quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Hanoi - Vietnam







Em outubro de 2011, quando Ivan e eu estávamos numa viagem muito especial pela Bretanha (França), nos hospedamos na casa do Pierre. Na inesquecível Saint Malo, ficamos num edifício antiquíssimo que pertenceu à um famoso corsário e hoje é residência de uma família francesa que recebe alguns poucos hospedes.

Durante o café da manha, entre uma e outra compota caseira, o dono nos contou que todos os anos fechava a pousada e ia passar dois meses no Vietnam com a esposa e filhos (um de três e outra de um ano e meio). Segundo ele, esse era o pais com as pessoas mais generosas, sorridentes e genuínas que ele conhecia e por isso ele fazia questão de voltar para lá e arejar o espirito anualmente. Hoje, depois de passar pouco tempo pelo Vietnam, entendemos exatamente o que Pierre quis dizer e concordamos em gênero, numero e grau.

Hanói, por ser a capital do pais, poderia ser um pouco mais “dura” nestes quesitos que para nos parecem um tanto quanto perdidos em meio à frenética urbanidade. Mas não, muito pelo contrario. A primeira coisa que notamos ao chegar no Old Quarter da cidade foi o seu ar quase que bairrista, com a molecada jogando peteca na rua, velhinhos conversando na calcada e uma e outra moto parando o transito para dar um “olá” pra vizinha.

Uma cena de Hanoi.
O vapor constante que sai das casas – seja pelo chá fervendo ou pelo wok refogando o café da manhã – agrega um ar místico às ruas da parte mais antiga de Hanói. Passeando por ali é impossível não ser imediatamente acometido por uma nostalgia fabricada pelos filmes americanos da década de 70.

Ópera de Hanoi.
Uma mulher carregando verduras e legumes nos ombros, distribuídos em dois cestos de palha atrelados a um bambu ou um homem pedalando numa bicicleta azul acompanhado do tradicional chapéu em formato cônico. Apesar de cada vez mais raras, estas cenas cotidianas não só resistem como são de uma beleza singela que desperta afeto pela cidade.

Centro cultural na beira do lago.

Nossa chegada no Hanoi Holiday Diamond Hotel, foi uma lição de hospitalidade e generosidade, daquelas que a gente nunca esquece. Eles devem ter duas estrelas no máximo mas são o número 1 do Trip Advisor onde milhares de fãs não economizam elogios para aquilo que se pode chamar de um aprendizado sobre excelência em atendimento ao cliente.

Pet Shop na rua? Hanoi tem.

Detalhes mínimos que fazem a diferença, como toalhinhas umedecidas e suco de maracujá assim que você chega da rua. Uma equipe sempre (sempre!) sorridente e disposta a ajudar no seu primeiro suspiro – e as vezes até antes dele. Os quartos são confortáveis (variam em tamanho e janela), lençóis impecavelmente limpos, wifi rápido e tem ate computador – o que pra nos foi fundamental pra dar uma agilizada no blog.

Lago no centro da cidade, um ponto de encontro da população.
O café da manhã (sim, incluso na diária) é um despropósito: um cardápio de quatro paginas com vários pratos – e sem preço. Quando perguntamos qual era a ‘pegadinha’ a garçonete, meio incrédula, disse que por favor era para nós escolhermos quantos itens quiséssemos e quantas vezes desejássemos. Pelo visto eles levam o café da manhã bem à serio aqui! Sucos, sucrilhos, salada de fruta, ovos, sanduíche  panqueca, chá, café – até Pho, e as vezes eles traziam algo que você ainda não tinha pedido, só para experimentar. Quando Ivan tomou o desjejum sozinho, numa manhã que eu fui fazer aula de culinária as moças do restaurante se apiedaram da sua solidão e quase empanturraram ele de tanta comida!

E é tudo genuíno, muito sincero. A impressão eh que todas as pessoas que trabalham ali estão felizes em poder proporcionar uma experiência de hospitalidade única – e a um preço simplesmente inacreditável (U$ 20,00!!).

Imagina abrir a porta do seu quarto de hotel e encontrar dois marmanjos no escuro segurando um bolo com velinhas? Susto foi pouco...
Conversando com uma das meninas da recepção, ela disse que tinha se casado ano passado e nós comentamos que estávamos em lua de mel. Quase morremos do coração quando, na mesma tarde, entramos no nosso quarto e dois funcionários estavam lá dentro no escuro, segurando um bolo e cantando “Happy Honney Moon” com a cama toda enfeitada com pétalas de rosas e balões coloridos.

Uma noiva perdida na rua no meio da tarde.

Sair pelas ruas do Old Quarter, se perder por entre as vielas, ficar com água na boca ao passar por cada banquinha de sei-lá-o-que é uma experiência indescritível. Apesar do clima interiorano, o caos da quantidade de motos que desafiam a lei da física é um espetáculo interessante – principalmente às 8h da manhã e 4h da tarde. Atravessar a rua torna-se uma experiência de fé – e, por incrível que pareça, todo mundo acha o seu caminho no meio do fuzuê, como num balé sinuoso.

Gabi e o camarada Li Thai To. 
Aos poucos, depois que você se acostuma com o movimento próprio da cidade, ela começa a mostrar suas belezas mais intimas, se revelando de um jeito que é impossível não se apaixonar. Ao se perder pelas suas curvas, uma das maiores delícias é parar de esquina em esquina para saborear uma cerveja Hanói de barril, acompanhada de amendoim cozido, num clima que de tão acolhedor faz com que em poucos minutos você esteja com a criança de alguém sentada no seu colo enquanto bate papo com a mesa ao lado.

Vai um chopinho aí?

Como no Rio de Janeiro se vende água de coco, aqui é a cerveja homônima da cidade que faz a vez de refresco. O esquema é sentar em uma das várias cadeirinhas de plástico que parecem feitas para crianças e, sinalizar com os dedos a quantidade que você deseja. Um moço do outro lado vai acenar com a cabeça, pegar uma mangueira que esta presa a um barril, tapar uma extremidade com os dedos ate chegar ao copo de chope, que se enche até a boca. Em seguida ele pega um punhado de amendoins cozidos e coloca na sua mesinha, junto com a Hanoi gelada – e ao tomar o primeiro gole você tem certeza que é feliz. Simples assim.

Trilho do trem corta a vida das pessoas.


Essa strip-tease urbana continua e o coração bate forte quando, no meio de avenidas e cruzamentos movimentados, surge um trilho de trem. 


Em meio à milhares de motos, carros, camionetas e ônibus que disputam centímetros nas ruas, os dormentes tão simétricos desafiam todo o caos. Ao redor deles, varias casas onde os moradores colocam o arroz recém lavado para secar nos trilhos e os gatos aproveitam o ferro aquecido pelo sol para dormir no quentinho. 


Passear por ali e conhecer o dia à dia daquelas pessoas que fazem da linha férrea o seu quintal é pura poesia no meio do agito da cidade.

Vai um corte de cabelo?
Hanoi tem muitos restaurantes bons para todos os tipos e gostos – mas a grande atração está, sem dúvida, na rua. Há uma ‘cultura de rua’ muito forte por aqui, tudo acontece na rua, todos se encontram na rua, as calcadas são espaço de comércio, cozinha e convivência social. Não é a toa que, ao passear por elas, a impressão que se tem é que os vietnamitas estão comendo o tempo todo – e com uma culinária tão rica, quem resistiria?

O esquemão é na rua mesmo!
A dica é: experimente tudo o que der vontade. Deixe o olfato e a visão serem seus guias e aposte principalmente naquelas barraquinhas que estão cheias de locais, provavelmente pedindo a mesma coisa – e aposte nesse prato. Mas não deixe, de jeito nenhum, de sair de Hanoi sem comer duas coisas: pho e bumbo nam bo.

O pho é praticamente uma entidade da culinária asiática que atormenta corações e mentes de grandes chefs internacionais, deixando fanáticos espalhados pelo mundo. Um deles, por exemplo, é o famigerado Anthony Bourdain autor de vários livros que contam os bastidores da alta gastronomia americana mas, principalmente, um apreciador da boa e velha comida local. Desde que o Ivan leu o relato apaixonado deste homem pelo pho (isso ainda na Tanzânia), ficamos com altas expectativas para experimentar a iguaria.

E sim, é tudo isso. O sabor é completamente diferente de qualquer coisa que estamos acostumados dentro do padrão América Latina – Europa – Estados Unidos, mas isso só torna a experiência ainda mais agradável. Uma mistura na verdade bastante simples de caldo de carne, vegetais, macarrão de arroz e tirinhas de carne de vaca numa tigela fumegante que faz o seu estomago feliz. O grande segredo está nas pequenas variações, temperos e especiarias que são adicionados a cada um destes ingredientes – o que faz com que o verdadeiro sabor do pho só seja conquistador numa barraquinha de rua de alguma cidadela do Vietnam.

Boteco que serve só um prato, o genial Bumbo Nam Bo!
Tivemos essa mesma experiência mística com o bumbo nam bo, outro prato tradicional. Seguindo indicações de um expert em comida de rua, fomos perguntando para os locais até chegarmos numa portinha enfiada na parede. Logo na entrada, uma mulher que mexia habilmente num wok enorme nos sinalizou com o dedo “um ou dois?” – e assim confirmamos nosso pedido, já que o opção de prato era única. Em cinco minutos chegou à nossa mesa uma tigela funda com folhas de manjericão real e espinafre d’agua, macarrão de arroz embebido em pouco caldo de carne, broto de feijão, tirinhas de porco, uma porção generosa de alho frito e amendoim por cima. De-li-ci-o-so – e quando pedimos para tirar uma foto do prato e do lugar as moças deitaram de tanto rir.

Já completamente entregues à nossa paixão por Hanoi, decidi me jogar de corpo e alma na experiência e, para isso, nada melhor do que fazer uma aula de culinária. Me aventurei pelos pratos vietnamitas no Hanoi Cooking Center, uma escola super bem equipada e com um excelente professor, onde você literalmente põe a mão na massa. Ali aprendi a fazer o meu próprio pho, seguido de salada de papaia verde, rolinho primavera vietnamita com picles de cenoura, ninho de batata doce com camarão e sobremesa de banana caramelizada com calda de coco. (Tenho a receita de todos, quem quiser é só pedir!!)

Mercado na hora do almoço, uma tranquilidade só!
Uma das partes mais legais da aula foi o tour guiado num mercado local, que era daqueles bem de bairro mesmo, que lembram as nossas feiras de rua. 


Tinha de tudo e mais um pouco, os produtos são fresquíssimos (normalmente estão ainda vivos), com destaque para: caranguejo bêbado em cerveja, sapo para fazer sopa, bicho da seda para fritar com alho e folha de limão, flor de bananeira ralada para salada, caule de lótus para salada e sopa, isso sem contar as milhares de frutas, legumes e verduras além das carnes tradicionais (boi, frango, porco e frutos do mar – os melhores vem de Halong Bay). 



A variedade é absurda e o que mais me impressiona é que nada, absolutamente nada, é desperdiçado – praticamente todas as partes de todos os animais e vegetais são consumidas, sem exceção. Bonito de ver e bom pra aprender!

Acho que até aqui já deu pra perceber que dá pra aproveitar muito bem Hanoi sem nem conhecer os pontos mais turísticos – e a verdade é que vale muito a pena reservar alguns dias só pra ficar perambulando por lá, deixando as ruas te levar. Mas o lado mais turístico também vale muito a pena e marca pontos importantíssimos da historia do pais e também mundial.

Avenida para grandes desfiles em frente ao mausoléu de Bac Ho (tio Ho chi Minh, como é carinhosamente chamado).
A começar pelo Museu de Historia da cidade, uma construção despretensiosa que fica na frente de uma praça super arborizada, num bairro nobre. Com legendas em inglês e francês, é possível conhecer em detalhes o curso de colonização, independência, guerra e reconstrução pelo qual o pais passou sendo este ultimo notadamente recente, no final da década de 70 e começo de 80. Ali os curadores chamam o que o mundo conhece por “Guerra do Vietnam” de “Guerra dos Estados Unidos” – uma simples troca de nomes que muda completamente o sentido e a referencia daquilo que se propõe a ter um significado hegemônico. Resignifica a historia e o imaginário.

Tio Ho mora aqui.
O Mausoléu de Ho Chi Minh fica numa enorme ‘praça cívica’ que foi nitidamente projetada para recepcionar grandes desfiles nacionais, no melhor estilo comunista. Infelizmente quando fomos pra lá o mausoléu estava fechado para visitação mas é ali que fica exposto o corpo embalsamado do maior líder revolucionário vietnamita que ainda hoje é reverenciado no pais todo.

Gabi se delicia no Templo da Literatura.
Deixamos por último a atração que mais gostamos do roteiro turístico de Hanoi: o Templo da Literatura – como não poderia deixar de ser. A construção data de 1070 e é dedicada ao filosofo Confúcio, na figura do qual estão contemplados os mestres e acadêmicos mais renomados do pais. Este prédio antiquíssimo que ainda preserva sua arquitetura original, foi durante muitas dinastias a sede da “Academia Imperial”, a primeira universidade do Vietnam com o objetivo de formar burocratas, nobres e membros da corte real.

Altar a um dos filósofos do confucionismo.
Ao passear pelos jardins delicadamente podados, conhecer a laca que cobre os pilares de madeira maciça e sentar num dos bancos de frente para o pequeno lago central é possível ainda sentir o ar intelectual milenar que permeia o sitio. 


Os estudantes que conseguiam passar nos rigorosos exames de admissão tinham que atender à academia durante sete anos, nos quais estudavam os Quatro Livros do Confucionismo, os Cinco Clássicos pre-confucianos, poesia tradicional e historia chinesa.

O senhor Confúcio!
Ao final de inúmeros testes mensais e anuais, os poucos aprovados passavam por uma audição oral feita pelo imperador em pessoa, que podia fazer perguntas de toda e qualquer ordem. Maravilhoso foi conhecer um lugar que, há mais de um milênio, já fazia da educação, cultura e do crescimento que estes elementos combinados proporcionam ao ser humano, motivos suficientes para a construção de um templo dedicado a eles.

Depois disso tudo, tem como não se apaixonar por Hanoi?

4 comentários:

Vanessa Marques disse...

Acompanho o blog de vocês desde o começo, peguei a indicação no site "Vestida de noiva". E a cada publicação fico mais encantada, animada e ansiosa para a próxima.
A maneira como descrevem e a forma como estão visitando cada lugar é incrível.
Parabéns pelo casamento, pela viagem e pelo blog.
A cada publicação da mais vontade de conhecer o local por onde passaram.

Obrigada por proporcionar tudo isso!

Thyago Portela disse...

Uau!!!

Parei aqui após uma pesquisa no google e fiquei impressionado com a forma que você descreveu Hanoi. Já li muito sobre a cidade, mas esse relato foi o melhor. Dá vontade de ir pra lá no próximo voo, mas vou ter que esperar até novembro =)

Parabéns!!

sirlei disse...

Adorei a forma simples e autentica que vc descreve Hanoi.é como se eu estivesse viajando com você.Parabéns........

Anabela Carmo disse...

Obrigada pela partilha, gostei muito do seu post sobre Hanoi e foi uma
ajuda preciosa na execução do meu roteiro.

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