segunda-feira, 17 de junho de 2013

New Delhi - India



Enquanto Delhi pode ser considerada a encarnação do caos urbano, com suas ruelas cheias de lojas de tecido e emaranhados de fios elétricos que poderiam enrolar a terra três vezes, New Delhi – a parte “nova” da cidade construída pelos ingleses – ostenta largas avenidas e praças monumentais.


A fusão dos dois mundos forma o próprio retrato desse país que tem em sua capital o espelho do que é belo e do que mais irrita os visitantes que vêm à India.


New Delhi tem tudo que uma grande capital do mundo pode oferecer: restaurantes de padrão internacional, lojas com produtos de ponta, parques e museus incríveis – tudo misturado e temperado como num bom curry indiano, pronto para ser degustado. Mas vá com calma, pois a primeira impressão é que o prato está apimentado demais e pode dar indigestão.

Ônibus escolar.
Em nossa chegada à cidade estávamos bastante ansiosos para a chegada ilustríssima de duas mulheres incríveis: a tia (Tia Fá) e a mãe do Ivan (Má). Como antes disso nós já tínhamos um mês de Índia, planejamos todo o roteiro que faríamos com elas com antecedência, de maneira a não assustar muito logo de início. Reservamos todos os trens de antemão (e mesmo com dez dias de antecedência só conseguimos “fechar” uma cabine para nós quatro em um único trecho) e também fomos um pouco mais cuidadosos com a escolha dos hotéis.

Mausoléu.
Em Delhi, definitivamente não é fácil encontrar um hotel bom, bonito e barato. Os preços são mais altos e a localização importa muito na hora de se estabelecer na cidade. Depois de muita pesquisa, encontramos o Hospitality Home Bed & Breakfest, que tinha excelentes revisões no TripAdviso e fotos bem bonitinhas de quartos confortáveis e modernos. 

Depois de uma longa negociação com tuktuks que nos cercaram logo na saída do trem, finalmente chegamos ao lugar que fica exatamente num beco, onde ao lado de uma portinha enfiada na parede existe uma placa com o nome do hotel. O comentário da Má assim que ela chegou foi: “Meu filho, a sua mãe não merece isso...”.

Indiana sentada no muro da mesquita.
Mas o fato é que quem vê cara não vê coração – e este é o melhor exemplo. Depois que você cria coragem para entrar na portinha enfiada na parede e sobe um lance de escadas xexelentas, abre-se uma pousadinha muito linda, surpreendentemente bem equipada, com quartos amplos e serviço de primeira. O destaque da nossa estadia foi sem dúvida o simpaticíssimo gerente do lugar, Mr. Sanny, que com seu turbante e barba característicos, lembrava um gênio da lâmpada que aparecia prontamente para atender os nossos desejos.

Muralhas do Forte de Delhi.
Nossa primeira incursão foi pelo Forte Vermelho (Lal Qila), que durante muitos anos foi o centro administrativo do império mughal. Cercado por muros imensos onde a maioria das construções são feitas com as características pedras rosadas, o complexo de edifícios resguarda uma beleza antiga mas já esquecida há algum tempo.

Detalhe de uma das entradas do grande corredor do mercado.
Este foi um dos primeiros lugares do mundo onde os arquitetos consideraram a necessidade de se fazer um mercado fechado. Um corredor de mármore margeado por nichos para lojas de ambos os lados ainda guarda um ar de realeza de quem vendia as melhores sedas, especiarias e pedras preciosas para nobres da região.

Salão de audiências.
Entrando no coração da fortaleza, inúmeros jardins bem cuidados contornam vários edifícios abertos, sustentados apenas por pilares que facilitavam a ventilação daquele calor infernal. Nos aposentos da corte, um prédio inteiro construído de mármore, ainda é possível ver os detalhes de mosaico em diversas colunas ou ainda nas pinturas do teto. Um avançado sistema de circulação de água interno, que atravessavam todos os aposentos com água corrente, fazendo o papel de “ar condicionado” da antiguidade.




Detalhes do palácio e aposentos reais. Dura a vida de Maharaja...
As treliças das janelas, também esculpidas em mármore, além de desenharem sombras que se agigantam com o passar do dia, também desenvolvem um jogo de sedução entre o (não) ver e o ser visto. 


Ali num dos jardins, que dão direto para o átrio central dos aposentos reais, brigas de elefantes e tigres eram levadas à cabo, para o divertimento do imperador e da corte.

Detalhe da mesquita Jama Masjid.
Dali partimos para conhecer a Jama Masjid, a maior mesquita da Índia, com capacidade para comportar até 25 mil pessoas dentro dos seus muros. 

Reza.
No sol do meio dia, o interessante foi ter de tirar os sapatos para atravessar correndo o chão de pedra escaldante – até chegar nas pequenas tiras de pano estendidas de um ponto a outro justamente com o propósito de não queimar os pés.

Meninas atravessam a mesquita após a escola.
A construção gigante, adornada com detalhes e pinturas geométricas no teto, abrigava as pessoas do sol, servia de atalho para as meninas que voltavam da escola, alguns faziam as suas rezas e outros ainda aproveitavam o espelho d’água central para se aliviar do calor. 

O grande local de convivência serve também para aliviar o calor de mais de 35oC.
O único inconveniente (mas intenso o suficiente para tirar do sério) era a quantidade de homens literalmente enchendo o saco para ser seu guia, dar qualquer explicação e pegar algum dinheiro.

Meninas curiosas pedem uma foto para depois cobrar dinheiro.
No caminho de volta passamos pelo bazar de Chandni Chowk, um dos mais tradicionais de Delhi e que tem o nome romântico de “lugar sob a luz do luar” – ahã. Entre mil e uma motos, bicicletas, vacas, carrinhos de mão e bilhares de pessoas andando para todos os lados entre lojas de tecido e sei-lá-o-quê, o maior romantismo que se podia chegar ali era o de não ser atropelado. Vale a experiência de se espremer por entre as lojas de tecido, ver como é feita a compra e a venda e até se aventurar a comprar o seu primeiro saree – mas definitivamente não é atividade mais prazerosa do mundo.

Cenas do bazar.
Um dos pontos mais turísticos da cidade é a Tumba de Humayun, construída em meados do século XVI por Haji Begum, a esposa persa mais velha do segundo imperador mughal que dá nome ao lugar. 
Não é o Taj, mas chega perto.
A combinação de cores do avermelhado tradicional das pedras de areia misturado ao branco do mármore dá uma beleza única a este espaço.

O primo rosado do Taj Mahal.
O lugar já passou por algumas amplas restaurações mas alguns trabalhos ainda estão sendo feitos ali, principalmente para resgatar alguns detalhes e cores vibrantes trazidas pela arquitetura persa – como o azul turquesa. 

Ali vale a pena explorar os amplos espaços vazios com calma, aproveitar as grandes áreas verdes e bancos espalhados sob a sombra das árvores.

Indianinha que se encantou conosco - e nós com ela.
Terminamos o dia com uma ida à mesquita de Hazrat Nizam-ud-din Dargah, uma bela construção de mármore erguido como mausoléu para um santo muçulmano. Fomos por volta das 18h para conhecer o lugar e especialmente para ver os sufis cantarem o  qawwali – só esquecemos que este é o horário de uma das principais rezas muçulmanas. Ou seja: estava lo-ta-do de gente. Ali, todo mundo descalço, alguns comendo no chão, outros rezando, umas crianças brincando – e todo mundo olhando pra gente.

Quando os sufis começaram a cantar, alguns turistas resolveram engrossar o coro – e tiveram sua participação prontamente vetada pelos donos do local. Ali, era o momento de escutar, e não de participar. 


No meio do calor sufocante, da música e de um chão melado de sabe-se lá o quê, uma bebê começou a brincar com a Má e a Fá. Em poucos minutos ela já estava no colo das duas, fazendo a maior festa e provando um sorriso solto nas duas brasileiras aventureiras.

Essa é a Índia e Delhi é seu coração urbano mais pulsante. É certo que as vezes dá taquicardia de tanto caos mas essa metrópole mostra sem medo seus contrastes e desafia quem deseja explorar seus encantos. Para Maria Elisa e Fátima, foi a recepção de boas vindas a um dos trajetos mais emocionantes desta nossa viagem!


2 comentários:

Rafael Katayama disse...

Após ler apenas um post, senti vontade de ler todo conteúdo do blog. Talvez, senti-me impulsionado pelo meu desejo interminável de cair no mundo como mochileiro. Entretanto, adorei ler as percepções de cada lugar, porque vocês apresentam uma narrativa interessante e viciante.
Sinto uma "invejinha" por querer fazer a mesma coisa que estão fazendo neste momento, porém fico extremamente feliz que vocês "criaram" esta oportunidade única e inefável.
Estarei acompanhando e viajando em cada experiência de vida. Obrigado por compartilhar...

Celina disse...

Como sempre as fotos e narrativas hipnotizam e fazem com que a imaginação nos transfira para o local e passamos a participar das sensações.

Adorei a sequência das fotos preto e branco dos detalhes da renda em mármore e a estratégia de enfim mostrar as cores do mosaico.

sempre saudades

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