terça-feira, 20 de agosto de 2013

Ho Chi Minh - Vietnam







Na minha inocência lusitana eu achava que Saigon era uma cidade romântica dos filmes de época onde o jovem explorador francês se apaixonava por uma belíssima asiática e, na mesma linha, que a Conchinchina não deixava de ser um termo que os mais velhos usavam para se referir a um lugar distante, vizinho de Onde-Juda-Perdeu-as-Botas.


Vendedora de biscoitos.
Qual não foi minha surpresa quando descobri que, não só estes dois lugares existiam como nós estávamos indo para lá, em um dos últimos pontos de passagem do nosso roteiro pelo Vietnã. Viva!

Tio Ho em frente à Assembléia Legislativa.
Ho Chi Minh City é atualmente a maior cidade do país e pretende ser também a mais desenvolvida e moderna, numa evidente afirmação da independência sobre os rumos nacionais. A antiga Saigon, como era chamada a capital da colônia francesa da Cochin-china (rá! perdida pero no mucho!) hoje conhecida por Vietnã, é marcada por uma história de dominação e luta, sendo um símbolo importantíssimo de autonomia do país.

Agência central do Correio.
Além de ter sido epicentro da colonização francesa por mais de 80 anos, a cidade tornou-se posteriormente a capital da república independente do Sul do Vietnã, de 1955 a 1975, durante a Guerra. Sob o domínio norte-americano, essa era a sede do poder capitalista que lutava contra os comunistas do norte do país, numa batalha sangrenta por décadas que marcou a história mundial. 

Igreja católica, uma herança dos franceses.
Quando finalmente os vietcongs tomaram Saigon, representando o fim da guerra, rebatizaram a cidade em homenagem ao líder máximo da nação que havia os conduzido à vitória, Ho Chi Minh.

Boneco de cera no Museu da Cidade de Ho Chi Minh.
Hoje esta metrópole conta com mais de 7 milhões de habitantes que assumem um ar cosmopolita e aparentemente bastante distante dos preceitos comunistas nos quais ela foi fundada. 

Hotéis caríssimos estão espalhados pelas largas avenidas, juntamente com inúmeras lojas com marcas de luxo e shoppings exclusivos para o público abonado. Como toda cidade grande, os atrativos estão basicamente nas compras e na variedade de restaurantes disponíveis para todos os gostos e bolsos.

Loja de estilista vietnamita: caríssima!
Mas o ponto central da visita por lá está, como não poderia deixar de ser, na sua parte histórica - e aqui fica um relato extremamente pessoal de uma das visitas mais chocantes que fizemos até agora, o Museu de Reminiscências da Guerra. 

Museu da Guerra contra os Estados Unidos.
É um soco no estômago, do começo ao fim. Passei por cada corredor com os olhos cheios d'água, em vários momentos as lágrimas brotavam sem parar de maneira que não consegui conter meu o coração que se despedaçava em cada imagem e relato.


A crueldade, monstruosidade, desumanidade da guerra são coisas indescritíveis. As imagens falam por si e eu não conseguiria (nem posso) colocar em palavras o que foi ver e entender como o conflito se manifesta no dia a dia das pessoas que não fazem a guerra mas que, odiosamente, estão nela - e aqui incluo soldados, de ambos os lados, civis, fotógrafos, jornalistas, crianças. 

Carro de combate blindado americano.
Carro de combate blindado vietnamita (soviético).
Pensar que essa é "só" uma de tantas que aconteceram, pior ainda, que acontecem hoje, no dia de hoje e que perpetuam o que há de pior naquilo que não é possível chamar de humanidade.

O museu traz reproduções das "jaulas de tigres", locais e instrumentos de tortura onde o governo Sul Vietnamita (controlado pelos EUA) mantinha seus prisioneiros políticos. 


Inúmeras fotos retratam as atrocidades da guerra que fazem homens e mulheres perderem qualquer aspecto de humanidade que lhes é único. O conflito não tem ganhadores, em nenhum momento, apenas vidas estilhaçadas (de vivos e mortos) que se perdem no meio de um inferno irresponsável e cruel.


Me entreguei aos prantos quando li a carta de uma garota de 15 anos enviada ao Presidente Obama, onde ela, uma vítima das deformações genéticas provocadas pelo Agente Laranja, pedia que ele não se esquecesse daqueles que ainda sofrem as consequências de uma guerra que não viveram. E se a gente mal consegue se recuperar de um museu desses (absolutamente fundamental para criar consciência e não repetir o passado) é impossível imaginar como as pessoas que viveram tudo aquilo consigam, de alguma forma, re-significar suas vidas. Porque são humanos, todos eles, e a guerra é devastadoramente desumanizadora.




O Museu de Ho Chi Minh City relata de forma consistente da antiga Saigon, o período de dominação francesa, a busca pela independência, a Guerra e sua reconstrução. O antigo palácio do governo sul-vietnamita, não muito longe, vale a visita não apenas pela sua exuberânia arquitetônica como também pelo subterrâneo, até hoje conservado como um bunker da Guerra Fria.
Bonecos toscos retratam os comícios pró-independência.
O antigo palácio do governo sul-vietnamita, não muito longe, vale a visita não apenas pela sua exuberância arquitetônica como também pelo subterrâneo, até hoje conservado como um bunker da Guerra Fria.

Fachada do Palácio.
Reverências ao camarada Ho.

Sala de controle. Saída diretamente de um filme da guerra fria.
Explorando pontos mais afastados da cidade é possível conhecer inúmeros mercados locais, algumas igrejas e vários templos. 

Detalhe de um altar esculpido em madeira.
Numa dessas andanças fomos parar num templo budista onde presenciamos uma cerimônia sendo celebrada com sinos, gongos, muitos mantras sendo recitados e sequências de prostrações. 

Dormir embaixo do sino não é muito inteligente...
No pátio interno, chamava a atenção um pequeno lago lo-ta-do de tartarugas que depois fomos descobrir que eram oferendas aos deuses - e algumas tinham até os "pedidos" ainda escritos no casco.

Tartaruguinhas-oferendas.
RIO MEKONG


De Ho Chi Minh aproveitamos para fazer um passeio de um dia pelo delta do Mekong, uma região onde a população estabelece uma relação vital com o rio que naquele ponto deságua no mar, fazendo dali um dos lugares de maior biodiversidade do mundo. Como tínhamos gostado muito do serviço da Handspan, resolvemos contratá-los novamente, num tour de um dia.

Saímos de carro de manhãzinha e no meio do caminho nosso simpático guia fez uma parada para conhecermos o templo Cao Dai, uma religião moderna, sincrética e monoteísta que surgiu na década de 60 no sul do Vietnã. 

Igreja da religião Cao Dai.
Seus seguidores acreditam na prática da não violência, são vegetarianos e buscam passar a eternidade no céu na companhia de Deus de maneira a quebrar o ciclo de reencarnações. Dentre os santos venerados estão Sun Ya-sen, Victor Hugo, Nguyễn Bỉnh Khiêm e até Joana D'Arc.

Altar dos Cao Dai.
Assim que chegamos no porto, entramos no nosso barco de madeira e fomos conhecer uma pequena ilha que, apesar do crescimento urbano do Mekong, ainda mantêm um estilo de vida tradicional. 

Família unida no barco privado para conhecer o Mekong.
Apesar do tempo chuvoso, nos aventuramos de bicicleta pelas estreitas estradas de terra da vila, passando por plantações de banana, café e casebres onde as crianças nos davam tchau.


Pinga de Naja, alguém vai?
Aproveitamos para experimentar algumas frutas típicas da região (rambutan, mangosteen, longan, dragon fruit, durian, etc), tomamos chá com mel produzido localmente e numa pequena comunidade conhecemos uma fabriqueta de bala de côco. O cheiro da polpa da fruta misturada com açúcar é de deixar qualquer um com água na boca - e a Má não resistiu e pediu pra moça um pouquinho do doce ainda quente, no ponto de "puxa-puxa". Delícia!

Bala de coco?
De lá pegamos uma canoa onde uma senhora de uns 70 anos remava tranquilamente por entre as águas silenciosas de um dos inúmeros canais. 


Paramos para almoçar e comemos iguarias locais: um peixe do rio que é frito inteiro em óleo quente, deixando a carne crocante por fora e macia por dentro. O aspecto não é dos mais convidativos - mas o sabor é bem marcante!

Acreditem, é gostoso!
Finalizamos o dia voltando de barco até o porto, aproveitando os últimos momentos daquela vegetação exuberante, dos mercados flutuantes sobre o rio e da vida daquelas pessoas que, a 70km da cidade mais moderna do Vietnã, seguem num ritmo que parou no tempo.

Hoje é câmera fotográfica. Há 40 anos poderia ser uma M16...

Um comentário:

Thiago Touguinhó da Costa disse...

Boa tarde
Estava lendo sobre a guerra do Vietnã e me veio uma dúvida.
O hermicida que os EUA jogou e contaminou as plantações e consequentemente crianças nascidas hoje em dia ainda sofrem as consequências pelos pais que podem ter consumido alimentos contaminados.
Nós, turistas, não temos esse risco de contaminação?
Att
Thiago

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