sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Trekking no Annapurna: Dia 8 - Nepal




DIA 8 – 03/04/2013

Manang: descanso

PROGRAMAÇÃO:
Hoje é o dia programado para aclimatação. Não é recomendado ficar ocioso mas sim fazer uma curta caminhada para altitudes mais elevadas de maneira a se aclimatar melhor com a altitude. Manag é um bom lugar para fazer isso tendo em vista que os próximos dois dias serão muito desafiadores, exaustivos e com rápido ganho de altitude. Nós nunca devemos ser super confiantes com a altitude e deve-se sempre ser cuidadoso. Bhojo Compa ou Lago Gangapurna são lugares que valem uma visita do ponto de vista da aclimatação. Uma excursão fácil para uma vila chamada Vraga, que fica a pouca distância, é viável, tratando-se de uma pequena e antiga vila com um monastério. Vale também fazer uma visita a Associação de Resgate do Himalaya, onde é possível saber mais sobre doenças de altitude.




O Dia Abençoado

"Hoje acordei no meio da noite assustado com falta de ar. Torcido entre o saco de dormir, travesseiros, Gabi e duas camadas de roupa, achei que sofria de doença de altitude. Obviamente, estava enganado. Era simplesmente o frio que havia tapado meu nariz. Dei risada de mim mesmo e voltei a dormir.
Manang e sua vista insuperável.


Acordamos com o melhor tempo dos últimos dias com quase nenhuma nuvem cobrindo as montanhas. Ao abrir os olhos víamos da janela toda a cordilheira aberta para o nosso deleite. 

Já no café da manhã (enorme, preciso comer menos!) nosso guia estava todo engraçadão, evidentemente tentando recuperar algum prestígio.

Partimos então para o nosso passeio de aclimatação. Estamos dormindo a 3.500 metros, em Manang, e a ideia era subir ao menos mais 500 metros e voltar. Nossos glóbulos brancos agradecem.
Aclimatando.


O plano era subir até o monastério budista Praken Gompa, que no pé da montanha mais parecia um amontoado de pontinhos coloridos em verde, amarelo, vermelho, branco e azul. O desafio era realmente grande, uma subida inclinada para atingir quase 4.000 metros.
Stupas.


Foi nessa subida que a altitude nos pegou em cheio. Cada passo pesava o dobro e o ar começou a faltar logo na metade do caminho. Gabi estabeleceu metas curtas, apontando pedras e arbustos como próximos pontos de chegada.
Mesmo com o cansaço e o grande esforço conseguimos chegar ao monastério em apenas 2h quando a maior parte das pessoas levam 2h30 a 3h. A vista é absolutamente espetacular.
à direita, lago glacial acima da cidade.


De frente para os picos nevados que se elevam a mais de 7.000 metros só podíamos contemplar as divindades transformadas em maciços de pedra quase intransponíveis, gentilmente enfeitados de branco.
Chifres de antílopes da montanha na chegada do monastério.


Após recuperarmos o fôlego (da subida e de tanta beleza), Guiam nos convidou para entrar no monastério – que na verdade se resumia a apenas algumas paredes de pedra erguidas em volta de uma pequena caverna.
A parte de fora do mosteiro.

Ali dentro vive um lama que normalmente abençoa quem se atreve a subir. Infelizmente o monge iluminado estava muito doente e havia sido removido para Katmandu. Em seu lugar a monja que o acompanha (ani) nos recebeu.

Tiramos as botas e em reverência forçada pela porta diminuta adentramos na pequena sala escura. Estávamos acompanhados por um casal francês, um letão e os dois guias.

Esfumaçados por um constante incenso, a monja nos ofereceu chá de hortelã, planta que vimos na sua horta pouco antes de entrarmos.
Manang por entre bandeirolas budistas e os picos nevados.


Após o chá ela apontava para cada um de nós. Era a indicação para nos ajoelharmos diante dela para a bênção. Nesse momento bastante emocionante ela nos daria sorte para jornada que segue daqui.

Gabi foi primeiro e recebeu sua oração. Logo após foi a minha vez. Ajoelhei-me e em voz bastante baixa ela começou a orar em nepalês. Após algumas palavras das quais só compreendi “Thorong La”, ela tocou minha cabeça com uma pequena caixa e amarrou um cordão em meu pescoço.

Entendi então que estava ungido para enfrentar o desafio da passagem. Aquele cordão colorido era o símbolo de seu desejo de boa sorte na travessia da passagem mais alta de todo esse trekking e ápice de nossa jornada pelo Annapurna.
Abençoados!


Após todas as bênçãos um dos guias começou a explicar todos os símbolos do budismo, mas em francês... Minha compreensão de 30% de francês-nepalês somado ao frio que fazia lá dentro foram suficientes para que eu me despedisse, agradecesse e deixasse o pequeno cômodo em busca do sol. Gabi, a francófila, ficou e aproveitou a aula.

Pouco depois começamos a descida. Nada mais sentíamos, ainda extasiados com a experiência. Na metade do caminho paramos num platô onde encontrei escrito em pedras juntadas a expressão “live now” (viva agora).

Quão apropriado. A sensação de estar aqui, realizando esse sonho, com pitadas de espiritualidade, esforço, superação e realização é, de fato, viver plenamente.

Viver tudo isso ao lado da Gabi é adoçar o sonho de maneira inimaginável.
A pequena e a montanha.


Observamos as montanhas gigantes por alguns momentos e descemos atrás de duas vacas peludas. O dia se completou com a excelente palestra sobre doenças de altitude que atendemos em uma ONG de médicos instalados na vila.

No fim medimos nosso nível de oxigênio no sangue para espantar os fantasmas da altitude. Gabi acusou 94% e eu fiquei com 90%, ambos muito bem.
Stupas alinhadas para reverencias as montanhas.


Na verdade, pouco importa o que o teste iria dizer, afinal, já estávamos bastante abençoados para a passagem.

Amanhã começamos a subida."

Um comentário:

Celina disse...

Queridos

Que dia!
Confesso que li inúmeros livros sobre as montanhas do Himalaia, com relatos históricos, heroicos, emocionantes.

Minha alma sempre foi atraída para este lugar antes de engravidar da Gabi e conhecer o Ivan. Jamais imaginaria que 27 anos depois teria o privilégio de vê-los próximo a um sonho de vida.

"Ungidos para enfrenar o desafio da passagem"

Muito obrigada pelas fotos principalmente a denominada abençoados; transmitiu a paixão pela busca.

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