sábado, 8 de junho de 2013

Rishikesh - India




Na nossa passagem pela Índia, decidimos que gostaríamos de ter algum tipo de conhecer e vivenciar a India "espiritual" nesses quase dois meses. Num intervalo de uma semana entre a nossa saída de Varanasi e o início do percurso pelo Rajastão, elegemos Rishikesh, uma cidade mais ao norte do país, como ponte de partida para essa busca.

O Ganges corta a cidade em duas.
Para tanto, começamos a pesquisar nos guias, na internet e conversar com algumas pessoas sobre a possibilidade de ficarmos em um ashram. Os ashrams fazem parte da cultura milenar indiana, como sendo espaços tradicionalmente dedicados ao retiro espiritual conduzidos por um líder (guru), onde os visitantes ouvem palestras, praticam yoga, meditação e fazem algum tipo de trabalho voluntário. 

Templo hindu na beira do rio.
Estes lugares têm um código de conduta rígido, pautado por uma vida “monástica” que justamente auxilia no processo de introspecção pessoal e, por princípio e teoricamente, não têm fins lucrativos e vivem de doações.

Cenas de Rishikesh.
O fato é que há pelo menos 50 anos atrás esse pessoal descobriu que poderia fazer (muito) dinheiro vendendo espiritualidade para ocidentais. E desde que os Beatles resolveram ir para a Índia nessa mesma onda (e pasmem, para Rishikesh!) a coisa só piorou e, com o perdão do trocadilho, virou pop. 

Rua principal do comércio.
Hoje, existem ashrams de todos os tipos e gostos, desde os mais espartanos para a turma que gosta de sofrer bastante pra depois contar em casa, até os do gênero “boutique hotel”, com ampla programação de massagens e refeições vegetarianas. Todos eles, é claro, muitíssimo bem pagos pelo cliente.
Mais um macaquinho abusado...
E os dois ingênuos aqui, acharam que com algum grau de pesquisa e teimosia conseguiriam encontrar algum lugar "genuíno" que pudesse nos proporcionar o tipo de experiência que estávamos buscando. Depois de ver alguns lugares que pareciam mais “sérios” mas que diziam não ter vagas para os próximos 2 meses, encontramos um ashram em Rishikesh chamado Parmath Niketan.

Shiva na versão modelete é o símbolo do Ashram.
Mandamos um email com todos os nossos dados, conforme solicitado no site, e depois de três dias sem resposta resolvemos ligar lá. Comecei a conversa com um camarada bastante mal humorado que depois de rosnar algumas resposta para perguntas que eu fazia timidamente, resolveu desligar na minha cara. Insistente, liguei de novo e fui mais simplista, perguntando se eles tinham vaga para o período que queríamos ficar e o cara disse veria o que fazer quando chegássemos lá.


Assim que entramos no Parmath Niketan, nos deparamos com um complexo imenso, de mais de mil quartos separados em diversos “blocos” que ocupavam alguns quarteirões na frente do Ganges. Este ashram específico recepciona anualmente o Encontro Internacional de Yoga onde pessoas do mundo todo pagam uma quantia considerável de dinheiro para ir até Rishikesh e ficar dias fazendo... rá, acertou, yoga!
Acomodações do Parmath. Belos jardins e clima de paz... e só.
Nos dirigimos à recepção e depois de algum tempo fomos atendidos por uma pessoa com cara de pouquíssimos amigos que nos perguntou se tínhamos uma reserva. Como queríamos entender exatamente qual era o esquema antes de nos comprometermos, pedimos algumas explicações sobre a programação e o cara simplesmente nos disse que não tinha mais nenhuma vaga no ashram e apontou para um quadro onde as aulas de yoga exigiam uma “doação compulsória” fixa dos seus participantes.

Praia no Ganges.
Resumo da ópera: a não ser que você já tenha um guru específico que queira encontrar, buscar uma experiência num ashram genuíno de forma independente é quase impossível – e bastante frustrante. Os ashrams mais conhecidos tem um viés majoritariamente comercial, os gurus nunca estão lá porque normalmente estão em outros países sendo muito bem pagos para dar palestras, e durante o ano todo a renda do lugar movimenta-se em torno de grupos de escolas de yoga e/ou meditação internacionais que vendem pacotes para os seus alunos fazerem uma “imersão” espiritual na Índia. E é isso.


Despois de entender qual era o esquema da espiritualidade fast-food, resolvemos mudar nossa estratégia. Ficamos num hotel – que, a propósito, saiu muito mais barato do que ficar no ashram (onde seríamos alocados num dormitório com banheiro compartilhado) – e resolvemos montar o nosso próprio retiro espiritual com aulas de yoga, alimentação exclusivamente vegetariana e participação em algumas cerimônias religiosas. E foi ótimo!

Caminhada na beira do rio: muito stress!
Por indicação de uma pessoa que conhecemos no hotel, fomos até a Vini Yoga, onde uma professora japonesa ministra hatha yoga diariamente numa micro sala onde cabem até sete alunos por vez. As aulas são pagas, acontecem três vezes ao dia (uma para iniciantes e duas para avançados) e têm duração de duas horas mais meia hora de massagem feita pela própria professora. A sensei (mestre em japonês) é absolutamente maravilhosa e dá atenção focada a cada um dos alunos, corrigindo as posturas e “cantando” a aula dando um ritmo fluido aos movimentos. Todos os dias fazíamos a aula de manhã e saímos pingando da sala, felizes da vida por estar aprendendo as posturas e acompanhando pequenas evoluções a base de muito esforço. Revigoramos o corpo e o espírito!

Foto auto-explicativa de Rishikesh: pontes, hippies, saddus e um macaco ladrão!
Rishkesh gira em torno basicamente deste comércio de espiritualidade que está centrado nas aulas de yoga e meditação. A cidade tem um significado sagrado para os hindus por conta de ser banhada em toda a sua extensão pelas águas cristalinas do Ganges. Em alguns pontos é possível nadar no rio e hoje há algumas empresas que estão desenvolvendo a parte de turismo de aventura focada no rafting e boiacross em algumas pequenas corredeiras  que passam pro ali.

Molecada joga cricket.
Nesse cenário, a cidade é exclusivamente vegetariana, onde além de carnes serem proibidas o ovo também não entra em nenhum cardápio – de derivados animais apenas os laticínios são permitidos. Mas isso não significa que comemos mal, muito pelo contrário: exploramos as combinações saudáveis do Health Cafe, tomamos muito lassi e provamos com gosto as massas do restaurante do Green Hotel. 


Além disso foi uma boa experiência ficar sem carne durante uma semana, o que provou que esse negócio de comer carne todos os dias é puro hábito – e, convenhamos, não exatamente saudável nem sustentável.

Gabi se joga nos lassies.
Passamos uma semana em Rishikesh numa agenda que alternava aulas de yoga, comida vegetariana e boas horas de descanso. A cidade mais new age da Índia pode irritar um pouco pelo excessivo papo bicho-grilo superficial mas tem seus encantos às margens do Ganges. Para nós, muito mais do que a bsca por uma iluminação espiritual, foi uma delícia ter, durante alguns dias, uma rotina fixa que nos pautasse o dia-a-dia sem a obrigação de conhecer mil lugares. Ali, fizemos um retiro de descanso da nossa viagem – e não nos arrependemos nem um pouquinho.


3 comentários:

Celina disse...

Queridos

Comprei um CD de Ravi Sankar para acompanhar a leitura durante essa passagem pela India.

Anônimo disse...

Você tem alguma sugestão de hotel?

mariadocarmo guimaraes disse...

LInda cidade , pais maravilhoso ..

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