segunda-feira, 13 de maio de 2013

Kerala: Allepey & Fort Kochi - India





Cena 1. No checkin da SriLankan Airlines eles não estavam encontrando a nossa reserva (um clássico para quem faz compra de bilhete aéreo com cartão internacional) e por isso nos deram um upgrade para a Executiva. O melhor de tudo: fomos para o lounge da área VIP com direito a sanduíche de cream cheese com salmão defumado, champanhe, café expresso e internet wifi grátis. Quando chegou a hora do embarque, um carrinho de golfe (!!) estava nos esperando na porta do salão e nós fomos motorizados passando vergonha pelo aeroporto inteiro até chegarmos no nosso portão de embarque.

Cena 2. Muitas, mas muitas pessoas saíram correndo assim que o trem chegou na estação. Vendo que era o nosso número, nós embarcamos também, na mesma correria e sentamos no primeiro banco que vimos. O cobrador, com cara de pouquíssimos amigos, acorrentou a mala dele ao banco e veio pedir a nossa passagem. Mostramos, ele fez uma cara de “esse não é lugar de vocês mas pode ficar aí mesmo”. Tínhamos que trocar de trem em determinado momento. Chegamos na estação perdidos e perguntamos para uma pessoa que, com uma cara assustada nos falou: “aquele é o trem de vocês”. E a gente “qual, aquele que está apitando?”. Ele “é esse mesmo, corre que ele vai sair!”. O nosso trem estava do outro lado da plataforma e não tinha passarela para atravessar por cima. Nos jogamos de mochilão e tudo no vão dos trens, atravessamos os trilhos correndo e escalamos o vagão quase em movimento. Os dois suavam em bicas – de esforço e tensão. Welcome to India!

O sossego aliviado de quem conseguiu pegar o trem!
A “Cena 1” foi a nossa saída do Sri Lanka. A “Cena 2” foi a nossa chegada na Índia. Foi exatamente deste jeitinho que chegamos do aeroporto de Trivandrum à primeira cidade que visitaríamos no sul do país, Allepey. 

Flor que nasce no meio dos canais de Allepey.
Hoje, relembrando este episódio, rimos só de pensar na cena de nós dois com mochilas gigantes atravessando os trilhos insalubres dos milhares de trens que passam enlouquecidos pela maior malha ferroviária do mundo. E quase que deu saudade. Quase.

Olhar brilhante da menina no aperto da balça.
Foi assim, cheia de personalidade e sem nove-horas que a Índia nos recebeu. Começaríamos a nossa peregrinação de 45 dias neste país pelo estado de Kerala – que, conforme os próprios indianos fazem questão de ressaltar, não é exatamente a Índia. 

Foi assim que Allepey, em Kerala, nos recebeu: só na paz.
O ritmo calmo da região, sua natureza exuberante e quieta, a lentidão dos rios e barcos que seguem seu caminho sem pressa somados com um povo tranquilo e sorridente, fazem de Kerala uma exceção à regra indiana.

Indiana foge do sol no calor do sul.
Allepey, com pouco mais de 280 mil habitantes, foi a nossa primeira parada e onde tivemos uma das experiências mais legais do país. A cidade é muito conhecida pelos seus infinitos canais fluviais que, juntamente com uma flora exuberante criam uma paisagem única. A não ser pelo centro da cidade, não há ruas e tão pouco transporte terrestre: aqui, a vida gira em torno da água.

Os canais mágicos de Allepey, somente explorados a bordo de uma canoa.
É possível conhecer os canais com os variados tipos de orçamento, exigência e impacto ambiental – que, é claro, resultam em experiências completamente diferentes sobre o mesmo lugar. O pacote mais luxuoso envolve a contratação de uma “casa barco”, com direito a quartos com ar condicionado, chuveiro com água quente, refeições ocidentais e bebidas alcóolicas inclusas no cardápio. Outra possibilidade é alugar um barco razoavelmente grande, a motor, com uma ampla cobertura para proteger do sol e também bebidas disponíveis. 

Só na mordomia da "Veneza Indiana".
Lá no fim da “cadeia alimentar” do turismo de luxo está a tradicional canoa a remo, amarrada com fibra de coco e com um pequeno telhadinho de palha trançada.

Às margens dos canais, a vida passa tranquila.
É claro que a gente escolheu esta última – e sem a menor sombra de dúvida foi a melhor opção, recomendamos muito. Fomos com um remador que mal falava inglês mas que tinha tamanha calma e delicadeza para mostrar cada detalhe da vegetação e das curvas do rio que parecia que nós tínhamos parado no tempo.

Da pra embarcar nesse gigante que tem quarto com ar condicionado, mas e o charme?
Primeiro pegamos a balsa comum para chegar até uma ilha onde tomaríamos o café da manhã. Ali ele nos levou para uma pequena venda onde uma garota tímida de uns 12 anos nos serviu uma panqueca de arroz com curry de ervilha. Para tomar, chai masala, para comer, os próprios dedos.

O 1o governo eleito comunista do mundo foi em Kerala. 
Dali, partimos com ele para conhecer os canais mais estreitos, onde a vida daquela gente acontece. E foi ali que começamos a perceber um fenômeno lindo e cada vez mais raro nos dias de hoje: a convivência simbiótica, equilibrada e respeitosa entre o ser humano e a natureza. A água ali é a vida. É ali, naqueles canais, que a vida acontece, existe, corre. A vida das pessoas.

Ele nos ofereceu o filhote de gato, você quer?
A pouco mais de um metro da porta das casas, o rio passa. Ali é a cozinha: para pescar o peixe, limpar, lavar os pratos, pegar a água. Ali é o banheiro: para tomar banho, escovar os dentes, se limpar. Ali é a lavanderia: para lavar e bater as roupas. Ali é também o quintal, onde as crianças brincam, os cachorros buscam seus brinquedos, as vizinhas trocam fofocas. Ali, naquela água, toda a vida acontece.

Tudo acontece no rio.
Já no meio da tarde, nosso remador nos convida para almoçar na casa dele, ali perto. Diz que a mulher dele cozinha muito bem. Chegamos sorridentes numa casinha simples, chão de terra batida e o terreno fechado por uma cerca de hibiscos. Ali, algumas galinhas, paredes de tijolo aparente, um gato desconfiado, uma mesa com cadeiras de plástico onde ele nos convida a sentar.

Uma das melhores refeições que tivemos na India e certamente a mais autêntica.
A esposa corta uma folha da bananeira do quintal e estende na nossa frente, depois de termos lavado as mãos. Dali a pouco ela volta com cinco potinhos diferentes que ela dispõe em montinhos separados na folha verde. Tomate temperado, salada de beterraba com coco, curry de batata, dois peixinhos fritos, arroz com leite de coco temperado e papadam (uma espécie de massinha frita). Sem talheres – e a gente lambeu os dedos, literalmente.

Gabi entretêm a dona da casa...
Essa foi uma das melhores refeições que fizemos na Índia. Tudo estava espetacularmente maravilhoso, bem temperado e com uma mistura de sabores única. O casal era uma delícia, o inglês arranhado não foi uma barreira para que pudéssemos ficar uma tarde inteira conversando e dando risada. Falamos sobre a família de cada um, sobre o que comíamos no Brasil, aprendemos a falar algumas palavras em malayalam e trocamos endereços.

Os nossos anfitriões.
Naquele dia era aniversário do filho deles, de oito anos. A mãe estava cozinhando a delícia principal da festa: uma espécie de arroz doce só que com macarrão no lugar do arroz e muitas especiarias (cardamomo, canela, cravo, rapadura, etc). Ela fez questão de nos trazer um pouco num copinho, ainda quente, para que pudéssemos experimentar. Ma-ra-vi-lho-so!

Grandes plantações de arroz cercam os canais.
Quando fomos embora, pedimos para tirar uma foto com eles. Ela fez questão de entrar na casa, trocar de roupa e me trazer um bindi vermelho – porque, afinal, eu sou uma mulher casada. Sorriso solto de um dia incrível que passamos na casa de duas pessoas recém-conhecidas como se fôssemos velhos amigos. Surpresas que só acontecem nesse país que exige um coração aberto para tudo. Vem ni mim, Índia!



FORT KOCHI


Ainda no Estado de Kerala, partimos para conhecer a cidade de Cochim, especialmente a parte do Forte e de Mattancherry que contam com mais de 600 anos de história. Numa mistura de influências portuguesa, holandesa, britânicas e indiana, o centro velho da cidade é um convite à se perder pelos casarões, antigos fortes e lojas de antiguidades numa viagem pelo tempo.

Detalhe de um café descoladex.
Considerando que Allepey fica a apenas duas horas de Cochim, resolvemos ir até lá de tuk-tuk – e foi aí que começamos a entender como as estradas e principalmente como as pessoas dirigem na Índia desafia todas as leis da física e regras de probabilidade.

Pedras decoradas na praia.
Era uma sexta-feira, um calor infernal e ao meio dia o nosso motorista encostou o tuk-tuk no acostamento com  uma cara de aflição: as mesquitas estavam chamando para a reza principal e ele precisava participar. Sem problema nenhum, claro, vá lá que nós esperamos aqui – e o moço nos agradeceu milhares de vezes em todas as línguas, mostrou fotos da família inteira e quase quis converter o Ivan (além de querer ficar com o chapéu de Indiana Jones dele...).

A herança portuguesa e holandesa deixou muitas igrejas no caminho...
Quando chegamos a cidade estava estranhamente cheia e não encontramos lugar para ficar. O mesmo amigo do tuk-tuk nos levou até uma área residencial, numa casa de família que só tinha uma placa azul apagadinha na porta: Beena Homestay. Ivan entrou meio descrente, e eu fiquei do lado de fora já buscando uma alternativa até que ele saiu dizendo: “é aqui que a gente fica!”.

Tomei um susto ao ler a placa em português...
Esse xuxuzinho escondido nada mais é do que a própria casa da simpática Beena, uma mãe de família que junto com o marido gerencia cada centímetro dos cinco quartos para hóspedes. Sabe quando você acaba de fazer faxina em casa e ainda fica aquele cheirinho de limpeza? É assim que são as suítes. Simples, com banheiro na medida, toalhas e lençóis branquinhos de dar gosto. Pra completar, café da manhã e jantar inclusos na diária e feitos na hora pela própria Beena – e não se atreva de tentar sair da casa de estômago vazio que ela briga com você. 

Igreja onde foi enterrado Vasco da Gama (antes de levarem seus restos mortais pro Mosteiro dos Jeronimos).
Só para dar um gostinho, numa manhã comemos uma iguaria típica da culinária do sul da índia: macarrão de arroz cozido no vapor com coco fresco ralado por cima. Super recomendado!

Vendedor no "calçadão" da praia...
Uma das principais atrações da cidade é Palácio de Mattancherry (não pode tirar fotos) que tem uma história com jeitinho português que a gente conhece bem. Construído em 1555 pelos nossos colonizadores, foi presenteado ao Raja de Kochi como uma demonstração de “boa vontade” – leia-se manutenção dos privilégios lusitanos sobre o comércio nas Índias.

Tradicional rede de pesca chinesa em Kochi.
As redes de pesca chinesas também são um dos atrativos da cidade, ainda que hoje bastante turístico. Essas gigantescas parafernálias artesanais são... redes de pesca chinesas – e os pescadores ficam subindo e descendo os cabos, convidando os turistas a tirarem fotos para depois cobrarem uma caixinha.

Gabi em frente à Sinagoga de Kochi.
Cochim conta com um bairro judeu antiquíssimo, que ainda mantêm várias casas com a estrela de David no batente e nomes judeus nas ruas. 
O malayalan de Kerala já é difícil e agora voltamos pro hebraico?
No coração desta parte da cidade, fica a Sinagoga Pardesi que data de 1568 e apesar de ter sido parcialmente destruída pelos Portugueses, foi posteriormente recuperada pelos Holandeses que adicionaram um rico trabalho de azulejos e candelabros. Infelizmente não pudemos entrar porque era shabbath. Fué, fué, fué.


No mesmo bairro, vale a pena passear pelas infinitas lojinhas de souvenir, roupas e especiarias – tudo para turistas – mas, acima de tudo, é necessário entrar nas lojas de antiguidades. Objetos maravilhosos, que vão desde um cavalinho de criança do século passado até uma imensa canoa de corrida com capacidade para mais de cem remadores podem ser encontrados ali. Uma delícia para perder tempo numa tarde gostosa.

Loja de antiguidades.
A cidade é destino de veraneio dos indianos e por isso guarda um ar interiorano-descolado. Ali é possível encontrar desde bistrôs franceses até bancas de rua vendendo o melhor da culinária do sul da Índia. 

Gabi faz pose em meio a uma das inúmeras lojas de antigüidade.
Vários cafés despretensiosamente arrumadinhos pipocam nas ruas estreitas e movimentadas, junto com lojas de roupas hippie chique que vendem também caderninhos de material reciclado.

Loja descoladex.

Talvez por agregar estas características, justamente naquela semana Cochim estavam recebendo a primeira Bienal de Arte Contemporânea da Índia. O lugar escolhido não poderia ter sido melhor: um estaleiro abandonado enorme, cheio de galpões desativados e espaços abertos que serviam perfeitamente à proposta da exposição. E quem estava lá como apoiador oficial: Governo Federal do Brasil – Ministério da Cultura. Maior orgulho!


Instalação da I Bienal de Arte da India.
Deixamos o estado de Kerala numa paz e tranquilidade propícia para nossa chegada a este país gigante. Sem dúvida foi um dos lugares que mais gostamos de toda a Índia e voltaríamos para lá num piscar de olhos – principalmente para aproveitar um arquipélago paradisíaco e recém aberto ao público que tem ali perto e comer a comida da Beena! Mas essa terá que ser uma próxima viagem.


Um comentário:

Luiz Fernando Gambi disse...

Queridos
Que descrição languida,suave e encantadora.
As fotos conseguem transmitir serenidade,paz e pureza de sentimentos.
Quanta delicadeza.
Sempre muita saudades mas um orgulho imenso de vê-los neste local me troxe paz de espírito.obrigada.


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