domingo, 19 de maio de 2013

Bhandavgarh - India







Depois de ter visto muitas cavernas com templos no estado de Maharashtra, era hora de partirmos para uma boa dose de selva. E como o casal aqui é bastante ousado nos seus sonhos, após de uma longa pesquisa colocamos na cabeça que iríamos nos despencar para o centrão da Índia, no estado de Madhya Pradesh & Chhattisgarh para, com muita sorte, ver uma das maiores belezas das natureza: o tigre.

Hoje, felizmente a Índia conta com 39 reservas de tigre espalhadas por todo o país que fazem um trabalho árduo e louvável de tentar recuperar a população deste animal que beira a extinção. Ainda assim, no último censo o Project Tiger localizou 1.500 indivíduos espalhados nos 32 mil km quadrados reservados aos santuários e, mesmo assim, insuficientes para proteger os felinos da caça ilegal e venda no mercado negro.

O pavão é a ave símbolo da India, vimos alguns selvagens na reserva. Mas tigre que é bom...
O Parque Nacional de Bandhavgargh possui a maior densidade populacional de tigres em toda a Índia, contando hoje com 65 indivíduos (incluindo filhotes) distribuídos em seu território. É ali que teríamos, estatisticamente, maiores chances de avistar este maravilhoso animal e, justamente por isso, fomos pulando de trem em trem para atravessar o interior do país numa jornada que no total durou 23 horas.

Estávamos completamente exaustos e depois de um trecho final de taxi onde quase tivemos um acidente (com caminhões, carros, vacas e pessoas) pelo menos umas dez vezes. Depois de passar por essa experiência, avisei o Ivan que aquela seria a nossa última viagem pelas estradas da Índia – pelo menos a noite.

"Sabe o que seria legal? Ver um tigre comendo um veado..." Essa era a brincadeira enquanto procurávamos os tigres e só encontrávamos outros animais.
Finalmente, chegamos ao nosso destino final – e com muito estilo: nos presenteamos com uma estadia de duas noites no Nature Heritage Resort, um dos hotéis bacaninhas da minúscula cidade de Tala, ponto de partida para os safaris de Bandhavgarh. Pensão completa (comemos até dizer chega), quarto grande e jipe do hotel à disposição para fazer o safari – era exatamente o que precisávamos.

Um pouco de luxo não faz mal à ninguém.
Aqui fica uma dica importante: ainda no Sri Lanka, quando começamos a pesquisar a questão dos safaris de tigre na Índia, descobrimos que os parques têm uma política de que os bilhetes só podem ser adquiridos pela internet e com muito tempo de antecedência. Em março, nós fomos pesquisar entradas para meados de abril e no site só havia disponibilidade para início de maio – ou seja, vale a pena comprar com muita antecedência para não passar perrengue.

Mas, como a gente é brasileiro e não desiste nunca,  resolvemos ir até lá mesmo assim contando com a possibilidade de conseguir comprar os bilhetes com a ajuda do hotel e/ou com alguma possível desistência. O fato é que assim que chegamos avisamos o hotel que queríamos fazer o safari na manhã seguinte e o gerente já fez aquela cara de “olha, meu senhor, os bilhetes só podem ser comprados pela internet...”. E eu prontamente respondi com um “moço, pelo-amor-de-deus, nós viajamos mais de 23 horas para conseguir chegar até aqui, será que não tem como dar um jeito?”. No final da tarde ele veio nos avisar que tinha conseguido as entradas e que sairíamos às 5h30 da matina do dia seguinte. Ufa!

Os jipes que levam até 6 passageiros. Tá vendo o búfalo? Sabe o que seria legal?
Nós dois estávamos excitadíssimos com a possibilidade, ainda que remota, de ver um dos nossos bichos prediletos em ambiente natural. O tigre é sem dúvida uma das criações mais belas da natureza (se não “A” mais bela), num equilíbrio perfeito entre beleza espetacular e força mortal combinadas com uma graça quase irônica. Felinos em toda sua essência só que ainda mais misteriosos.

Na manhã seguinte acordamos as 5h, subimos encapotados no jipe do hotel e seguimos para a entrada do parque. Lá apresentamos nossas entradas e pegamos nosso guia, responsável principalmente por rastrear os tigres por meio de pegadas e gritos de aviso dados por um pássaro que invariavelmente dá o alarme toda vez que o felino está por perto. Para quem tinha passado pelos safaris da Tanzânia, Quênia e Uganda, confesso que ficamos um pouco desapontados com a operação como um todo porque na verdade ninguém explica nada, o motorista e o guia falam um inglês limitado e ininteligível, não há uma cooperação entre os carros via rádio para avisar os outros se alguém vir algo – aliás, descobrimos que há uma competição bastante acirrada neste ponto.

Mais veados... Sabe o que seria legal? Ver um deles na boca de um tigre!
Com isso, ficamos rodando pelo parque das 6h as 10h em busca de qualquer sinal dos felinos rajados. No caminho vimos vários veados (idênticos ao Bambi!), inúmeros macacos comendo as flores das árvores ou bichinhos na grama, pássaros de todas as cores (inclusive vários pavões), uma manada de búfalos selvagens, alguns chacais, uma família de javalis e... nenhum sinal de tigre. Na verdade, o mais próximo que chegamos deles foram duas pegadas na estrada e apenas um chamado de alarme que não resultou em nada.

Pegadas até achamos, mas tigre que é bom...
Fué, fué, fué, nosso primeiro safari foi um fracasso – mas é assim que funciona quando se trata da natureza. De toda forma, tivemos uma super recompensa no caminho de volta para o hotel: um indiano vinha tranquilamente andando no seu elefante asiático no meio da estrada, a caminho do trabalho. É claro que eu fiz uma cara de pidona e pedi, por favor, se não dava para fazer um carinho naquele paquiderme imenso, que seria a minha primeira vez. O guia, com aquela cara de “mais uma turista que nunca viu um elefante...” pediu para o moço se aproximar e eu, que normalmente sou bastante atirada com animais, confesso que fiquei tímida (pra não dizer medrosa) quando vi aquele bicho gigantesco, com duas presas de marfim do tamanho da minha perna, encostar no jipe.

Ali fiz meu primeiro carinho num elefante. Foi a primeira vez que toquei na pele áspera de um dos animais mais inteligentes e sensíveis emocionalmente do mundo – e eu senti tudo isso, claro. O contato foi rápido, ele buscava com a sua tromba enorme alguma coisa interessante para comer dentro do carro e logo depois que viu não tínhamos nada, perdeu o interesse. Eu, por outro lado, aproveitei esses minutos para experimentar seu couro extremamente grosso, as presas de um marfim quase macio e olhei nos seus olhos para ver se ele me via.

Gabi se derrete com seu novo amigo paquiderme.
Assim que chegamos no hotel, ficamos sabendo que ninguém havia visto nenhum tigre – e esta era a situação de alguns dias. Já um pouco preocupados, foi aí que conhecemos uma turma de fotógrafos indianos especialistas nestes felinos e eles nos deram uma segunda dica. Como em todas estas reservas naturais, sempre há um lugar “melhor” para se ver os bichos, uma entrada “VIP” que, é claro, paga-se mais caro para tanto. Em Bandhavgarh, o nome deste lugar é Tala Gate, um portão específico que dá acesso a uma parte mais restrita do parque, com mais fontes de água e uma maior concentração de famílias de tigre. Todos estes são fatores fundamentais para aumentar as suas chances de ver o animal – e  naquele mesmo dia eles tinham visto três grandes machos esparramados bem no meio da estrada, tomando sol. (Não, não, imagina, a gente nem ficou com inveja.)

No dia seguinte demos a largada para uma corrida desenfreada para conseguir algum ingresso de desistência para entrar no Tala Gate. Como era um sábado, acho que todo mundo teve a mesma ideia – porque, óbvio, o que todos querem é ver a atração principal do lugar. Em mais uma demonstração de bravura incomensurável, Ivan se meteu no meio da “fila” de pessoas enlouquecidas urrando atrás de um possível ingresso remanescente para aquele portão específico. Ao cabo de vinte minutos de caos total (como são todas as filas na Índia), a atendente informou que não havia mais ingressos e nós tivemos que nos contentar com uma entrada para um portão genérico.

Todo esse esforço pra ver pássaros???
De toda forma, entramos no parque com todas as energias positivas que pudemos reunir (mandingas, promessas pra São Longuinho, figas e cordãozinho no pescoço) para ver o tigre. Dizem que durante a manhã o período de maior probabilidade para se ver o bichano é das 6h as 8h30, quando não está tão quente. Por conta da confusão do Tala Gate nós tínhamos saído bastante atrasados e as 9h já tínhamos quase perdido as esperanças. Foi quando começamos a ver uma corrida desenfreada de jipes para um determinado local – e o nosso motorista não se fez de rogado, saiu rasgando atrás deles.

Ai fica a diferença com os safaris mais experientes da África: todos os jipes, independente da empresa, ajudam-se uns aos outros por meio de rádio para encontrar os bichos mais legais. Num sentido de cooperação positiva eles sabem que turista feliz é igual a gorjeta mais gorda, e portanto trabalham juntos para encontrar o maior número de animais possíveis e todo mundo ganhar com isso.

Você sabe o que seria incrível? Ver um tigre mastigar esse macaco...
Em Bandhavgarh foi completamente diferente: era uma competição de jipes enlouquecidos e (turistas sem entender nada do que estava acontecendo) para ver quem chegava primeiro. Nenhum motorista passava informação para o outro e o primeiro carro a arrancar era imediatamente seguido por todos os outros numa corrida onde valia tudo – inclusive cavalo de pau, parar bem na frente de outro carro sem dar visão para as pessoas, jogar poeira em quem ficava pra trás.

Foi nesse fuzuê que, de repente, mais de 12 jipes se espremeram entre um pequeno trecho da estrada e uma fêmea gigante atravessou o caminho tranquila, alheia aos expectadores em transe. Ela desfilou linda e majestosa por exatos 7 segundos, desdenhando solenemente as lentes ávidas por pelo menos mais uma foto – o máximo que conseguimos foram três cliques de meia tigresa.

Sua majestade o meio tigre! Juro que foi o melhor que deu pra fazer...
E aí mais uma vez a natureza se revela dela, e só dela. Imprevisível por definição, ela faz com que qualquer aparição, mesmo que por alguns segundos, tenha um sentido ainda maior de sorte e oportunidade. Com a nossa tigresa não poderia ter sido diferente: com o mesmo ar felino e despretensioso que surgiu, ela foi embora, no melhor estilo celebridade. E nós em êxtase, agradecemos pelo ar da graça e pela chance quase inacreditável de ver uma animal deste em seu ambiente natural. Sete segundos que valeram a pena e vão ficar na memória.

Um comentário:

Celina disse...

Estão ficando exigentes com o desfile dos bichos selvagens!!!

Eu adoraria estar aí com tigre ou sem tigre. Valeu a foto da bichana majestosa!!!

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