quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Phnom Penh - Camboja



Cruzamos a fronteira do Vietnã para o Camboja de ônibus, que sai de Ho Chi Minh City, atravessa o interior dos dois países entre vilas e arrozais a perder de vista até chegar na capital deste país. Os ônibus são confortáveis e a viagem é bastante interessante do ponto de vista cultural para conhecer o lado mais rural do delta do Mekong, onde todas as casas são imensas palafitas de madeira que têm sua área de convivência concentrada no "pátio" de baixo, entre os pilares que erguem a construção acima do chão.
Jardins do Palácio Real.
Uma das principais atrações da cidade que é percebida de forma onipresente em toda a parte mais turística é o Palácio Real, um magnífico complexo de prédios que desde 1860 serve como residência da família real cambojana.



Cada uma das quatro alas guarda os tesouros da estrutura, sendo elas: ao sul a Pagoda de Prata; ao norte o Palácio Khemamrin; no centro o Salão do Trono; e a oeste o Átrio Privado dos aposentos reais, fechado ao público e ocupado até hoje pela família.
Uma das entradas do palácio.
O Salão do Trono significa, na língua local, o "Assento Sagrado do Julgamento". De forma imponente e inteiro coberto de dourado e vermelho (as cores da realeza), é ali que os assuntos de estado eram tratados pelo rei e seu fiéis conselheiros, ainda que hoje sirva como local de cerimônias especiais, como coroações e casamentos. Inúmeros objetos ali em exibição são de ouro maciço (como o jogo de chá real) e outro ainda conta com pedras preciosas e/ou folhagem a ouro.
Sala do trono.
Já a Pagoda de Prata é um templo que guarda mais jóias reais, como estátuas do Buddha de ouro e/ou cravejadas com gemas. 

Maquete de Angkor Wat em frente ao templo.

Alguns exemplares são o pequeno Buddha de cristal baccarat, datado de século XVII (que faz as vezes do "Buda de Esmeralda" do Camboja, numa alusão ao tailandês) e o outro em tamanho real, com mais de 9.500 diamantes cravejados. 
Casa dos espíritos em frente ao templo.
Flores do jardim do Palácio.

O nome do lugar faz referência aos 5 mil tijolos de prata que foram incorporados em uma de suas reformas, além do mármore italiano adicionado na fachada.
Detalhe do telhado do palácio.
Os pátios externos que se abrem como jardins de pedra a céu aberto são absolutamente maravilhosos, fazendo um contraponto importante à ostentação dos prédios que os cercam, num balanço de exagero e simplicidade incomparáveis. 
Mural quilométrico.
As paredes internas dos corredores abertos que fazem face aos muros que separam cada uma das alas são como imensos painéis com pinturas milenares que, felizmente estão sendo restauradas.
Corredores imensos contam a história de Buda.
O Museu Nacional do Camboja que fica quase ao lado do Palácio Real é o maior museu do país e preserva uma das maiores coleções de arte Khmmer do mundo, incluindo esculturas, cerâmicas e objetos etnográficos.
Monge descansa nos arredores do Museu.
Contando com mais de 14 mil itens em seu acervo, o prédio com arquitetura inspirada nos templos Khmer teve sua construção iniciada em 1917 e foi oficialmente inaugurado três anos depois.
O templo budista de Wat Phnom.

Sob responsabilidade da Universidade Real de Belas Artes e o Departamento de Arqueologia, o museu tem por missão ampliar o conhecimento e preservar a tradição cultural cambojana de forma a ser uma fonte de orgulho e reafirmação da identidade nacional. E depois de uma visita com calma a cada uma das partes do prédio, é possível dizer que eles estão no caminho certo: inúmeras peças maravilhosas e bem conservadas, com legendas também em inglês fazem da visita ao museu bastante instrutiva e gostosa.
Altar de Wat Phnom.
Depois de tantos palácios e museus, já era hora de partir para algumas compritchas num dos sempre divertidíssimos mercados asiáticos. O Mercado Central é o maior representante do gênero, construído no final de década de 30 com quatro "braços" gigantes que se estendem em formato de cruz ao redor de um domo central.
Família se diverte com os "estranhos" ocidentais. Pediram até foto!
Vários turistas tentam barganhar compras de souvenirs e todo tipo de quinquilharia, que vai desde roupas, jóias até eletrônicos e artigos religiosos.
Mercado Central.
Já o Mercado Russo, apesar de seguir na mesma linha só que em proporções bem menores, têm um ar mais autêntico. No meio do caos sufocante de suas "ruas" labirínticas é possível encontrar algumas peças decorativas de prata (os vendedores juram serem legitimas!), belas esculturas tradicionais em madeira, algumas antiguidades e até produtos medicinais.

Assim como Saigon conta com o museu sobre a guerra contra os Estados Unidos como fonte de memória das atrocidades cometidas durante o confronto, Phnom Penh tem no Museu de Cheoung Ek seu monumento para fazer as pazes com seu passado tenebroso. 

Eu e a Má, não tivemos estômago para fazer a visita, mas Ivan (que conta essa parte do relato) e Castilho enfrentaram uma chuva torrencial para conhecer o museu que fica em um antigo campo de extermínio do Khmer Rouge.


"Uma visita ao local não é para todo mundo. Apesar da história do que se passou no Camboja entre 1975 e 1979 seja obrigatória (conhecer para não repetir) o campo de extermínio de Cheoung Ek deflagra toda a crueldade e ignorância bestial do regime de Pol Pot e seus comparsas. Foi ali, em meio a antigas plantações de arroz que foram executadas mais de um milhão de pessoas de maneira cruel.

Na verdade, hoje, o que se vê nesse grande parque aberto a 17km de Phnom Penh não é nada além de um grande monumento em homenagem aos mortos e diversas placas demarcando um trajeto a ser caminhado pelos campos em conjunto com um áudio-guia. Não sobrou nada das estruturas e prédios usados na execução dos condenados. Com o fim do regime em 1979, a população enfurecida desmontou o campo de extermínio.

Monumento aos mortos em Cheoung Ek.

Os sinais marcados no chão levam o visitante indicando a história do que acontecia em cada um dos momentos da execução: da chegada do prisioneiro vendado ao seu fim, e o enterro do corpo.
O Khmer Rouge era bastante sistemático em seu processo de aniquilação dos inimigos do regime: fotografava cada condenado e o executava com o menor gasto possível para o governo, geralmente com um golpe na cabeça, para não haver o gasto de nem uma munição. Matar um condenado dessa forma cruel era prova de alinhamento com o regime que o comando exigia de soldados e funcionários, que tinham que passar por este teste com a chegada de cada novo caminhão. 
Dentro do memorial alguns crânios, ossos e restos de roupas encontrados nas escavações.

Para evitar vingança, a família do condenado tinha o mesmo destino e dessa forma mulheres e crianças também foram executados da mesma forma. Inclusive crianças de colo, que eram agarrados por uma das pernas e golpeadas contra o tronco de uma árvore que até hoje lá reside. É brutal e chocante, ainda que obra humana.


As valas comuns, muitas ainda estão sendo descobertas, são cercadas e protegidas por um teto para que as intempéries do tempo não atrapalhem o trabalho de recuperação dos restos mortais.

Pequena e silenciosa homenagem que os visitantes deixam na cerca que guarda uma das valas comuns. Todos deixam uma pulseira. A minha é a azul bem gasta doc entro da foto, uma fita do Senhor do Bonfim que ganhei no Pelourinho.

Há, inclusive, um aviso na entrada do memorial para que os visitantes não carreguem consigo restos mortais que porventura aflorem do chão, carregados à superfície pelas chuvas e erosão. Esse é o tamanho da brutalidade cometida naquele lugar.

O memorial de Cheoung Ek, do ponto de vista da restauração e preservação da memória, é um lugar de visitação obrigatória, um local que dá materialidade à atrocidades que temos dificuldade em aceitar como verdade em livros e relatos. Mas está lá. É verdade. Aconteceu. Aprender para não repetir. Tomara.



Um comentário:

Anônimo disse...

obrigada pelas flores.
São uma belezinha!

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