segunda-feira, 27 de maio de 2013

Orchha - India





Saímos de Khajuraho já com uma pontada de saudade da cidade que tinha nos recebido tão bem, com cafés tranquilos e pátios gostosos de ficar, coisa rara para um destino turístico. Mais uma vez orientados pela “bíblia dos mochileiros” (aka Lonley Planet), pegamos um trem para a pequena cidade de Orchha – que vários indianos estranharam como sendo um dos destinos do nosso roteiro.

A cidade que cresceu ao lado dos monumentos esquecidos. 
Teoricamente, segundo o nosso guia, esta cidade deveria ser muito mais tranquila que a anterior, principalmente no que se refere ao assédio dos vendedores – o que pra sermos sinceros não tínhamos presenciado nada muito fora do normal. O fato é que assim que chegamos lá tivemos a impressão de estar numa vila que tinha acabado de passar por uma guerra. 

A vaquinha bisbilhoteira tenta entrar uma casa destruída.
A “avenida central” (uma pequena rua que atravessa a cidade de uma ponta a outra) era ladeada por casas semi-destruídas e os restaurantes que ficam na beirada pareciam ter passado pela mesma situação, criando um conglomerado de “puxadinhos”. O motivo: um projeto de recapeamento e alargamento da tal rua arrancou boa parte da fachada de todas as construções.

Por conta do festival do Holi, várias opções de hospedagem BBB já estavam lotadas e nós caímos no conto do “resort em promoção”. Explico: todo mochileiro, em algum momento de viagem, cai em tentação numa super promoção online de algum bom hotel. Depois de semanas passando por chuveiros sem pressão, colchões abaulados e lençóis no mínimo duvidosos, a palavra resort parece um bálsamo para um corpo cansado.

Não, não é o Ivan... ainda.
E foi exatamente nesse ponto que, contra todos os nossos instintos, decidimos ficar no Orchha Resort, com a ingênua visão de que seria um lugar com padrões internacionais onde as pessoas vão para não terem que pensar em nada. Tsc, tsc, tsc, nada disso. Depois de um check-in bastante turbulento por conta de problemas na nossa reserva, passamos por instalações deprimentemente decadentes até chegar numa tenda que seria o nosso quarto. Sim, uma tenda, ou seja: quatro ‘paredes’ de pano erguidas englobando um chuveiro e um banheiro instalados ali.

No caminho entre a cidade e nosso "resort" tínhamos essa vista.
O grande atrativo era que, naquele calor de meudeus, teríamos uma piscina para passar parte do nosso Holi. Mais uma vez, pegadinha do Malandro. Numa manhã ensolarada quando pensávamos em nos refrescar, encontramos toda a área da piscina tomada por várias e numerosas famílias de indianos que, intencionalmente ou não, competiam pelos trajes de banho mais exóticos da história. Tinha de tudo: cueca (inclusive branca), calção, sunga, shorts tipo seleção de 70, calça (não vimos nenhuma jeans), bermuda e camiseta, regata, etc – isso tudo para os homens. Para as mulheres era um pouco mais simples: roupa inteira (in-te-i-ra) na água, e pronto.

Mulher segue para o templo.
As crianças eram, como sempre, uma atração a parte – mas desta vez foi um pouco mais chocante. Além de entrarem na piscina em qualquer momento e com qualquer roupa, a água acabava sendo apenas um ambiente mais interessante para várias experimentações fisiológicas. Beber a água (verde) da piscina, cuspir de volta, beber de novo, misturar com salgadinho, usar como molho de batata frita, jogar refrigerante na piscina para ver como fica – enfim, um grande laboratório de uso comum. Em determinado momento eu vi um menino sair da piscina, ficar na beirada do lado de fora e mijar com a mira bem apontada para dentro dela – e os pais rindo, achando muita graça. Depois disso tudo a nossa ideia de piscina virou uma imagem distante – com uma pontada de nojinho.

O rio corre ao lado de inúmeras construções antigas, lindo.
Um dos únicos aspectos positivos do hotel é que ele ficava bem próximo ao rio e também de alguns monumentos funerários lindíssimos da antiga nobreza. Encerrados por um muro que contorna toda a área e com um belo jardim interno, quatro edifícios se erguem em cada uma das pontas trazendo a imponência a arquitetônica da época. 

Monumentos funerários dos antigos reis.
Uma das principais atrações de Orchha é o grande complexo de castelos que a cidade abrigada, ainda que num estado de preservação que poderia ser muito melhor pelo valor histórico. 
Entrada do castelo toda entalhada em pedra e madeira.


Vista do palácio do alto dos estábulos de camelos.
Jehangir Mahal e Rahal Mahal datam do século XVII e, mesmo com pouquíssimo (ou nenhum) investimento para tanto, ainda guardam parte das pinturas e azulejos azul turquesa que cobriam toda a fachada destes monumentos maravilhosos.

Alguns detalhes do antigo azul sobreviveram.
Visitar estes palácios é repetir sem parar a frase “imagina como era naquela época!”. Sendo um dos mais fiéis representantes da arquitetura islâmica medieval, os diversos espaços abertos, quartos, câmaras e varandas que cercam um grande pátio interno dão asas infindáveis à imaginação. 

A princesa Mughal.

Os detalhes dos leões, elefantes e cavalos que circundam todas as paredes juntamente com as treliças de pedra que permitiam as donzelas observar a vida lá fora sem serem vistas, agregam um ar ainda mais fantástico ao local.

Pintura de elefante formado por homens contorcionistas.
Numa das prumadas do palácio, foi a minha hora de pirar. Imaginei que se tivesse todo o dinheiro do mundo, uma das coisas que faria seria restaurar pelo menos uma, só umazinha daquelas torres. Trazer os melhores pesquisadores, os artesãos mais tradicionais e os moradores mais antigos da região para resgatar a luxúria e a beleza daquela antiga cidade. O restinho ainda brilhante do azul dos azulejos pendurados lá em cima simplesmente grita por uma restauração que traga aquele turquesa real de volta a vida. Dá vontade.

Pátio interno do palácio.


Em Orchha, mesmo com a recente tragédia do casal de turistas suíços, um resort com famílias que eram a perfeita propaganda de anticoncepcional e uma cidade meio destruída pelo alargamento da rua principal, brincamos de fantasia. Entramos no jogo das crianças no festival do Holi, pintamos a cara de todas as cores possíveis e soltamos a imaginação nos palácios antigos. Brincamos como duas crianças: Ivan arquitetando a torre que ele pretende construir no quintal, eu restaurando com todo o luxo da nobreza indiana a minha parte do palácio mughal. Fantasiar, ou melhor, viajar é sem dúvida uma das melhores partes dessa nossa viagem – e a gente se joga!


Um comentário:

Celina disse...

Por favor, posso ser a mãe da Princesa Mughal?

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