segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Trekking no Annapurna: Dia 11 - Nepal









Dia 11 – 06/05/13

Thorong Phedi a Muktinath (3.800m): 7-8 horas de caminhada

Descrição do programa da agência:
Hoje nós atingimos o clímax do nosso trekking em volta do Annapurna. Será uma experiência inesquecível e para a vida toda – cruzar o famoso “high pass” (passagem alta) de Thorong La. Começar cedo é fundamental para completar a missão. Hoje em cada momento nós temos que trabalhar duro pela neve da trilha em alta altitude mas os maravilhosos cenários do alto do Himalaya são tão sedutores que os nossos olhos vão amar se deliciar mais e mais com o horizonte do que em fixar-se na trilha. Nós atingimos Muktinath com o pôr do sol. Muktinath é um lugar importante de peregrinação tanto para os Hindus quanto para os Budistas. A vila guarda um templo de Vishnu bem como um monastério – e é símbolo de como as religiões convivem em harmonia no Nepal. 





Agonia e Êxtase

 "O combinado com o guia era de estarmos com tudo pronto para sair as 4h30 da madrugada. Deitados as 19h e foi muito difícil dormir. A ansiedade estava a milhão, o frio literalmente batendo na porta e a cabeça viajava rápido demais para ser alcançada pelo sono. 3h50: Guiam bate na porta (10 minutos antes do combinado) trazendo uma xícara de chá com leite que seria nosso café da manhã pré subida. Da bebida sair da cozinha e ser levada até o nosso quarto sob um frio de 10oC negativos, quase transformou-se em sorvete!
Nosso quarto.

4h15: Tudo pronto, começamos a subida. Eu com roupa térmica, duas meias sendo uma para trekking na neve, calça, casaco de neve, bandana para boca e nariz, gorro e meu inseparável bastão andador. Gabi quase igual só que com uma camada a mais. Ela carregava uma mochila com 2 litros de água mais protetor solar e papel higiênico. Eu levava a incômoda mochila de uma alça com material foto/vídeo.
Banheiro ou geladeira?

O começo da subida seria o mais inclinado, quase um paredão que nos faria subir em zigue-zague por 400m verticais. Era praticamente o mesmo percurso que fizemos ontem em 50 minutos. Hoje, no entanto, estava tudo escuro, com exceção da lua crescente enorme atrás da montanha.
Nossa janela.

Além da lua, inúmeras luzinhas contornavam a trilha, indicando que outros grupos já haviam começado a subida. Com dois terços completos do percurso, Gabi pára para respirar e não se recupera com a facilidade usual.

Quando percebi ela estava em posição de vomitar, sentindo demais a subida rápida que fizemos. Após melhorar um pouco, já sem o peso da mochila que passou para mim, retomamos a subida lentamente e contínua. 

5h25: Chegamos ao High Camp, a última estrutura e sinal de civilização antes da passagem. O dia já estava claro o suficiente para não precisarmos mais de lanternas. Estávamos a 4.850m e o frio fazia meus dedos dentro das luvas perderem os sentidos. Comecei a andar com uma das mãos no bolso, revezando quando a mão do bastão perdesse os movimentos.
Vista do nascer do sol no topo da montanha. Nesse ponto já havíamos superado o primeiro paredão.

Foi também no High Camp que sofri com outro mal da altitude, a diarréia. Porém,  Uma fossa abandonada resolveu o problema. Quando voltei, Gabi já estava recuperada e retomou a mochila. Vimos um nascer do sol dos mais bonitos da vida, com os raios de luz pintando a grande tela branca nas montanhas completamente cobertas de neve. 

6h00: Começamos a travessia horizontal da passagem, um sem fim de morros baixos cobertos com 1,5m de neve. A essa altura a travessia começava a ficar mais perigosa pois qualquer escorregão significaria rolar morro abaixo e já estávamos a mais de 5.000m de altitude. Foi nessa parte, entre subidas e descidas sem fim, com o frio esmagando os pulmões e esfolando meu nariz que não parava de escorrer, que parei para pensar na vida, na família, no Brasil e na minha história em retrospectiva.
Gabi e Guiam caminham com dificuldade.

Estava muito cansado. Até aqui haviam sido 10 dias de muito esforço, caminhando duro de vila em vila, porém nada havia me preparado para isso.

Percebi que estava física e emocionalmente exausto. Debaixo dos óculos escuros, chorei. A paisagem era tão bonita, as ondulações de neve iluminadas pelas primeiras luzes do dia tão lindas que me emocionei. Mas segui andando – porque nessas situações parar é um risco. 

Gabi, como eu, estava um bagaço. E o mar de morros de neve teimavam em não acabar. Um atrás do outro, sem fim. A cada subida a esperança de avistar um novo horizonte e a briga com o próprio fôlego e o comando correto das próprias pernas. Chegando ao topo, só se via mais outro monte de neve, outra subida para outra descida. Muitos escorregões, mais dor. Bolhas, joelho, costas, tudo embaixo de muitas camadas de roupa. Puro sofrimento em meio a um paraíso branco.
Esse foi o momento que não deu mais pra Gabi. Solução? Beatles no ipod para levar a mente pra longe!

9h00: Não aguentávamos mais. A dor, as subidas, as descidas, os escorregões, a dificuldade para puxar o ar. As extremidades do corpo semi congeladas, fazendo disso uma preocupação a mais para administrar. Gabi já a algum tempo tinha atingido seu limite emocional – e as lágrimas brotaram quando perguntou ao guia se ainda faltava muito e ele não respondeu, com medo de desanimá-la.

Não conseguindo mais lidar com aquela tortura mental de nunca chegar, ela estrategicamente colocou o iPod nos Beatles e deixou a mente fugir. Mais tarde ela me disse que foi a música que a resgatou. Tentei incentivá-la a cada parada, escrevendo mensagens na neve para que talvez eu mesmo acreditasse no que dizia. A verdade é que nunca chegávamos.
O topo!
  
Porém, depois do enésimo morro, avistamos uma pequena bandeira triangular branca ao longe. Olhei para o guia e perguntei se era lá. Ele acenou positivamente com a cabeça. Abracei a Gabi e ela começou a chorar (mais).

Foi ouvindo Ticket to Ride que ela alcançou os 5.416m da passagem de Thorong La.

A indescritível sensação de realização me tomou por inteiro ao avistar as mil bandeirolas multicoloridas apontando para o ponto de passagem mais alto em todo o Annapurna. Não me contive e gritei para todos os deuses da montanha ouvirem: chegamos caralho! (para depois ser ecoado por alguns carregadores atrás de mim, repetindo com um sorriso no rosto “ca-ra-lho-lho-lho...”).
Até que enfim!

Gabi chorava bastante, mal acreditando que sim, tínhamos sido capazes de enfrentar tudo o que tinha acontecido conosco até aquele momento.

A sensação de realização era sublime. Após o impacto da chegada veio a sessão de fotos e a singela homenagem que fizemos à devoradora de livros sobre o Himalaya, Celina (mãe da Gabi). 

Havia ao menos 25 pessoas no topo conosco, todas caras conhecidas dos dias anteriores. Como que combinados, pouco a pouco todos foram descendo, deixando o topo só pra gente. Curtimos o momento.
A smurfete de vermelho chegou lá!!!

10h00: Começamos a deixar aquele lugar sonhado por duas semanas mas que habitara meu imaginário por toda uma vida.

A descida que parecia fácil transformou-se num calvário vertical de neve, gelo e pressa. Quanto mais o tempo passava, mais o sol derretia a neve e deixava o caminho mais escorregadio e perigoso. Em vários momentos Guiam acelerou nosso passo apreensivo pelo risco de avalanches que se anunciavam morro acima. 

Meu joelho esquerdo estava arrebentado e a ideia de descer os 1.600m até Muktinath não parecia ajudar. O que amenizava a descida era a incrível vista de toda a cadeia de montanhas de Mustang. Atrás dela, o Tibet e a China. Gabi também sofria com dores no joelho, mas o frio já havia passado, pelo menos.
A descida. Ao fundo as montanhas de Mustang.

 (*A BRIGA: aqui tivemos uma discussão bizarra entre o guia e o nosso carregador, no meio da montanha. Mais detalhes no fim do relato*) 

13h00: Do alto da montanha, quase que arrastando a perna esquerda e já sem água, avistamos três barracões que formavam a “vila” de Charabu. Ali entregamos os pontos e resgatamos um pouco da energia perdida com uma pratada de macarrão. 

Não foi dos melhores mas fez a barra de energia sair da reserva. Ainda tínhamos pelo menos mais 2h de caminhada até Muktinath e ninguém tinha mais condições de andar nem mais 5 minutos.

16h00: O mosteiro dedicado a Vishnu e Buddha marcava o destino final, o pouso e o descanso. Depois de escolhermos o hotel tivemos o luxo de um banho quente em um banheiro ocidental – ainda que sem tampo na privada. 

Estávamos completamente moídos e após o banho e uma tímida celebração com cerveja (em temperatura ambiente, já que não há geladeira) capotamos de um jeito que nem um terremoto nos acordaria. 

Era o fim do grande momento desse louco desafio de atravessar o Annapurna a pé. De subir 5.416m de neve e gelo e sair do outro lado da montanha. Uma empreitada que nos consumiu física e mentalmente de uma forma que nunca imaginamos.

Vencemos os medos, a dor física e a agonia do não conseguir. Me enche de alegria ainda maior ter feito tudo isso com ela, ao lado dela, segurando sua mão.

Obrigado minha guerreira de pernas curtas! 

A passagem de Thorong La é brincadeira de criança para aqueles que escalam qualquer outra montanha no Himalaya. No entanto, para nós mortais, foi o nosso Everest. Minha mais profunda admiração àqueles que enfrentam esses desafios maiores. Quem sabe um dia...
É o Brasil no topo!!! (esquecemos a bandeira do Brasil e tive que improvisar...)

***A BRIGA Tínhamos acabado de atravessar a passagem de Thorong La, o ponto mais difícil de todo o trekking, que nos fez ultrapassar nossos limites físicos e emocionais. Estávamos exaustos e começando a descida (parte também super difícil) para chegar a Muktinath. Paramos para descansar e, depois de algum tempo, vimos despontar lá do alto do morro o nosso carregador Prem, que tinha ficado para trás – como era tradicional mesmo depois de termos insistido várias vezes para espera-lo, o nosso guia dizia que era melhor ele ir no ritmo dele. 

Prem, um menino super contido e extremamente educado, vinha desembestado descendo com nossa mochila, espumando de raiva, apontando para Guiam e gritando de lá de cima “Bad guide! Very bad guide!”. 

Nós ficamos assustadíssimos e ele, que não falava mais de duas palavras em inglês, começou a discutir feio com Guiam, nosso guia, em nepalês. No meio da confusão ele tentava nos explicar por gestos e palavras praticamente ininteligíveis o que estava se passando. 

O que conseguimos entender era que o guia o tinha deixado sem comida durante a passagem. Ele, que carregava nossa mochila de 15kg mais a sua, tinha um gasto energético evidentemente maior e, quando foi pedir comida para o Guiam, este lhe entregou o seu salário e disse que ele se virasse com o dinheiro. E é óbvio que, a 5.416m de altitude no meio de neve por todos os lados, aquilo era a mesma coisa que nada. 

A esta altura os dois discutiam enfurecidamente e o guia dizia que não tinha obrigação de levar a comida do carregador – apesar dele controlar todo o dinheiro que tínhamos pago à agência em Katmandu que previa alimentação e hospedagem para todos.

Prem, de raiva, explodiu em lágrimas e começou a fazer diversas acusações ao guia no seu parco inglês. Tentava nos dizer que Guiam estava nos roubando, que havia superfaturado no transporte quando Gabi torceu o pé, que nos colocava em pousadas ruins para poder ficar com a maior parte do dinheiro. Vimos que o guia tentava dissuadi-lo em nepalês e se propôs a carregar a mala dele. 

Eles não paravam de discutir mesmo com a nossa intervenção e em determinado ponto nosso carregador jogou nossa mala no chão e disse que ia embora. Eu pedi a ele que continuasse pois não tinha condições de carregar a mochila pesada por conta do joelho e que resolveríamos o problema em Muktinah. 

Gabi, que já tinha levantado suspeitas com relação ao nosso guia, me olhou com aquela cara de “eu disse”. Separamos os dois que não paravam de bater boca, Gabi foi com Guiam (já que os dois não estavam se dando mesmo) e eu fui com Prem que no caminho tentava me esclarecer ainda outras acusações – que o guia nos colocava em lugares sem banheiro no quarto porque era mais barato e não permitia que ele tomasse um café da manhã adequado, apenas chá com leite.

Chegamos em Muktinath, tomamos banho e um final de dia que era para ser de celebração e descanso teve ainda um terceiro round bastante tenso. Tínhamos de resolver a situação do nosso carregador, que fizera acusações graves contra o guia e também sobre este último, com quem já estávamos no limite. 

Perguntamos ao Prem se ele confiava no dono da agência que havíamos contratado em Katmandu e ele disse que sim. Ligamos para Tsandang, o homem que nos vendeu o pacote e explicamos toda a situação reforçando que isso tudo era um absurdo e inaceitável. Contratamos uma agência bem recomendada justamente para não ter que lidar com este tipo de problema – e lá estávamos nós, no dia da passagem de Thorong La, descobrindo que talvez estivéssemos sendo roubados o tempo todo. 

Nós dissemos que queríamos o Guiam fora do nosso trekking e o responsável da agência disse que iria resolver a situação imediatamente. Quando estávamos no quarto, já descansando, Guiam e Prem vieram bater a nossa porta e fizeram um teatrinho ridículo demonstrando que já estavam “amigos”.

Nós tentamos explicar a eles que não era por conta da briga mas sim por uma questão de confiança que havia sido quebrada causada pelas graves acusações que o carregador fez sobre o guia – sobre o qual já tínhamos suspeitas.

Guiam tentou nos devolver o dinheiro que tinha sido superfaturado do transporte, nós continuamos enfatizando que era uma questão de confiança mas eles não entendiam (porque não falavam inglês) e só perguntavam se estava tudo OK. 

Vencidos pelo cansaço, dispensamos os dois tendo a certeza de que eles não tinham entendido nada do que falamos – e que não, não estava tudo OK. Ficamos esperando a ligação de Tsandang, de Katmandu, que ficou de nos retornar para tomarmos uma decisão. No dia seguinte, nada da ligação da agência, e nós tivemos que seguir caminho, até o próximo capítulo da novela com o nosso guia."




2 comentários:

Laura Gurgel disse...

Que coragem!!!!

As fotos e os posts estão incríveis!

Celina disse...

Queridos

Iniciei a leitura angustiada e percebendo que o desafio leva à conquista.

É a conquista do auto controle, do medo, do incerto, do desejo, do companheirismo, da superação e finalmente do sonho. Esse sonho tem um tempo real curto mas uma sensação eterna.

Obrigada por me levar junto.

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