sábado, 25 de maio de 2013

A festa de Holi - India



 


O festival mais colorido da Índia estava chegando e nós já tínhamos destino certo para passar o Holi: a pequena cidade de Orchha, nas margens do rio Betwa. Achamos que nossa escolha tinha sido acertada até lermos no jornal, apenas alguns dias antes da nossa chegada, sobre mais um monstruoso caso de estupro coletivo, desta vez com um casal de suíços que andava de bicicleta nas florestas locais.

Lembro de ter chorado quando li a notícia, de muita raiva, indignação e medo – a mulher estava com o marido, o que tira a ideia vaga de segurança que um acompanhante homem pode trazer. A questão dos estupros na Índia é absolutamente pavorosa: todos os dias líamos no jornal alguma notícia a respeito de um novo caso, a maioria deles coletivos. Ainda hoje (e acredito que por um bom tempo), fico sem entender que tipo de doença social leva uma sociedade a se automutilar tão profundamente, repetidas vezes, sem parar.

Sendo um dos maiores festivais da Índia, ele pode ser comparado com o nosso Carnaval pela importância que ocupa dentro das tradições festivas do país. A ideia central consiste, basicamente, em jogar a maior quantidade possível de pó colorido um nos outros, algumas vezes misturado com água, de maneira a deixar todo mundo o numa profusão technicolor de amarelos, rosas, vermelhos, azuis e verdes – tudo junto misturado.

Vendedora de cores.
O Holi celebra a chegada da Primavera de acordo com o calendário lunar hindu, bem como a derrota de um espírito mau chamado Holika. A festa dura em torno de quatro dias onde além de jogar tinta em qualquer um que estiver ao alcance, vale tudo – principalmente muita bebida e o consumo institucionalizado do bangh lassi (iogurte batido com maconha).

Numa sociedade que passa os outros 360 dias do ano contida dentro de um estrito código de conduta onde raramente há convivência entre jovens do sexo oposto, os casamentos são majoritariamente arranjados e é esperado dos homens a responsabilidade pelo sustento da família, o Holi acaba sendo o apito agudo da válvula de segurança de uma panela de pressão que está prestes a explodir.

A molecada faz a festa em guerras de tinta.
Nessa ideia de vale tudo, os homens tomam conta de todos os espaços públicos dominando em grandes grupos as brincadeiras, o tom e os limites – ou a falta deles. As crianças participam também, principalmente durante o dia enquanto a maioria ainda está de ressaca se recuperando do dia anterior. As mulheres, por outro lado, parecem “preferir” ficar fora do alvoroço do festival, vendendo as tintas e/ou olhando os filhos brincarem uns com os outros.

Menino vem brincar conosco. Tinta não!
Ainda em Bandhavgargh, fomos fortemente aconselhados por cinco indianos a não pegar nenhum tipo de transporte (principalmente taxis, ônibus ou autorickshaws) durante o Holi. Ali em Orchha entendemos o motivo: a combinação de bebida e bangh vem sempre acompanhada de direção. Jovens indianos todos coloridos saem amontoados em motos (numa média de três a quatro pessoas por moto), mexendo com todo mundo na rua. As lotações tinham seus motoristas igualmente enlouquecidos, dirigindo de forma absolutamente duvidosa entre as vacas, cachorros, carros, motos e pessoas na rua.

Nem as vacas escapam das tintas.

No meio deste cenário, nós resolvemos fazer o nosso Holi junto com as crianças, durante o dia. Fizemos amizade com um menino que nos acompanhou durante nossa estadia em Orchha que, entre uma história e outra fez com que eu fizesse uma pinky promess (promessa de dedo mindinho) para que eu passasse na loja dele antes de ir embora.


A "pinky promess" sendo feita.
Na mesma tarde voltamos lá e fomos recebidos, no meio da praça, pela sua mãe (uma indiana lindíssima) e as duas irmãs menores que vieram nos encontrar. Assim que chegamos a do meio, de uns quatro anos veio nos desejar Happy Holi! (Feliz Holi!) e quando nós respondemos, mal sabíamos que esta resposta era o nosso aval para sermos alvo de um punhado de pó de tinta.

O negocio da pequena era pintar todo mundo!

Em seguida a menorzinha veio correndo atrás, com as pernas curtinhas, também querendo entrar na brincadeira. Ela me pintou os braços de amarelo, queria a todo custo amarrar uma pulseira na minha mão falando que era “flee” (de graça). Sua mãe sorriu carinhosa e depois fez questão de colocar um bindi vermelho na minha testa, quando entendeu que eu era uma senhora casada com o homem barbudo que tirava fotos.

A alegria da integração.
A brincadeira de tinta com as crianças e a conversa prolongada entre os dois turistas brasileiros e aquela família que vendia algumas bugigangas no chão acabou virando a principal atração da praça. 

Gabi participa de negociação implacável com nosso amigo e sua irmã.
Depois de muita negociação com o nosso amigo de doze anos (que aparentava ter não mais que nove) e era o único que arranhava um inglês, acabei levando uma tornozeleira com chocalhos que tilitavam a cada passo.

Os pintados! (foto celular). 
Apertei a mão dele dizendo que tínhamos feito um bom negócio – e depois, claro, tive que fazer o mesmo com as duas pequenas que me estendiam a mão sorrindo. Ao me despedir, parabenizei a mãe deles pela família linda e disse que o garoto seria um excelente businessmen (empresário). Séria mas com delicadeza ela me respondeu que não, que mais importante que isso era ele ir para a escola e ser bom estudante. Happy Holi!

Um comentário:

Celina disse...

Cores e mais cores!!!

Adorei a resposta da mãe indiana!

Que Shiva acompanhe vocês durante todos os dias que estiverem na Índia. Ela os protegerá!

Amém.

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