segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Katmandu - Nepal

KATMANDU





Todo mundo adora falar mal de Katmandu. Quando conversávamos com outros viajantes que já tinham passado por lá, todos falavam horrorizados da poluição, do trânsito, do caos da cidade. A dica principal era: saia de lá o mais rápido possível. Mas a verdade é que, para nós, passado o impacto inicial acabamos nos acostumando com sua dinâmica e nos apegamos à bagunça – e ela deixou saudade.

O transporte público.
É certo que não é exatamente agradável andar pelas ruas da cidade, ainda mais no bairro turístico que é onde 95% dos trekkers se hospedam. Como não há calçadas – ou, nos pequenos trechos que elas existem, são ocupadas por extensões das lojas de quinquilharia – você disputa espaço com milhares de carros, motos, camionetas, bicicletas, mochileiros e todo tipo de fauna urbana nas ruas espremidas.

Ruas de Katmandu.
Mas até no caos é possível encontrar a beleza - afinal somos de São Paulo e não negamos! A cacofonia da cidade faz com que seus pequenos nichos que se escondem pelos labirintos que entrecortam prédios e vielas, sejam ainda mais especiais. 

No meio do caos, as vezes aparece um templo.
É se aventurando um pouco mais pelos bairros que de tempos em tempos as esquinas desnudam surpresas milenares guardadas no meio da confusão numa paz que parece surreal.

Como a Gabi gosta de chamar: "stupinhas"! 
Os inúmeros templos se estendem por toda a urbe dando uma espiritualidade surpreendente à selva de pedra. Os lugares religiosos vão desde construções exóticas com telhados vermelhos e garudas douradas assustadoras guardando suas entradas até os mais diminutos redutos de oração, onde uma pequena estátua de Ganesh está cercada de flores frescas e incenso queimando.

Pequeno dragão guardando um templo. 
O grande destaque para entender de que maneira a fé está presente no dia a dia das pessoas e como ela se manifesta na estética e história do país é o complexo cultural do Palácio Real. Localizado no coração de Katmandu, uma imensa praça reúne diversos museus, templos e construções históricas que retratam aspectos fundamentais da cultura nepalesa.

Gabi em frente a uma das estruturas do grande complexo do palácio real. 
Para ter acesso a esta parte da cidade, os turistas têm de pagar uma taxa de entrada que é válida por um dia. Foi bonito ver, num final de tarde, como as imensas escadarias dos templos estavam tomadas por centenas de pessoas que partilhavam do espaço público. 

Gente na praça!
As crianças brincavam de pega-pega, as mulheres conversavam, os homens jogavam cartas e um grupo fazia uma passeata. Apropriação pública do espaço público – e referência cultural do país.

Ah as crianças...
Foi ali que tivemos uma experiência única: ver de perto uma deusa viva – a Kumari. Os hindus acreditam que a energia feminina divina, representada na figura da deusa Telaju, reencarna de tempos em tempos no corpo de jovens garotas. Elas são escolhidas entre a comunidade Newari, sendo das tribos Shakya ou Bajracharya, por onde passam por um rigorosíssimo processo de seleção.

O palácio da Kumari. 
Seguindo as escrituras, os sacerdotes buscam especificamente por características pessoais (serenidade e bravura) e físicas que são sumariadas nas “trinta e duas perfeições de uma deusa”, dentre elas: ter um corpo de uma árvore banyan, cílios de uma vaca, coxas de um veado, peito de leão, voz suave como um pato, etc. Depois disso o histórico da família é escrutinado e a garota ainda passa por vários testes físicos e psicológicos para provar sua elegibilidade.

Uma das praças com stupas no caminho.
A palavra “kumari” deriva do sânscrito “kaumarya” que significa “virgem”. É por isso que as garotas só podem ser a reencarnação da deusa até sua primeira menstruação, quando acredita-se que o espírito divino sai do seu corpo. Em ocasiões de doenças graves e/ou sangramentos causados por ferimentos, a garota também perde seu status divindade.

Uma praça.
E nesse ponto há vários questionamentos em torno da prática, onde meninas de 4 anos de idade saem de vilas rurais para o centro de Katmandu, passam toda a infância sendo adoradas como deusas e em determinado momento, no início da puberdade, voltam a ser mortais. Para completar o cenário, uma tradição local diz que o homem que se casar com uma “ex-deusa” está condenado a morrer em seis meses – o que dificulta mais ainda a reinserção social da menina.


Moças compram tecido no centro da cidade.

Se tem algo que não falta em Katmandu é diversidade gastronômica – para todos os gostos, preços e paladares. É possível encontrar de tudo, desde bistrôs franceses, passando por carne de yak (claro!), faláfel israelense, massas italianas até hambúrguer com batata frita. 


Do nosso lado, assim que chegamos da Índia, após 45 dias de semi-vegetarianismo forçado procuramos o restaurante que servia um belíssimo e suculento bife e matamos a nossa lombriga acompanhados de uma Everest gelada – delícia!

"mominho" vendido na rua: delícia! 
Outro grande chamariz daqui é poder apreciar as iguarias da culinária tibetana, que na minha opinião é o tipo de comida que “te pega no colo”. Logo que chegamos em Katmandu e estávamos varados de fome (pra variar!), fomos comer num discreto café ao lado o hotel, onde experimentamos a “tukpa” uma sopa de macarrão de arroz com vegetais cozidos, temperada com alho e gengibre. Já os nossos primeiros “mominhos” foram mais ousados: recém saídos de um panelão de ferro preto, numa barraquinha de rua na frente do complexo cultural do Palácio Real. Resultado: ma-ra-vi-lho-sos! Viramos fãs incondicionais dos pasteizinhos no vapor recheados de carne com molho picante.

Tukpa e Momo, duas delícias da culinária tibetana. (foto celular)
A quantidade de estrangeiros por metro quadrado faz da capital do Nepal uma babilônia. E você, que se achava super bacana falando inglês, espanhol e francês vai ficar no chinelo quando um vendedor conseguir atender cinco pessoas de nacionalidades diferentes – sendo uma delas chinesa. Se há um lugar onde você encontra todo o tipo de material para viagem de aventura, mais especificamente equipamentos para neve, é nesse centro turístico.

A d



Tem de tudo – tudo mesmo. E é por isso que você não precisa entrar em pânico se tiver esquecido alguma coisa – com certeza absoluta tem lá. 


É claro que ninguém é doido de resolver comprar uma bota para fazer o trekking lá (não só pela qualidade do material mas principalmente porque calçado novo dá bolha, todo mundo sabe disso...) mas muitas outras coisas valem a pena. Os materiais são todos legítimos “North Fake”, mas aguentam muito bem os dias de trekking.


O ponto ruim de um turismo que se torna cada vez mais predatório e difundido pelo mundo inteiro é que o lugar acaba se convertendo para as demandas dos turistas. Todos os dias que saímos, mais de duas vezes por dia, pelo menos uns cinco camaradas vinham discretamente (as vezes nem tanto) nos oferecer drogas e garotas de programa. Todas as vezes, sem exceção. 


A promiscuidade com as agências de viagem e esquemas com carregadores segue na mesma linha (bom, quem leu o nosso relato sabe do que estamos falando) por isso é fundamental buscar referencias, avaliações e indicações sobre as empresas.

Mosteiro budista.

Terminamos os nossos dias em Katmandu visitando uma outra cidade ali perto chamada Patan – que hoje pelo crescimento das duas acabou se tornando um bairro da primeira. 


Patan é conhecida por ter sido durante muitos anos o reduto artístico e criativo do Nepal, produzindo artigos de altíssima qualidade, entre esculturas, tecidos, móveis e jóias.


Passeamos por lá e imediatamente parece que fomos transportados para aquilo que deveria ter sido Katmandu há uns 60 anos. Inúmeros templos e lojas artesanais, ruas e vielas que se abrem em pátios reservados, casas que de tão velhas parecem que se apóiam umas nas outras.


Por ser a área mais comum de residência dos expatriados, é fácil encontrar por lá alguns cafés e restaurantes super modernos. Entramos num desses para fazer um tipo mas assim que vimos o prato do dia nos rendemos imediatamente à tentação: salada com tomate seco e parmesão acompanhada de rosbife. Aprovado!


Para uma cidade que normalmente é usada como entreposto de chegada e saída do Nepal, podemos dizer que Katmandu pode oferecer muito mais do que um lugar para alugar/comprar equipamentos antes de pegar a estrada rumo à montanha. 


Basta ficar um pouquinho mais e estar atento para suas virtudes que fica fácil gostar da cidade. Você certamente vai achar um templo pra chamar de seu, do mesmo modo que a barraquinha vendendo momos será sua comida favorita. Pra nós, antes e depois de 17 dias de trilha, foi o paraíso!



2 comentários:

Anônimo disse...

Pois é, caramba!

lipibr disse...

Ótimo post! Parabéns!
Que vontade que deu de conhecer o Nepal e sua capital!
Em breve!!

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