domingo, 2 de junho de 2013

Varanasi I - India




Em Varanasi, renda-se. Entregue-se de corpo e alma a uma vivência que não pede autorização para acontecer – principalmente quanto ao tempo e intensidade. A cidade não espera que você esteja pronto para ela (e acho que ninguém nunca está): te pega de supetão em cada esquina, mexendo com sentimentos que você mesmo não sabe dar nome. Ela, na sua consciência de cidade iluminada da Índia, concentra com uma energia atômica toda a diversidade sagrada do país que arrebatam sem dó qualquer um que põe os pés nos seus limites.

Varanasi é como um tsunami em alto mar.

Inunda tudo, sem pedir licença. Resistir é inútil e invariavelmente leva a um cansaço constante. Por isso deixe-se invadir, entregue-se ao balanço ritmado das ondas e flutue por cima de toda aquela água onde não se vê o fundo. Não tenha medo, abrace o caos e navegue por ele.

O Ganges e suas embarcações.
Nós tivemos que aprender isso da forma mais difícil. A resistência inicial é quase instintiva e depois de tantos anos sendo adestrados para racionalizar as situações como uma forma de sobrevivência, naturalmente esse acaba sendo o primeiro passo. Ledo engano: tentar entender (ou racionalizar) o que está acontecendo a partir da nossa lógica ocidental é apenas debater-se em um ambiente que não é nosso, que não nos pertence e ao qual não pertencemos. Como a água.

Senhoras se banham nas águas sagradas.
Já sabendo de alguns causos da famigerada cidade, tentamos nos “preparar” da melhor forma possível. Reservamos um quarto no albergue mais recomendado pelo Lonely Planet, com banheiro próprio e vista exclusiva para o Ganges. Um funcionário não muito bem humorado foi nos encontrar na estação de trem e seguimos de tuktuk por uma avenida movimentadíssima até que ele nos avisou que teríamos de descer ali e seguir andando por alguns minutos.


Os "galãs" pediram para que fizéssemos as fotos... Tudo pode acontecer em uma simples caminhada pelos ghats de Varanasi.
Foi a primeira vez que entramos na parte antiga de Varanasi. Não fazia nem meia hora que tínhamos chegado e já estávamos de mochila nas costas, suando em bicas, penetrando o coração pulsante da cidade. Passo a passo tentávamos vencer a multidão de pessoas, carros, vacas, motos e sei-lá-mais-o-quê que se espremiam pelas ruas labirínticas do centro. O nosso guia não diminuía o ritmo, dando umas risadinhas maliciosas quando nos olhava atrapalhados no meio daquele caos e fazia uma cara de “se vira, queridão”.

Do surreal ao casual.
Em determinado momento, na frente de um beco e do lado de uma vaca que aliviava o intestino abundantemente ele falou “é aqui”. E eu “é aqui o quê?”. “O hotel, é aqui”. Respirei fundo, atravessamos uma quebrada e do nada se abriu um pequeno pátio arborizado, com várias escadas para cima e para baixo. Do lado de lá o Ganges, enorme, se revelando por toda a extensão do restaurante no teto do hotel. O nosso quarto, bem arrumadinho com um típico cadeado de elefante na porta e fomos avisados pelo gerente do hotel que estávamos com sorte: ficamos bem do lado do roteador principal e por isso conseguiríamos pegar internet no quarto.

Homem se prepara para o banho no Ganges.
Quando perguntei para o mesmo rapaz que nos trouxe como eu saberia o caminho de volta para o hotel ele disse “ah, com o tempo você pega o jeito” – acompanhado, de novo, de uma risadinha de canto de boca. O mapa que esquadrinhava as redondezas era só pra dar uma referência, avisou outro funcionário, e em pouco tempo estávamos do lado de fora do hotel, olhando um para a cara do outro com a pergunta rotineira: direta ou esquerda?

Ruas lotadas, rostos marcados.
Seguimos para os ghats, que são as escadarias de entrada do Ganges. Minha primeira impressão foi de calma, talvez pelas dimensões imensas do rio somadas a uma margem (a do outro lado) que não é habitada. Os muitos barcos que ficam alinhados nos portos improvisados ficam pequenos frente as águas caudalosas que correm tranquilas por aquele leito enorme.

Cenas do Ghat.
Quando começamos andar, aos poucos os detalhes do dia a dia daquele rio que desperta se revelavam. A espinha dorsal de Varasi começava a se desenhar para nós dois nesta primeira caminhada: as crianças que brincam e pulam no rio; a mulher que lava os cabelos ainda vestida; alguém que escova os dentes; outro que leva alguns pares de búfalos para dentro d’água – afinal, são aquáticos.

Cenas de um Ghat.
Ali ficamos durante 1 hora observando um homem lavar suas roupas, com a maior presteza do mundo. Naquela água cinza do Ganges, onde ali ao lado boiavam sacolas plásticas, oferendas e restos de comida, o homem metodicamente estendia suas peças na escada do ghat, esfregava com sabão em pó e enxaguava de volta na água do rio. Imperturbável, num ritual tão mundano e sem sentido no meio daquela sugeira toda que a situação adquiria uma beleza singela e pura. Poesia concreta no meio do caos.


Ao passear pelos ghats invariavelmente passa-se pelas imensas escadarias dedicadas exclusivamente à cremação dos mortos. Segundo a religião hindu, Varanasi é o lugar mais auspicioso do mundo para morrer, considerando que somente ali é possível obter a salvação, quando as cinzas do morto são jogadas nas margens do Ganges, quebrando o seu ciclo de reencaranções.

Ghat de cremação.
O ritual da morte, de maneira extremamente simplificada, funciona mais ou menos assim: as famílias e amigos, preferencialmente as 6h da manhã ou 18h saem em cortejo fúnebre a pé, carregando o morto sobre uma maca de bambu, pelas ruelas da cidade antiga. Seguem entoando rezas até chegarem ao ghat específico onde vão negociar com os diversos vendedores de madeira o tipo e quantidade de lenha a ser utilizada no processo (sândalo, por exemplo, é a mais cara). Os comerciantes por sua vez têm de calcular a quantidade exata de madeira necessária para que o corpo seja completamente cremado, tarefa que envolve anos de experiência. Feitas as negociações, encaminham para para a beira do rio onde os ajudantes retiram as flores e panos que envolvem o corpo e iniciam a cremação. O processo leva pouco mais de uma hora e mesmo com várias cremações sendo conduzidas ao mesmo tempo, a impressão é que os corpos chegam um atrás do outro, sem parar.

A relação com o rio é surreal.
A primeira vez que fomos supreendidos por um corpo sendo cremado ali, lembro que um vazio tomou conta de mim. Não chorei, não fiquei impressionada, não senti nojo nem pena: apenas fiquei olhando, completamente vazia, aquela silhueta humana em chamas virar pó. A verdade é que eu não estávamos preparados para a “banalidade” da morte, que se faz assim a céu aberto, na beirada do rio, sem a privacidade dos muros. No mesmo ghat um grupo de meninos jogava críquete, mais para frente búfalos comiam as flores de algumas oferendas, homens fumavam e riam, as mulheres vendiam bugigangas. E a vida continuava, ao lado da morte.


Já caía a noite quando nós nos demos conta que estávamos bem longe da nossa pousada – e que não tinhamos a menor ideia do caminho de volta. Começamos a nos aventurar pelas ruas estreitíssimas da cidade antiga, confiando unicamente no faro apurado do “GPS man” (vulgo Ivan). Naquela altura as vielas fervilhavam de gente saindo do trabalho, chegando em casa, comendo e bebendo, crianças saindo da escola e todo tipo de animal revirando o lixo – tudo isso acontecendo ao mesmo tempo em ruas de pouco mais de 1.5m de largura. Em determinado momento me vi no seguinte dilema: ser atropelada por uma moto, pisar numa montanha de lixo e esgoto, me jogar em cima de um touro gigante ou abraçar o morto de um cortejo fúnebre que também passava ali. Pensei rápido e resolvi que o cornudo de 300kg era a minha melhor opção.


Quando quase sucumbíamos à sensação de estarmos complemente perdidos naquele labirinto escuro, eu vi ao longe uma vaca malhada e gritei: “é a vaca do nosso hotel!”. Seguimos naquela direção já aliviados mas quando chegamos mais perto, a rua dava num beco sem saída e o quadrúpede ali era um touro – nada feito. Ivan deu risada da minha ideia genial de marcar o caminho do hotel pelos animais da região e reestabelecemos o ânimo até encontrar o lugar certo – e não é que a minha vaca estava lá na porta!

Cenas de um Ghat.
Os poojas são celebrações religiosas específicas do hinduísmo feitas normalmente pela manhã e ao final da tarde. Depois de passar o dia perambulando pela cidade, tentando em vão absorver tudo aquilo que estava acontecendo, sentamos na escadaria do Dashashwamedh Ghat, um dos mais antigos de Varanasi. 

Celebração do Pooja.
Acredita-se que este espaço foi criado pelo próprio Brahma para receber Shiva e que em sua homenagem ele ainda sacrificou dez cavalos. 


Aos poucos inúmeras pessoas foram se juntando a nós, diferentes religiões e etnias sentavam nas escadas, ombro a ombro, para participar do Agni Pooja (Adoração do Fogo) que acontece todas as tardes.

Aglomeração para participar da cerimônia.
O ritual é performado por sacertodes que, através do fogo e outras oferendas dedicam suas preces à Shiva, Ganga, Surya (Sol) e Agni (fogo). 


Ali naquele bafo escaldante do início da noite, depois de termos passado o dia inteiro conversando sobre tudo aquilo que estávamos vendo, no meio da balbúrdia interminável de sons e cores do pooja, nós dois nos rendemos. Como se recém libertos de um transe, nós finalmentes nos entregamos de cabeça à experiência. 


3 comentários:

Celina disse...

Gabizinha

Conforme li seu relato comecei a conjugar, inconscientemente, o verbo: fervilhar(eu fervilho, tu fervilhas, ele fervilha, nós fervilhamos, vós fervilhais, eles fervilham).

Que experiência de aceitação mesmo com a insegurança cultural!

A sua foto final em preto e branco, com as mãos em concha iluminadas é o desejo de compartilhar esse momento de humildade.

Ivan, o querido
A cada dia sua sensibilidade em retratar e captar momentos me surpreende.

Boia Paulista disse...

Oi,Gabi e Ivan. Tudo bem? :)

Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.

Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

Até mais,
Natalie - Boia Paulista

Camila disse...

Uma viagem à India não está completa sem passar por Varanasi e Dharamshala. Também vivi de perto tudo isso que vc descreveu, e voltei de lá com outra perspectiva da vida. Macacos, vacas, porcos, defuntos, dezenas de motos, caos... E uma fé, uma energia,um povo que em nenhum outro lugar do mundo eu vi. Parabéns pelo post, está sensacional, e consegue transmitir bem o que é Varanasi, e o que é a India.

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