terça-feira, 1 de outubro de 2013

Tana Toraja - Indonésia




Após vários dias de praia e mergulho começamos a nos preparar para o que talvez tenha sido nossa maior experiência antropológica em toda viagem. 

Ainda acompanhados da inestimável companhia de Celina e Gambi (que bravamente aguentavam os “perrengues” do nosso  percurso) pegamos um avião em Manado para descer em Makassar, no sul da ilha de Sulawesi, com destino certo: conhecer Toraja.

Relevo com motivo torajano.
Trata-se de um grupo étnico nativo da região montanhosa do sul da ilha de Sulawese. O interessante sobre esse povo é sua impressionante relação com a morte, os rituais funerários, criptas incrustadas na rocha, arquitetura e incrível habilidade de esculpir em madeira.

Vila torajana.
Após muitas tentativas frustradas em conseguir dados sobre o lugar e qual o melhor jeito de conhece-lo, conseguimos localizar através de recomendações unânimes em fóruns de viagem (tripadvisor e afins) uma figura local que é considerado o rei dos mochileiros em busca de maneiras para chegar em Tana Toraja (a terra dos toraja). Chamado de “Dodo the pen man of Makassar” (Dodo, o homem das canetas de Makassar), esse funcionário aposentado da companhia elétrica local resolveu usar suas amizades com alguns torajanos e acabou virando um grande facilitador para turistas que querem conhecer a região. 

A região é estritamente agrícola e vive basicamente da plantação de arroz.
Ele é uma espécie de agente que faz absolutamente tudo por você: te pega no aeroporto, te leva para uma de suas casas para o pernoite, arruma o motorista e carro pra te levar para Rantepao (o pequeno centro urbano perto das comunidades torajanas), reserva hotel e garante o melhor guia do lugar. 

O escultor de tau-taus.
Parece pegadinha, mas depois de mais de cinquenta indicações de gente do mundo todo, resolvemos arriscar. Onde está o milagre eu não sei, mas o preço que ele cobrou não chegou a dois terços do que consegui cotar sozinho. Recomendadíssimo!

Armazéns de arroz tradicionais. 
Partimos rumo à Rantepao para uma viagem de mais de cinco horas, literalmente montanha acima. O vale é bastante bonito e as paradas nos mirantes valem a pena.

Parada obrigatória no caminho para Rantepao.
Chegando à Rantepao conhecemos nosso guia, Enos, que nos deu a programação dos três dias que passaríamos explorando a região. Minha ansiedade era com os funerais e ele logo garantiu que veríamos pelo menos dois. Apesar de um breve introdução sobre alguns aspectos da cultura local logo na chegada, nada nos prepararia para o que estava por vir.

Paramos para ver uma casa tradicional e acabei ganhando modelos mirins que adoraram a brincadeira com a câmera.
Cedinho na manhã seguinte, em um clima nublado e chuviscando, nosso empolgado guia nos deu o aviso: “olha, vocês sabem que durante as cerimônias funerárias existe o sacrifício de búfalos, se vocês não quiserem ver, fiquem longe do centro do funeral”. Dentro do carro a reação foi dividida por gênero: mulheres não queriam ver nada, homens queriam ver tudo.

Tongkanam e o búfalo já sacrificado. Cenas fortes no filme abaixo.

Vamos para nossa parte National Geographic do post. De acordo com nosso guia, boa parte dos torajanos ainda seguem a religião original, o Aluk to Dolo, segundo a qual deus criou o homem, a terra e o búfalo para viver em perfeita harmonia. Em vida o homem deveria cuidar do búfalo para que ambos pudessem trabalhar a terra. Na morte do homem, para recompensá-lo por ter sido bem tratado e alimentado, o búfalo deveria ser sacrificado para levar a alma do homem ao céu.

Cenas de um funeral.
Tendo em vista que o búfalo é um animal bastante caro por aqui e normalmente incorpora em si todo o patrimônio da família, o sacrifício destes animais durante os funerais também passa a ser um símbolo de status e poder. Quanto mais búfalos se sacrifica, mais rica e poderosa é a família. O tipo de búfalo também é importante, sendo o albino sem manchas o mais valioso.

Família chega em procissão em frente ao búfalo sacrificado.

Além do sacrifício dos búfalos, os torajanos constroem em bambu enormes estruturas para abrigar toda a família e comunidade que atende ao funeral. Esse evento, que chega a durar sete dias, oferece abrigo e comida para mais de quinhentas pessoas transformando-se no maior evento da comunidade na vida de um torajano. Em nossa cabeça cartesiana-liberal de ocidentais a pergunta que não calava era: mas quem paga tudo isso?

Vila torajana e estrutura para funeral sendo desmontada.
E é ai é que está uma das peculiaridades  do modo de vida (ou morte?) desse povo. Segundo nosso guia, uma pessoa passa a vida toda juntando dinheiro para poder pagar seu funeral ou de seus pais. Contando que um búfalo normal custa em torno de três mil dólares e que um albino pode chegar a mais de trinta mil, pode-se ter uma ideia do que custa um funeral todo. Detalhe: o número mínimo de sacrifícios considerado aceitável para um funeral digno é de três búfalos. Ouvimos que em determinados funerais chega-se a matar mais de cem animais. Isso sem contar a quantidade de porcos que são sacrificados e assados na mesma hora para alimentar a multidão que acompanha os rituais.

Um porquinho foi ao mercado comprar frutas. Outro porquinho foi à padaria comprar pão. Outro porquinho foi à Toraja... e não voltou!
O sacrifício também tem uma função social importante. Muito raramente o povo tem acesso à carne para compor sua alimentação diária – justamente por ser um item muito caro. É justamente na época dos funerais onde o búfalo morto que toda a carne é distribuída entre as dezenas famílias que atendem à cerimônia, tendo o sacrifício uma função nutricional significativa. 

Distribuição de carne.
Vimos um búfalo inteiro, de pelo menos 300kg ser morto e integralmente re-distribuído em menos de 45 minutos por quatro homens com facas na mão que com uma habilidade impressionante destrinchavam o animal e direcionavam as partes para os convidados. Nosso guia, em nosso segundo funeral, saiu com uma sacola cheia de bucho – sua parte predileta do bicho!

Os profissionais.
Outra questão interessante nisso tudo é que além dos sacrifícios e rituais, os torajanos não consideram o “morto” morto até o dia de seu funeral. Antes disso o “presunto” é visto em estado de doença gravíssima. Ou seja, ele não está morto (mesmo que tenha morrido há vários meses, como acontece na maioria das vezes), mas sim ‘muito doente’. O mais incrível é que o “pacote” continua deitado em sua cama recebendo tratamento de doente: comida, bebida e cigarro!
Um cortejo.
Muitos mortos, muitos taus-taus.
Uma vez que toda a estrutura para o funeral leva tempo para ser construída e a família precisa estar reunida, além de levantar todos os recursos necessários para o evento, muitas vezes levam-se meses e até anos para que o nosso amigo “muito doente” morra de vez. “Mas não fede?” estava na cabeça de todo mundo mas só a Gabi teve coragem de perguntar. Nosso guia fenomenal, em sua paciência torajana nos explicou: “antigamente os curandeiros da comunidade vinham até o quarto dos doentes e ‘levavam o cheiro embora’. Hoje em dia usa-se formol mesmo...”. Sensacional!

Gabi ao lado das meninas da família do morto. Elas tem a função de receber os convidados.
Apesar de toda curiosidade e cultura incrível que estávamos tendo a oportunidade de presenciar, uma das coisas que mais nos chamou atenção nessa experiência toda foi a generosidade das pessoas em compartilhar seus costumes mais íntimos.

Os mais velhos tem a preferência dos melhores lugares para se observar os sacrifícios.
Meninas em trajes tradicionais.
No segundo dia de exploração Enos nos disse que participaríamos de um funeral de uma pessoa da família de sua mulher. Perguntamos se não havia problema e a resposta que ele deu foi: “não se preocupem, vocês são meus convidados”. Passamos em uma venda para comprar dois pacotes de cigarro (o presente ideal para convidados em um funeral), e seguimos para o meio de uma montanha.

As crianças no funeral se divertiram com o fotógrafo barbudo.
Ao redor de um tongkonan, casa de telhado em forma de cabeça de búfalo ou barco – vai da preferencia do freguês – se encontravam umas quatrocentas pessoas e o morto. 

Vila torajana.
Fomos convidados a entrar em um dos camarotes de bambu reservado para a família de nosso guia e junto com outros torajanos sentamos no chão forrado por uma esteira de palha. 

Nosso camarote.
Lá fora, a chuva fina e a matança de búfalos corria solta. Eu ainda fiquei um bom tempo fotografando de perto (meio metro) o sacrifício do búfalo e a reação das pessoas a esse ritual que não é nem um pouco bonito.

O sacrifício.
A reação ao sacrifício.
Ao contrário do dia anterior em que vimos um búfalo brigar por sua vida, esses dóceis animais simplesmente entregam sua vida quase que com gentileza, que ao pouco se esvai pelo sangue que jorra de seu pescoço. Em menos de cinco minutos dois homens munidos de afiadas facas retiram seu couro e passados não mais que vinte minutos, já não há mais búfalo nenhum, somente a poça de sangue. 

20 minutos e já não tem mais nada!
A carne é distribuída entre as famílias convidadas e a cabeça vai decorar a pilha de crânios do tongkonan da família. Em todo o processo há uma relação de respeito entre o homem que é designado para matar o bicho, a posição que ele é colocado no centro da cerimônia, sua cabeça orientada para o norte de maneira a facilitar o caminho do morto ao céu. Respeito de quem dimensiona o privilégio da vida e carrega nas mãos a responsabilidade pela morte.

O funeral na arte torajana.
Participar da cerimônia foi um privilégio sem igual. Ninguém nos cobrou absolutamente nada, éramos mais uma família entre tantas prestando suas homenagens a esse morto que nem conhecíamos. Passamos várias horas entre as pessoas locais numa lógica de compartilhamento. 


A comida chegava sem distinção de quem era local ou estrangeiro e com as mãos compartilhamos todo o alimento engenhosamente alocado em um “prato” feito com papel. Carne de porco (será que conhecemos ele vivo?), enguia, arroz, e vegetais misteriosos. Tudo muito gostoso, mas o melhor de tudo foi, na verdade, saborear aquele momento.


Enos ainda nos levou a vários outros lugares sensacionais. Um oceano de plantações de arroz margeavam as rochas que abrigam os túmulos encravados na pedra. 

Plantação de arroz e um tongkonam ao fundo.
Enormes urnas penduradas nos paredões repletas de ossos e um “Tau-Tau” ou outro (figuras esculpidas em madeira representando o morto) nos observando do alto de sua eternidade.

Uma urna funerária pendurada na rocha.
Túmulos.
Caverna com a ossada de várias gerações "enterradas" ali.

Tana Toraja é um lugar mágico que preserva com orgulho um modo de vida que se torna cada vez mais raro num mundo onde o turismo ‘étnico’ está na moda. 

Tau-taus guardando os mortos na caverna.
A cultura e religião praticadas até hoje desafiam nosso cérebro ocidental: guardar dinheiro para morrer? Uma festa de mais de quinhentas pessoas para a celebração da morte? Sacrifício animal para um morto que morreu há mais de um ano? 

Vila torajana.
É tudo muito fascinante para nossos corações e mentes que se distraem no meio de tantas cores e formas e se perdem entre tantos significados e simbologias novas. 


Mais estranho ainda, aos olhos deles, é como nós perdemos o senso de preservação da família e da comunidade, esse sim o verdadeiro significado de todos esses rituais.  


              

PS: Quem quiser os contatos do Dodo ou do Enos, deixe um comentário abaixo.

12 comentários:

Gambi disse...

Texto delicioso.
Relembrar aqueles momentos foi um presente maravilhoso.

Elizabeth disse...

Já tinha visto um documentário da BBC sobre Tana Toraja mas acho que vocês escreveram muito bem sobre o ritual deles e as fotos completaram o relato. Muito bom. Parabéns.

cantinhodamarla@blogspot.com disse...

Oi Gente voces estao de parabens pela descricao desse local, estou fascinada.

Gostariamuito se voces pudessem me da informacoes de como encontro o Dodo e o Enos.

Poi decidi que quero visitar esse local fascinate!
agradeco.
Abracos e parabens pelo blog!

marlene (nunesmarla@hotmail.com)

glauce tadaiesky disse...

Olá,
Só posso repetir todos os elogios que vcs recebem. O blog é tudo de bom! Parabéns mesmo!
Gostaria do contato dos guias pro tana toraja, por favor.
Glauce

LôGerstner disse...

Gratidão pelo post. estou escrevendo meu TCC sobre a maneira "sem alma" como nós ocidentais encaramos a morte hoje em dia. Ano que vem vou querer visitar Tana Toraja. Se possível agradeceria o contato dos guias. Gratidão! Lonise.

Ivan e Gabi disse...

Pra quem queria os contatos do Enos, nosso guia em Tana Toraja, seguem os dados:

Enos Tandiarang
Jl. Landorundun No. 63 - Rantepao
South Sulawesi - Indonesia
enostoraja@yahoo.com
Tel: 085255725432

Abração

Rodrigo Zanella disse...

EsperandO UmaPizza Em Belém E Lendo O BLog. Sem Palavras. Sensacional

Anônimo disse...

Nossa adorei seu blog, ficarei o mes de julho/2015 em Ubud para fazer cursos mas gostaria muito de ir pra Tana Toraja, por favor me informe os nomes e telefones do contato mencionado e com a cia aerea mais barata pra se chegar la, super obrigada

Priscila Tubio

Guilherme disse...

Olá, acabei de voltar de Toraja e segui suas dicas, inclusive o guia Enos.
Obrigado
Grande abraço
Guilherme

O Grito do Bicho disse...

Sou presidente de uma ONG de proteção animal e estes rituais sempre nos causam revolta.... é uma barbárie.... A sua narrativa foi muito bem feita. Parabéns, pois, nos deu uma dimensão bem interessante.

O Grito do Bicho disse...

Veja a descrição de uma petição que assinamos em 2012:

http://www.youtube.com/watch?v=a_E3k8HN8WU

O vídeo fala por si. Ocorreu na ilha de Sumba em Indonésia Oriental, que tem inúmeras outras tradições religiosas sacrifício igualmente bárbaras e eventos. O sacrifício de animais religiosa ainda não é proibido em toda a Indonésia e muitas diferentes religiões e sistemas de crenças ainda existem onde os participantes acreditam que a violência contra animais fará deuses e espíritos felizes com eles.
Os animais são mortos em uma variedade de formas cruéis e brutais que incluem esfaqueamento -los à morte, lentamente cortando cortes superficiais na garganta, decapitação, sendo dilacerado vivo por multidões frenéticas, tendo sua garganta cortada ea cabeça rasgada lentamente fora, queimando vivo, asfixia, esfola vivo, e remoção dos corações enquanto plenamente consciente. Partes do corpo como pernas são freqüentemente também removido enquanto os animais ainda estão vivos e completamente consciente. Eles são normalmente espancado e maltratado por impacientes "sacerdotes" e ligado de forma dolorosa antes do sacrifício real. Transporte para o sacrifício também é horrível e pode envolver subordinação e suspende animais de grande porte, como bovinos por seus pés a partir do telhado de veículos. Muitos animais são feridos ou morrem durante o transporte. Apesar de este abuso escandaloso e crueldade flagrante o governo indonésio e os fundos subsidia muitos dos sacrifícios e eventos.

Crianças são levados para esses eventos e submetido a cenas terríveis de violência e abuso. Eles são visivelmente assustados e traumatizados com o que vêem. Estar exposto a essa violência em uma idade tão jovem pode causar instabilidade mental e condições patológicas e transtornos.

O sacrifício de animais é abominável, bárbaro, cruel e sem sentido, apelamos ao Governo da Indonésia para proibir todo o sacrifício animal, de todas as espécies de animais e envolvendo todas as crenças e tradições religiosas. É de 2012 e não há lugar no mundo moderno para tal crueldade cruel e sem sentido.

freemind travel disse...

Amei este post, tudo explicado de forma bem simples, mas encantadora. Ando com vontade de arriscar uma visita a este povo e a esta cultura. será que me podiam disponibilizar os contactos dos guias?
Meu email é freemindtravel@gmail.com

Muito grata.
Catarina, de Portugal

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