais ilustrados devem saber localizá-lo no mapa e, para aqueles que ainda não sabiam de sua existência (tal qual os amigos lusitanos), fica a dica: até 1972 este país era conhecido por Ceilão e atualmente responde por Sri Lanka. Sim, a Taprobana existe até hoje – e nós tínhamos acabado de chegar lá.

É impressionante como alguns autores têm uma sensibilidade tão apurada que criam obras magníficas e completamente atemporais. Exatamente como descrito nos Lusíadas, a nossa sensação ao sair da Turquia e entrar no Sri Lanka era de ter encerrado um capítulo do mundo e ter começado outro, completamente diferente. Tudo muda drasticamente: as pessoas, as paisagens, a língua, os cheiros, a comida, o clima, o modo de pensar e se relacionar, enfim, tudo é diferente. Ali nós tivemos certeza que estávamos entrando em um novo “bloco” da viagem, possivelmente um dos mais incomuns (para nós) do ponto de vista cultural. Maravilha!

Belas praias cingalêsas.
Ficamos alguns dias em Colombo (relatos mais tarde) para descansar um pouco depois de uma viagem bem ruim vindo da Turquia, quando tivemos que ficar mais de 16 horas no aeroporto de Sharjah (Emirados Árabes Unidos). Dica: se puder, fuja deste aeroporto porque lá não tem nada, é lo-ta-do o tempo todo, não tem nenhum lugar confortável para sentar, pouquíssimas opções de alimentação e não há internet (nem paga) em nenhum lugar.

Partimos em seguida para rodar o país, onde encontraríamos florestas lindíssimas e várias ruínas recheadas de história. Os principais pontos turísticos do país são interligados por uma extensa malha ferroviária que tem paisagens absolutamente maravilhosas: normalmente ou você vai de trem beirando o mar ou passa por inúmeras plantações de chás e matas semi-virgem. De tirar o fôlego.

Chegada no forte de Galle.
Nosso primeiro destino seria a conhecida cidade de Galle e ainda saindo de Colombo já tivemos alguma aventura: pegamos o trem errado! Mas depois de alguma conversa arranhada com passageiros extremamente simpáticos que tentavam nos ajudar, descemos na estação seguinte e finalmente pegamos o comboio certo.

GALLE 

Vista do farol e da igreja convertida em mesquita.
Galle é um chuchuzinho – e nesse sentido lembra muito Paraty (SP – Brasil) só que um pouco menor. É uma cidade colonial, bastante orientada para o turismo e que justamente por isso conta com todos os confortos (e preços) de uma pequena cidade europeia. Lá dá para perder a noção do tempo aproveitando uma pousada de charme, tomando um capuccino preguiçoso, comprando batas cingalesas ou ainda andando pelas ruazinhas.


A cidade está concentrada dentro de um antigo forte português, onde os seus muros convidam para uma longa caminhada a beira mar. Além de ser considerado o melhor exemplo de fortaleza construída pelos portugueses na Ásia, a fortificação é patrimônio da humanidade e o maior do gênero ainda remanescente na Ásia e construído por colonizadores europeus.

Os portugueses "descobriram", os ingleses dominaram, mas é da bandeira holandesa que eles gostam mais.
Nossos amigos lusitanos foram os primeiros a dominar esta região, no século XVI, seguido pelos holandeses dois séculos depois (quando a cidade atingiu o ápice de desenvolvimento econômico) e posteriormente pelos ingleses. Esta mistura cultural é bastante percebida na arquitetura que mescla diferentes influências dando um ar ainda mais acolhedor para a cidade.

Igreja holandesa ao fundo, Stupa na frente e casas europeias: esse é o charme de Galle.
Nos despedimos de lá com uma delícia imperdível: o curry de vegetais no Mama’s Curry, acompanhado de uma cerveja gelada. Eu sofri um pouco com a quantidade de pimenta no prato mas mesmo assim, de tão bom, comi até não aguentar mais de tanto arder. Ivan, óbvio, se esbaldou na berinjela, batata e couve flor super condimentadas – e, realmente, foi um dos melhores currys que comemos na viagem toda.

E lá se vai mais um dia preguiçoso em Galle...

TANGALLA


Mais uma viagem de trem e em poucas horas estávamos na praia de Tangalla. Vejam vocês que o Lonely Planet descrevia este lugar como residência daquelas praias idílicas que você imagina ser teletransportado numa quarta-feira chuvosa no meio do escritório. Mas pra gente que é brasileiro e pode esnobar, dá pra ser mais sincero: nós não achamos tudo isso.

Bonita é, mas vamos combinar: você já viu melhores... E nós também (aproveita e volta no post de Jambiani, Tanzânia)
A praia é bacana mas de tombo e o mar é super bravo. Sério, não entre no mar – nós fizemos algumas tentativas e depois de três caldos cinematográficos e um rola de uma onda que me jogou para o outro lado da praia (e eu fiquei quase sem biquíni), decidimos que era melhor ficar do lado de fora d’água. E o Ivan só ria...

Melhor não, né mãe? (foto celular)
Agora sem dúvida uma das coisas mais legais que fizemos na viagem foi alugar uma moto tipo scooter por lá. Ma-ra-vi-lho-so! Eu matei um pouco da saudade irrecuperável de andar de moto, em homenagem a minha Suzuki lindinha, Ivan tomou coragem e voltou a pilotar deixando o acidente pra trás, e nós nos divertimos MUITO se perdendo pelas estradas e ruelas (de mão inglesa) da costa cingalesa.


As paisagens deste país são insuperáveis. E poder apreciá-las no seu ritmo, com vento batendo na cara, passeando a não mais que 50km por hora é simplesmente divino. De moto, fomos conhecer o templo da pedra onde há várias representações do Buda deitado. 

Pequenos altares ao longo do percurso de escadas na montanha que levam aos gigantescos Budas deitados.
(foto celular)
A vida não é só moleza não... (foto celular)
Livro de visitas do templo budista. (foto celular)
Passamos por muitas plantações de arroz alagadas, num verde tão vivo que pareceria exagero de algum fotógrafo descuidado. Paramos para pedir informação em cingalês, nos perdemos, nos encontramos e rimos muito. 

Paisagens incríveis que passam com o vento quando se está pilotando.
Vimos meninos e meninas saírem das escolas, todos uniformizados com shorts azul, camisa branca e gravata listrada – as garotas, de trança. Atravessamos um grande lago que nas margens tinha árvores cheias de raposas voadoras (ou morcegos gigantes).

Um dos inúmeros Budas que encontramos no caminho. (foto celular)
No fim da tarde, terminamos o dia numa minúscula praia, esta sim muito charmosa e aconchegante. Uma turma de adolescentes jogava bola no pôr do sol enquanto outros conversavam na areia. Tomamos o nosso merecido banho de mar (que neste ponto era mais calmo) e aproveitamos para brindar esse dia maravilhoso com uma cerveja gelada. Felicidade, em estado puro.

Servidos?
  
TISSAMAHARAGAMA & KATARAGAMA

O sol desce enquanto as mulheres esperam o início do Pooja.

Tissa. É assim que os “íntimos” se referem à cidade de Tissamaharagama, que em III A.C. foi a capital do reino de Ruhuna. A cidade é razoavelmente pequena, conta com duas dagobas budistas grandes e é muito usada como base para visitar o Parque Nacional de Yala. Como nós já tínhamos feito vários safáris na Tanzânia e Kenya, decidimos deixar para uma próxima vez a visita à reserva natural.

Curiosa foi a nossa chegada à pousada – e aqui vale uma boa dica para quem viaja pelo Sri Lanka, tendo em vista que não foi a primeira vez que isso aconteceu. Três dias antes tínhamos reservado um quarto na top choice de acomodação do Lonely Planet (vulgo bom, bonito e barato) e ligamos para confirmar a reserva na manhã de nossa chegada. Qual não foi nossa surpresa quando, assim que chegamos no local, o dono nos apresenta outro quarto, bem mais caro, dizendo que infelizmente aquele que tínhamos reservado estava ocupado. Quando perguntei sobre qual a utilidade de se fazer a reserva se ele simplesmente cedia o quarto para outros hóspedes, ele respondeu que acontecia muito das pessoas reservarem e não aparecerem. Quando eu retruquei “Sim, mas eu reservei e vim!” ele ficou com cara de capivara. Enfim, fica a dica.

Plantação de arroz em frente ao nosso "amado" hotel.
Por volta de 17h nós fomos para a estação de ônibus local para pegar um intermunicipal até Kataragama. Ali tivemos uma experiência bastante forte: pegamos um ônibus lo-ta-do, mas muito lotado, com gente literalmente dependurada do lado de fora do veículo. Em determinado ponto eu fui empurrada praticamente para o colo do motorista, que a todo o momento que tinha de trocar de marcha me dava uma cotovelada nas costas. Um calor de deus-me-livre e aquela gente toda olhando e sorrindo pros dois branquelos no meio da confusão.


Ali, pouco mais de 40 minutos espremidos entre aquele mundaréu de gente, eu me dei conta de uma coisa muito importante: eu não sentia mais diferença entre o meu cheiro e das outras pessoas. O suor, o chulé, o sovaco, as costas suadas e tudo aquilo se esfregando junto e a gente não sabia mais diferenciar o que era nosso e o que era dos outros. A sensação, ao contrário do que a maioria pode pensar, não foi de nojo mas sim de pertencimento. De repente, não havia mais distinção entre a gente e os outros, nós finalmente (e genuinamente) fazíamos parte de todas aquelas pessoas que estavam ali. Nós não estávamos mais de visita, nós não éramos mais os estrangeiros, nós éramos eles – e eles eram nós. Nós éramos a viagem, afinal. E a viagem significava a gente e as outras pessoas que estavam a nossa volta. Bacana, né?

A cingalesa Gabi Gambi em total atenção ao início da cerimônia.
Depois desta iluminação e com o espírito alegre, chegamos no clima certo para visitar o lugar. Kataragama é tida como uma cidade sagrada para os budistas e hindus, que fazem peregrinações por conta do Ruhunu Maha Kataragama devalaya, um espaço sagrado dedicado à divindade específica que dá nome ao lugar. Todos os dias, no amanhecer e as 18h é celebrada uma cerimônia chamada pooja, onde os fiéis fazem orações, tocam sinos e apresentam oferendas, buscando o poder e ajuda divina para resolver problemas pessoais e/ou ter sucesso nos negócios.

Reza sobre o coco em chamas dado como oferenda.

Todas as pessoas chegam vestidas de branco carregando grandes pratos repletos de frutas, alimentos, dinheiro e velas. Logo na entrada vários deles têm um coco na mão com uma pequena chama que eles passam três vezes fazendo um círculo sobre a face, para depois quebra-lo com toda força em uma pedra no chão.

O arremesso do coco em chamas.
Pontualmente as seis da tarde inúmeros sinos começam a bater incessantemente e os fiéis formam filas enormes para apresentar suas oferendas. Os sacerdotes fazem algumas orações prestando homenagem ao deus de seis faces e doze mãos até que ao final os seguidores se amontoam para pegar as cinzas e parte da fumaça exalada de uma vela sagrada.
 
Sacerdote passa a fumaça entre os fiéis.
Na volta, no mesmo ônibus para Tissa, uma mulher com os seus 25 anos, uma filha de colo e duas amigas se aventurou a conversar conosco, depois de uma troca de sorrisos. Eu disse que a filha dela era linda, ela me contou que a menina tinha dois anos, falou que era professora, teceu  a história do marido e das irmãs. Disse que achava minha roupa bonita e que o Ivan ficava engraçado com aquela barba enorme. Ela pediu meu endereço para quando fosse ao Brasil e me deixou o dela no Sri Lanka, para visita-la em uma próxima vez. Ela não falava uma palavra de inglês – e o meu cingalês vai até “ayubowan” (olá). E, incrivelmente, nós conversamos por uma hora. Estava comprovado: nós éramos (somos) a viagem.

Gabi fazendo amigas. E a menina assustada com o fotógrafo barbudo...

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