domingo, 25 de agosto de 2013

Parque Nacional de Mulu - Malaysia



A primeira viagem que nós dois fizemos juntos foi para o Parque Estadual Turístico do Alto do Ribeira, mais conhecido como PETAR, no estado de São Paulo. Se embrenhando por entre fendas enlameadas, escalando pedras para cair de bunda no chão e morrendo de frio nas águas geladas de um rio barrento, nós descobrimos o amor. O apoio entusiástico de Flit, Zanella e Leilinha regados a algum forró e muita cachaça de banana ajudaram bastante - que romântico!
Mas foi ali que eu descobri que o moço era apaixonado por cavernas e adorava colocar uma lanterna de cabeça para bancar o espeleólogo por entre as passagens claustrofóbicas destas formações escuras. E depois de algumas incursões não é que eu virei uma cavernícola bem ajeitadinha? Foi por isso que, assim que soubemos da existência do Parque Nacional de Mulu, em Borneo - Sarawak, não pensamos duas vezes em correr pra lá.
A aventura começou logo no aeroporto. Por ser uma região muito isolada só é possível chegar no parque nacional por meio de uma única companhia aérea que opera um avião turbo hélice, daqueles que levam não mais do que 40 pessoas e a cada corrente de ar mais forte você solta um "putaqueparió". É claro que só fomos saber disso quando chegamos no aeroporto e resolvemos de última hora mudar todo itinerário e voar pro parque.

Tivemos a incrível sorte de pegar os dois últimos assentos, mudamos o nosso vôo da AirAsia, passamos uma única noite em Miri (completamente dispensável, se possível vá direto para Mulu) e no dia seguinte embarcamos. 

Chegando lá, descobrimos mais uma vez que tiramos a sorte grande porque normalmente as entradas para o parque nos meses de férias esgotam com semanas de antecedência - e eles tinham não mais do que 5 vagas para os dias que queríamos ficar.

Além disso, por ser um lugar completamente isolado, os opções de hospedagem são escassas e a alimentação, por questões logísticas, não é barata. Resumo da ópera: mais uma vez o anjo que protege os bêbados, as criancinhas e os mochileiros olhou por nós, do contrário cairíamos numa grande roubada. E a dica mais importante de todas é não ir pra lá na louca, sem fazer as reservas do parque, dos passeios (como vamos relatar mais pra frente) e da hospedagem com antecedência porque a chance de ficar sem nada é grande.
Achei que era de brinquedo. Errado!
Apesar de terem algumas pousadas e casas de família bastante simples para se hospedar ao redor do parque, o legal mesmo é ficar lá dentro. Não tanto pela proximidade (tudo fica a exatamente 5 minutos de caminhada, menos o aeroporto, que fica a dez) mas sim porque eles oferecem vários tipos de acomodação com preços variados. Nós ficamos no alojamento, a opção mais barata com 21 camas num galpão conjunto e banheiro compartilhado, além de armários individuais com cadeado e uma pequena cozinha. Foi tudo muito bem a não ser por uns ingleses que ficaram jogando baralho até as 4 da manhã seguido por chineses que acordaram em seguida para fazer o café. Enfim, sempre tem que ter a turma sem noção...
O Parque Nacional de Gunung Mulu compreende cavernas e formações rochosas em meio a uma densa floresta tropical. Descoberto há não muito templo, a expedição mais famosa por essa região e que desvendou boa parte das formações geológicas hoje conhecidas foi a da Sociedade Geográfica Real inglesa, entre 1977 e 1978 onde uma equipe composta por 100 cientistas passou 15 meses em campo.
Em 2000 Mulu foi reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO sob o critério de ser um exemplo extraordinário da história geológica do mundo, do seu processo evolutivo bem como pela sua beleza natural excepcional. E como não poderia deixar de ser para um lugar destas proporções, o parque é cheio de superlativos: ali está o maior salão natural do mundo (Sarawak Chamber), a caverna com maior passagem única bem como um dos maiores sistemas de rios subterrâneos além da maior caverna do mundo em volume.

Assim que se chega ao parque, a equipe fará uma programação específica para você de acordo com sua disponibilidade de tempo e aptidão física. Existem dois tipos de caverna: as "show caves", que têm visitas diárias e extremamente acessíveis por meio de uma plataforma de madeira que pauta todo o percurso; e as "adventure caves" que são voltadas para o público mais animadinho que quer realmente colocar o pé (e a bunda!) na lama. Estas últimas são dividas em três gradações (introdutória, intermediária e avançada) sendo que não é permitido ir na última sem passar por uma primeira mais fácil, sob supervisião de um guia que dirá se você está apto ou não a ir no Avançado.
Começamos pela Lang's Cave, uma caverna não muito grande, de aspecto intimista, cheia de estalactites e estalagmites que se acumulam pelas paredes. Em seguida fomos para a Deer Cave, uma caverna gigante que impressiona logo na entrada pelo tamanho imenso de sua abertura. Ali dentro, mais de 3 milhões de morcegos guincham e disputam espaço no teto - que lá de baixo parece tomado por uma imensa mancha preta, formada pelos mamíferos.
Você enxerga as pessoas na foto?
No final da tarde, próximo as 17h, saímos desta última caverna para deitar na grama e se deliciar com um espetáculo único da natureza: a revoada dos morcegos. 
Morcegos saem da caverna pontualmente as 17h30. Um espetáculo!

Milhares de morcegos saem voando em grupos, formando círculos que sobem pelo céu em espiral, numa espécie de "dupla hélice" formada por centenas de indivíduos, que adquire vida própria que sai tomando o horizonte. Este balé único acontece quando estes mamíferos de hábitos noturnos saem para caçar pequenos insetos, dando origem ao fenômeno conhecido como "êxodo dos morcegos".

A visita à Caverna dos Ventos e à Clearwater é um passeio de meio dia bem legal por todo seu conjunto. Depois de andar de canoa pelo rio, chega-se a uma pequena vila de pescadores onde é possível comprar artesanato local e ver as tradicionais "longhouses" ainda sendo usadas. Depois de visitar a Caverna dos Ventos, seguimos direto para a Clearwater onde um rio se estende por mais de 170km em vias subterrâneas, criando salões e formações nas paredes que podem ser apreciadas até hoje.
Piscina natural em frente às cavernas.
No dia seguinte fomos fazer a nossa primeira (e única) "adventure cave", que seria o nosso teste para fazer uma mais avançada - ouvimos excelentes recomendações da Clearwater Connection - mas infelizmente como não programamos direito, iríamos embora no dia seguinte e tivemos que deixar para outra vez. 
Fizemos a Racer Cave e aí sim tivemos um gostinho mais de aventura da espeleologia: escalada por cordas, passagens super estreitas em fendas, ambientes completamente escuros e muita lama fizeram deste sem dúvida o passeio mais legal.

Saímos de lá completamente enlameados, suadíssimos e felizes. Fizemos um grupo legal e acabamos finalizando o dia com uma (na verdade várias) Tigers geladas, compartilhando muitas histórias e experiências de viagem. 
Ali conhecemos um australiano que há dez anos viajava para a Indonésia para tirar suas férias e nunca se cansava de lá. Depois de muito bate papo, nosso próximo ponto de parada da viagem já estava completamente traçado - e esses encontros são uma das melhores coisas que a viagem pode proporcionar.


3 comentários:

Boia Paulista disse...

Oi, Ivan e Gabi. Tudo bem? :)

Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.
Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

Até mais,
Natalie - Boia

celina disse...

Não imaginava a dimensão das rochas. Beleza da natureza!

Marcelo Cavalheiro disse...

E mais uma vez fico de boca aberta, com as paisagens , com o conteudo e com a história que esta sendo traçadas por vocês! Obrigado por compartilhar esse LADO BOM DA VIDA. Continuo de tempos em tempos lendo e observando.

Sucesso pra o casal ai , energias positivas do brasil!

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